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O trágico desastre do avião da AirFrance, que nos deixa, a todos, naturalmente muito consternados, chama novamente minha atenção para um fato que já tratei no artigo “A dor da gente não sai no jornal“, de 2007, e nunca deixa de me incomodar.

É impressionante como as notícias de tragédias que afetam as vidas de milhares de pessoas, com perdas irreparáveis, recebem atenção e tratamento absolutamente desigual, dependendo de quem sejam as vítimas.
Nos últimos seis meses o Brasil viveu grandes tragédias. Creio que nunca sofremos tantas fatalidades e tantas catástrofes, com tal intensidade, em tão curto espaço de tempo, como neste último período.
Entretanto, nacionalmente, estas tragédias são acompanhadas e sensibilizam as pessoas de forma muito diferenciada.
No caso da queda do avião, estamos acompanhando uma intensa mobilização, da imprensa, das forças armadas, das igrejas, dos governos do Brasil, França e outros países, e de tantas outras forças da sociedade. E deve ser assim mesmo. São vidas que se foram e vidas que ficam despedaçadas e que precisarão de todo o conforto humano possível.
No caso da tragédia que se abateu sobre Santa Catarina, em novembro passado, também acompanhamos e fomos chamados insistentemente para participar de uma grande mobilização nacional para ajudar os atingidos. A imprensa montou plantões que cobriram permanentemente os locais, o Brasil e o mundo perceberam a chocante dimensão da tragédia.  Na medida da capacidade de cada um, o Brasil inteiro se mobilizou e todos procuraram contribuir.
Entre um triste episódio e outro, tivemos tragédias da mesma dimensão, que se abateram sobre Norte e Nordeste brasileiros, com perdas de centenas de vidas e desestruturação de milhares de famílias e, no entanto, não se observa a mesma intensidade de cobertura, as mesmas consternação e mobilização nacionais.
Norte e Nordeste brasileiros passaram meses debaixo de chuvas torrenciais que destruíram quase tudo o que encontraram pela frente: casas, rodovias, pontes, centenas de vidas. Culminando com a ruptura de uma barragem no Piauí que destruiu a vida de, pelo menos, 500 famílias.
Houve certa cobertura da imprensa, houve alguma mobilização, ainda estão ocorrendo algumas campanhas de arrecadação. Mas, salta aos olhos a diferença de intensidade e de abrangência  do socorro e da solidariedade.
Na queda de um avião que vitimou 228 pessoas, vemos aviões, navios, dias e dias de cobertura 24 horas por parte da imprensa, luto oficial decretado pelo governo, homenagens aos mortos em vários locais, mobilização de vários países, cultos in mermoriam, minutos de silêncio. Repito: deve ser assim mesmo. São vidas que se perderam ou estão em jogo e devem-se fazer de tudo, agilmente, para prestar socorro e tentar salvar e preservar o que for possível. Deveria ser sempre assim.
O que incomoda é observar que esta mesma consternação nacional, e consequente mobilização, não ocorreu com igual intensidade nas tragédias que se abateram sobre o Norte e o Nordeste. Não houve luto oficial, nem minutos de silêncio ou cultos ou grandes consternações. Por que? A dor daquelas pessoas é menor? Suas necessidades são menores? Não merecem todo o nosso apoio? Os brasileiros do Norte e Nordeste não seriam tão brasileiros quanto os brasileiros do sul ou do sudeste? Tragédias sobre o Sul ou Sudeste são mais glamourosas que tragédias sobre o Norte ou Nordeste?
Faço esta reflexão na condição de um catarinense que sentiu uma dor muito forte ao ver sua terra ser invadida pelas águas, morros desabando, vidas se perdendo. E, também, muito se emocionou ao ver a solidariedade do povo brasileiro com Santa Catarina.
Fico me perguntando: porque o Brasil trata tragédias iguais de forma tão desigual?

(um outro mundo é possível)

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