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Sonhos Olímpicos

Author: Delman Ferreira

Fugir das goteiras. Fugir dos fantasmas que os ventos zunem por entre as frestas. Fugir da casinha no fundo do quintal.

Sonhos de Liberdade.

Primeiro fogão a gás. Livres da tarefa de juntar lenha, secar lenha, fazer fogo, chorar com a fumaça. Livres das panelas queimadas. Livres da sujeira.

Contas para pagar e sonhos para sonhar – sonhar com a primeira geladeira.

Primeira geladeira. Nosso próprio gelo. Nossa própria gelatina. Nosso próprio pavê. Nosso próprio orgulho.

Mais contas para pagar. Mais sonhos para sonhar – primeira TV.

Primeira TV. Brigar nossas próprias brigas para ver quem escolhe o canal. Ver TV sem pedir licença. Ver TV sem ser mandado pra casa.

Contas para pagar – sonhos para sonhar – primeiro carro.

Petrônio. Primeiro carro. Um sonho que quase não se ousava sonhar. Só depois de muito tempo. Depois de muito trabalho. Depois dos primeiros filhos.

Novas contas – novos sonhos – ficar livres do aluguel.

Primeira casa própria. Sacrificar o Petrônio. Livre do aluguel.

Mais contas, mais sonhos intangíveis. Carro zero.

Zézé. Primeiro carro zero. Só em 2006.

Cada conquista era um sonho olímpico. Um pódio olímpico. Levitávamos de orgulho. Cada sonho realizado era um degrau na escalada rumo à cidadania. A cada conquista a gente se sentia um pouquinho mais gente. Um pouquinho mais incluído. Um pouquinho mais brasileiro.

Enfim. Emprego de qualidade. Plano de saúde. Casa própria. Filhos formados. Filhos encaminhados. Privilégio de ter uma companheira esplendorosa.  Campeão olímpico. Fiz tudo o que nem ousava sonhar, lá, quando era nada mais que um “guri de bosta”.

‘Cheguei ao ponto final’, pensei. Ledo engano.

Sonhar. Vida que segue.

Quando pensei que tinha chegado ao topo, ao meu topo, eis que me descubro num novo desafio. Como numa espiral, volto ao momento inicial. Uma volta acima.

Um passo acima na escala humana. Voltar a ser um bípede. Não ter carros. Morar numa vila provinciana, como Ipanema, que me permita fazer tudo a pé. Ter casa com fogão a lenha, na qual as goteiras sejam planejadas. Movida a energia solar. Onde o ruído dos ventos encante e embale mais sonhos.

Sonhar. Como diz o magnífico escritor uruguaio, Eduardo Galeano, “Sonhar, o mais importante dos direitos humanos. A mãe de todos os direitos”.

(mai/2010)

“Um outro mundo é possivel”

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Michael Jackson – a trilha sonora de nosso desbunde.

Nunca gostei do tipo de cobertura sensacionalista e cansativa que a imprensa faz de tragédias ou morte de alguma celebridade.  Mas, semana passada, me peguei grudado na TV acompanhando a repercussão da morte de Michael Jackson, principalmente as retrospectivas da carreira.

Fiquei me perguntando porque isso me interessava tanto. E percebi que Michael Jackson me remetia para tempos de reviravolta em minha vida. Tempos de questionamentos, de experimentação, de erros, acertos, descobertas e libertação.

Frenéticas, Rita Lee, Paralamas, Legião Urbana, Elba Ramalho, Zé Ramalho, Gil, Caetano, Geraldo Azevedo, Barão Vermelho, Cazuza, Blitz… e tantos outros, também fizeram a trilha sonora daquele tempo. Mas, confesso que Michael Jackson me fez caminhar nas nuvens.

O mundo teve seu desbunde nas décadas de 60 e 70. Hippies, festivais de paz e amor, 1968, sutiãs queimados, pílula, LSD, mini-saia, Janis Joplin, Jimi Hendrix,… Até quando John Lennon percebeu que “o sonho acabou“. O sonho e o desbunde foram capturados pelo mercado e viraram apenas mercadoria. Nesse período, o Brasil vivia debaixo das botas de uma ditadura obscurantista, truculenta e torturadora. Como todas, era mais uma ditadura que não admitia o sonho. Prendia e torturava quem questionasse as verdades militares e ousasse pensar, se expressar e viver com liberdade. Todas as ditaduras temem o riso e o sonho.

O Brasil só viveu seu desbunde na década de 80. Abrimos nossas asas, soltamos nossas feras e caimos na gandaia – como dizia uma música das Frenéticas. Arriscamos, sonhamos, sofremos, rimos, choramos, conquistamos, inventamos, ficamos engrandalhados… e dançamos – muito – mesmo sem saber dançar. Num thriller com Michael Jackson.

Já era impossível acreditar que ele faria 50 anos. Seria o mesmo que acreditar que Peter Pan algum dia faria 50 anos. Agora me dizem que ele morreu.

Chego a questionar se Michael Jackson existiu mesmo ou seria produto de nossos delírios, fruto de uma viagem, de algum cogumelo. A única certeza que podemos ter é que logo o encontraremos ali no Morro do Baco Baco, na volta de alguma caminhada pela lua, arrepiando no Bar do Tião. Finalmente Livre. Finalmente Eterno.

Foi-se muito cedo. Mas, existirá para sempre. Nas nossas viagens para a Terra do Nunca de cada um. Em nossos passos desajeitados. Em nossas reviravoltas.

Gone too soon – Tributo a Michael Jackson (clique para assistir)

(jul/2009)

(um outro mundo é possível)

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Lá no Brasil

Author: Delman Ferreira

Vantersan agora está sentado na cozinha tomando um cafezinho preto. Levantou-se às quatro e meia. Já tirou leite das vacas. Levou o gado pro pasto. Deu jeito nos outros bichos. Agora está cuidando dele mesmo. Um cafezinho pra reforçar antes de cair na lida outra vez. Tem toda a cerca pra amarrar, tem o pontilhão pra trocar uns paus. Tem muita coisa pra fazer. Nunca acaba de ter muita coisa pra fazer.
A TV está ligada lá na sala. Dá pra escutar a moça falando as notícias. Esse povo só fala de Rio, São Paulo e Brasília. Vantersan acha que eles pensam que só ali é Brasil. Só falam lá do Brasil deles.

“… continua o caos nos aeroportos”…

O café desce devagarinho. Quentinho. Vantersan bebericando. Só espiando Maria Rita. Ela é bem jeitosinha. Mesmo de barrigão, esperando o primeiro filho. Ele quase que não acreditou quando ela disse que casava com ele. Bonita daquele jeito. E, ainda por cima, estudada, tinha chegado até o segundo grau. Mão boa pra cozinha. Pra doce, então, não tem igual.

“… no aeroporto de Congonhas…”…

Ele já decidiu o nome que vai dar pro menino. Maria Rita tem nome chique. A mãe dela deu esse nome por que gostava do Roberto Carlos. Maria Rita Bandeira.
O nome dele, Vantersan, vem de Vantuir, que era o nome do Pai, e de Santinha, que era como todo mundo chamava a Mãe. Juntaram e batizaram Vantersan. O nome verdadeiro da Mãe era “das Dores”, Maria das Dores da Silva. Todo mundo conhecia por Santinha porque desde pequena ela mexia com ervas. Sabia curar tudo que era doença com as ervas que aprendeu com uma avó que era índia. O Pai de Vantersan era Vantuir Pereira da Silva.

“… em Guarulhos, as pessoas nas filas…”…

Mas, o menino não ia ter nome nem de pai, nem de avô. Ia ter nome de jogador de futebol. Pra ele, não tem nenhum igual ao Robinho. O menino vai ser Robinho Pereira da Silva. Não, da Silva é muito comum. Tem que ser um nome pra impressionar.
“… os controladores de vôo…”…

Bandeira. O nome da mulher é chique, Bandeira. Lembra Bandeira do Brasil, lembra Hino Nacional na Copa do Mundo. É isso, vai ser Bandeira, Robinho Bandeira.

“… disse que amanhã o problema estará sendo analisado”…

Não, não pode ser só Robinho Bandeira, ainda é muito pequeno. O menino vai ser importante. Gente importante tem nome maior. Precisa ser um nome forte, assim como trovão.

“… a CPI do Apagão Aéreo…”…

O Robinho era do Santos, do Pelé. Não tem ninguém melhor que eles. Do Santos, é isso. O menino vai se chamar Robinho dos Santos Bandeira. Agora sim, impressiona. Bandeira do Santos. Parece até destino.

“… um cafezinho no aeroporto está muito mais caro que no centro da cidade”…
Falou pra Maria Rita. Vai se chamar Robinho dos Santos Bandeira. Ela gostou por que tinha o nome dela. Mas, disse que Robinho não era nome, era apelido. O nome certo é Robinson. Maria Rita estudou muito mais que ele. Sabe das coisas.
“… todo o Brasil quer saber quando vai se resolver o caos aéreo”…

Ele gostou mais ainda. Fica mais chique. Assim, quando o menino ficar famoso e for jogar nos estrangeiro, aí a TV vai falar da gente. O menino já tem nome pra moça da TV encher a boca: Robinson dos Santos Bandeira.

(ago/2007)

“Um outro mundo é possivel”

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Brasília/Floripa – DE MOTO

Author: Delman Ferreira

“quem vai ao mar,
se avia em terra”
(antigo dito português)

Aventura? Loucura? Muita coragem?
Nem uma coisa, nem outra, apenas o prazer de estar em deslocamento.
O prazer de uma longa meditação dinâmica.
Pensamento à toa – a pensar em nada.
A dor e a delícia de estar em crescimento.
Ao retornar, o viajante que chega nunca é o mesmo que partiu.

Viajar o Brasil por terra é conhecer um impressionante caleidoscópio de tipos humanos, paisagens, cores e climas – além de transitar por realidades muito variadas de organização urbana, desde regiões cuja infra-estrutura é de primeira linha até regiões onde as possibilidades de vida são sempre sub-humanas.
As condições das estradas dizem muito do padrão de vida que se oferece às comunidades que lhes são vizinhas.
Planejar.
Este é o principal ensinamento dos navegadores portugueses.
Quem sai para uma longa viagem, não pode chegar no meio do caminho e descobrir que esqueceu ou deixou de lado algo que, de uma hora para outra, pode se mostrar de extrema importância.
Planejar é fundamental para que um esquecimento qualquer não transforme tudo numa tragédia. É muito importante pensar alguns detalhes antecipadamente.
Seguindo este ensinamento, compramos um CD-ROM do Guia Quatro Rodas. Com ele é possível preparar um preciso plano de viagem, com mapa de todo o roteiro, locais de abastecimento, restaurantes, hotéis/pousadas, passeios turísticos etc. Também conversamos com amigos experientes, compramos revistas e acessamos sites com relatos de viagens semelhantes na internet – desta forma foi possível saber o que é mais importante levar na bagagem, como roupas para o frio, medicamentos de primeiros socorros, canivete multifunções e coisas para a moto como ferramentas, cabo para chupeta, spray para encher pneus, chave reserva.
Nossa nave: uma moto APRILIA – PEGASO 650.
Saímos de Brasília numa terça-feira, 8:30h, temperatura 18°, através de uma rodovia que atravessa o setor de mansões – pista dupla, bem sinalizada, asfalto bem conservado, emoldurada por uma bela fileira de árvores.
Seguindo a experiência de quem já havia feito outras viagens, decidimos fazer uma parada a cada hora de estrada ou, aproximadamente, a cada 100 Km. Tomar café, fazer alongamentos, relaxar e abastecer a moto – um ritual sagrado. Também decidimos que não almoçaríamos para evitar a sonolência pós-almoço. Levamos algumas barrinhas de energéticos e uns Gatorade.
Com este “plano de vôo”, saindo antes das 9h da manhã, seria possível cobrir uns 700 km antes do por do sol, assim evitaríamos viajar à noite.
Uns trinta quilômetros depois, alcançamos Valparaíso e chegamos até Luziânia. Continua a pista dupla – o que pressupõe uma via de tráfego intenso – mas as condições mudam radicalmente.
Nos vinte quilômetros que separam Valparaíso de Luziânia, fica-se com a assustadora impressão de que cada indivíduo faz as próprias leis, de acordo com a conveniência do momento. Pessoas e animais cruzam a via a qualquer tempo. Carros saem das laterais e entram na via rápida cortando veículos que venham em maior velocidade. Um sujeito estica o braço pela janela de um carro e faz um sinal de positivo com o dedo – de acordo com a lei que acabou de criar, entende que isto lhe dá o direito de mudar de faixa bruscamente cruzando na frente dos outros sem se preocupar com o estrago que pode fazer. Outros saem “costurando” e ultrapassando nas lombadas.
Trata-se de verdadeira “terra sem leis”.
De Luziânia à Cristalina, seguimos por um trecho horroroso da BR-040. Estreita, esburacada e com trânsito intenso e neurótico de caminhões e carros pequenos.
Em Cristalina, fizemos a primeira parada – depois de 120 km de um percurso bastante tenso – numa “Pamonharia” que oferece todo o tipo de produtos extraídos do milho: pamonha, curau, suco de milho, galinha com polenta etc. Foi lá o nosso café da manhã.
Planejamos viajar numa velocidade máxima por volta dos 120 Km/h, respeitando o que o estado da estrada permitisse, sem correr nenhum risco, sem ultrapassagens duvidosas e sem “curvas com o pedal arrastando no asfalto”.
Ainda em Cristalina, tomamos a BR-050 em direção a São Paulo. Seguindo a programação, fomos fazendo paradas, relaxando, alongando e comendo nosso “lanchinho”. Clima maravilhoso, céu azul, temperaturas variando entre 18° – 27° – 18°.
A BR-050, no trecho que atravessa Goiás, é o pedaço mais bonito dessa primeira etapa da viagem. Cruza uma deslumbrante paisagem. O Cerrado nos oferece a visão de montanhas e chapadões belíssimos. Vai-se cruzando fazendas que bordam a paisagem com variadas cores e desenhos pontilhados de gado pastando ou de casinhas singelas e solitárias.  Nos chapadões, há a predominância das plantações de soja e de algodão, esta um verdadeiro mar branco.
Apesar de não ser duplicada, e também ter um tráfego intenso, a estrada está em bom estado e tem curvas bem desenhadas mesmo nos longos trechos de subida ou descida – isto possibilita uma pilotagem tranqüila e permite “desligar”, apreciar a paisagem e meditar.
Parece que os transeuntes que trafegam por este trajeto são bastante divertidos, pois existe um número impressionante de “boates” pela beira de quase toda a rodovia, do tipo que antigamente era conhecido como as “casas da luz vermelha”.
Quando a BR-050 entra em Minas Gerais o quadro muda completamente. Na medida em que nos aproximamos de Araguari/Uberlândia/Uberaba, o trânsito vai ficando cada vez mais intenso e nervoso. A estrada está muito mal conservada e vai se tornando cada vez pior. Exige muita atenção de pilotagem – a viagem torna-se tensa e cansativa.
Uma imagem sempre chocante são os acidentes que se encontra. Ao longo da viagem, em momentos diversos, passamos por três caminhões virados.
Depois de uns 550 Km de viagem, cruzamos a ponte sobre o Rio Grande, fronteira entre Minas Gerais e São Paulo.
Mudamos de País ???!!! Adentramos por outro mundo???!!!
Muda a paisagem, muda a tonalidade do verde, muda todo o entorno.
Entramos na Rodovia Anhangüera.
FARRA !!! A VIAGEM VIROU PURA FARRA !!!
Pra quem vem de um trecho sob tensão, entrar na Anhangüera é entrar em um paraíso rodoviário.
Mesmo um intransigente combatente das privatizações sente-se obrigado a admitir que, neste caso, a concessão trouxe benefícios inquestionáveis. Podemos levantar suspeitas sobre a lisura dos processos ou questionar os contratos e o valor dos pedágios, mas é inegável que ali se alcançou um padrão elevado de construção e conservação de rodovias, além de socorro e assistência imediatos – um padrão que se deseja para todo o Brasil.
Depois de encontrar e ser obrigados a utilizar alguns banheiros que não passavam de latrinas, na Anhangüera , “visitar” os banheiros quase chega a ser um prazer à parte, tamanha a qualidade do ambiente. Sem falar dos cafés expresso e das empadinhas de palmito com palmito.
Aqueles que viajam de moto, além das tensões normais, carregam um estressante fantasma adicional que é o medo de “levar uma vaca”, ou seja, o medo de que de uma hora para outra surja um buraco na pista do qual não se consiga desviar. Esta surpresinha, a mais de 100 Km/h, pode significar um tombaço nada agradável. Na Anhangüera – pura farra – o asfalto é um carpete, sem ondulações, sem buracos – certeza de que não encontraremos sobressaltos desagradáveis. Rodovia dupla. Duas e, eventualmente, três pistas de cada lado. Área de escape segura. Visão ampla para todos os lados. Permite antecipar e tomar decisões com toda a tranqüilidade. É PAZ NA ESTRADA.
Nesta etapa, a preocupação passa a ser a de não ultrapassar o limite de velocidade planejado. O cérebro da gente tem um comportamento interessante: vai se adaptando gradativamente à velocidade. No início da viagem, quando chegávamos aos 100 Km/h, logo vinha a sensação de estar em excesso. Depois, com o passar do tempo, este limite foi se ampliando de tal forma que 110 ou 120 Km/h passam a ser velocidades confortáveis, nas quais se viaja sem tensão. Ao entrar na Anhangüera, o cérebro torna-se muito mais tolerante e, sem perceber, vamos elevando o limite da velocidade confortável. Se não cuidamos, logo estamos viajando acima dos 140 Km/h sem sentir. Há que tomar cuidado para manter os 120 Km/h e continuar a viajar “viajando”.
Setecentos e trinta quilômetros depois, chegamos à Ribeirão Preto por volta de 17:30h, dentro do planejado. Foram 9 horas que se passaram quase sem percebermos. Em viagem de moto o tempo não se conta em minutos, conta-se em quilômetros percorridos, em paisagens curtidas, em etapas vencidas.
Estando em Ribeirão Preto, é de lei tomar alguns chopes no Pingüim, uma das choperias mais tradicionais do Brasil. Além de cumprir um ritual, os chopes têm a função de fazer baixar o nível de adrenalina e permitir um bom relaxamento e uma boa noite de sono.
Quarta-feira – saímos cedo. Céu azul, temperatura por volta dos 17°. Depois dos primeiros 100 Km, entramos numa cidade chamada Porto Ferreira.
Na praça central, em frente à matriz, encontramos um figuraço que viaja o Brasil num veículo que se assemelha a uma bicicleta. Originalmente deve ter sido uma bicicleta, atualmente é uma espécie de penteadeira sobre duas rodas que carrega todo tipo de bugigangas e lembranças. Desde simples broches, passando por uma enorme coleção de relógios de todos os tipos – pulso, despertadores, até um pequeno cuco – bandeiras e flâmulas, porta bagagem com algumas roupas e tralhas como panelas, talheres e um pequeno fogareiro, lixeiro e até uma gaiola com um passarinho vivo – coisas que a necessidade, o acaso e a curiosidade foram amontoando. O condutor é um personagem saído de outros tempos, alguma coisa meio hippie, idade indefinível, que anda pelo mundo pregando a paz e vivendo do que as pessoas dão ou da venda de algum trabalho manual – artesanato preparado com material doado. Não nos disse o nome, apenas se apresenta como um viajante a favor da paz.
Seguimos viagem pela Anhangüera até a Bandeirantes. A farra continua. Pela Bandeirantes até o Rodoanel.
O Rodoanel é outra obra fundamental. Graças a ele, não precisamos entrar na cidade de São Paulo. São 28 quilômetros que contornam a cidade e nos jogam diretamente na saída pela Régis Bittencourt.
Até o momento, viajamos por uma região de São Paulo que impressiona pela elevada qualidade de vida, que se reflete na qualidade das pistas (Anhangüera, Bandeirantes e Rodoanel).
Ao sair do Rodoanel e entrar na Regis Bittencourt, tem-se um choque de realidade. Muda novamente o entorno. A paisagem torna-se agressivamente feia. A qualidade da rodovia cai sensivelmente. Atravessamos uma região pobre de Osasco. O contraste é gritante e assustador.
Mal entramos na Régis, começou a chover. Como o trecho está em obras, havia barro espalhado na pista. Os caminhões passavam e nos cobriam com um spray de lama. As viseiras dos capacetes foram ficando enlameadas e sem nenhuma visão. Seguimos atrás de um caminhão até o primeiro posto de gasolina. Paramos e esperamos a chuva passar. Logo o tempo abriu e apareceu um sol meio tímido.
Seguimos viagem, com tempo bom, até Miracatu. Paramos e cumprimos nosso rito – alongamentos, relaxamento, lanche, abastecimento. Faltavam 280 quilômetros. Era, mais ou menos, duas horas da tarde. Temperatura amena, coisa de uns 20°.
Neste momento cometemos o maior erro da viagem – um erro de cálculo que tornou dramático o último trecho desta segunda etapa.
Faltavam 280 quilômetros e eram duas horas da tarde. Como estávamos conseguindo fazer uma média de uns 100 quilômetros a cada hora, calculamos que, com uma única parada, mesmo que a média caísse para uns 80 quilômetros para cada hora, seria possível terminar a segunda etapa até 17:30h, ou seja, antes do por do sol.
Ledo e grave engano.
Seguimos viagem. Céu meio nublado, dia claro, sol no céu brincando de esconder por trás das nuvens. Passamos por Registro e iniciamos a descida da Serra. Deste ponto até São José dos Pinhais, nosso objetivo desta etapa, seriam uns 200 quilômetros.
Na Serra não existem postos de gasolina e, muito menos, pousadas ou pontos de repouso – é apenas asfalto, montanha de um lado e montanha ou precipício de outro. Não existe onde parar, depois que se inicia a descida, o jeito é ir até o final. Os caminhões descendo a Serra, devido à inércia, não têm condições de frear repentinamente, assim, não se pode ficar parado à beira do caminho contando com a sorte, há que seguir em frente.
Iniciamos nossa descida e o tempo foi fechando. Quando estávamos a meio caminho a natureza virou-se contra nós.
Como o sol se põe atrás dos morros, escureceu cedo e a noite caiu rapidamente. Começou a chover e, para compor definitivamente um quadro trágico, a temperatura caiu drasticamente.
Naquela noite os termômetros marcaram 7 graus em Curitiba. Como na Serra é mais frio, na Moto a sensação térmica ficava bem abaixo de zero.
Mesmo com todo o planejamento, sempre ocorrem os imprevistos: não tínhamos roupas para enfrentar um frio daquela magnitude. Fomos ficando encharcados e congelados.
Não havia como parar e não fazia sentido pensar em voltar. Havíamos ultrapassado o que os navegadores chamam “point of no return”. O jeito era seguir em frente, contra o vento, contra a chuva, contra o frio e contra o negrume da noite.
Não se conseguia enxergar nada. As viseiras dos capacetes estavam cobertas de gotículas que confundiam a visão completamente. Os caminhões que passavam nos enchiam de lama e deixavam um rastro de spray que tornava o quadro ainda mais caótico. A velocidade média caiu abaixo dos 50 ou 40 Km/h, com trechos ainda mais vagarosos.
Mas, mesmo no caos é possível viabilizar algumas alternativas.
Com o farol da moto era possível iluminar a faixa branca pintada à direita da pista. Nos agarramos nessa faixa como guia e esperança de salvação.
Os caminhões e carros pequenos passavam muito rápidos – não dava coragem para segui-los. Até que um caminhão salvador passou por nós a uns 60 Km/h. Fomos buscar um resto de coragem e seguimos aquele caminhão. Mantendo uma distância que nos livrava do spray, mas que permitia nos guiarmos pela iluminação traseira. Passamos a ter dois guias: a faixa lateral e a iluminação do caminhão. Não enxergávamos mais nada. Qualquer alteração na pista (buracos ou saliências) poderia ser fatal.
Quando faltavam uns 80 Km, paramos no único posto de gasolina que apareceu. Um posto de aspecto muito pouco hospitaleiro. Abastecemos a moto, tomamos um conhaque (São João da Barra !!!) e decidimos seguir. Eram 7 horas da noite. Faltavam apenas 80 quilômetros.
Novamente contra o vento, contra a chuva, contra o frio e contra o negrume da noite. A partir deste momento, achegou-se a nós um novo companheiro de viagem: o Pânico. Não era um medinho qualquer, não se sentia apenas frio ou dores ou desconforto – ESTÁVAMOS EM PÂNICO !!!
Levamos duas horas para cobrir aqueles últimos 80 quilômetros. Durante estas duas intermináveis horas, a cada segundo, a sensação era de que no próximo segundo iria acontecer uma tragédia. Andamos cada milímetro destes 80 imensuráveis e intermináveis quilômetros tendo a certeza de que o próximo milímetro nos esperava com uma armadilha fatal. Nem Alfred Hitchcock, nas suas obras primas, foi capaz de imaginar suspense tão angustiante. O maior desejo, naquela situação, era sermos abduzidos e levados para qualquer outro planeta.
Mas, mesmo as mais angustiantes duas horas ou os oitenta mais longos quilômetros da vida um dia terminam. Estes, também terminaram.
E terminaram em São José dos Pinhais, na casa da Aline e do Edson, que junto com a Ana, a Deni, o Lucas e o Vitor, nos agasalharam com muito carinho, um banho quente, o melhor jantar do mundo e cobertores, muitos cobertores.
Quinta-feira – continuamos em São José dos Pinhais.
Sexta-feira – seguimos para Matinhos, no litoral do Paraná, pela BR-277.
Em Matinhos, fomos recebidos pela Dirciney, João, Alice, João Gustavo e Joana, que também se desdobraram para nos oferecer a melhor acolhida possível, com moqueca de robalo e cavala grelhada inesquecíveis. E um bobó de camarão de baiano babar!!!!
Domingo – seguimos para Floripa. Pela BR-101, também duplicada e bem conservada no trecho norte de Santa Catarina.
Domingo. 1970 Km: finalmente Floripa.
Alguns dias à toa, na companhia da família e de amigos especiais.
Floripa é um privilegiado pedaço de terra que é Brasil, mas fica ali do ladinho do Brasil. O Brasilzão fica do outro lado da ponte.
Floripa é a terra dos manezinhos, com seu ritmo próprio e seu jeito especial de ser, falar, ver e viver a vida. Um tipo especial de gente que sabe que se não der pra fazer hoje, o sol vai continuar a nascer amanhã e depois e depois, daí a gente vê como é que fica…
Dia dos Pais. Bruno, 7 anos, registrou o Dia dos Pais com uma “Caixa de Idéias” – que ele mesmo construiu na maior felicidade. Um doce registro de infância.
Volta – 1750 Km.
A realidade nos espera com hora marcada.
A volta foi tranqüila e sem grandes incidentes – por estradas e paisagens que, apesar de serem as mesmas, sempre oferecem novas tonalidades e permitem novos olhares.
Em conversa com um amigo que mora em Floripa, fomos provocados a fazer uma viagem, de moto, até a Patagônia ou até os Andes, no Chile.
… quem sabe…
… vai depender de aviamentos muito precisos…e preciosos…

(inverno/2004)

“Um outro mundo é possivel”

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