set
7
2010
Jacas e azeitonas
Author: Delman FerreiraJacas e azeitonas nascem em árvores. São frutos. São verdes. São comestíveis. Muito apreciadas por uns e insuportáveis para outros. Servem para conservas e diversos outros usos.
Aqueles que se satisfazem com análises da profundidade de um pires, baseadas em planilhas de computador, sem nenhuma pesquisa de campo, poderiam sustentar a tese de que jacas e azeitonas se assemelham, seriam quase a mesma coisa. Entretanto, quando se aprofunda um pouco mais a análise, é possível perceber diferenças. Os analistas de pires, ainda sustentarão que são apenas sutis diferenças.
Mais de 50 milhões de pessoas vivendo muito melhor. Mais de 14 milhões de empregos gerados com a segurança da carteira assinada. Mais de 12 milhões de pessoas com acesso à energia elétrica. Mais de 500.000 alunos carentes nas universidades. Mais de 250 novas escolas técnicas, principalmente em cidades do interior. Interiorização das universidades públicas. Créditos acessíveis. Multiplicação de investimentos em agricultura familiar. Multiplicação de investimentos em infraestrutura. Soberania e Auto-determinação. Respeito internacional.
Sutis diferenças. Que, talvez, passem despercebidas ou indiferentes para os analistas de pires. Afinal não passam de números, apenas números. Coisas de pobres, sem maior importância.
Números podem ser manipulados. Ou, mesmo quando exprimem a realidade, podem ser apenas reflexo de uma conjuntura mundial favorável. Podem apenas ser fruto de um momento virtuoso, um golpe de sorte.
Seria interessante aprofundar um pouco mais a análise. Um pouco abaixo da linha do pires. (Observação: os analistas de pires devem utilizar equipamentos especiais, nem todos estão preparados para esportes radicias).
Metas e planejamentos. (Nem todos suportam emoções tão fortes). Erradicar a miséria até 2014. Universalização da banda larga até 2014. Consolidar o Brasil como protagonista internacional. Atualmente, temos metas e planejamento. Mas, nem sempre foi assim.
Quando Ministro de Planejamento, José Serra desmontou todos os órgãos de planejamento do Estado brasileiro. GCPS e GCOI (setor elétrico), GEIPOT (transportes), CPqD (telecomunicações) e outros. Todos foram desmontados. A Petrobrás foi impedida de investir e de participar dos leilões de exploração de nossas reservas. Os resultados do desmonte não tardaram. Mais de sete meses de racionamento de energia elétrica e debilidades em todos os setores. O Brasil quase perde o controle e o poder de explorar o pré-sal.
Não se pode afirmar que o ex-Ministro do Planejamento não tinha métodos e metas. Pelo contrário, o desmonte do planejamento foi devidamente planejado e tinha objetivos muito bem traçados. Houve método: demissões em massa dos trabalhadores, com a consequente perda da memória técnica, e asfixia das empresas estatais por meio de tarifas insuficientes para a manutenção e expansão dos serviços. Houve objetivos: apropriação e privatização dos recursos naturais e dos serviços públicos por empresas estrangeiras.
Havia coerência ideológica na ação de desmonte. Era a ideologia do ‘Estado Mínimo’ (e lucro máximo). Sem planejamento estatal, os interesses do Estado passavam a se confundir com os interesses privados. BNDES e os bancos oficiais foram proibidos, pela legislação do Programa Nacional de Desestatização, de financiar empresas estatais e criaram inúmeras dificuldades que, na prática, impediam o financiamento de empresas nacionais. Por outro lado, foram criadas inúmeras facilidades para o financiamento de empresas estrangeiras, como mecanismo para atração do capital internacional.
Sem planejamento, o Brasil ficava à mercê do planejamento das empresas privadas. Sem competitividade nas empresas nacionais, e com as facilidades para o capital internacional, o Brasil, monitorado por FMI, Banco Mundial e outros, ficava à mercê do jogo do mercado internacional.
Recursos para as áreas sociais eram classificados como ‘despesas’. O governo não podia elevar suas despesas. A indústria nacional tinha capacidade para atender apenas as demandas de 30% da população. De acordo com a doutrina econômica vigente, para não elevar a inflação, o governo não podia elevar suas despesas e não cabiam 100% dos brasileiros no mercado de consumo. Assim, para o pires das planilhas, no Brasil não cabiam todos os brasileiros. Fatalmente, muitos eram excluídos. O Brasil era um país voltado para 30% de sua população. A exclusão social era um mecanismo de controle da inflação e do processo de desenvolvimento.
Eram tempos emocionantes. Para estômagos fortes. Vivíamos numa montanha russa permanente. Cada solavanco na conjuntura internacional, entravámos em depressão profunda. Um breve momento de subida e, nova depressão profunda. O poço parecia não ter fundo. Breve subida para tomar fôlego e nova depressão profunda. Fortes emoções. Não se sabia o que viria a seguir. Não era possível prever o que nos esperava na próxima estação. Há que admitir que não dava para reclamar de monotonia.
As coisas mudaram. Viraram uma chatice. Encerraram as atividades da montanha russa. O Brasil faz planos.
O planejamento energético foi recuperado. Não se fala mais em apagões. O Brasil recuperou o controle do pré-sal. A Petrobrás voltou a ser um grande player nacional e internacional. A Telebrás foi recuperada e, até 2014, 100% dos brasileiros poderão ter acesso à internet banda larga. O planejamento dos transportes volta a ser determinado pelo Estado. Recuperamos a soberania e o poder de auto-determinação.
E, last but not least, para arrepio dos “doutores” das leis econômicas, a doutrina foi subvertida. Recursos sociais deixaram de ser vistos como ‘despesa’ e passaram a ser classificados como ‘investimentos sociais’. O desenvolvimento passou a ter todos os brasileiros como meta. Criaram-se mecanismos de distribuição dos ganhos do crescimento econômico. E, mesmo contra todas as previsões dos “doutores”, o Brasil cresce em ritmo acelerado, a inflação está sob controle, deixamos de sucumbir aos solavancos da economia mundial.
Sem dúvida, a diferença mais extraordinária entre os projetos está na inclusão social. Deixamos de ser um país de planilhas da profundidade de um pires e passamos a conhecer o Brasil profundo, o Brasil interior, o Brasil das periferias. O governo compreendeu que tem o dever de perseguir o objetivo de atender às necessidades de 100% dos brasileiros. Finalmente, o Estado brasileiro rompeu o Tratado de Tordesilhas, e percebeu que tem um gigantesco potencial interior. A inclusão social passou a ser o principal mecanismo de crescimento e desenvolvimento. Mas, isto são apenas coisas de pobres.
Enfim, neste início de século XXI, finalmente, temos razões ainda mais fortes para comemorar a Independência. Somos capazes de determinar nossos próprios destinos, sem ingerências, sem tutela, sem monitoramentos.
Milhões de pessoas estão vivendo muito melhor. Chegam a sonhar e ousam fazer planos. Quanta monotonia, sonhos e planos chegam a se realizar. Afloram emoções humanas. Entretanto, para os analistas de pires, baseados em suas planilhas, as diferenças entre as jacas e as azeitonas são apenas sutis e despercebidas. Coisas de pobres.
(07/setembro/2010)
“Um outro mundo é possivel”