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A ordem das coisas

Author: Delman Ferreira

“Democracia é dar a todos o mesmo ponto de partida.
Quanto ao ponto de chegada, depende de cada um.”

Mário Quintana

Era uma prova organizada pela Confederação. Para selecionar meninos e meninas com bom potencial. Quem ganhasse teria Bolsa de Estudos, técnico e treinamento especial. Em 2016, os melhores seriam os representantes nas Olimpíadas.

Desde pequeno, Zé gostava de correr e apostar corrida. Fosse o que fosse: contra outros meninos, contra bicicletas, principalmente contra o Tyson. Tyson era um cão quase todo preto, uma cruza clandestina de pastor com vira-lata. Zé vivia jogando corrida contra Tyson na subida do Morro. Por isso, logo recebeu o apelido de Zé Cachorro. Seu nome é José Ferreira da Silva.

Tinha só doze anos e foi chamado pra participar da seletiva da Confederação. Virou o orgulho do Morro do Baco Baco. Naquele domingo, todos estavam lá torcendo pelo Zé Cachorro. Ele já tinha passado por várias eliminatórias e vencera todas. Só faltava a Final.

Quando o Juiz de Prova mandou “Aos seus lugares”, Belizário achou muito estranho porque os meninos não ficaram todos na mesma linha. Ferreirinha ficou lá na linha de partida, mas, outros meninos se colocaram muito à frente. Uns na altura dos 20 metros, outros lá pelos 30m, outros ainda mais à frente.

Democracia Liberal

Belizário protestou. “Isto não está certo”, gritou o mais alto que conseguiu. Mas, ninguém ouvia, ou faziam que não entendiam. Somente o pessoal do Morro, que também estava muito indignado. Quando os protestos ficaram mais fortes, foram ameaçados. Caso não se comportassem, seriam expulsos pela polícia.

Belizário foi questionar a organização(?). Queria saber por que não saiam todos na mesma linha de largada?

- “Temos que respeitar as Regras”, responderam.

- Como assim, que ‘regras’ são essas? Belizário quis saber.

- “São as Regras. É a ordem natural das coisas. Quem vem de família de campeões, ou se é um filho de recordista, ganha mais chances na largada. Aquele menino, por exemplo, o Avô foi recordista e o Pai foi recordista, por isso ele sai 40 metros na frente.”.

- E os outros, também são filhos de recordistas?

- “Não, aqueles são filhos, ou afilhados, de senhores que, apesar de não serem de famílias tradicionais, são importantes. Por isso, também ganham destaque.”.

- Ainda não entendi uma coisa. Se a corrida é para todos. Se é para destacar o melhor, quem pode contribuir mais e ser mais importante para o Brasil no futuro, porque não dão as mesmas chances e largam todos na mesma linha?

- “Nós estamos dando oportunidades para todos. Estão todos na mesma prova. Vai vencer quem for melhor. Os que saem adiantados não precisam provar nada. Todos sabem que eles são bons. Estão ali apenas para contribuir e estimular os outros.  Assim, os que saem atrás vão se espelhar neles e tentar fazer mais e melhor. É um verdadeiro altruísmo.”.

- Mas, se uns saem na frente dos outros, não vai vencer o melhor, vai vencer quem saiu na frente.

- “Nem sempre. Algumas vezes, estes que saem na frente não sabem aproveitar a oportunidade e ficam para trás. Já houve caso de alguém vindo de trás que conseguiu vencer.”.

­- Deixa ver se entendi. As ‘regras’ garantem privilégios de uns contra os outros. Um menino do Morro só vai conseguir alguma coisa quando um daqueles que sai na frente deixar. Se ninguém deixar, a ‘seleção’ brasileira vai ser sempre a mesma?

- “O senhor está sendo radical. Se um menino do Morro for bom, alguém pode se interessar por ele e oferecer outra oportunidade. Daí ele vai poder provar que é bom mesmo”.

- Sei. Pelas ‘regras’, os lugares já estão todos marcados, assegurados pra quem tem ‘tradição’ ou tem ‘poder de pressão’. Para um menino do Morro, só resta pegar as sobras ou vender-se para quem se interessar.

- “São as ‘Regras’. É a ordem natural das coisas. Se o senhor não está satisfeito, tente mudar as regras. E, por favor, não importune, temos mais o que fazer. Ou vou ter que chamar a polícia para fazer o senhor entender as ‘Regras’”.

- Sei. Isso lá no Morro tem outro nome. Chamamos Democracia Liberal.

(fevereiro/2010)

“um outro mundo é possível”

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um eterno aprendiz (o avô fresco)

Author: Delman Ferreira
“Qual é a sensação?”,
“O que é que mudou?”,
“E aí Véio ?”,
“E agora?”.

Ficam me perguntando. E eu não sei o que dizer.

Com um sorriso tímido, só sei dizer: Não sei!

Fico pensando sozinho: e agora? Qual é a sensação? O que é que mudou?

 Só sei que o papel de avô é deseducar.

Aos pais cabe ser chatos. Impor regras. Definir Limites. Dar castigos. Proibir tudo o que é gostoso. Fazer ameaças. Obrigar a comer verduras. Fazer se comportar. Fazer estudar. Não deixar brincar com os amigos. Ao pais cabe fazer a vida quadradinha.

Aos avós cabe o sabor da vida. Levar pra tomar banho de chuva. Fazer boneco de lama. Roubar frutas do vizinho. Se lambuzar de bala e sorvete. Ensinar palavrão. Pular a janela para brincar com os amigos. Matar aula pra jogar… Aos avós cabe a deliciosa alegria de viver. Ensinar a transgredir. Romper os limites. Não se dobrar. Não se submeter. Não se render. Nossa parte é o colorido e a rebeldia (o sal e a pimenta da vida).

Os pais dão os limites e os Avós alçam o imponderável.
Fazendo assim, Lucas, esta figurinha prematura de 2,5kg e 47cm, vai ser uma pessoinha equilibrada.

Só sei que quando alguém me encontrar rolando pelo chão, vai pensar que é apenas mais um avô brincando com o neto. Mal saberá que quem estará verdadeiramente se divertindo serei eu. O que sei é que esse guri vai me ensinar muita coisa, e eu vou cantar como Gonzaguinha:


 
Viver!
E não ter a vergonha
De ser feliz
Cantar e cantar e cantar
A beleza de ser
Um eterno aprendiz…

 
 
(escrito por Delman, em maio/1995, recém entrado nos enta, pleno vigor dos 40 anos, quando prematuramente nasceu o prematuro Lucas, o primeiro neto. – transcrito por:  Lucas, o neto – em jan/2010 - aos 14 anos).
 
(maio/1995)

“um outro mundo é possível”

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