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Hipócrates tinha razão (II)

Author: Delman Ferreira

Uma amiga chamou minha atenção que, no último texto deixei a impressão, generalizante, de que os médicos ou seriam uns exagerados ou iriam contra os pacientes.

Quero registrar que não foi esta a minha intenção. Pelo contrário, considero perfeitamente compreensível que os médicos fiquem muito preocupados quando alguém diz que vai se cuidar por meio de mudanças nos hábitos alimentares. Afinal, é da responsabilidade deles garantir a saúde dos pacientes. E o mais comum é que as pessoas se proponham a cuidar da alimentação, mas desistam rapidamente diante das primeiras dificuldades. E, quando isso acontece, os males se agravam e os médicos são responsabilizados. É natural que ouçam propósitos de mudança de hábitos com desconfianças e reservas.

A generalização de críticas, infalivelmente, nos leva a cometer o erro de injustiçar àqueles que procuram orientar seu trabalho por princípios e valores que respeitam e dignificam a humanidade.

Por outro lado, tenho implicância contra certos profissionais, ou indústria, mais preocupados com os negócios do que com a saúde. Considero um crime (inclusive por parte de quem permite) fazer propaganda e marketing de remédios ou cirurgias ‘milagrosas’ nos meios de comunicação de massa. Jogam irresponsavelmente com a desinformação, a insegurança e a ansiedade de pessoas debilitadas e/ou carentes.

Fala-se muito em ética na propaganda, autoregulação etc. Mas, o grande desafio é fazer o trabalho de conscientização. Como já disse, na minha opinião, a educação alimentar deveria iniciar na infância e ser parte do curriculo básico obrigatório, em todas as escolas, públicas e privadas, em todo o território nacional, desde o Ensino Fundamental até a Graduação. A saúde pública brasileira, certamente, seria muito menos congestionada e caótica.

Portanto, se deixei a impressão de estar desmerecendo médicos, pesquisadores, ou outros profissionais da saúde, que se pautam pela ética e fazem medicina com seriedade, quero me desculpar e deixar muito claro que tenho o maior respeito por quem respeita as pessoas e faz da profissão (em qualquer área) uma militância e um caminho para melhorar a qualidade de vida e os padrões de nossa civilização.

(um outro mundo é possível)

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(Para Laura, Meg e Maria)

(“…que tua comida seja teu remédio…”, Hipócrates (~460-370 aC), o Pai da Medicina.)

Emagreci 5 quilos em 30 dias. Sem cirurgia, sem remédios, sem milagres, sem trabalhos forçados. E deixei pelo caminho um barrigão que não me pertencia e mais alguns outros futuros probleminhas.

Tudo graças à sabedoria e orientações da Meg, nossa querida amiga nutricionista. Ao esmero da Maria, que se preocupou em descobrir e fazer novas receitinhas deliciosas e saudáveis. Ao fundamental apoio e à carinhosa cobrança e monitoramento da Laura.

Em meados de abril, como preparação para a cirurgia no Tendão de Aquiles, tive que fazer uma série de exames pré-operatórios. Os resultados foram demolidores para minha autoestima. Meus indicadores de saúde estavam em níveis alarmantes. Açucar, triglicerídeos, colesterol, creatina (eu nem sabia que tinha isso!!!), ácido úrico, pressão arterial – tudo estava muito acima do ideal, já apontando para sérios problemas futuros.

Pelo cardiologista, eu passaria a tomar uma infinidade de baguinhas coloridinhas (pra mim, que detesto remédios, seria o fim – decadência – depressão total). Baguinha contra açucar. Baguinha contra colesterol. Baguinha contra ácido. Baguinha contra isso e aquilo. Contra, sempre contra.

Parecia tudo contra mim – me rebelei. Decidi ser contra os do contra. Ao invés de tomar infinitas medidinhas do contra, resolvi tomar uma decisão a favor: ouvir Hipócrates – fazer da minha comida o meu remédio. Contei com a desconfiada concordância do cardiologista. Creio que ele não acreditava que eu seria capaz de fazer uma mudança profunda em meus hábitos alimentares.

D. Sofia diz que Hipócrates deve ser um meio contra-parente distante do Belisário.

No final de abril, consultei a Meg, que analisou os exames e me passou muitas orientações. Sábias orientações.

A primeira impressão que se tem, na conversa com um(a) nutricionista, é que vamos ter que escolher entre tres alternativas: morrer de colesterol, ficar eternamente dependentes de baguinhas coloridinhas, ou morrer de desgosto. Trágico.

Deve ser uma tática nutricionista: primeiro fazem terrorismo, pra depois nos mostrar que existe vida pós vida. Ou melhor, que também é possível existir muito prazer no comer direito. Re-educação alimentar – essa é a grande sacada de Hipócrates.

Não se trata de seguir dietas da moda ou regimes da lua, do sol, do arco-iris, disso e daquilo. Trata-se de saber o que estamos comendo. Comer consciente. Comer com a cabeça, ao invés de comer com os olhos teleguiados pelo marketing da indústria de comida que depois vai nos fazer escravos do marketing da indústria de remédios (aquelas malditas baguinhas coloridinhas do contra).

Não tem fórmula mágica e não tem genérico. Cada um é cada um. Cada um deve conversar com um(a) nutricionista e descobrir o seu cada qual. Mas, penso que dois ou tres mandamentos servem para todos:

- Regra Básica: JAMAIS FICAR COM FOME. Deve-se comer sempre na hora certa (mais ou menos de tres em tres horas) – por outro lado, deve-se terminantemente evitar comidinhas entre um momento e outro.

- Regra dois: saber os efeitos do que se come (grãos, frutas, verduras, legumes, fibras, leite, sucos etc) e aprender a ler os rótulos e a composição dos alimentos. Saber o que está comendo, porque está comendo, quando está comendo, como está comendo.

- Regra tres: comer devagar. Que o momento da comida seja sempre um momento de prazer – de preferência na companhia de outras pessoas.

No início é chato, muito chato – depois vai se tornando cada vez mais prazeroso. Penso que estas lições deveriam fazer parte do currículo obrigatório das escolas desde o Ensino Fundamental até a Universidade. Com certeza evitaríamos a obesidade e tantas doenças que matam tantas pessoas, sobrecarregam os hospitais e custam tanto à saúde pública. Mudar, desde crianças, valores e hábitos alimentares que só se prestam para  enriquecer a indústria da comida de má qualidade e das baguinhas do contra.

Ontem tive a confirmação de que Hipócrates tinha razão: depois de novos exames, o cardiologista elogiou muito meus novos indicadores, que ainda não chegaram no nível ideal, mas estão muito melhores e mais animadores do que há coisa de um mês. Sem baguinhas coloridinhas do contra, sem milagres, sem mágica. Por enquanto, estou tomando a baguinha da pressão, uma baguinha branca – parece que ainda não se sabe como controlar a pressão apenas mudando a alimentação – espero que descubram logo.

Salve a rebeldia contra os do contra e, principalmente, Salve minha(s) nutricionista(s), as grandes responsáveis por todo o sucesso – Laura, Maria e Meg.

(jun/2009)

(um outro mundo é possível)

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