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“O menino Tolo”

Author: Delman Ferreira

Repetidamente, os demotucanos citam os dois maiores feitos de seus governos: a Lei de Responsabilidade Fiscal e as privatizações. A privatização da telefonia é apresentada, ad nausem, como o grande sucesso do governo demotucano.

Com relação à Lei da Responsabilidade Fiscal, podemos olhar por dois lados, à gosto de quem faz a avaliação: 1.) por um lado poderia ser considerada positiva, ao estabelecer limites para o endividamento de estados e municípios; 2.) por outro, destaca-se a crueldade que denuncia a verdadeira intenção dos demotucanos: a LRF impõe limites para gastos sociais ou de infraestrutura e não impõe nenhum limite para o pagamento de dívidas. Os interesses de bancos e banqueiros ficaram devidamente preservados.

A grande maioria dos estados e municípios vivem sempre no limite de suas contas. Assim, em função da LRF, prefeitos e governadores ficam impedidos de desenvolver políticas públicas que visem garantir melhor qualidade de vida. E ficam de mãos amarradas quando ocorrem calamidades, como as tragédias das chuvas cada vez mais frequentes.

O objetivo principal da LRF é garantir o pagamento de dívidas. Considerando que existem limites para gastos sociais e não existem limites para o pagamento de dívidas, mesmo quando ocorrem tragédias, o governante será obrigado a manter as dívidas em dia, em detrimento de ações para salvar vidas e resgatar a dignidade das pessoas.

Com relação às privatizações do setor de telefonia temos aí a análise de um grão-tucano, fundador do PSDB, que dispensa comentários. Segundo o intelectual tucano: tolo foi quem privatizou.

Com a palavra os demotucanos…

O menino tolo

Só um tolo entrega a empresas estrangeiras serviços públicos, como são a telefonia fixa e a móvel, que garantem a seus proprietários uma renda permanente e segura.

LUIZ CARLOS BRESSER-PEREIRA. Folha de SP.Mundo. 18/7/2010 (http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mundo/ft1807201007.htm)


JOÃO É DONO de um jogo de armar. Dois meninos mais velhos e mais espertos, Gonçalo e Manuel, persuadem João a trocar o seu belo jogo por um pirulito.

Feita a troca, e comido o pirulito, João fica olhando Gonçalo e Manoel, primeiro, se divertirem com o jogo de armar, e, depois, montarem uma briga para ver quem fica o único dono. Alguma semelhança entre essa estoriazinha e a realidade?

Não é preciso muita imaginação para descobrir. João é o Brasil que abriu a telefonia fixa e a celular para estrangeiros. Gonçalo é a Espanha e sua Telefônica, Manuel é Portugal e a Portugal Telecom; os dois se engalfinham diante da oferta “irrecusável” da Telefônica para assumir o controle da Vivo, hoje partilhado por ela com os portugueses.

Mas por que eu estou chamando o Brasil de menino bobo? Porque só um tolo entrega a empresas estrangeiras serviços públicos, como são a telefonia fixa e a móvel, que garantem a seus proprietários uma renda permanente e segura.

No caso da telefonia fixa, a privatização é inaceitável porque se trata de monopólio natural. No caso da telefonia móvel, há alguma competição, de forma que a privatização é bem-vinda, mas nunca para estrangeiros.

Estou, portanto, pensando em termos do “condenável” nacionalismo econômico cuja melhor justificação está no interesse que foi demonstrado pelos governos da Espanha e de Portugal.

O governo espanhol, nos anos 90, aproveitou a hegemonia neoliberal da época para subsidiar de várias maneiras suas empresas a comprarem os serviços públicos que estavam então sendo privatizados. Foram bem-sucedidos nessa tarefa.

Neste caso, foram os espanhóis os nacionalistas, enquanto os latino-americanos, inclusive os brasileiros, foram os colonialistas, ou os tolos.

Agora, quando a espanhola Telefônica faz uma oferta pelas ações da Vivo de propriedade da Portugal Telecom, o governo português entra no jogo e proíbe a transação.

A União Europeia já considerou ilegal essa atitude, mas o que importa aqui é que, neste caso, os nacionalistas são os portugueses que sabem como um serviço público é uma pepineira, e não querem que seu país a perca.

O menino tolo é o Brasil, que vê o nacionalismo econômico dos portugueses e dos espanhóis e, neste caso, nada tem a fazer senão honrar os contratos que assinou.

Vamos um dia ficar espertos novamente? Creio que sim. Nestes últimos anos, o governo brasileiro começou a reaprender, e está tratando de dar apoio a suas empresas.

Para horror dos liberais locais, está ajudando a criar campeões nacionais. Ou seja, está fazendo exatamente a mesma coisa que fazem os países ricos, que, apesar de seu propalado liberalismo, também não têm dúvida em defender suas empresas nacionais.

Se o setor econômico da empresa é altamente competitivo, não há razão para uma política dessa natureza. Quando, porém, o mercado é controlado por poucas empresas, ou, no caso dos serviços públicos, quando é monopolista ou quase monopolista, não faz sentido para um país pagar ao outro uma renda permanente ao fazer concessões públicas a empresas estrangeiras.

A briga entre espanhóis e portugueses pela Vivo é uma confirmação do que estou afirmando.

jul/2010)

“Um outro mundo é possivel”

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Anexo 1: O DESMONTE DO PLANEJAMENTO E O APAGÃO DE 2001

Apagão(para ampliar, clique na imagem)

O Apagão de 2001 não se deu por falta de chuvas. Deu-se por falta de planejamento.

Os destinos de um país, qualquer país, estão intimamente ligados ao planejamento e à soberania energética. Um país sem segurança energética e sem segurança alimentar é um pais vulnerável.

Na década de 1990, o Brasil quase sucumbiu vítima de um neoliberalismo tardio que visava transferir o controle de nossos recursos naturais para o setor privado.

Abertura da economia sem critérios. Privatizações. Asfixia das empresas brasileiras pela negativa de acesso a financiamentos. Bancos estatais brasileiros financiando empresas estrangeiras concorrentes das brasileiras impedidas de pegar financiamento. Transferência do controle operacional para privados minoritários. Impedimento de participação em concorrências. E, supremo requinte: desmonte dos órgãos de planejamento. Foram alguns dos mecanismos aplicados para saquear nossos recursos naturais.

Por fim, para coroar o plano, empresas que eram estatais em seus países de origem foram financiadas pelo governo brasileiro para que se instalassem no Brasil e controlassem nossas empresas. Eram estatais lá e atuavam como privadas aqui.

Sem capacidade de planejamento e sem empresas estatais. O Brasil era uma nau sem rumo e sem defesas, num mar infestado de piratas (ou seriam ‘privatas’).

Somente ingênuos (ingênuos?) poderiam acreditar que o melhor para o Brasil seria subordinar seu destino ao jogo de interesses de empresas cuja finalidade é garantir o maior lucro no menor tempo possível para seus acionistas e controladores.

O Apagão de 2001 não ocorreu por falta de chuvas, como demonstrou a comissão governamental criada, em julho de 2001, para analisar a crise. Esta conclusão pode ser constatada no Relatório da Comissão de Análise do Sistema Hidrotérmico de Energia Elétrica (julho de 2001). O apagão de 2001 deu-se por falta de planejamento.

O Brasil tinha um acervo precioso contendo séries históricas das vazões dos principais rios que abasteciam o sistema elétrico. Um histórico acumulado desde a década de 1930. Estas séries permitiam antever, com mais de 3 anos de antecedência, como se comportariam os rios nos anos seguintes. As séries avisaram que os anos de 2000 e 2001 seriam anos de seca. O governo desprezou este conhecimento.

Em 1998, o Plano Decenal da Eletrobras (portanto, um documento oficial, emitido por órgão do próprio governo) já alertava que o ano 2000 poderia ser crítico em relação ao risco de déficit. Técnicos e especialistas procuraram e alertaram o governo. O Presidente Fernando Henrique Cardoso chegou a receber um grupo de técnicos e foi alertado sobre o problema. Novamente, o aviso foi desprezado.

O governo foi avisado a tempo. Um governo sério, voltado para os interesses brasileiros, teria preparado o sistema para enfrentar estes períodos críticos. Entretanto, o governo da época nada fez. Não estava preparado.

Não estava preparado porque apostou que a iniciativa privada se encarregaria de criar as salvaguardas. O governo lançou um programas de usinas térmicas, chamado PPT, Programa Prioritário de Termelétricas. Acreditou que a iniciativa privada iria acorrer e implantar todo o programa, espontaneamente. Isso não ocorrreu. Não houve interesse da iniciativa privada. O governo ficou sem alternativas e sem saber o que fazer.

Deu no que deu.

Até meados da década de 1990, o setor elétrico tinha dois órgãos de planejamento estratégico. GCOI, Grupo Coordenador da Operação do Sistema Interligado; e GCPS, Grupo Coordenador do Planejamento da Expansão do Sistema Elétrico. Grupos de planejamento e coordenação que trabalhavam alinhados. Utilizando os indicadores da operação, vis a vis com os indicadores de crescimento da população e da economia, a expansão do sistema era planejada de forma a antecipar os acontecimentos.

A partir de 1995, tudo isso foi desmontado e os trabalhadores destes setores foram compulsoriamente afastados – demitidos ou aposentados prematuramente.

Sem planejamento, o País ficou dependendo dos céus. Das chuvas. Qualquer pescador, qualquer agricultor, por mais iletrado que sejam, por menos diplomas que tenham – todos sabem que existem ciclos de chuvas. Há anos de muita chuva e anos de pouca chuva.  Há ciclos de muita chuva e ciclos de pouca chuva. Todos sabem. Todos, menos os governos neoliberais.

O sistema elétrico era muito bem estruturado. Permitia que se cometessem muitas barbeiragens e dava tempo para corrigir. Mas, não suportou cinco anos de barbeiragens. Deu no que deu.

Desmontaram os órgãos de inteligência. Quando vieram condições adversas, o País estava desarmado. Faltou inteligência. Não tinha como enfrentar.

Foi assim quando faltaram as chuvas. Foi assim diante das crises econômicas. Vítima do desmonte do Estado, vítima da ideologia do ‘estado mínimo’, o Brasil tornou-se vulnerável. Uma nau à deriva, entregue à sanha dos piratas (ou seriam ‘os privatas’).

Deu no que deu.

(mai/2010)

“Um outro mundo é possivel”

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“Se bico contasse, tucano seria rei”

(para-choque de caminhão)

Interessantes, os tucanos.

Podem ocorrer em quase todo o território nacional. Tem olhos azuis. Tem o peito sempre estufado e olhar distante. Não são muito bons de voo. Avançam aos pulitos, de galho em galho. O voo é curto e desajeitado. Fazem muito alarido e ouvem muito mal. Não dispensam insetos e podem ser predadores dos ninhos de outras aves devorando os filhotes. São animais inquietos, que vivem em bandos e se movem o tempo inteiro, gritam, chiam e pulam de galho em galho. Por enquanto, não estão no rol das espécies ameaçadas de extinção.

O bico, grande e oco, equivale à um terço de todo o corpo. A parte superior é constituída por trabéculas de sustentação e a parte inferior é de natureza óssea. Não é um bico forte, já que é muito comprido e a alavanca não é suficiente para conferir tal qualidade.

Boquirrotos, os tucanos.

Vivem em permanente equilíbrio instável  entre bico e cérebro. Frequentemente falam muito mais do que recomendaria um cérebro razoável.

Adoram apropriar-se dos feitos dos outros. Tem muito pouco a apresentar de seu. Fazem grande alarido e, no meio da confusão, tentam fazer crer que são seus os sucessos alheios.

O Plano Real foi lançado no Governo Itamar Franco. O Brasil vinha de longa sequencia de planos fracassados. Não existia clima para mais uma tentativa. O Real foi possível graças à credibilidade do ex-Presidente. Tucanos mal se equilibravam pelos muros. Em abril de 1994, Fernando Henrique dava traço nas pesquisas para as eleiçoes de outubro daquele ano. Surfaram no Plano Real e FH conseguiu eleger-se no primeiro turno. Os tucanos sairam para os holofotes graças ao Plano Real, criado por Itamar Franco. Hoje, tentam apropriar-se e  insistem em fazer crer que foram os únicos criadores do Real. Criatura querendo passar por criador.

A grande obra dos tucanos, com perdas irreparáveis para o Brasil, foi a privatização de patrimônio público. Venderam o que não lhes pertencia.

Segundo sua própria avaliação, o setor de telefonia é o grande exemplo de sucesso das privatizações.  Assim como quem não quer nada, querem fazer crer que o desenvolvimento das telecomunicações só ocorreu porque houve as privatizações.

É fato que o número de celulares cresceu exponencialmente. É fato que, hoje, um percentual significativo da população (próximo dos 75%) tem desses aparelhinhos. Muito bom, quando visto pela ótica dos fabricantes de celulares. Muito bom para as empresas de telecomunicação.  Entretanto, o serviço de telefonia é o campeão de reclamações em todos os PROCON, desde que este instituto foi criado. Pela ótica dos usuários, é um dos piores serviços públicos brasileiros.

Dado que a privatização foi muito boa para as empresas, mas o serviço é de péssima  péssima qualidade. Dado que os tucanos apresentam a telefonia como o grande sucesso das privatizações. Podemos concluir que, na ótica tucana, o importante são os negócios feitos em nome do serviço público. A qualidade dos serviços prestados à população pouco importa.

Outro grande marco da administração tucana foi o apagão elétrico de 2001. Sobre este momento, eles falam muito pouco.

É longo o bico tucano. Longo, frágil e de pernas curtas.

Cansativos, esses tucanos.

(jun/2009)

(um outro mundo é possível)

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