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Bolsas e suas grifes

Author: Delman Ferreira

Recebo, com freqüência, emails críticos aos programas sociais do governo Lula. Em geral, ignoro e apago. Hoje, só pra provocar, mandei um desses emails pro Belizário, lá no Observatório do Morro do Baco Baco, na Esplanada do Século XXI.

Ele não perdeu tempo, bateu de primeira, de sem-pulo, sem deixar quicar. Imediatamente me mandou outro email com suas perguntinhas pontiagudas:

Gostaria  de saber dos críticos em geral se já pararam para fazer a seguinte comparação: para o Estado Brasileiro, quanto custam as  bolsas pobres e quanto custam as bolsas ricas? Ou, em outros termos, quanto custam os programas sociais que visam garantir vida digna para todos os brasileiros e quanto custam as isenções de impostos e os incentivos que visam garantir pujança à nossa economia?

Os emails sempre fazem referências pejorativas aos programas sociais, classificados como bolsa-esmola, bolsa-vagabundo, bolsa-favela etc.,… São sempre considerações negativas. Deixam explícita sua ideologia: transferir renda e garantir oportunidades para as camadas mais pobres da população é crime de lesa-pátria.

Usando esse mesmo raciocínio simplório-ideológico, gostaria de saber: transferir renda para as camadas mais ricas da população não seria lesa-pátria? Dar incentivos para quem se enquadra entre os maiores e mais competitivos do mundo não seria lesa-pátria? Como devemos classificar certas isenções de impostos e alguns incentivos existentes na economia?

A Vale é a maior empresa privada brasileira e a segunda maior mineradora do mundo. Explora nossos minérios e exporta tudo o que tira de nosso chão. Entretanto, praticamente não nos paga impostos graças aos ‘incentivos’ dispostos em lei. Pergunta: a Vale precisa de incentivos? Quanto isso custa ao Estado Brasileiro?

O Brasil é o maior produtor agrícola do mundo. O maior exportador de carnes, soja, açúcar. Um dos maiores exportadores de café e outros produtos. O agronegócio quase não paga impostos e, ano após ano, consegue perdão das dívidas, graças a programas e leis de ‘incentivo’. Pergunta: Quanto isso custa ao Estado Brasileiro?

Igrejas, não pagam impostos. Empresas de Comunicação (também conhecidas como mídia), quase não pagam impostos. Bancos, quase não pagam impostos. Pergunta: Quanto isso custa ao Estado Brasileiro?

Qual a primeira providência das empresas, nacionais ou multinacionais como as montadoras de carros, quando fazem planos para novas instalações? Resposta: pressionar e chantagear municípios e estados para conseguir isenção de impostos, construção de infraestrutura e outros ‘incentivos’. Pergunta: Quanto isso custa ao Estado Brasileiro?

Programas sociais são mecanismos de transferência de renda que tem se mostrado eficazes para diminuir a vergonhosa distância entre ricos e pobres no Brasil. Já beneficiaram mais de 30 milhões de pessoas que elevaram seu padrão de vida.

Há desvios nos programas sociais? Encontramos casos de aproveitadores na aplicação destes programas? É óbvio que há desvios.

Por causa destes desvios, devemos acabar com os programas sociais? Devemos continuar como os campeões mundiais de concentração de riquezas?

Programas de incentivos à economia são fundamentais para o desenvolvimento do Brasil e para a elevação de nosso padrão de vida.

Entretanto, quanto dos incentivos são efetivamente utilizados para elevar a produtividade e competitividade da economia brasileira? Quanto destes recursos são desviados para fins nem sempre nobres? Há desvios? É óbvio que há desvios.

Adotando o mesmo raciocínio simplório-ideológico dos que usam exemplos isolados para criticar e pregar o fim dos programas sociais, deveríamos usar os exemplos de mau uso das ‘bolsas ricas’ para pregar que o governo acabe com todos os incentivos à economia? Ou devemos considerar, cordatamente, que os programas de incentivo à economia servem apenas como formas disfarçadas de transferência de mais riqueza para os mais ricos?

Pra agradar esse pessoal dos emails, vamos combinar o seguinte: só os proprietários de bolsas de grife poderão ter benefícios do Estado Brasileiro.

Por fim, Belizário manda dizer que toda essa história de bolsa pra cá e bolsa pra lá, fez lembrar de um camelô que vendia:

Malas, malinhas e maletas

- Bolsas, bolsinhas e… sandálias havaianas…

(mar/2010)

“Um outro mundo é possivel”

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a beleza de uma lágrima

Author: Delman Ferreira

Severino é um desses milhões de brasileiros e brasileiras esculpidos em terra esturricada … pelo sol inclemente … na chuva… no vento… no dia-a dia desesperançoso.


Jamais extravasara a menor expressão ou deixara perceber um mínimo vestígio que permitisse identificar qualquer um de seus sentimentos. Homem de extrema economia de palavras, desses que se dirige espontaneamente apenas aos seus animais. Que nunca possibilitara qualquer expansão mais animada aos filhos ou à mulher.


O que viveu naquele dia, porém, foi incontrolável e inesquecível.


Quando entrou em casa com a televisão usada que conseguira em troca de uns trabalhinhos na casa de um primo da cidade. Quando ligou a TV e apareceram as primeiras imagens. Quando viu nos olhos dos filhos e da mulher uma felicidade nunca estampada. Quando recebeu o apertado abraço de bracinhos tornados incontroláveis pela alegria…. Severino não resistiu – por seu rosto curtido rolaram indisfarçáveis lágrimas. Peito estufado – orgulho incontido – alegria sem limites.


Ele não tinha acreditado nada, nada, quando viu a propaganda do Governo que dizia que iam botar luz de graça na casa dos pobres. Mas, pra surpresa de Severino e de todos os outros que, como ele, também não acreditaram e não esperavam mais nada além das durezas da vida, de repente apareceram uns operários e começaram a colocar postes e a instalar ‘luz’ na casa das pessoas.


Agora, tava ali a TV ligada mostrando uns desenhos que o filho adorava ver na casa dos primos da cidade. Os meninos iluminados de felizes. O pequeno pendurado no pescoço, num abraço apertado como ele nunca mais lembrava de ter recebido. A mulher, toda faladeira, andando de um lado pra outro sem saber o que fazer ou onde guardar tanta alegria – naquele dia ela certamente ia “se fazer bonita como há muito tempo não ousava ousar”.


Agora, ele que quase não falava com ninguém porque não queria ouvir mais reclamação e que morria de vergonha de não poder dar uma vida melhor pra mulher e pros meninos, ele estava ali, explodindo de orgulho porque tinha podido trazer muita alegria pra dentro de casa.


E aquela lágrima que insistia em correr pelo cantinho do olho… O que é que faz um homem numa hora dessas?…

(ago/2005)

“Um outro mundo é possivel”

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