mar
25
2010
Bolsas e suas grifes
Author: Delman FerreiraRecebo, com freqüência, emails críticos aos programas sociais do governo Lula. Em geral, ignoro e apago. Hoje, só pra provocar, mandei um desses emails pro Belizário, lá no Observatório do Morro do Baco Baco, na Esplanada do Século XXI.
Ele não perdeu tempo, bateu de primeira, de sem-pulo, sem deixar quicar. Imediatamente me mandou outro email com suas perguntinhas pontiagudas:
Gostaria de saber dos críticos em geral se já pararam para fazer a seguinte comparação: para o Estado Brasileiro, quanto custam as bolsas pobres e quanto custam as bolsas ricas? Ou, em outros termos, quanto custam os programas sociais que visam garantir vida digna para todos os brasileiros e quanto custam as isenções de impostos e os incentivos que visam garantir pujança à nossa economia?
Os emails sempre fazem referências pejorativas aos programas sociais, classificados como bolsa-esmola, bolsa-vagabundo, bolsa-favela etc.,… São sempre considerações negativas. Deixam explícita sua ideologia: transferir renda e garantir oportunidades para as camadas mais pobres da população é crime de lesa-pátria.
Usando esse mesmo raciocínio simplório-ideológico, gostaria de saber: transferir renda para as camadas mais ricas da população não seria lesa-pátria? Dar incentivos para quem se enquadra entre os maiores e mais competitivos do mundo não seria lesa-pátria? Como devemos classificar certas isenções de impostos e alguns incentivos existentes na economia?
A Vale é a maior empresa privada brasileira e a segunda maior mineradora do mundo. Explora nossos minérios e exporta tudo o que tira de nosso chão. Entretanto, praticamente não nos paga impostos graças aos ‘incentivos’ dispostos em lei. Pergunta: a Vale precisa de incentivos? Quanto isso custa ao Estado Brasileiro?
O Brasil é o maior produtor agrícola do mundo. O maior exportador de carnes, soja, açúcar. Um dos maiores exportadores de café e outros produtos. O agronegócio quase não paga impostos e, ano após ano, consegue perdão das dívidas, graças a programas e leis de ‘incentivo’. Pergunta: Quanto isso custa ao Estado Brasileiro?
Igrejas, não pagam impostos. Empresas de Comunicação (também conhecidas como mídia), quase não pagam impostos. Bancos, quase não pagam impostos. Pergunta: Quanto isso custa ao Estado Brasileiro?
Qual a primeira providência das empresas, nacionais ou multinacionais como as montadoras de carros, quando fazem planos para novas instalações? Resposta: pressionar e chantagear municípios e estados para conseguir isenção de impostos, construção de infraestrutura e outros ‘incentivos’. Pergunta: Quanto isso custa ao Estado Brasileiro?
Programas sociais são mecanismos de transferência de renda que tem se mostrado eficazes para diminuir a vergonhosa distância entre ricos e pobres no Brasil. Já beneficiaram mais de 30 milhões de pessoas que elevaram seu padrão de vida.
Há desvios nos programas sociais? Encontramos casos de aproveitadores na aplicação destes programas? É óbvio que há desvios.
Por causa destes desvios, devemos acabar com os programas sociais? Devemos continuar como os campeões mundiais de concentração de riquezas?
Programas de incentivos à economia são fundamentais para o desenvolvimento do Brasil e para a elevação de nosso padrão de vida.
Entretanto, quanto dos incentivos são efetivamente utilizados para elevar a produtividade e competitividade da economia brasileira? Quanto destes recursos são desviados para fins nem sempre nobres? Há desvios? É óbvio que há desvios.
Adotando o mesmo raciocínio simplório-ideológico dos que usam exemplos isolados para criticar e pregar o fim dos programas sociais, deveríamos usar os exemplos de mau uso das ‘bolsas ricas’ para pregar que o governo acabe com todos os incentivos à economia? Ou devemos considerar, cordatamente, que os programas de incentivo à economia servem apenas como formas disfarçadas de transferência de mais riqueza para os mais ricos?
Pra agradar esse pessoal dos emails, vamos combinar o seguinte: só os proprietários de bolsas de grife poderão ter benefícios do Estado Brasileiro.
Por fim, Belizário manda dizer que toda essa história de bolsa pra cá e bolsa pra lá, fez lembrar de um camelô que vendia:
– Malas, malinhas e maletas
- Bolsas, bolsinhas e… sandálias havaianas…
(mar/2010)
“Um outro mundo é possivel”