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Diálogos elevados

Author: Delman Ferreira

O elevador chegou vazio. Entraram Belisário e um anão já de meia idade. No próximo andar, entram uma Mãe e uma menina de uns quatro/cinco anos. Cumprimentam-se e seguem todos em silêncio. A menina não tirava os olhos do anão.

 De repente a menina chama:

_ Mãe.

A Mãe faz que não ouve.

_ Mãããeee…

_ …

 A Mãe apertou suavemente a mão da menina. Falou do lanche que iam fazer. Tentava distraí-la. Conhecendo a filha, preferia mantê-la calada.

 Mas, para terror da Mãe, a menina não se conteve. Apontando para o anão, fulminou:

_ Mãe, porque ele é criança e tem cara de velho?

 A Mãe não sabia onde se enfiar. Nem olhava pro lado do anão. O tempo tinha estacionado. O elevador jamais chegaria no térreo para que ela pudesse sair correndo daquela situação.

 Ainda pensava como sair dessa, quando o anão retrucou na mesma tranqüilidade da menina:

_ Porque você é menina e faz pergunta de adulto?

 Belisário apenas decorou a cena.

(jul/2009)

(um outro mundo é possível)

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Instigante. Assustador. Delicioso.

Author: Delman Ferreira


às crianças, basta estarem calçadas,
o que querem mesmo é brincar com as caixas dos sapatos,
são os pais que fazem questão de ostentar filhos com tênis de grife

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Lua cheia. Céu sem nuvem. Morros emoldurando, recortando contra o negrume da noite. Lua Feiticeira. Pessoas deslumbradas.

De repente aquela figurinha solta uma perguntinha desequilibrante:
Como é que a Lua fica presa no Céu e não cai?
… (faço de conta que nem ouvi – tempo pra respirar e pensar uma saída)…
Hein, Paiê? Hein???
…bom, eles pegam uma fita crepe, colam na Lua e colam a Lua no céu, assim igual a gente cola fotografia na parede…… (ufa!!!)
Pronto, satisfeita a curiosidade. A astronautazinha já nem lembra mais da pergunta. Sai voando atrás de alguma outra descoberta, outro sonho ou outro feitiço, e… novas dúvidas.
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Primeira bicicleta. O presente sonhado – chorado – chantageado – ansiosamente esperado.
Bicicleta: novas descobertas, novos limites, novos tombos e novos sustos – físicos e intelectuais.
Como é que eles fazem as bicicletas?

hein, Paiêê? Como é que eles fazem uma bicicleta?
… bom, eles pegam um cano, vão dobrando e juntam com outro cano que também vão dobrando. Depois pegam duas rodas e botam os canos em cima. Daí colocam um banco e um lugar pra pessoa se segurar. Pronto.
Nem bem acabou a resposta e o surfistazinho já estava longe, satisfeito, vacilante, orgulhoso por andar na bicicleta sem rodinhas.
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Festa Junina. Fogueira. Buscapé. Algodão doce. Pipoca. Pinhão. Batata doce. Melado. Foguetes. Fogos coloridos e… perguntas.
… como é que fazem os foguetes?
Hummm…. Olha só que foguete mais lindo, cheio de estrelinhas…
… como é que o foguete chega nas estrelas?

Hein? Como é que eles fazem o foguete?
…bom, eles pegam um pouco de fogo da fogueira e colocam dentro de um canudo. Daí, depois o canudo explode e o fogo sai bem forte lá pra cima, até o céu.
Ele fura o céu?
Não, não fura o céu porque o céu encolhe a barriga. Olha lá que chuva de estrelas legal.
A chuva de estrelas distrai a cidadãzinha… e, certamente, enche a cabecinha de novas perguntinhas desconcertantes.
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Compenetrado, ele presta atenção na Meri que o ajuda a montar um quebra-cabeças que é um Mapa do Brasil. O quebra-cabeças é composto por peças com o formato de cada Estado e os nomes das capitais.
Aqui fica Florianópolis. É aqui que fica a nossa casa. Florianópolis é a capital de Santa Catarina.
Aqui fica Curitiba. Curitiba é a capital do Paraná.
Aqui é São Paulo. São Paulo é capital de um lugar que também se chama São Paulo. São Paulo é capital de São Paulo.
E ele calado, colocando cada peça, na maior atenção.
Belo Horizonte, capital de Minas Gerais.
Goiânia é capital de Goiás.
Aqui é Brasília. Brasília é a capital de todo o Brasil.
Aqui é Palmas …
… antes que a Mãe completasse, com a carinha mais sacana do mundo, ele mais que depressa pergunta: É a capital do Parabéns?
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É complexo, mas é simples.
Desequilibra porque é inesperado.
Não é ensinado nos livros – não há modelitos e gabaritos.
Perturba porque não pode ficar sem resposta.
Há que correr o risco de errar – criar respostas próprias, e satisfatórias, para cada nova situação.
Exige agilidade, descomplicação e criatividade.
Estar com os pés no mundo real e a mente num mundo sem limites.
Compreender as infinitas realidades. Respeitar tempos e prioridades.

Há que valorizar o novo mundo que se cria.

criar é instigante
é assustador… mas, …é delicioso…

“Um outro mundo é possivel”

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