mai
5
2010
Sonhos Olímpicos
Author: Delman FerreiraFugir das goteiras. Fugir dos fantasmas que os ventos zunem por entre as frestas. Fugir da casinha no fundo do quintal.
Sonhos de Liberdade.
Primeiro fogão a gás. Livres da tarefa de juntar lenha, secar lenha, fazer fogo, chorar com a fumaça. Livres das panelas queimadas. Livres da sujeira.
Contas para pagar e sonhos para sonhar – sonhar com a primeira geladeira.
Primeira geladeira. Nosso próprio gelo. Nossa própria gelatina. Nosso próprio pavê. Nosso próprio orgulho.
Mais contas para pagar. Mais sonhos para sonhar – primeira TV.
Primeira TV. Brigar nossas próprias brigas para ver quem escolhe o canal. Ver TV sem pedir licença. Ver TV sem ser mandado pra casa.
Contas para pagar – sonhos para sonhar – primeiro carro.
Petrônio. Primeiro carro. Um sonho que quase não se ousava sonhar. Só depois de muito tempo. Depois de muito trabalho. Depois dos primeiros filhos.
Novas contas – novos sonhos – ficar livres do aluguel.
Primeira casa própria. Sacrificar o Petrônio. Livre do aluguel.
Mais contas, mais sonhos intangíveis. Carro zero.
Zézé. Primeiro carro zero. Só em 2006.
Cada conquista era um sonho olímpico. Um pódio olímpico. Levitávamos de orgulho. Cada sonho realizado era um degrau na escalada rumo à cidadania. A cada conquista a gente se sentia um pouquinho mais gente. Um pouquinho mais incluído. Um pouquinho mais brasileiro.
Enfim. Emprego de qualidade. Plano de saúde. Casa própria. Filhos formados. Filhos encaminhados. Privilégio de ter uma companheira esplendorosa. Campeão olímpico. Fiz tudo o que nem ousava sonhar, lá, quando era nada mais que um “guri de bosta”.
‘Cheguei ao ponto final’, pensei. Ledo engano.
Sonhar. Vida que segue.
Quando pensei que tinha chegado ao topo, ao meu topo, eis que me descubro num novo desafio. Como numa espiral, volto ao momento inicial. Uma volta acima.
Um passo acima na escala humana. Voltar a ser um bípede. Não ter carros. Morar numa vila provinciana, como Ipanema, que me permita fazer tudo a pé. Ter casa com fogão a lenha, na qual as goteiras sejam planejadas. Movida a energia solar. Onde o ruído dos ventos encante e embale mais sonhos.
Sonhar. Como diz o magnífico escritor uruguaio, Eduardo Galeano, “Sonhar, o mais importante dos direitos humanos. A mãe de todos os direitos”.
(mai/2010)
“Um outro mundo é possivel”
