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Sonhos Olímpicos

Author: Delman Ferreira

Fugir das goteiras. Fugir dos fantasmas que os ventos zunem por entre as frestas. Fugir da casinha no fundo do quintal.

Sonhos de Liberdade.

Primeiro fogão a gás. Livres da tarefa de juntar lenha, secar lenha, fazer fogo, chorar com a fumaça. Livres das panelas queimadas. Livres da sujeira.

Contas para pagar e sonhos para sonhar – sonhar com a primeira geladeira.

Primeira geladeira. Nosso próprio gelo. Nossa própria gelatina. Nosso próprio pavê. Nosso próprio orgulho.

Mais contas para pagar. Mais sonhos para sonhar – primeira TV.

Primeira TV. Brigar nossas próprias brigas para ver quem escolhe o canal. Ver TV sem pedir licença. Ver TV sem ser mandado pra casa.

Contas para pagar – sonhos para sonhar – primeiro carro.

Petrônio. Primeiro carro. Um sonho que quase não se ousava sonhar. Só depois de muito tempo. Depois de muito trabalho. Depois dos primeiros filhos.

Novas contas – novos sonhos – ficar livres do aluguel.

Primeira casa própria. Sacrificar o Petrônio. Livre do aluguel.

Mais contas, mais sonhos intangíveis. Carro zero.

Zézé. Primeiro carro zero. Só em 2006.

Cada conquista era um sonho olímpico. Um pódio olímpico. Levitávamos de orgulho. Cada sonho realizado era um degrau na escalada rumo à cidadania. A cada conquista a gente se sentia um pouquinho mais gente. Um pouquinho mais incluído. Um pouquinho mais brasileiro.

Enfim. Emprego de qualidade. Plano de saúde. Casa própria. Filhos formados. Filhos encaminhados. Privilégio de ter uma companheira esplendorosa.  Campeão olímpico. Fiz tudo o que nem ousava sonhar, lá, quando era nada mais que um “guri de bosta”.

‘Cheguei ao ponto final’, pensei. Ledo engano.

Sonhar. Vida que segue.

Quando pensei que tinha chegado ao topo, ao meu topo, eis que me descubro num novo desafio. Como numa espiral, volto ao momento inicial. Uma volta acima.

Um passo acima na escala humana. Voltar a ser um bípede. Não ter carros. Morar numa vila provinciana, como Ipanema, que me permita fazer tudo a pé. Ter casa com fogão a lenha, na qual as goteiras sejam planejadas. Movida a energia solar. Onde o ruído dos ventos encante e embale mais sonhos.

Sonhar. Como diz o magnífico escritor uruguaio, Eduardo Galeano, “Sonhar, o mais importante dos direitos humanos. A mãe de todos os direitos”.

(mai/2010)

“Um outro mundo é possivel”

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A ordem das coisas

Author: Delman Ferreira

“Democracia é dar a todos o mesmo ponto de partida.
Quanto ao ponto de chegada, depende de cada um.”

Mário Quintana

Era uma prova organizada pela Confederação. Para selecionar meninos e meninas com bom potencial. Quem ganhasse teria Bolsa de Estudos, técnico e treinamento especial. Em 2016, os melhores seriam os representantes nas Olimpíadas.

Desde pequeno, Zé gostava de correr e apostar corrida. Fosse o que fosse: contra outros meninos, contra bicicletas, principalmente contra o Tyson. Tyson era um cão quase todo preto, uma cruza clandestina de pastor com vira-lata. Zé vivia jogando corrida contra Tyson na subida do Morro. Por isso, logo recebeu o apelido de Zé Cachorro. Seu nome é José Ferreira da Silva.

Tinha só doze anos e foi chamado pra participar da seletiva da Confederação. Virou o orgulho do Morro do Baco Baco. Naquele domingo, todos estavam lá torcendo pelo Zé Cachorro. Ele já tinha passado por várias eliminatórias e vencera todas. Só faltava a Final.

Quando o Juiz de Prova mandou “Aos seus lugares”, Belizário achou muito estranho porque os meninos não ficaram todos na mesma linha. Ferreirinha ficou lá na linha de partida, mas, outros meninos se colocaram muito à frente. Uns na altura dos 20 metros, outros lá pelos 30m, outros ainda mais à frente.

Democracia Liberal

Belizário protestou. “Isto não está certo”, gritou o mais alto que conseguiu. Mas, ninguém ouvia, ou faziam que não entendiam. Somente o pessoal do Morro, que também estava muito indignado. Quando os protestos ficaram mais fortes, foram ameaçados. Caso não se comportassem, seriam expulsos pela polícia.

Belizário foi questionar a organização(?). Queria saber por que não saiam todos na mesma linha de largada?

- “Temos que respeitar as Regras”, responderam.

- Como assim, que ‘regras’ são essas? Belizário quis saber.

- “São as Regras. É a ordem natural das coisas. Quem vem de família de campeões, ou se é um filho de recordista, ganha mais chances na largada. Aquele menino, por exemplo, o Avô foi recordista e o Pai foi recordista, por isso ele sai 40 metros na frente.”.

- E os outros, também são filhos de recordistas?

- “Não, aqueles são filhos, ou afilhados, de senhores que, apesar de não serem de famílias tradicionais, são importantes. Por isso, também ganham destaque.”.

- Ainda não entendi uma coisa. Se a corrida é para todos. Se é para destacar o melhor, quem pode contribuir mais e ser mais importante para o Brasil no futuro, porque não dão as mesmas chances e largam todos na mesma linha?

- “Nós estamos dando oportunidades para todos. Estão todos na mesma prova. Vai vencer quem for melhor. Os que saem adiantados não precisam provar nada. Todos sabem que eles são bons. Estão ali apenas para contribuir e estimular os outros.  Assim, os que saem atrás vão se espelhar neles e tentar fazer mais e melhor. É um verdadeiro altruísmo.”.

- Mas, se uns saem na frente dos outros, não vai vencer o melhor, vai vencer quem saiu na frente.

- “Nem sempre. Algumas vezes, estes que saem na frente não sabem aproveitar a oportunidade e ficam para trás. Já houve caso de alguém vindo de trás que conseguiu vencer.”.

­- Deixa ver se entendi. As ‘regras’ garantem privilégios de uns contra os outros. Um menino do Morro só vai conseguir alguma coisa quando um daqueles que sai na frente deixar. Se ninguém deixar, a ‘seleção’ brasileira vai ser sempre a mesma?

- “O senhor está sendo radical. Se um menino do Morro for bom, alguém pode se interessar por ele e oferecer outra oportunidade. Daí ele vai poder provar que é bom mesmo”.

- Sei. Pelas ‘regras’, os lugares já estão todos marcados, assegurados pra quem tem ‘tradição’ ou tem ‘poder de pressão’. Para um menino do Morro, só resta pegar as sobras ou vender-se para quem se interessar.

- “São as ‘Regras’. É a ordem natural das coisas. Se o senhor não está satisfeito, tente mudar as regras. E, por favor, não importune, temos mais o que fazer. Ou vou ter que chamar a polícia para fazer o senhor entender as ‘Regras’”.

- Sei. Isso lá no Morro tem outro nome. Chamamos Democracia Liberal.

(fevereiro/2010)

“um outro mundo é possível”

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