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Salve, TIÃO

Author: Delman Ferreira

Hoje, Tião me fez reviver momentos extraordinários de minha vida.


O Bar do Tião era o Portal da Eternidade. Ali se eternizavam aqueles sambas e aquela moda de viola que a gente tem lá no fundo da memória. Aquelas que cantamos uns pedaços sem nem saber que sabemos. Por lá, eternizavam-se sambistas e, principalmente boêmios – essa categoria em extinção.


Um bar que começou meio na cozinha do Tião e da Ivonete. Depois fizeram um puxadinho. Coisa assim do tamanho de uma garagem. Mesas de lata dessas com propaganda de cerveja, toalha xadrez e copos de requeijão.


Um espaço que desafiava e confirmava a física. No Bar do Tião tudo era relativo. Onde naturalmente caberiam no máximo umas vinte pessoas, em dia de casa cheia, podiam-se contar umas cem.


Lá pelas tantas, reuniam-se os músicos da noite. Quando acabavam suas apresentações iam para o Tião se divertir e nos dar canjas inesquecíveis. Alguns artistas nacionais, quando passavam pela Ilha, também davam uma canja no Tião. Gilberto Gil era um dos amigos do Tião.

No Tião a gente bebia de tudo. Principalmente o mais legítimo Rabo-de-Galo, feito com Bacardi e Vermuth Uru. Ou então, uma cachaça com Underberg. A primeira ia pro santo. Depois a gente virava mais umas duas ou três pra atingir o estado de torpor ideal. Daí pra frente, intercalava-se umas cervejas com rabo-de-galo só pra manutenção.


A cantoria ia rolando – sambas eternizados. A gente dançava, cantava, bebia, namorava e dava risada – era o paraíso ali no Monte Verde, uma vila dessas de cooperativa habitacional.

Balbúrdia geral até o Tião pegar o violão. Nesse momento dava-se o que parecia impossível: Silêncio Absoluto. Puro êxtase. Todos sabiam que iam viver momentos que jamais esqueceriam.  Com o violão acomodado sobre a grande barriga e aquela voz de Jamelão cantando Lupicínio, Tião mandava:


“Esses moços/ pobres moços/ ah, se soubessem o que eu sei …”. (Salve, Lupicínio).

Mais umas três ou quatro obras primas e voltava a circular conversando com todo mundo. Depois do Tião entravam os outros. Violão, cavaquinho, flauta, percussão, gaita. E algumas figurinhas marcantes. Um senhor, que pintava o bigode de preto e usava uma peruca que escorregava com o suor – tentava cantar tangos ou boleros. Tinha a Cristina, que sempre fazia um charminho, pedia desculpas porque a voz não estava boa. E depois mandava “Ave Maria no Morro”:


“Lá não existe/ felicidade de arranha-céu/ pois, quem mora lá no morro/ já vive pertinho do céu/ …” (Salve, Herivelto Martins).


Nesse momento, até Dalva de Oliveira baixava no Bar pra aplaudir.


Impossível encontrar espaço mais democrático. Todos passavam pelo Tião. Gente das oligarquias. Comunistas. Liberais. Petistas, depois da avaliação de conjuntura. Avaianos. Figueiras. Brasileiros de qualquer canto. Artistas talentosos e todos nós, esforçados, mas eternamente desafinados. Todos igualados na Democracia do Tião.


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Uma noite, lá pelas três da manhã. Chuvinha fria. Tô lá no Bar do Tião já me preparando pra ir embora.

Chega o Margarido. Negro meio alto, magro, da canela fina. O cabelo começando a pintar. Sambista desses que dançam com toda a leveza do ser. Sem os pés tocarem o chão. Pediu uma carona.

– “Vamo nessa, mas já tô saindo”, respondi.

Pediu só um tempinho. Depois de uma meia hora, voltou e me perguntou se podia levar junto um ‘esquema’. ‘Esquema’ era uma moça que ele tinha conhecido naquela noite. Depois de muito samba no pé, muito rebolado, Margarido “convenceu a Donzela a lhe acompanhar”.

Fomos embora, eu, a Meri, o sambista e o ‘esquema’. Fui tocando e nada dele me dizer para onde ia. Só me apontava a direção. Vira daqui, vai pra lá, agora segue por ali,… e vamos indo,…

Até que chegamos na frente da Penitenciária. Pediu pra parar e, nem me deu tempo de perguntar qualquer coisa, agradeceu, saiu com o ‘esquema’ e foi-se pela Penitenciária a dentro.

Passados uns dias, entro num ônibus e … ora…ora… quem era o motorista, com uniforme da empresa e tudo? O próprio, Margarido, o sambista, a leveza do ser. Dessa vez ele não me escapou. Encostei e fui fazendo minhas perguntinhas.

- “O que tu fostes fazer na penitenciária aquela noite? Trabalhas ali?”.

- “Não, é que eu dei um vacilo e tô puxando um tempo lá. Posso sair pra trabalhar e tenho que voltar pra dormir”.

- “Mas, e o ‘esquema’? Como foi que ela entrou?”

- “É que eu tenho uns lances lá com uns amigos da carceragem. Eu facilito umas pra eles e, quando eles tão de plantão, eles facilitam a minha, me deixam chegar um pouco mais tarde. Aí eu levo uns ‘esquemas’.

Dei-me por satisfeito. Feliz pelo privilégio de conhecer a Leveza do Ser.Feliz por fazer parte da Democracia do Tião.


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Hoje pela manhã recebi uma ligação de um amigo, quase irmão mais velho, também freqüentador do Tião.


- “Sabe onde eu estou? Tô no velório do Tião”.


Deu branco. Custei a entender direito. Velório, o que é velório?


Tião tinha 72 anos. Sofreu um infarto e não resistiu.


Levei um bom tempo pra me dar conta que se fechou um ciclo. Uma era que virou privilégio de quem viveu. Quando voltar a Florianópolis, não vou mais poder tomar uma meia dúzia de Rabos-de-Galo e encher o saco do Tião pedindo Vingança.


”Só vingança, vingança, vingança/ aos santos clamar,…”.


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Fiquei desejando que a tal de eternidade existisse de fato.


Na minha vez, quando eu chegasse no Portal da Eternidade, lá em cima veria uma placa pintada à mão, escrito com letra de mulher: “Bar do Tião”. Seria a minha certeza de estar no paraíso – naquele espaço de tempo eternizado em minha memória.


Lá ao fundo, em meio ao silêncio de eterna veneração, eu ouviria o Tião. Voz profundamente nostálgica. Cantando essa perfeição da inspiração brasileira:


“Queixo-me às rosas/ mas, que bobagem/ as rosas não falam/ …”. (Salve, Cartola).


E eu, já com minhas três doses de rabo-de-galo, no mais perfeito estado de torpor, respondo daqui:


“Bate outra vez/ com esperanças o meu coração/ …”.


Salve, Tião.

(dez/2006)

“Um outro mundo é possivel”

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Uma cachaça. Uma nostalgia.

Author: Delman Ferreira

Noite dessas, bebericando uma cachaça, dessas coisas fabulosas lá do Brasil, lá dos interior das Minas Gerais, coloquei para rodar o Grupo Engenho e o Expresso Rural.
Meu olhar se perdeu lá naquele tempo em que Florianópolis ainda não era Floripa. Era apenas “um pedacinho de terra perdido no mar” e ficava ali do ladinho, ligada ao Brasil por um cartão postal. O resto do Brasil ficava depois da Ponte.
O povo do resto Brasil só sabia de Florianópolis quando estava lá pelo terceiro ano do primário e era obrigado a estudar as capitais dos estados nas aulas de geografia. Passadas as provas, nunca mais alguém lembrava que Maranhão, Espírito Santo e Santa Catarina tinham capitais que ficavam em ilhas.
Pra chegar a Florianópolis, tinha que passar por Capoeiras, Coqueiros e Estreito, bairros do continente. Não é qualquer um ou qualquer coisa que vence capoeiras, coqueiros e consegue atravessar estreitos. Assim, por muito tempo, a Ilha preservou um modo manézinho de ser.
Florianópolis era um segredo guardado pelos manézinhos.
Aliás, “manézinho” era um xingamento. Quando se queria ofender alguém, gritava-se: “Amarelo. Bicho da goiaba. Manézinho”. Mãe era coisa sagrada. Se alguém xingava a Mãe, o ofendido era obrigado a partir pra briga, senão seria chamado de covarde pelo resto da vida.
…beberico levemente. Fico olhando minha rua.
Era assim a minha rua? Ou será apenas um primor de criação da minha nostalgia?
A leveza em que me encontro me dá a certeza que meu passado foi exatamente assim: poético. Foi exatamente assim, porque é assim que me lembro dele.
Vejo o verdureiro. Uma verga nas costas com um cesto em cada ponta. Grita ritmado: “Batata-doce. Olha a banana. Olha a baja. Olha a roxa…”. Baja é a vagem. Roxa é a beterraba.
Como num desfile. Depois do verdureiro, vejo o peixeiro com um carrinho de mão oferecendo camarão-da-lagoa, tainhotas, corvinas, anchovas, tudo fresquinho, pescado nessa noite, embrulhados em folhas de bananeira. O peixeiro anuncia a passagem fazendo soar um chifre de boi.
Vai o homem que vende melado-de-cana num barril de latão, batendo uma matraca. É o homem do inverno. Batata-doce, assada na brasa da fogueira, com melado. Melado com banana amassada. Melado com aipim. Melado com farinha.
E segue o mais esperado, o homem da carrocinha do vidro. Ele compra cacos de vidro, móveis usados, ferro velho, compra de tudo. É a festa da gurizada. Todos correm pra vender coisas velhas catadas pelas ruas. Ganhar uns trocados pra comprar figurinhas.
Vento Sul sopra de rebojo – faz remoinho. Levanta as saias dos uniformes das meninas. Pescador, olhando pro mar, afirma: “amanhã vira pra lestada”.
Olho pro campinho onde a pelada corre solta. Fica num desnível do morro. Um gol lá em cima, outro lá em baixo. No meio tem uma valeta por onde corre a água da chuva. A bola rola, disputada pra lá e pra cá, pra cima e pra baixo. A valeta é apenas mais um adversário a ser driblado. O “campo” é careca, só areia e barro. A grama é uma espécie de moldura, cobre apenas as laterais. Cada trave tem um esforçado goleiro gritando desesperado. Cada partida, cada bola dividida, é disputada como se fosse uma final de brasileirão.
…na “vitrolinha”, o Expresso Rural expressa minha nostalgia.

Vou fugir dessa metrópole à libertação
E seguir algum caminho que me leve ao Sul…

…Pode ser um sonho louco, mas eu vou achar
Em algum lugar desta federação
Alguma substância estranha, que substitua a dor no coração.
E mate essa vontade de voltar… de voltar…

…recarrego a mineira. De volta para o futuro. Vejo Florianópolis transformar-se em Floripa.
O Estreito virou apenas um Canto onde fica uma Figueira. O velho cartão postal está abandonado, cada dia mais velho, cada dia mais enferrujado, cada dia mais esquecido.
Abriram uma Via Expressa e mais duas pontes, por onde entram todos e passa de tudo. Globalização. Especulação. Exclusão. E, como diria um velho manézinho, muita esculhambação e muita aporrinhação.
Supermercado. Hipermercado. Shopping Center. Paredões de apartamentos. Asfalto, muito asfalto e grama sintética.
Não tem mais verdureiro fazendo pregão da “baja” e da “roxa”. Não tem mais carroceiro. Já não tem mais campinho. Não tem mais corredor pro Vento Sul. As meninas não usam mais saias rodadas. Não tem mais a alegria da gurizada.
A Ilha deixou de ser um segredo dos manézinhos. Virou Floripa, objeto de desejo do resto do Brasil. Florianópolis virou nostalgia.
…sigo na toada. Tomo mais uma junto com o Grupo Engenho. Vou me despedindo.

Meu sinhô já vou me embora
Nosso papo terminou
Mesmo indo sem resposta
Vou levando a alegria
De quem já desabafou…

Volto pro futuro com a certeza que, mesmo nessa Floripa globalizada, ainda nos resta um tantinho de Florianópolis.
Lá pelos cantos da Lagoa, no Itacorubi, na Vargem, no Campeche, no Santo Antônio, no Iega, lá pelo Morro do Baco Baco, nos arredores de todos os cantos, na risada dos amigos, no coração de quem pegou vento sul de rajada e torceu pro vento mudar pra nordeste pra pegar camarão e siri na caladinha da Lagoa.
Lá, ainda vou escutar a matraca anunciando que hoje vai ter melado com farinha.

(nov/2007)

“Um outro mundo é possivel”

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