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2009
Salve, TIÃO
Author: Delman FerreiraHoje, Tião me fez reviver momentos extraordinários de minha vida.
O Bar do Tião era o Portal da Eternidade. Ali se eternizavam aqueles sambas e aquela moda de viola que a gente tem lá no fundo da memória. Aquelas que cantamos uns pedaços sem nem saber que sabemos. Por lá, eternizavam-se sambistas e, principalmente boêmios – essa categoria em extinção.
Um bar que começou meio na cozinha do Tião e da Ivonete. Depois fizeram um puxadinho. Coisa assim do tamanho de uma garagem. Mesas de lata dessas com propaganda de cerveja, toalha xadrez e copos de requeijão.
Um espaço que desafiava e confirmava a física. No Bar do Tião tudo era relativo. Onde naturalmente caberiam no máximo umas vinte pessoas, em dia de casa cheia, podiam-se contar umas cem.
Lá pelas tantas, reuniam-se os músicos da noite. Quando acabavam suas apresentações iam para o Tião se divertir e nos dar canjas inesquecíveis. Alguns artistas nacionais, quando passavam pela Ilha, também davam uma canja no Tião. Gilberto Gil era um dos amigos do Tião.
No Tião a gente bebia de tudo. Principalmente o mais legítimo Rabo-de-Galo, feito com Bacardi e Vermuth Uru. Ou então, uma cachaça com Underberg. A primeira ia pro santo. Depois a gente virava mais umas duas ou três pra atingir o estado de torpor ideal. Daí pra frente, intercalava-se umas cervejas com rabo-de-galo só pra manutenção.
A cantoria ia rolando – sambas eternizados. A gente dançava, cantava, bebia, namorava e dava risada – era o paraíso ali no Monte Verde, uma vila dessas de cooperativa habitacional.
Balbúrdia geral até o Tião pegar o violão. Nesse momento dava-se o que parecia impossível: Silêncio Absoluto. Puro êxtase. Todos sabiam que iam viver momentos que jamais esqueceriam. Com o violão acomodado sobre a grande barriga e aquela voz de Jamelão cantando Lupicínio, Tião mandava:
“Esses moços/ pobres moços/ ah, se soubessem o que eu sei …”. (Salve, Lupicínio).
Mais umas três ou quatro obras primas e voltava a circular conversando com todo mundo. Depois do Tião entravam os outros. Violão, cavaquinho, flauta, percussão, gaita. E algumas figurinhas marcantes. Um senhor, que pintava o bigode de preto e usava uma peruca que escorregava com o suor – tentava cantar tangos ou boleros. Tinha a Cristina, que sempre fazia um charminho, pedia desculpas porque a voz não estava boa. E depois mandava “Ave Maria no Morro”:
“Lá não existe/ felicidade de arranha-céu/ pois, quem mora lá no morro/ já vive pertinho do céu/ …” (Salve, Herivelto Martins).
Nesse momento, até Dalva de Oliveira baixava no Bar pra aplaudir.
Impossível encontrar espaço mais democrático. Todos passavam pelo Tião. Gente das oligarquias. Comunistas. Liberais. Petistas, depois da avaliação de conjuntura. Avaianos. Figueiras. Brasileiros de qualquer canto. Artistas talentosos e todos nós, esforçados, mas eternamente desafinados. Todos igualados na Democracia do Tião.
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Passados uns dias, entro num ônibus e … ora…ora… quem era o motorista, com uniforme da empresa e tudo? O próprio, Margarido, o sambista, a leveza do ser. Dessa vez ele não me escapou. Encostei e fui fazendo minhas perguntinhas.
- “O que tu fostes fazer na penitenciária aquela noite? Trabalhas ali?”.
- “Não, é que eu dei um vacilo e tô puxando um tempo lá. Posso sair pra trabalhar e tenho que voltar pra dormir”.
- “Mas, e o ‘esquema’? Como foi que ela entrou?”
- “É que eu tenho uns lances lá com uns amigos da carceragem. Eu facilito umas pra eles e, quando eles tão de plantão, eles facilitam a minha, me deixam chegar um pouco mais tarde. Aí eu levo uns ‘esquemas’.
Dei-me por satisfeito. Feliz pelo privilégio de conhecer a Leveza do Ser.Feliz por fazer parte da Democracia do Tião.
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Hoje pela manhã recebi uma ligação de um amigo, quase irmão mais velho, também freqüentador do Tião.
- “Sabe onde eu estou? Tô no velório do Tião”.
Deu branco. Custei a entender direito. Velório, o que é velório?
Tião tinha 72 anos. Sofreu um infarto e não resistiu.
Levei um bom tempo pra me dar conta que se fechou um ciclo. Uma era que virou privilégio de quem viveu. Quando voltar a Florianópolis, não vou mais poder tomar uma meia dúzia de Rabos-de-Galo e encher o saco do Tião pedindo Vingança.
”Só vingança, vingança, vingança/ aos santos clamar,…”.
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Fiquei desejando que a tal de eternidade existisse de fato.
Na minha vez, quando eu chegasse no Portal da Eternidade, lá em cima veria uma placa pintada à mão, escrito com letra de mulher: “Bar do Tião”. Seria a minha certeza de estar no paraíso – naquele espaço de tempo eternizado em minha memória.
Lá ao fundo, em meio ao silêncio de eterna veneração, eu ouviria o Tião. Voz profundamente nostálgica. Cantando essa perfeição da inspiração brasileira:
“Queixo-me às rosas/ mas, que bobagem/ as rosas não falam/ …”. (Salve, Cartola).
E eu, já com minhas três doses de rabo-de-galo, no mais perfeito estado de torpor, respondo daqui:
“Bate outra vez/ com esperanças o meu coração/ …”.
Salve, Tião.
(dez/2006)
“Um outro mundo é possivel”