ago
10
2010
O menino que sonhava ser ‘motorista’ de trem
Author: Delman FerreiraQuando tinha lá seus cinco anos de idade, a avó, que era professora, o levava para as salas de aula. A Mãe, que ele chamava “Mãezinha”, não podia levar os dois filhos para a casa onde trabalhava. Então, ele ia para a escola com D. Maria Clara, afinal, já era “um homenzinho”. A irmã, que tinha menos de dois anos, ficava com uma vizinha.
Para o menino-homenzinho, D. Maria Clara era a pessoa mais sábia do mundo. Afinal, ela ensinava a ler e escrever. Ele ficava lá, no fundo da sala, com um lápis e um caderno, copiando o que ela escrevia no quadro. O quadro negro era um espaço sagrado. O giz, uma espécie de varinha mágica. Era ali que a Avó escrevia as letras tão cheias de mistérios. Tudo o que ele queria era aprender a ler. E era a Avó quem ensinava. Era, sem dúvida, a pessoa mais sábia do mundo.
Depois, passaram os anos – descobriu que, aos olhos do mundo, a Avó era apenas uma professora primária.
A hora de encontrar Mãezinha era uma hora mágica. Além dos carinhos e cuidados de Mãe, ela lia histórias. Histórias que vinham nos “Almanaques de Farmácia”. Naqueles momentos, Mãezinha era uma fada que o transportava para o Sítio do Picapau Amarelo e para muitos outros mundos. Um mundo que se escondia atrás das letras que a Mãe ia desvendando. Ele se transformava em Pedrinho, vivia as mais diversas aventuras e ajudava a salvar o mundo. Ele já era um homenzinho.
Depois, passaram os anos – descobriu que, aos olhos do mundo, a Mãe não passava de uma empregada doméstica.
Suas heroínas eram simples operárias, sem importância para o mundo. Eram apenas sombras invisíveis, colocadas à margem.
A casa – um casebre que, para ele, parecia enorme – ficava ao lado de uma padaria. Todos os dias, mesmo no frio do inverno, acordavam cedo com cheiro de pão doce quentinho. Padeiros e doceiras - ele achava que eram as pessoas mais felizes do mundo. Afinal, eles trabalhavam no meio de todos aqueles pães, bolos e doces maravilhosos. A moça que fazia doces era outra fada mágica, capaz de fazer as coisas mais deliciosas do mundo.
Passados os anos – descobriu que, aos olhos do mundo, eram apenas padeiros e doceiras, simples operários sem importância. Eram apenas sombras invisíveis, colocadas à margem.
O dono da venda - o menino imaginava que devia ser o homem mais rico do mundo. Afinal, era dono de todas aquelas balas, cocadas, quebra-queixo, bombinhas de São João, carrinhos, bonecas. Era dono de tudo. Sem dúvida, o homem mais rico do mundo.
Depois, descobriu que, aos olhos do mundo, não passava de um “dono de vendinha de interior”. Um simples operário sem importância. Apenas vulto invisível, relegado à margem.
Moravam no Alto Ribeirão, interior da ilha, bairro isolado de uma cidadezinha isolada, chamada Florianópolis. Naquele interior, naquela lonjura, naquele tempo, livros e revistas eram objetos raríssimos. Almanaques de Farmácia, era o que existia de acessível. Felizmente, a Mãe e a Avó, as heroínas, gostavam de ler. E o ensinaram a gostar de ler. Além das brincadeiras de rua, ele também vivia no meio de personagens fantásticos, que moravam em lugares fantásticos. D. Benta, Narizinho, Emília, o Visconde - foi amigo de todos eles. Viveu grandes aventuras no Sítio do Picapau Amarelo.
E, por meio dos livros, ele conheceu aquilo que devia ser a coisa mais extraordinária que poderia existir no mundo: os Trens. Em Florianópolis, no Ribeirão da Ilha, jamais passou ou passará um trem. Mas, aos cinco anos de idade, quando faziam a clássica pergunta: “Menino, o que tu queres ser quando crescer?”, ele já tinha a resposta pronta: “Vou ser Motorista de Trem”. Todos riam e voltavam a perguntar, só pra ver e ouvir o menino sonhando.
Trens. Um trem era um monte de ônibus, todos emendados um no outro. Os ônibus levavam as gentes até o centro da cidade. Um lugar de sonhos. Na imaginação do menino, lá no centro sempre tinha festas bonitas, com fogos, jogos, doces, balões, brinquedos, barraquinhas coloridas e muita gente.
Um ônibus podia levar até o centro da cidade. Logo, o Trem, que era um monte de ônibus emendados, poderia levar muito mais longe. Até àqueles lugares além da imaginação, que ficavam lá nos livros. Então, ele queria ser Motorista de Trem, pra poder levar gentes para qualquer lugar. Ele ia ser a pessoa mais importante do mundo.
Para o menino do Ribeirão, o Motorista de Trem era a pessoa mais importante do mundo. Afinal, ele conhecia todos os lugares. E podia transportar as gentes para qualquer lugar do mundo.
O tempo passou – descobriu que, aos olhos do mundo, o Motorista de Trem era apenas um maquinista. Um simples operário sem a menor importância. Mais uma sombra invisível, mais um marginalizado.
E assim eram o verdureiro, os pescadores, os fazedores de farinha, o homem que vendia melado num carrinho de mão, o homem que comprava ferro velho e garrafas vazias, o leiteiro, a moça da feira, o homem da água, o homem da luz,…. Todas as heroínas e os heróis. Todos simples operários sem importância.
Apenas vultos. Todos na periferia. Todos à margem.
Pobre menino que sonhava ser ‘motorista’ de trem, cresceu cercado de marginais.
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Minhas heroínas e meus heróis não morreram de overdose. Estão por aí, construindo um novo Brasil. Minhas heroínas e meus heróis estão nos enchendo de orgulho e admiração.
(ago/2010)
“Um outro mundo é possivel”