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2012 e a Lenda do Campeche

Author: Delman Ferreira

Noé, o dragão

Noé, o dragão...

um sono de dez mil anos

... e seu sono de dez mil anos

Quem chega à Praia do Campeche, pela Avenida Pequeno Príncipe, pode observar que a Ilha do Campeche é, na realidade, um dragão dormindo um sono de dez mil anos. Lá estão, muito bem delineados, a cabeça, o corpo e a parte não submersa do rabo.

De tanta gente chegar à praia e perguntar: É o Dragão, não é?  É o Dragão, não é? É o Dragão, não é?, ficou conhecido como o Dragão Noé.

Diz a Lenda do Campeche que, no dia 20 de dezembro de 2012 (20 12 2012), Noé, o Dragão, vai despertar de seu sono decamilenar. Vai erguer-se de seu berço esplêndido. Alçar vôo e bradar um brado de dez mil megatons.

Quando chegar a hora, alguns receberão o chamado. Em todos os cantos do mundo e arredores. Ao som de um rock – Nostradamus, de Eduardo Dusek – os ungidos serão tocados. Sairão caminhando e, sem nem mesmo saber por que, vão se dirigir ao Campeche.

O dia ficou noite/O sol foi pro além/Eu preciso de alguém/Vou até a cozinha/Encontro Carlota, a cozinheira, morta/Diante do meu pé, Zé/Eu falei, eu gritei, eu implorei:/”Levanta e serve um café/Que o mundo acabou!”

Nostradamus vai tocar para todos. Mas, somente os ungidos saberão que é o momento. Apenas eles saberão fazer o caminho.

Noé irá recebê-los em seu dorso. Vai elevar-se aos céus carregando os exemplares que darão origem à nova humanidade.

Ao por-do-sol de 20 de dezembro de 2012, Noé soltará seu brado de dez mil megatons. Céus e terras tremerão. Naquele lusco-fusco, toda a humanidade à sua volta será destruída.

Quase toda. Os ungidos serão salvos.

Depois que montanhas, pedras, mares e rios se acalmarem, Noé retornará ao Campeche. O Dragão voltará a ser ilha em seu sono de dez mil anos.

Na alvorada do dia 25 de dezembro de 2012, os ungidos subirão o Morro do Baco Baco. E daí,… …bom, daí vai começar tudo outra vez.

(jul/2010)

“Um outro mundo é possivel”

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A ordem das coisas

Author: Delman Ferreira

“Democracia é dar a todos o mesmo ponto de partida.
Quanto ao ponto de chegada, depende de cada um.”

Mário Quintana

Era uma prova organizada pela Confederação. Para selecionar meninos e meninas com bom potencial. Quem ganhasse teria Bolsa de Estudos, técnico e treinamento especial. Em 2016, os melhores seriam os representantes nas Olimpíadas.

Desde pequeno, Zé gostava de correr e apostar corrida. Fosse o que fosse: contra outros meninos, contra bicicletas, principalmente contra o Tyson. Tyson era um cão quase todo preto, uma cruza clandestina de pastor com vira-lata. Zé vivia jogando corrida contra Tyson na subida do Morro. Por isso, logo recebeu o apelido de Zé Cachorro. Seu nome é José Ferreira da Silva.

Tinha só doze anos e foi chamado pra participar da seletiva da Confederação. Virou o orgulho do Morro do Baco Baco. Naquele domingo, todos estavam lá torcendo pelo Zé Cachorro. Ele já tinha passado por várias eliminatórias e vencera todas. Só faltava a Final.

Quando o Juiz de Prova mandou “Aos seus lugares”, Belizário achou muito estranho porque os meninos não ficaram todos na mesma linha. Ferreirinha ficou lá na linha de partida, mas, outros meninos se colocaram muito à frente. Uns na altura dos 20 metros, outros lá pelos 30m, outros ainda mais à frente.

Democracia Liberal

Belizário protestou. “Isto não está certo”, gritou o mais alto que conseguiu. Mas, ninguém ouvia, ou faziam que não entendiam. Somente o pessoal do Morro, que também estava muito indignado. Quando os protestos ficaram mais fortes, foram ameaçados. Caso não se comportassem, seriam expulsos pela polícia.

Belizário foi questionar a organização(?). Queria saber por que não saiam todos na mesma linha de largada?

- “Temos que respeitar as Regras”, responderam.

- Como assim, que ‘regras’ são essas? Belizário quis saber.

- “São as Regras. É a ordem natural das coisas. Quem vem de família de campeões, ou se é um filho de recordista, ganha mais chances na largada. Aquele menino, por exemplo, o Avô foi recordista e o Pai foi recordista, por isso ele sai 40 metros na frente.”.

- E os outros, também são filhos de recordistas?

- “Não, aqueles são filhos, ou afilhados, de senhores que, apesar de não serem de famílias tradicionais, são importantes. Por isso, também ganham destaque.”.

- Ainda não entendi uma coisa. Se a corrida é para todos. Se é para destacar o melhor, quem pode contribuir mais e ser mais importante para o Brasil no futuro, porque não dão as mesmas chances e largam todos na mesma linha?

- “Nós estamos dando oportunidades para todos. Estão todos na mesma prova. Vai vencer quem for melhor. Os que saem adiantados não precisam provar nada. Todos sabem que eles são bons. Estão ali apenas para contribuir e estimular os outros.  Assim, os que saem atrás vão se espelhar neles e tentar fazer mais e melhor. É um verdadeiro altruísmo.”.

- Mas, se uns saem na frente dos outros, não vai vencer o melhor, vai vencer quem saiu na frente.

- “Nem sempre. Algumas vezes, estes que saem na frente não sabem aproveitar a oportunidade e ficam para trás. Já houve caso de alguém vindo de trás que conseguiu vencer.”.

­- Deixa ver se entendi. As ‘regras’ garantem privilégios de uns contra os outros. Um menino do Morro só vai conseguir alguma coisa quando um daqueles que sai na frente deixar. Se ninguém deixar, a ‘seleção’ brasileira vai ser sempre a mesma?

- “O senhor está sendo radical. Se um menino do Morro for bom, alguém pode se interessar por ele e oferecer outra oportunidade. Daí ele vai poder provar que é bom mesmo”.

- Sei. Pelas ‘regras’, os lugares já estão todos marcados, assegurados pra quem tem ‘tradição’ ou tem ‘poder de pressão’. Para um menino do Morro, só resta pegar as sobras ou vender-se para quem se interessar.

- “São as ‘Regras’. É a ordem natural das coisas. Se o senhor não está satisfeito, tente mudar as regras. E, por favor, não importune, temos mais o que fazer. Ou vou ter que chamar a polícia para fazer o senhor entender as ‘Regras’”.

- Sei. Isso lá no Morro tem outro nome. Chamamos Democracia Liberal.

(fevereiro/2010)

“um outro mundo é possível”

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Michael Jackson – a trilha sonora de nosso desbunde.

Nunca gostei do tipo de cobertura sensacionalista e cansativa que a imprensa faz de tragédias ou morte de alguma celebridade.  Mas, semana passada, me peguei grudado na TV acompanhando a repercussão da morte de Michael Jackson, principalmente as retrospectivas da carreira.

Fiquei me perguntando porque isso me interessava tanto. E percebi que Michael Jackson me remetia para tempos de reviravolta em minha vida. Tempos de questionamentos, de experimentação, de erros, acertos, descobertas e libertação.

Frenéticas, Rita Lee, Paralamas, Legião Urbana, Elba Ramalho, Zé Ramalho, Gil, Caetano, Geraldo Azevedo, Barão Vermelho, Cazuza, Blitz… e tantos outros, também fizeram a trilha sonora daquele tempo. Mas, confesso que Michael Jackson me fez caminhar nas nuvens.

O mundo teve seu desbunde nas décadas de 60 e 70. Hippies, festivais de paz e amor, 1968, sutiãs queimados, pílula, LSD, mini-saia, Janis Joplin, Jimi Hendrix,… Até quando John Lennon percebeu que “o sonho acabou“. O sonho e o desbunde foram capturados pelo mercado e viraram apenas mercadoria. Nesse período, o Brasil vivia debaixo das botas de uma ditadura obscurantista, truculenta e torturadora. Como todas, era mais uma ditadura que não admitia o sonho. Prendia e torturava quem questionasse as verdades militares e ousasse pensar, se expressar e viver com liberdade. Todas as ditaduras temem o riso e o sonho.

O Brasil só viveu seu desbunde na década de 80. Abrimos nossas asas, soltamos nossas feras e caimos na gandaia – como dizia uma música das Frenéticas. Arriscamos, sonhamos, sofremos, rimos, choramos, conquistamos, inventamos, ficamos engrandalhados… e dançamos – muito – mesmo sem saber dançar. Num thriller com Michael Jackson.

Já era impossível acreditar que ele faria 50 anos. Seria o mesmo que acreditar que Peter Pan algum dia faria 50 anos. Agora me dizem que ele morreu.

Chego a questionar se Michael Jackson existiu mesmo ou seria produto de nossos delírios, fruto de uma viagem, de algum cogumelo. A única certeza que podemos ter é que logo o encontraremos ali no Morro do Baco Baco, na volta de alguma caminhada pela lua, arrepiando no Bar do Tião. Finalmente Livre. Finalmente Eterno.

Foi-se muito cedo. Mas, existirá para sempre. Nas nossas viagens para a Terra do Nunca de cada um. Em nossos passos desajeitados. Em nossas reviravoltas.

Gone too soon – Tributo a Michael Jackson (clique para assistir)

(jul/2009)

(um outro mundo é possível)

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Morro do Baco Baco

Author: Delman Ferreira

Ah! a falta que faz um morro do Baco Baco…

“Morro do Baco Baco”. Diz a lenda que o nome originou-se num hábito dos meninos de certa época que por ali iam viver os principais eventos de sua formação. Era o local preferido pra soltar Pandorga, pra jogar pião ou bolinha de vidro, e pra brincar de “camói” – o aportuguesamento de “cowboy”. Tanto o morro quanto suas histórias foram soterrados pela modernidade de uma via asfaltada.

Entretanto, não foram apenas as brincadeiras que marcaram o Morro. O que fez do Baco Baco uma passagem “insoterrável” na vida e na memória dos meninos daquele tempo foram os ritos e as comparações que ajudaram a formar  personalidades ou aprofundar inseguranças.


Naquela fase em que o energúmeno dá uma “espichada”, fica meio desengonçado e passa a esbarrar e derrubar tudo, não sabe o que quer da vida, a voz fica naquele engrossa/afina, os músculos e os traços masculinos vão ficando mais bem definidos, era lá no Morro do Baco Baco que os meninos se reuniam para medir e comparar seus “instrumentos” em fase de crescimento. Literalmente, era ali que iam ver “quem tinha o pau maior”.


Os primeiros pelos  – era um momento de glorificação. Fazia-se de tudo pra garantir um primeiro fiozinho preto. Descobriam-se os remédios mais escabrosos para dar um empurrãozinho na natureza. Tinha gente que chegava a esfregar cocô de galinha tentando dar uma adubada no local.

Outro momento decisivo era a ejaculação – a grande expectativa – uma cruel linha divisória. Separava aqueles que já se consideravam HOMENS dos outros,  mortalmente feridos, que eram jogados na vala dos “ainda meninos”. A prova definitiva pra adentrar o “mundo dos homens” era a mais crua e básica possível: o “candidato” tinha que conseguir ejacular na frente de todos os outros – para ajudar, apenas alguns “catecismos” do Carlos Zéfiro ou, muito raramente, umas revistinhas suecas ou dinamarquesas, que se conseguia com uns marinheiros. Estas “revistinhas” eram a coisa mais ousada que se dispunha, filme pornô não existia nem nos nossos sonhos mais delirantes.


Mas, o importante mesmo é que o morro do Baco Baco era uma arena sagrada para a disputa mais importante da vida de todos os que viviam aquele momento crucial: “ver quem tinha o pau maior”.


A competição não era um simples “puxa/estica e mede”. Havia as mais diversas modalidades. Valia todo e qualquer truque para ludibriar os outros e ganhar uns milímetros a mais. Cada um que levava desvantagem em uma modalidade logo inventava outra na qual a natureza lhe tivesse sido mais favorável. Tamanho, espessura, formato – qualquer detalhe anatômico – o importante era ser maior em alguma coisa.


Pelo Brasil afora, com certeza, existem centenas de milhares de “morros do Baco Baco” – lugares sagrados onde se dão os fundamentais ritos de passagem da gurizada. Lugares onde o menino se torna um homem muito mais seguro – afinal,  ali ele compreende que sempre existe alguma modalidade na qual pode ser o maior.


Entretanto, assim como muitas outras culturas, os “morros do Baco Baco” também estão em extinção, substituídos pela padronização do mundo “high-tech”. Os ritos de passagem ocorrem sem romantismos, sem mistérios, banalizados e virtualizados  numa  “second life”.


É cada vez maior o número dos que não conseguem sair da vala dos “ainda meninos”, apesar de já avançados em idade. E isso é grave, muito grave – beira à tragicomédia. Vai-se gerando uma horda dos “sem morro do Baco Baco”. Uma turba desorganizada que avança pela vida tentando chamar a atenção de qualquer maneira. Compram os carros mais potentes, as motos mais berrantes, a grife mais grife, os cachorros mais indóceis – e ficam desfilando por aí, meio sem destino, acelerando suas motos na madrugada, estacionando carros e arregaçando o som nas praças e nos bares.


Como não tiveram um “morro do Baco Baco” na época certa, passam a vida inventando as próprias modalidades pra provar que “têm o pau maior”.

As conseqüências da extinção desse fundamental rito de passagem têm sido trágicas para a humanidade. Se tivessem vivido um “morro do Baco Baco”, as criaturas norte-americanas não ficariam perturbando as madrugadas do mundo tentando provar que “têm o míssil maior”.


Ah! A falta que faz um morro do Baco Baco…

(abr/2005

“Um outro mundo é possivel”

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Baco Baco é… logo ali…

Author: Delman Ferreira

Perguntam: o Morro do Baco Baco existe mesmo?
Absolutamente. É tão concreto quanto é concreto o mundo que cada um constrói.


Perguntam: então, onde fica o Morro do Baco Baco?
…aos peregrinos, diria como Antonio Machado, “caminante no hay camino, se hace camino al andar”.


Assim como o Arco-íris, que é um fenômeno cientificamente comprovado, mas nunca está onde parece estar, o Morro do Baco Baco é um fenômeno filosoficamente comprovável que fica logo ali.


É lá onde se dão os ritos de passagem. Onde a gente se olha de frente e descobre os próprios limites. Filosoficamente, lá descobrimos que sempre existe uma modalidade na qual cada um de nós pode ser simplesmente o melhor, apesar de que, também se descobre que bom mesmo é estar aqui e ali, cercado de diversidades.


O Baco Baco é logo ali, no fim de cada desafio, naquele momento de cada conquista a cada nova passagem.


É aquele canto onde vestimos uma calça jeans puída, furada na bunda, uma camiseta desbeiçada, uma chinela velha, um chapéu de palha, porque o que importa mesmo é despir-se de preconceitos.


O Baco Baco também esconde seus mistérios. Porque, sem mistérios, sem sonhos, sem desafios e sem ritos de passagem a vida se banaliza e o mundo fica sem rumos.


É lá que vive o Belisário, o atirador de dardos, nosso perguntador de perguntinhas pontiagudas. Ali
, encontramos D. Sofia, com sua filosofia e sabedoria de quem conhece a vida e dispensa diplomas. Lá nos encontramos na Mercearia, que é uma universidade de vida. Foi para lá que Tião e Ivonete mudaram o “Bar do Tião”, onde a gente pode comer uma dobradinha sem culpas, beber rabo de galo, ouvir e cantar as eternidades da música brasileira. Há coisa de uns dez mil anos atrás, Raul Seixas andou por ali, ele para quem nada desse mundo é estranho.


Enfim,  fica logo ali, no caminho de quem vai para Pas
árgada, cortando as Gerais, seguindo a trilha da Joagoa.


O Morro do Baco Baco fica bem aqui dentro… Logo ali.


(mai/2007)

“Um outro mundo é possivel”

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BOITOPEIA

Author: Delman Ferreira

BOITOPEIA

O Pai do Warnel fazia o melhor Mocotó do mundo… e arredores. Havia um entendimento com os orixás: todo dia do aniversário ele preparava paneladas de  Mocotó e chamava o Morro.
Não sei se por exigência dos santos ou por outra razão menos sacra, o fato é que a única bebida permitida era vinho tinto doce. Para driblar o vinho doce, picávamos limão, colocávamos gelo e estava feita a alquimia.
Muita alquimia, muita interação, muito samba, uma ou outra azaração, muitas certezas e muita discussão. Embalados pela alquimia, debatíamos os destinos da Humanidade – e futebol, claro. Era a SOLIMO, Sociedade Livre e Criativa do Mocotó.
Numa daquelas efemérides, quando o debate já alcançava elevados decibéis, alguém veio com a informação de que o mocotó era extraído unicamente do tutano das patas dianteiras do boi. E cada boi fornecia uma quantidade muito reduzida de mocotó.
Diante do inigualável Mocotó do Pai do Warnel, essa informação desestruturou nossa estabilidade e encheu nossas certezas de dúvidas. Afinal, se os bois fossem acometidos por uma gripe, poderíamos ter escassez. E a possibilidade da escassez de mocotó estremeceria as estruturas da sociedade. Seria o fim da História.
Alguém teria que tomar alguma providência para garantir um abastecimento sustentável. O mercado impunha medidas imediatas e drásticas. Não se poderia correr o risco de desabastecimento. Tínhamos que ser proativos e buscar métodos para elevar a produtividade do boi, nossas usinas de mocotó. Era preciso encontrar caminhos para sair da crise.
Inebriados pelo Mocotó do Pai do Warnel, temperados pela alquimia, decidimos colocar nossa potencial inteligência para funcionar.
Desencadeou-se intenso debate filosófico considerando os destinos da humanidade caso ocorresse escassez de mocotó e a crise se alastrasse pelo mundo.
Finalmente, movidos pelos mais altos princípios e valores, decidimos desenvolver e apresentar para o MAM, Ministério da Sustentabilidade e Abastecimento de Mocotó, um sofisticado projeto de engenharia genética.
Como medida anti-crise imediata faríamos um retrofit, um upgrade em nossas usinas de mocotó – um boi de segunda geração, criado com técnicas de malhação diária para fortalecimento das patas dianteiras, alongamentos e relaxamento zen para liberar todo o mocotó impactado por stress. Ao invés de peitão e coxão, desenvolveríamos bois com tutanão.
Em seguida empreenderíamos o “Projeto Boitopeia” – que, basicamente, consistia em produzir um OGM, organismo geneticamente modificado.
O objetivo do Projeto Boitopeia era chegar  ao B3GMBB – o Boi de Terceira Geração Morro do Baco Baco. Produzido pelo Laboratório de Pesquisas, Alternativas e Desenvolvimento Agropecuário Morro do Baco Baco.
O B3GMBB seria o resultado do cruzamento de um vacum com uma centopeia,  chegando ao Boitopeia, um boi com duas patas traseiras e doze dianteiras, que se alimentaria apenas de RSU, resíduos sólidos urbanos, seria resistente a todas as mutações de gripe e soltaria peidos não agressivos ao meio ambiente e sem provocar aquecimento global. Bois com direito a MDL, o mecanismo de desenvolvimento limpo criado pelo Protocolo de Kioto.
Alcançamos a Pedra Filosofal do Mocotó.
(alquimia faz coisas).


(01/05/2009)

“Um outro mundo é possivel”

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“a dor da gente não sai no jornal”

Author: Delman Ferreira

(Belisário = arremessador de dados, segundo Dicionário de Nomes)

Belisário, lá no alto do Morro do Baco Baco, matutando sua filosofia, de vez em quando fica meio injuriado com algumas coisas. Nessas horas, sai por aí arremessando suas perguntinhas pontiagudas.
Outro dia lembrou um samba antigo que dizia “a dor da gente não sai no jornal”. Ficou se perguntando: qual o critério para definir o que é notícia e o que não é notícia?
Por exemplo, o caos nos aeroportos, que deixa algumas centenas, talvez uns milhares, de usuários esperando horas em salas desconfortáveis, é muito grave e merece destaque – sai no jornal.
Belisário ouviu dizer que são mais ou menos 7% dos brasileiros que, num ano inteiro, viajam de avião e eventualmente, uma ou outra vez, sofrem alguns problemas em aeroportos.
Por outro lado, existem diariamente, todos os dias do ano, ano após ano, milhões de brasileiros, em milhares de rodoviárias inabitáveis, esperando para viajar em ônibus que, frequentemente, se encontram nas piores condições imagináveis.
Milhões, sem alternativas, todos os dias do ano, ano após ano, viajando em ônibus que nunca passam por manutenção, nunca são limpos, nunca são fiscalizados.
São horas e horas, dias e dias, viajando em ambientes fétidos, por falta de limpeza, de fiscalização e respeito humano.
Horas intermináveis suportando calor ou frio, por falta de manutenção nos equipamentos de aquecimento ou de ar condicionado.
Horas ou dias, viajando em espaços exíguos, para que a empresa possa “otimizar” os espaços e “acomodar” mais passageiros.
Com freqüência assustadora, infelizmente, ocorrem acidentes com mortes ou mutilações. Somados, esses acidentes corresponderiam a dezenas ou centenas de vezes o número de vítimas de um acidente de avião.
Daí, Belisário, lá do alto do Baco Baco, lá do fundo de sua cabeça cheia de perguntas, vai arremessando seus dardos: porque será que a imprensa e alguns políticos dão tanto destaque aos problemas da aviação, que afligem 7% dos brasileiros, e nunca se manifestam sobre os problemas das rodoviárias e dos ônibus que afligem, certamente,  mais de 70% da população?
Por que o problema da aviação é notícia e o problema da viação não é notícia?
Será que o brasileiro que viaja de avião é mais brasileiro que o brasileiro que viaja de ônibus?
Por que será que a dor da nossa gente não sai no jornal? …
… Belisário fica muito encafifado.

(mar/2007)

“Um outro mundo é possivel”

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O dia em que Sofia posou de modelo

Author: Delman Ferreira

D. Sofia não quer nem ouvir falar que aquele quadro que tem na parede pode ser de muito valor e que poderia lhe render um bom dinheiro.
Ganhou aquele quadro de Emiliano. Um moço que um dia apareceu lá pelo Morro do Baco Baco, foi se chegando e ficou olhando Sofia trabalhar.
Cheio de elogios. Disse que ficou impressionado com a maneira ao mesmo tempo firme e suave que ela trabalhava. Ficou admirando quando ela ia e vinha na lida. Parecia que nada a intimidava. Falou da cor da pele. Pediu licença, falou que ela era muito bonita. Tantas e tantas outras coisas.
. Sofia, disse Emiliano, você é um primor. Esta cor, este andar, este porte altivo, este olhar ao mesmo tempo doce e profundo, são magníficos. Você é magnífica. É um verdadeiro símbolo da beleza brasileira.
Ficou por ali um tempo e depois perguntou se ela aceitava posar pra ele. Na hora, ela achou aquilo meio estranho, disse que não tinha jeito, que não ia saber como fazer. Afinal, esse negócio de posar é pra essas moças bonitas, loiras, de olhão azul, que moram lá embaixo na cidade. Não era pra ela, uma trabalhadora, negra,  moradora de morro.
Emiliano insistiu. Pediu que ela continuasse trabalhando, sem se importar com ele.
Foi isso mesmo que ela fez. Continuou fazendo as coisas dela, limpando chão, passando roupa, batendo pão. Ele ficou por lá, rabiscando uns desenhos numas folhas de papel.
Depois, agradeceu muito e foi saindo, assim meio sem jeito. Só disse que se chamava Emiliano e que voltava quando tivesse terminado o trabalho.
Depois de um tempo, Sofia já tinha até esquecido do episódio quando Emiliano apareceu outra vez.  Trazia um embrulho debaixo do braço.
Quando abriu o pacote, Sofia não acreditou.
Uma negra linda. Fazendo pão. A mão forte amassando a massa. Uma manga da blusa escorrendo pelo ombro. Um seio farto à mostra.
Era ela. Aquela mulata vistosa, alegre, quase monumental. Era ela, mas não podia ser ela. Não acreditava que era ela.
O moço confirmou que era ela sim.
. Sofia, você é a síntese de todas as mulatas, disse ele.
Disse que ela não imaginava como esse encontro tinha sido importante. Agradeceu muito e foi embora.
Ela nunca mais soube nada dele. Só sabe que se chamava Emiliano.
Belisário, que vive olhando revistas, outro dia encontrou umas pinturas em que aparecem umas mulatas iguaiszinhas àquela do quadro de D. Sofia. Diz na revista que o pintor daqueles quadros é famoso no mundo inteiro por causa de suas mulatas.
Se alguém pergunta pelo quadro ou pelo artista, D. Sofia desconversa, continua fazendo as coisas dela. Batendo pão e puxando a alça do vestido que insiste em cair do ombro. Sorriso no canto dos lábios carnudos, olhar meio perdido no tempo…
Num dos cantos do quadro de D. Sofia tem uma assinatura que é igual àquela dos quadros da revista: “E. di Cavalcanti ”.

(jul/2007)

“Um outro mundo é possivel”

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Lateralidades

Author: Delman Ferreira

46 minutos do segundo tempo. O x O. Joguinho modorrento. Cerveja choca. Não sai nem briga.
O artilheiro chega perto do árbitro, abaixa-se e faz de conta que está ajeitando a chuteira. Sem que ninguém perceba, cochicha: ”o ‘omi’ não vai gostá si a gente não ganhá”. E corre pra área.
Recebe a bola em descarado impedimento. Com uma cotovelada, derruba o goleiro e chuta pro gol. Ataque com cobertura nacional. Na frente de todas as TVs.
O Bandeira agita a bandeira desesperado.  Feito biruta em dia de vento sul.
Gooooooooolllllll. Legallll. Garante o árbitro.
Depois do jogo, diante de uma multidão de jornalistas, diante do Brasil inteiro, o árbitro justifica sua decisão: “Olhei para o Bandeira e vi que ele estava com a camisa pra fora do calção. Eu não admito que Bandeira trabalhe desleixado em jogo meu.”.
Daí pra frente estabeleceu-se uma celeuma nacional sobre a etiqueta de comportamento dos bandeiras.
As televisões conseguiram filmes de cinegrafistas amadores, feitos por celulares, que mostravam a camisa do Bandeira no exato momento do lance. A luz do sol impedia uma imagem nítida.
Consultoras de moda,  psicólogos, sexólogos, economistas, analistas internacionais, a moça do tempo, todos foram chamados para opinar.
Uma emissora conseguiu entrevistar a diarista que trabalha na casa do Bandeira e descobriu que o salário estava atrasado. Fizeram campanha de doações para ajudar a moça – arrecadaram geladeiras, fogões, enxoval completo, férias no nordeste… Entrevistas ali, aqui, lá e acolá – matinê, vesperal, madrugadão – tarde de autógrafos – celebridade instantânea – “nu artístico”.
Debaixo de todo aquele foguetório, atrás de toda a fumaça, singelamente ouvia-se uma ou outra vozinha perguntando: “Ixcuta, e o jogo? E a falta? E o impedimento? E o gol? E o árbitro?”. Cada vez que a vozinha tentava falar, mais balbúrdia se fazia em torno do cabelo desalinhado do Bandeira.
Descobriram que o Bandeirinha fazia xixi na cama até a idade de 7 anos. Foi banido do futebol. Raras vezes é visto em locais públicos.
Quando foram pedir a opinião de Belisário, ele mal levantou os olhos da caneca de café que preparava.
- Eu só quero saber o seguinte: é permitido prender ladrões?

(abr/2009)

“Um outro mundo é possivel”

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Cada um no seu quadrado

Author: Delman Ferreira

Todo o Morro do Baco Baco, assim como todo o Brasil, estava ligado na “CPI das Alcovas“.
D. Sofia colocou uma dessas TV de LCD – tela grandona. Todos foram ver a CPI na TV da Mercearia. Audiência maior que final de copa do mundo. Era a primeira vez que o misterioso Thomas Greenfield ia aparecer. Até agora ninguém tinha visto a cara dele.
A CPI investigava chantagens contra autoridades e celebridades. O que se afirmava era que Thomas Greenfield comandava um esquema de escutas de informações sigilosas e depois chantageava autoridades para conseguir e manter favores.
Quando Thomas entrou na sala, até as placas tectônicas do Morro do Baco Baco balançaram.
ERA O POTOCA!!!!! Ninguém conseguia acreditar. Mas, quem entrava na sala da CPI, cercado por seguranças, de terno e gravata, fazendo de conta que era muito importante,  ladeado por uma loura escultural, todo afetado e cheio de poses,  era o POTOCA. Thomas Greenfield nada mais era que o POTOCA, o melequento do Porfírio Tomás Campos.
POTOCA ganhou esse apelido porque eram as primeiras sílabas de seus nomes e também porque vivia mexendo no nariz. Ele odiava o nome Porfírio. Odiava o apelido. Aliás, sempre odiou ter nome brasileiro. Insistia em ser chamado de Thomas, assim, com acento meio inglesado.
Sempre foi muito ligeiro. Não se sabia como, mas ele sempre conseguia, antes, as questões que iam cair nas provas. Só dava cola pra quem o chamasse de Thomas. Quem chamasse de Potoca estaria condenado, jamais receberia as dicas das provas.
Era cheio de manhas. Só dava as questões para meninas. Mas, elas tinham que desfilar com ele no shopping ou alguma balada. Dava um jeito de descobrir algum mal feito, um sem jeito, uma coisa escondida qualquer, e passava a chantagear a menina. Ela desfilava com ele e depois tinha que confirmar o que ele contasse, caso contrário, terror dos terrores, ele espalharia o segredo pra toda a escola. Quando Potoca estava incomodado e queria ameaçar alguém, começava a mexer no nariz. Era o sinal para que a vítima logo se comportasse como ele queria.
Vivia contando histórias, aventuras, casos e performances. Mas, ninguém acreditava muito. Ninguém sabia afirmar de que fruta o Potoca gostava. O que se dizia era que Potoca só queria fazer de conta. Fazia de conta que tinha, fazia de conta que curtia, fazia de conta que vivia, fazia de conta que namorava, fazia de conta que fazia. Vivia fazendo de conta que era mais do que um reles Potoca.
Agora estava ali o Potoca. Todo espaçoso. Certo de que não corria nenhum risco. Um habeas corpus, conseguido em troca de algum segredo,  dava garantias de que só falaria o que bem entendesse, de quem bem entendesse, na hora que bem entendesse. Potoca tinha a República nas mãos, ou melhor, na ponta do nariz. Um sinal seu e a mais ilibada reputação tremeria nas bases e poderia ser jogada por terra – acompanhada por um suspiro aliviado de todos os outros sobre quem Potoca calasse.
Pelo visto, Potoca aprimorou a metodologia e a tecnologia. Além dos jeitos e sem jeitos das meninas do Baco Baco, parece que Potoca especializou-se em descobrir os feitos, os mal feitos e os segredos de alcova das senhoras e dos senhores da Corte, aquém e além mar.
A “CPI das Alcovas“ fazia de conta que investigava o esquema de chantagens montado por Potoca, ou melhor, por Thomas Greenfield.
Por todos os lados – TVs, rádios, jornais, internet – saiam declarações bombásticas: “não vai sobrar pedra sobre pedra“, “quem não deve não teme“, “cabeças vão rolar“, “a República vai ficar sabendo o que se engendra nas alcovas do poder“, uns e outros aproveitavam para desfilar  erudição de almanaque, “esta CPI é a Caixa da Pandora da República“, e blá, blá, blá…
Analistas e especialistas, com toda a pompa e circunstância auferidas por suas gravatas, desenvolviam teses sobre “os reflexos deste desnudamento do modus operandi da política brasileira sobre as forças vivas de nossa sociedade“.
As revistas de fofoca fervilhavam, como um bando de maritacas alvoroçadas. A loura do Potoca virou musa, e já se especula quando, e para “quens“, posará nua. A plebe vibra com a promessa de desnudar a corte. Desvendar o inatingível. Conhecer as entranhas e as roupas sujas do Poder.
No meio deste frenesi geral, Belisário mantém-se frio. No mais profundo ceticismo, segue tomando café aparadinho direto do coador. Vira-se pro balcão e sentencia:
D. Sofia, isso vai dar em nada. Eles já combinaram tudo. Tá todo mundo muito tranquilo porque o Potoca tem habeas corpus e não é obrigado a falar nada. Assim, eles podem perguntar o que quiserem, fazer de conta que estão muito indignados, fazer discursos cheio de moral e ética, defender a Democracia e a Transparência, e fica tudo por isso mesmo.
Vão esbravejar, vão bater na mesa, vão provocar, vão atiçar, vão bater boca uns com os outros. Tudo faz de conta. O máximo que vai acontecer é, quando alguém fizer alguma pergunta meio escabrosa, o Potoca mexer no nariz e rapidamente o perguntador vai mudar de assunto e se dar por satisfeito.

Como que concordando com Belisário, neste mesmo momento, no meio do Morro, alguém liga um som de carro bem alto:
…ADO, A-ADO, CADA UM NO SEU QUADRADO!!!
…ADO, A-ADO, CADA UM NO SEU QUADRADO!!!

(abr/2009)

“Um outro mundo é possivel”

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