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Morro do Baco Baco

Author: Delman Ferreira

Ah! a falta que faz um morro do Baco Baco…

“Morro do Baco Baco”. Diz a lenda que o nome originou-se num hábito dos meninos de certa época que por ali iam viver os principais eventos de sua formação. Era o local preferido pra soltar Pandorga, pra jogar pião ou bolinha de vidro, e pra brincar de “camói” – o aportuguesamento de “cowboy”. Tanto o morro quanto suas histórias foram soterrados pela modernidade de uma via asfaltada.

Entretanto, não foram apenas as brincadeiras que marcaram o Morro. O que fez do Baco Baco uma passagem “insoterrável” na vida e na memória dos meninos daquele tempo foram os ritos e as comparações que ajudaram a formar  personalidades ou aprofundar inseguranças.


Naquela fase em que o energúmeno dá uma “espichada”, fica meio desengonçado e passa a esbarrar e derrubar tudo, não sabe o que quer da vida, a voz fica naquele engrossa/afina, os músculos e os traços masculinos vão ficando mais bem definidos, era lá no Morro do Baco Baco que os meninos se reuniam para medir e comparar seus “instrumentos” em fase de crescimento. Literalmente, era ali que iam ver “quem tinha o pau maior”.


Os primeiros pelos  – era um momento de glorificação. Fazia-se de tudo pra garantir um primeiro fiozinho preto. Descobriam-se os remédios mais escabrosos para dar um empurrãozinho na natureza. Tinha gente que chegava a esfregar cocô de galinha tentando dar uma adubada no local.

Outro momento decisivo era a ejaculação – a grande expectativa – uma cruel linha divisória. Separava aqueles que já se consideravam HOMENS dos outros,  mortalmente feridos, que eram jogados na vala dos “ainda meninos”. A prova definitiva pra adentrar o “mundo dos homens” era a mais crua e básica possível: o “candidato” tinha que conseguir ejacular na frente de todos os outros – para ajudar, apenas alguns “catecismos” do Carlos Zéfiro ou, muito raramente, umas revistinhas suecas ou dinamarquesas, que se conseguia com uns marinheiros. Estas “revistinhas” eram a coisa mais ousada que se dispunha, filme pornô não existia nem nos nossos sonhos mais delirantes.


Mas, o importante mesmo é que o morro do Baco Baco era uma arena sagrada para a disputa mais importante da vida de todos os que viviam aquele momento crucial: “ver quem tinha o pau maior”.


A competição não era um simples “puxa/estica e mede”. Havia as mais diversas modalidades. Valia todo e qualquer truque para ludibriar os outros e ganhar uns milímetros a mais. Cada um que levava desvantagem em uma modalidade logo inventava outra na qual a natureza lhe tivesse sido mais favorável. Tamanho, espessura, formato – qualquer detalhe anatômico – o importante era ser maior em alguma coisa.


Pelo Brasil afora, com certeza, existem centenas de milhares de “morros do Baco Baco” – lugares sagrados onde se dão os fundamentais ritos de passagem da gurizada. Lugares onde o menino se torna um homem muito mais seguro – afinal,  ali ele compreende que sempre existe alguma modalidade na qual pode ser o maior.


Entretanto, assim como muitas outras culturas, os “morros do Baco Baco” também estão em extinção, substituídos pela padronização do mundo “high-tech”. Os ritos de passagem ocorrem sem romantismos, sem mistérios, banalizados e virtualizados  numa  “second life”.


É cada vez maior o número dos que não conseguem sair da vala dos “ainda meninos”, apesar de já avançados em idade. E isso é grave, muito grave – beira à tragicomédia. Vai-se gerando uma horda dos “sem morro do Baco Baco”. Uma turba desorganizada que avança pela vida tentando chamar a atenção de qualquer maneira. Compram os carros mais potentes, as motos mais berrantes, a grife mais grife, os cachorros mais indóceis – e ficam desfilando por aí, meio sem destino, acelerando suas motos na madrugada, estacionando carros e arregaçando o som nas praças e nos bares.


Como não tiveram um “morro do Baco Baco” na época certa, passam a vida inventando as próprias modalidades pra provar que “têm o pau maior”.

As conseqüências da extinção desse fundamental rito de passagem têm sido trágicas para a humanidade. Se tivessem vivido um “morro do Baco Baco”, as criaturas norte-americanas não ficariam perturbando as madrugadas do mundo tentando provar que “têm o míssil maior”.


Ah! A falta que faz um morro do Baco Baco…

(abr/2005

“Um outro mundo é possivel”

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