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Nave no Tempo

Author: Delman Ferreira

Maria Fumaça. De Tiradentes a São João Del Rei. Minas Gerais.

Minas. Eh! Minas.

50 minutos de viagem. Séculos de história vão cruzando na paisagem. Campos. Vales. Montanhas. E atrás de montanhas, mais montanhas: História e Tempo. Dois séculos sentados naqueles bancos. Aquela nave de bancos de madeira, estreitos, duros, desconfortáveis, viaja através de um portão no tempo.

Tempo em que transportava os sonhos, as obrigações e recomendações, de sinhozinhos e sinhazinhas, recém saídos da meninice, levados pra cidade grande. Estudar – deixar pra trás as brincadeiras e vadiagens da infância. Quando voltarem, serão os novos barões e baronesas do pedaço.

Aquela mesma Maria Fumaça, em vagões ainda menos confortáveis, também transportava esperanças e desesperanças daqueles aos quais só restava abandonarem a família e os amigos, suas próprias histórias, suas vidas, seus trens. Rumo ao desconhecido. Gente sofrida que ia atrás de cura para algum mal implacável. Meninos e meninas que fugiam da condenação de serem para sempre semi-escravos dos barões e baronesas do pedaço.

O ventre daquela Maria carregava futuros artistas, doutores, ministros, governadores, presidentes. Futuras frustrações e futuros campeões. Carregava a História de Minas. Carregava boa parte da História do Brasil.

Orgulhosa e imponente, a velha senhora anuncia sua resfolegante passagem, silvando - estrepitosa, rouca e garbosa – por vales, montanhas, cidades e vilarejos.

Crianças param suas brincadeiras. Senhoras param de tricotar. Aquele homem se debruça na enxada. Aquele outro fica com a chave de rodas parada no ar. Aquela moça sonha na janela. Todos param. Todos hipnotizados. Todos acenam. Todos cumprimentam. Todos sonham.

Naquela janela, dois tempos se cruzam. Eles, lá num tempo indefinido entre dois séculos. Nós, aqui de 2010, nostalgicamente observando a passagem do tempo na ligeireza da paisagem.

Aquela Maria Fumaça traz de volta o Menino Delman. Aos cinco anos: queria ser ‘motorista’ de trem. Aos 10 anos, encanta-se com Manoel Bandeira. Sonha viajar de trem: “Café com pão/Café com pão/Café com pão/Virge Maria que foi isto maquinista?/…/ Oô…/Foge, bicho/Foge, povo/Passa ponte/Passa poste/Passa pasto/Passa boi/Passa boiada/Passa galho/De ingázeira/Debruçada/No riacho/Que vontade/De cantar!/Oô…”.

“Bota fogo na fornalha/que eu preciso/muita força/muitaforça/muita força/Oô…”.

Nave mágica. Por um instante, entramos num lapso de tempo. Nostalgia. História. Realidade(?).

Salve Minas. Suas Montanhas e mais montanhas. Sua História. Seus trens.

Finda a viagem. Fecha-se o portão. De volta a 2010.

(janeiro/2010)

“um outro mundo é possível”

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