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A Leveza do Ser

Author: Delman Ferreira
Uma noite, lá pelas três da manhã. Chuvinha fria. Tô lá no Bar do Tião já me preparando pra ir embora.

Chega o Margarido. Negro meio alto, magro, da canela fina. O cabelo começando a pintar. Sambista desses que dançam com toda a leveza do ser. Sem os pés tocarem o chão. Pediu uma carona.

– “Vamo nessa, mas já tô saindo”, respondi.

Pediu só um tempinho. Depois de uma meia hora, voltou e me perguntou se podia levar junto um ‘esquema’. ‘Esquema’ era uma moça que ele tinha conhecido naquela noite. Depois de muito samba no pé, muito rebolado, Margarido “convenceu a Donzela a lhe acompanhar”.

Fomos embora, eu, a Meri, o sambista e o ‘esquema’. Fui tocando e nada dele me dizer para onde ia. Só me apontava a direção. Vira daqui, vai pra lá, agora segue por ali,… e vamos indo,…

Até que chegamos na frente da Penitenciária. Pediu pra parar e, nem me deu tempo de perguntar qualquer coisa, agradeceu, saiu com o ‘esquema’ e foi-se pela Penitenciária a dentro.

Passados uns dias, entro num ônibus e … ora…ora… quem era o motorista, com uniforme da empresa e tudo? O próprio, Margarido, o sambista, a leveza do ser. Dessa vez ele não me escapou. Encostei e fui fazendo minhas perguntinhas.

- “O que tu fostes fazer na penitenciária aquela noite? Trabalhas ali?”.

- “Não, é que eu dei um vacilo e tô puxando um tempo lá. Posso sair pra trabalhar e tenho que voltar pra dormir”.

- “Mas, e o ‘esquema’? Como foi que ela entrou?”

- “É que eu tenho uns lances lá com uns amigos da carceragem. Eu facilito umas pra eles e, quando eles tão de plantão, eles facilitam a minha, me deixam chegar um pouco mais tarde. Aí eu levo uns ‘esquemas’.

Dei-me por satisfeito. Feliz pelo privilégio de conhecer a Leveza do Ser.

(este texto é um excerto de Salve, Tião)

(mar/2010)

“Um outro mundo é possivel”

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