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Na continuidade do tempo, na continuidade da vida, por um outro mundo

Neste domingo, 20/12/2009, tivemos (eu e Laura) o privilégio de assistir o espetáculo PIAF, com a extraordinária e exuberante Bibi Ferreira.

Aos 87 anos, Bibi esbanja vitalidade, sensibilidade, bom humor, disposição para o trabalho e muitos projetos para o futuro.

Pois, o que desejo nesta continuidade da vida, nesta continuidade do tempo, é que todos cheguemos muito bem, e muito além, de 87 anos magnificamente vividos.

Que nossa passagem pelo tempo, e pelo planeta, seja um marco de contribuição para a construção de um outro mundo. Uma civilização muito além do capitalismo e livre das religiões.

Desejo que, em 2010, todos possam desfrutar do prazer de ver a exuberante Bibi Ferreira e que, para todo o tempo que ainda vivermos, sempre vivamos com a mesma força que ela nos inspira.

(dezembro/2009)

“um outro mundo é possível”

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Mulheres que incomodam

Author: Delman Ferreira

Contextualização.
Este texto é um registro comemorativo da assinatura, pela Ministra de Minas e Energia, do Decreto de Regulamentação do PROINFA – Programa de Incentivo às Fontes Alternativas de Energia Elétrica.
O PROINFA foi criado pela Lei 10.438, de 26 de abril de 2002. Entretanto, sua efetiva implantação só poderia ocorrer a partir da devida regulamentação. Foram dois longos anos de empenho determinado das equipes que sempre acreditaram que o Brasil precisa desenvolver e explorar inteligentemente seu inesgotável potencial de geração de energia a partir de fontes sustentáveis e diversas das tradicionais. A assinatura do Decreto pelo atual Governo é demonstração de visão e vontade determinada de construir os caminhos para um futuro de independência e sustentabilidade energética.

Ternura sem perder a firmeza


Neste mês em que ocorre a Semana da Mulher, a assinatura do Decreto do PROINFA constitui uma feliz oportunidade para homenagear estas “mulheres que incomodam”.
Incomodam porque não deixam morrer valores como competência, seriedade, ética, determinação e “ternura sem perder a firmeza”.
Mulheres que, sem se aproveitar de cotas e sem aceitar papéis decorativos ou demagógico-politiqueiros, tendo como principal fator de apoio o próprio curriculum e a própria competência, vêm ocupando postos e desenvolvendo trabalhos que a sociedade estava habituada a ver nas mãos de homens.
O Brasil, construindo uma nova cidadania, concentrou algumas áreas decisivas nas mãos dessas  “personalidades que incomodam”.
O desenvolvimento e o aproveitamento de energias de fontes renováveis e sustentáveis são temas nos quais geralmente se encontra unanimidade, não há quem discorde sobre a importância dessas fontes para a humanidade. Entretanto, confirmando Nelson Rodrigues, toda unanimidade é não somente burra como também enganosa. Todas as vezes que se procurou passar do discurso aparentemente unânime para o efetivo investimento e desenvolvimento de novas fontes, sempre surgiram os mais diversos empecilhos e entraram em jogo pesadíssimos interesses e contradições.
O Brasil tem manancial praticamente inesgotável em alternativas energéticas, que podem torná-lo independente em relação às fontes tradicionais, mormente aquelas de origem fóssil ou nuclear. Muito dinheiro já se gastou, muito já se estudou e muitos projetos pilotos já foram implantados. Porém, sempre se esbarrou em obstáculos aparentemente insuperáveis, que levavam à descontinuidade de projetos e programas.
Um exemplo frustrante foi o PROÁLCOOL, que foi descontinuado quando o preço do açúcar no exterior superou os preços do álcool no mercado interno e passou a ser mais vantajoso produzir açúcar do que álcool.
No caso de fontes alternativas para geração de energia elétrica os programas sempre esbarraram no problema dos custos de geração, na garantia de venda da energia e na tarifa para o consumidor final.
Felizmente, para o bem e a emancipação da humanidade, sempre existirão os empedernidos sonhadores. Por maiores que possam parecer os obstáculos, nunca terão magnitude suficiente para impedir Ícaro de tentar voar ou Don Quixote de enfrentar moinhos de vento por sua Dulcinéa. No Brasil, “excêntricos” e “exóticos” acreditaram ser possível “engarrafar ventos” ou “empastilhar a luz do sol” ou “encaixotar a força das marés” ou “tirar luxo do lixo” ou “gastar cada vez menos energia”.
Acreditando em ventos, um grupo destes sonhadores sempre lutou para que o Brasil investisse no seu imenso potencial energético de fontes não tradicionais. Acreditaram, lutaram e incomodaram. Ao longo do tempo acumularam conhecimentos, ganharam experiência, criaram fatos, conquistaram avanços e foram transformando as fontes alternativas em parte da paisagem e do arcabouço legal.
No entanto, de tempos em tempos toda a energia despendida “fugia por dentre os dedos”. Num movimento pendular, os avanços iam e vinham, animavam e frustravam. As energias alternativas pareciam condenadas a permanecer aprisionadas no futuro.
Na ciência, apesar de todo o rigor, também ocorrem imprevistos que provocam saltos no tempo. Assim, no Brasil, uma conjuminância de fatores veio garantir a consolidação de tantos esforços empreendidos ao longo de tanto tempo. À frente do Ministério do Meio Ambiente, do Ministério de Minas e Energia, da Secretaria de Petróleo, Gás Natural e Combustíveis Renováveis, da Diretoria Nacional de Energias Renováveis, da Diretoria Nacional de Eficiência Energética e da Consultoria Jurídica do MME, encontramos algumas dessas “mulheres que incomodam”. Personalidades diversas e firmes que, confirmando Raul Seixas, sonharam simultaneamente o mesmo sonho e estão transformando a realidade.
Unindo a metodologia da ternura em alguns momentos com firmeza intimidante em outros ou tenacidade e perseverança permanentes, estão tecendo um plano irreversível para combater o desperdício e fazer do Brasil o manancial mundial de energias renováveis e sustentáveis.
Determinadas, conseguiram unir órgãos normalmente conflitantes, como a área ambiental e a área energética, em torno de um mesmo projeto.
Todos sabemos que no Brasil existem algumas “leis que não pegam”. Irredutivelmente, essas “mulheres que incomodam”, juntamente com suas equipes nas quais se incluem muitos homens também sonhadores, vêm enfrentando interesses contraditórios ou desafiando todo o descrédito, e conseguindo fazer com que essas “leis” se transformem em instrumentos respeitáveis e respeitados.
Programas como os que visam o incentivo ao desenvolvimento de energias alternativas, ou o desenvolvimento de bio-combustíveis ou de eficientização do uso de energia, poderão se tornar realidade graças a essas equipes que não abrem mão de perseguir sonhos.
A grande arte dessas equipes tem sido unir a capacidade de sonhar à necessidade de desenvolvimento com sustentabilidade e demonstrar que aquele distante futuro pode ser antecipado e traduzir-se em cidadania para alguns e lucros para outros.
Estão contribuindo, decisivamente, para o desenvolvimento de nova mentalidade de transformação e aproveitamento da natureza – sem destruição. Com sabedoria e espírito aberto, não se precisará transformar o meio-ambiente em altares intocáveis, será possível conciliar desenvolvimento, qualidade de vida e preservação.
Por fim, considerando a personalidade cordial do brasileiro, poderemos entrar no bloco mundial dos sonhadores e imaginar que, sendo o Brasil, em futuro próximo, o principal manancial de fontes energéticas sustentáveis, o Mundo poderá superar um dos grandes motores das guerras presentes, a disputa pelo controle da energia, e antecipar sua caminhada para a “Era de Aquárius”.
Salve as “mulheres que, em postos de destaque ou de forma anônima, incomodam”. Minha grande esperança é ainda ter tempo para viver uma era em que os postos de decisão sejam ocupados qualitativamente por estas personalidades que incomodam, independentemente de sexo ou de opção sexual. Será, sem dúvida, uma Era de Tolerância e de Sensibilidade.


(mar/2004)

“Um outro mundo é possivel”

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“o melhor lugar do mundo
é aqui e agora”
(Gilberto Gil)


Lhaço é um cientista, pesquisador, que vive numa galáxia distante da Terra. Seu interesse principal está ligado aos buracos negros, sem deixar de lado as curiosidades e as diversidades que vai descobrindo pelas estrelas que suas câmeras conseguem alcançar.
Um dia, zapeando pela TV Galáxia, deu com o carnaval do Brasil. Curioso, Lhaço parou e ficou acompanhando e estudando. Infelizmente para suas pesquisas, o que viu foi o carnaval que a TV mostrou.
“A maior festa popular do mundo”. Um espetáculo magnífico. Carros luxuosíssimos. Modelos espetaculares que quase deixavam desvendar seus buracos negros. Coreografias muito bem ensaiadas e sincronizadas. Explosões de fogos de artifício. Tecnologia moderna e abundante. Sem dúvida, um espetáculo de encher os olhos. Ele só sentiu um pouco a falta do povo na maior festa popular do mundo. Até que, num relance rápido, a TV Galáxia mostrou o povo… Nas arquibancadas.
Em outro momento, mostraram outro “maior carnaval do mundo”. Caminhões que levavam enormes sistemas de som onde se revezavam cantoras e cantores que entoavam uma espécie de mantra que ia se repetindo dias a fio. E o povo – ali tinha povo, colorido, alegre, vibrante – pulando e dançando e suando e pulando, desordenadamente. Uma espécie de êxtase coletivo que devia ser provocado pela repetição incessante do mantra: “poeira, levantar poeira…”.
Mais um pouco de tempo e a TV mostra “o maior bloco de carnaval do mundo”. Uma multidão – um rio de gente – se arrastando por ruelas impensáveis. O maior desafio às leis físicas que Lhaço já tinha presenciado. Uma força mágica inexplicável que fazia com que um milhão de pessoas saíssem do chão e ficassem no ar simultaneamente nos primeiros acordes de cada frevo conhecido. Numa fração de segundo, um milhão de pessoas paradas no ar. Um milhão de enfeitiçados subindo e descendo ladeiras em êxtase, remotamente controladas por um simples toque de vassourinhas.
Cada local dizia fazer “o melhor carnaval do mundo”. Lhaço não conseguia entender.
Não entendeu porque não viu. Não viu, por que a TV nunca mostrou o verdadeiro carnaval de cada local. Povo espontaneamente brincando sem freios, sem limites, sem roteiros, sem coreografias, sem cordas e sem discriminação.
A TV Galáxia nunca mostrou o povo do Rio, pelo Rio afora, brincando, fantasiado ou sem fantasia, cantando e dançando samba nos morros e, sem holofotes, em famílias, nos blocos de cada bairro ou de cada rua.
Também não viu a miríade de sons e cores e balanços dos blocos baianos de todos os matizes. Não sentiu a ladeira do Pelourinho vibrar com os afros de pé no chão. Não sentiu a força dos ritmos negros e blocos de índios que não passam nas TVs, nem ganham discos de platina. Pés, pernas, braços, cabeça – todos tomados por dança incontrolável. Malemolência, suor escorrendo e tesão incontido.
Nunca lhe passaram pelas telas a divertida criatividade dos milhares de fantasias dos carnavais de Olinda, nem os maracatus ou os caboclinhos ou os “tambores silenciosos” dos arredores,… Ou a delícia de um frevo debaixo de chuva.
Mas, a procura pelo “melhor carnaval do mundo” ainda reservava nova surpresa. Continuando a zapear, Lhaço surpreendeu-se com uma inesperada síntese dos carnavais. Como se fossem miniaturas desfocadas no tempo dos carnavais do Rio, Salvador e Olinda, misturadas com comportamentos de tempos remotos, acopladas num único carnaval: São Luis do Maranhão.
Mistura de elementos primitivos com pitadas de tecnologias modernas.
Um carnaval por ruelas também estreitas onde passam milhares de pessoas arrastadas por blocos que tocam ora em cima de caminhões copiando os trios elétricos, ora no chão com instrumentos rústicos feitos à mão ou, ainda, puxados por caminhonetes que carregam apenas as caixas enquanto os cantores vão caminhando no meio dos brincantes.
E, apesar do imaginável tumulto que é a passagem de milhares de pessoas pulando e se apertando por essas ruelas, mesmo assim, as famílias bucolicamente colocam mesas e cadeiras nas calçadas para apreciarem as brincadeiras.
Pais e mães trazem filhos pequenos para brincar e viver juntos a alegria do carnaval no meio dos blocos e para disputar a tradicional guerra de espuma.
Há blocos modernosos – meio “fake” – aqueles que copiam trios elétricos.
Há blocos tradicionais – com enormes e pesadas fantasias, que lembram as roupas da corte portuguesa, cheias de veludos e plumas coloridíssimas.
Há uma “jardineira” – marinete charmosa – que transporta uma banda tocando marchinhas de velhos carnavais mescladas com hits atuais. Lembra um coreto de pracinha de interior. Um coreto ambulante.
Há uma “casinha da roça” – casa de palha sobre um caminhão, que carrega pessoas da zona rural que dançam ao som de tambores e servem comidas típicas.
Há o “Tambor de Crioula” – dança típica onde os homens tocam tambores enquanto as mulheres dançam com saias muito rodadas e floridas.
Há os Viva – palcos alternativos localizados nos bairros ou em pontos específicos do circuito principal do carnaval. Nesses palcos os blocos fazem paradas e apresentações especiais ou se apresentam cantores da terra.
Há blocos alternativos – o carro abre-alas de um deles é um jegue-surfista.
Há os afoxés de pé no chão, que saem das casas de minas, que são as casas de candomblé de lá. Como o Akomabu, de Mãe Lúcia, que aos 99 anos de idade ainda dá suas rodadas no carnaval e manda todos se divertirem, pois “a vida é muito bonita”.
Há os blocos tribais – também conhecidos como “blocos de índios”.
Há escolas de samba – que desfilam na Passarela do Samba.
Há as radiolas – onde se tocam, por mais de 12 horas seguidas, os melhores  reggaes locais.
Enfim, uma síntese de todos os carnavais, embalada por uma população alegre e acolhedora, como por exemplo, o afetuoso Zé Antonio que abre as portas e recebe em casa os turistas recomendados por amigos dos seus amigos.
Lhaço, em suas pesquisas, não percebeu que é muito fácil encontrar e entender o melhor carnaval do mundo. Basta ir até onde o povo está. Não precisa levar nenhum apetrecho ou fantasia especial. Os ingredientes básicos são: povo, um quase-nada de disposição e… duas doses.
Duas doses – podem ser daquilo que melhor lhe alegrar. As bancas de São Luís oferecem uma imensa variedade: Pau do Índio, Pau do Negão, Xoxota, Xixi da Sacha, Mestruada (sic), Homem Véio, Pé Enchado (sic), e muitas outras, inclusive uma de cor lilás que é extraída da mandioca, a Tiquira.
Por isso, a Sabedoria é a seguinte: LHAÇO, SAI DA FRENTE DESSA TV. No próximo carnaval vá para onde o povo está:
Para encontrar buracos negros, bastam apenas duas doses e uma boa pá, Lhaço.
Aqui e agora – é onde fica o melhor carnaval do mundo… e arredores!!!

(Carnaval 2004.)

“Um outro mundo é possivel”

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Brasília/Floripa – DE MOTO

Author: Delman Ferreira

“quem vai ao mar,
se avia em terra”
(antigo dito português)

Aventura? Loucura? Muita coragem?
Nem uma coisa, nem outra, apenas o prazer de estar em deslocamento.
O prazer de uma longa meditação dinâmica.
Pensamento à toa – a pensar em nada.
A dor e a delícia de estar em crescimento.
Ao retornar, o viajante que chega nunca é o mesmo que partiu.

Viajar o Brasil por terra é conhecer um impressionante caleidoscópio de tipos humanos, paisagens, cores e climas – além de transitar por realidades muito variadas de organização urbana, desde regiões cuja infra-estrutura é de primeira linha até regiões onde as possibilidades de vida são sempre sub-humanas.
As condições das estradas dizem muito do padrão de vida que se oferece às comunidades que lhes são vizinhas.
Planejar.
Este é o principal ensinamento dos navegadores portugueses.
Quem sai para uma longa viagem, não pode chegar no meio do caminho e descobrir que esqueceu ou deixou de lado algo que, de uma hora para outra, pode se mostrar de extrema importância.
Planejar é fundamental para que um esquecimento qualquer não transforme tudo numa tragédia. É muito importante pensar alguns detalhes antecipadamente.
Seguindo este ensinamento, compramos um CD-ROM do Guia Quatro Rodas. Com ele é possível preparar um preciso plano de viagem, com mapa de todo o roteiro, locais de abastecimento, restaurantes, hotéis/pousadas, passeios turísticos etc. Também conversamos com amigos experientes, compramos revistas e acessamos sites com relatos de viagens semelhantes na internet – desta forma foi possível saber o que é mais importante levar na bagagem, como roupas para o frio, medicamentos de primeiros socorros, canivete multifunções e coisas para a moto como ferramentas, cabo para chupeta, spray para encher pneus, chave reserva.
Nossa nave: uma moto APRILIA – PEGASO 650.
Saímos de Brasília numa terça-feira, 8:30h, temperatura 18°, através de uma rodovia que atravessa o setor de mansões – pista dupla, bem sinalizada, asfalto bem conservado, emoldurada por uma bela fileira de árvores.
Seguindo a experiência de quem já havia feito outras viagens, decidimos fazer uma parada a cada hora de estrada ou, aproximadamente, a cada 100 Km. Tomar café, fazer alongamentos, relaxar e abastecer a moto – um ritual sagrado. Também decidimos que não almoçaríamos para evitar a sonolência pós-almoço. Levamos algumas barrinhas de energéticos e uns Gatorade.
Com este “plano de vôo”, saindo antes das 9h da manhã, seria possível cobrir uns 700 km antes do por do sol, assim evitaríamos viajar à noite.
Uns trinta quilômetros depois, alcançamos Valparaíso e chegamos até Luziânia. Continua a pista dupla – o que pressupõe uma via de tráfego intenso – mas as condições mudam radicalmente.
Nos vinte quilômetros que separam Valparaíso de Luziânia, fica-se com a assustadora impressão de que cada indivíduo faz as próprias leis, de acordo com a conveniência do momento. Pessoas e animais cruzam a via a qualquer tempo. Carros saem das laterais e entram na via rápida cortando veículos que venham em maior velocidade. Um sujeito estica o braço pela janela de um carro e faz um sinal de positivo com o dedo – de acordo com a lei que acabou de criar, entende que isto lhe dá o direito de mudar de faixa bruscamente cruzando na frente dos outros sem se preocupar com o estrago que pode fazer. Outros saem “costurando” e ultrapassando nas lombadas.
Trata-se de verdadeira “terra sem leis”.
De Luziânia à Cristalina, seguimos por um trecho horroroso da BR-040. Estreita, esburacada e com trânsito intenso e neurótico de caminhões e carros pequenos.
Em Cristalina, fizemos a primeira parada – depois de 120 km de um percurso bastante tenso – numa “Pamonharia” que oferece todo o tipo de produtos extraídos do milho: pamonha, curau, suco de milho, galinha com polenta etc. Foi lá o nosso café da manhã.
Planejamos viajar numa velocidade máxima por volta dos 120 Km/h, respeitando o que o estado da estrada permitisse, sem correr nenhum risco, sem ultrapassagens duvidosas e sem “curvas com o pedal arrastando no asfalto”.
Ainda em Cristalina, tomamos a BR-050 em direção a São Paulo. Seguindo a programação, fomos fazendo paradas, relaxando, alongando e comendo nosso “lanchinho”. Clima maravilhoso, céu azul, temperaturas variando entre 18° – 27° – 18°.
A BR-050, no trecho que atravessa Goiás, é o pedaço mais bonito dessa primeira etapa da viagem. Cruza uma deslumbrante paisagem. O Cerrado nos oferece a visão de montanhas e chapadões belíssimos. Vai-se cruzando fazendas que bordam a paisagem com variadas cores e desenhos pontilhados de gado pastando ou de casinhas singelas e solitárias.  Nos chapadões, há a predominância das plantações de soja e de algodão, esta um verdadeiro mar branco.
Apesar de não ser duplicada, e também ter um tráfego intenso, a estrada está em bom estado e tem curvas bem desenhadas mesmo nos longos trechos de subida ou descida – isto possibilita uma pilotagem tranqüila e permite “desligar”, apreciar a paisagem e meditar.
Parece que os transeuntes que trafegam por este trajeto são bastante divertidos, pois existe um número impressionante de “boates” pela beira de quase toda a rodovia, do tipo que antigamente era conhecido como as “casas da luz vermelha”.
Quando a BR-050 entra em Minas Gerais o quadro muda completamente. Na medida em que nos aproximamos de Araguari/Uberlândia/Uberaba, o trânsito vai ficando cada vez mais intenso e nervoso. A estrada está muito mal conservada e vai se tornando cada vez pior. Exige muita atenção de pilotagem – a viagem torna-se tensa e cansativa.
Uma imagem sempre chocante são os acidentes que se encontra. Ao longo da viagem, em momentos diversos, passamos por três caminhões virados.
Depois de uns 550 Km de viagem, cruzamos a ponte sobre o Rio Grande, fronteira entre Minas Gerais e São Paulo.
Mudamos de País ???!!! Adentramos por outro mundo???!!!
Muda a paisagem, muda a tonalidade do verde, muda todo o entorno.
Entramos na Rodovia Anhangüera.
FARRA !!! A VIAGEM VIROU PURA FARRA !!!
Pra quem vem de um trecho sob tensão, entrar na Anhangüera é entrar em um paraíso rodoviário.
Mesmo um intransigente combatente das privatizações sente-se obrigado a admitir que, neste caso, a concessão trouxe benefícios inquestionáveis. Podemos levantar suspeitas sobre a lisura dos processos ou questionar os contratos e o valor dos pedágios, mas é inegável que ali se alcançou um padrão elevado de construção e conservação de rodovias, além de socorro e assistência imediatos – um padrão que se deseja para todo o Brasil.
Depois de encontrar e ser obrigados a utilizar alguns banheiros que não passavam de latrinas, na Anhangüera , “visitar” os banheiros quase chega a ser um prazer à parte, tamanha a qualidade do ambiente. Sem falar dos cafés expresso e das empadinhas de palmito com palmito.
Aqueles que viajam de moto, além das tensões normais, carregam um estressante fantasma adicional que é o medo de “levar uma vaca”, ou seja, o medo de que de uma hora para outra surja um buraco na pista do qual não se consiga desviar. Esta surpresinha, a mais de 100 Km/h, pode significar um tombaço nada agradável. Na Anhangüera – pura farra – o asfalto é um carpete, sem ondulações, sem buracos – certeza de que não encontraremos sobressaltos desagradáveis. Rodovia dupla. Duas e, eventualmente, três pistas de cada lado. Área de escape segura. Visão ampla para todos os lados. Permite antecipar e tomar decisões com toda a tranqüilidade. É PAZ NA ESTRADA.
Nesta etapa, a preocupação passa a ser a de não ultrapassar o limite de velocidade planejado. O cérebro da gente tem um comportamento interessante: vai se adaptando gradativamente à velocidade. No início da viagem, quando chegávamos aos 100 Km/h, logo vinha a sensação de estar em excesso. Depois, com o passar do tempo, este limite foi se ampliando de tal forma que 110 ou 120 Km/h passam a ser velocidades confortáveis, nas quais se viaja sem tensão. Ao entrar na Anhangüera, o cérebro torna-se muito mais tolerante e, sem perceber, vamos elevando o limite da velocidade confortável. Se não cuidamos, logo estamos viajando acima dos 140 Km/h sem sentir. Há que tomar cuidado para manter os 120 Km/h e continuar a viajar “viajando”.
Setecentos e trinta quilômetros depois, chegamos à Ribeirão Preto por volta de 17:30h, dentro do planejado. Foram 9 horas que se passaram quase sem percebermos. Em viagem de moto o tempo não se conta em minutos, conta-se em quilômetros percorridos, em paisagens curtidas, em etapas vencidas.
Estando em Ribeirão Preto, é de lei tomar alguns chopes no Pingüim, uma das choperias mais tradicionais do Brasil. Além de cumprir um ritual, os chopes têm a função de fazer baixar o nível de adrenalina e permitir um bom relaxamento e uma boa noite de sono.
Quarta-feira – saímos cedo. Céu azul, temperatura por volta dos 17°. Depois dos primeiros 100 Km, entramos numa cidade chamada Porto Ferreira.
Na praça central, em frente à matriz, encontramos um figuraço que viaja o Brasil num veículo que se assemelha a uma bicicleta. Originalmente deve ter sido uma bicicleta, atualmente é uma espécie de penteadeira sobre duas rodas que carrega todo tipo de bugigangas e lembranças. Desde simples broches, passando por uma enorme coleção de relógios de todos os tipos – pulso, despertadores, até um pequeno cuco – bandeiras e flâmulas, porta bagagem com algumas roupas e tralhas como panelas, talheres e um pequeno fogareiro, lixeiro e até uma gaiola com um passarinho vivo – coisas que a necessidade, o acaso e a curiosidade foram amontoando. O condutor é um personagem saído de outros tempos, alguma coisa meio hippie, idade indefinível, que anda pelo mundo pregando a paz e vivendo do que as pessoas dão ou da venda de algum trabalho manual – artesanato preparado com material doado. Não nos disse o nome, apenas se apresenta como um viajante a favor da paz.
Seguimos viagem pela Anhangüera até a Bandeirantes. A farra continua. Pela Bandeirantes até o Rodoanel.
O Rodoanel é outra obra fundamental. Graças a ele, não precisamos entrar na cidade de São Paulo. São 28 quilômetros que contornam a cidade e nos jogam diretamente na saída pela Régis Bittencourt.
Até o momento, viajamos por uma região de São Paulo que impressiona pela elevada qualidade de vida, que se reflete na qualidade das pistas (Anhangüera, Bandeirantes e Rodoanel).
Ao sair do Rodoanel e entrar na Regis Bittencourt, tem-se um choque de realidade. Muda novamente o entorno. A paisagem torna-se agressivamente feia. A qualidade da rodovia cai sensivelmente. Atravessamos uma região pobre de Osasco. O contraste é gritante e assustador.
Mal entramos na Régis, começou a chover. Como o trecho está em obras, havia barro espalhado na pista. Os caminhões passavam e nos cobriam com um spray de lama. As viseiras dos capacetes foram ficando enlameadas e sem nenhuma visão. Seguimos atrás de um caminhão até o primeiro posto de gasolina. Paramos e esperamos a chuva passar. Logo o tempo abriu e apareceu um sol meio tímido.
Seguimos viagem, com tempo bom, até Miracatu. Paramos e cumprimos nosso rito – alongamentos, relaxamento, lanche, abastecimento. Faltavam 280 quilômetros. Era, mais ou menos, duas horas da tarde. Temperatura amena, coisa de uns 20°.
Neste momento cometemos o maior erro da viagem – um erro de cálculo que tornou dramático o último trecho desta segunda etapa.
Faltavam 280 quilômetros e eram duas horas da tarde. Como estávamos conseguindo fazer uma média de uns 100 quilômetros a cada hora, calculamos que, com uma única parada, mesmo que a média caísse para uns 80 quilômetros para cada hora, seria possível terminar a segunda etapa até 17:30h, ou seja, antes do por do sol.
Ledo e grave engano.
Seguimos viagem. Céu meio nublado, dia claro, sol no céu brincando de esconder por trás das nuvens. Passamos por Registro e iniciamos a descida da Serra. Deste ponto até São José dos Pinhais, nosso objetivo desta etapa, seriam uns 200 quilômetros.
Na Serra não existem postos de gasolina e, muito menos, pousadas ou pontos de repouso – é apenas asfalto, montanha de um lado e montanha ou precipício de outro. Não existe onde parar, depois que se inicia a descida, o jeito é ir até o final. Os caminhões descendo a Serra, devido à inércia, não têm condições de frear repentinamente, assim, não se pode ficar parado à beira do caminho contando com a sorte, há que seguir em frente.
Iniciamos nossa descida e o tempo foi fechando. Quando estávamos a meio caminho a natureza virou-se contra nós.
Como o sol se põe atrás dos morros, escureceu cedo e a noite caiu rapidamente. Começou a chover e, para compor definitivamente um quadro trágico, a temperatura caiu drasticamente.
Naquela noite os termômetros marcaram 7 graus em Curitiba. Como na Serra é mais frio, na Moto a sensação térmica ficava bem abaixo de zero.
Mesmo com todo o planejamento, sempre ocorrem os imprevistos: não tínhamos roupas para enfrentar um frio daquela magnitude. Fomos ficando encharcados e congelados.
Não havia como parar e não fazia sentido pensar em voltar. Havíamos ultrapassado o que os navegadores chamam “point of no return”. O jeito era seguir em frente, contra o vento, contra a chuva, contra o frio e contra o negrume da noite.
Não se conseguia enxergar nada. As viseiras dos capacetes estavam cobertas de gotículas que confundiam a visão completamente. Os caminhões que passavam nos enchiam de lama e deixavam um rastro de spray que tornava o quadro ainda mais caótico. A velocidade média caiu abaixo dos 50 ou 40 Km/h, com trechos ainda mais vagarosos.
Mas, mesmo no caos é possível viabilizar algumas alternativas.
Com o farol da moto era possível iluminar a faixa branca pintada à direita da pista. Nos agarramos nessa faixa como guia e esperança de salvação.
Os caminhões e carros pequenos passavam muito rápidos – não dava coragem para segui-los. Até que um caminhão salvador passou por nós a uns 60 Km/h. Fomos buscar um resto de coragem e seguimos aquele caminhão. Mantendo uma distância que nos livrava do spray, mas que permitia nos guiarmos pela iluminação traseira. Passamos a ter dois guias: a faixa lateral e a iluminação do caminhão. Não enxergávamos mais nada. Qualquer alteração na pista (buracos ou saliências) poderia ser fatal.
Quando faltavam uns 80 Km, paramos no único posto de gasolina que apareceu. Um posto de aspecto muito pouco hospitaleiro. Abastecemos a moto, tomamos um conhaque (São João da Barra !!!) e decidimos seguir. Eram 7 horas da noite. Faltavam apenas 80 quilômetros.
Novamente contra o vento, contra a chuva, contra o frio e contra o negrume da noite. A partir deste momento, achegou-se a nós um novo companheiro de viagem: o Pânico. Não era um medinho qualquer, não se sentia apenas frio ou dores ou desconforto – ESTÁVAMOS EM PÂNICO !!!
Levamos duas horas para cobrir aqueles últimos 80 quilômetros. Durante estas duas intermináveis horas, a cada segundo, a sensação era de que no próximo segundo iria acontecer uma tragédia. Andamos cada milímetro destes 80 imensuráveis e intermináveis quilômetros tendo a certeza de que o próximo milímetro nos esperava com uma armadilha fatal. Nem Alfred Hitchcock, nas suas obras primas, foi capaz de imaginar suspense tão angustiante. O maior desejo, naquela situação, era sermos abduzidos e levados para qualquer outro planeta.
Mas, mesmo as mais angustiantes duas horas ou os oitenta mais longos quilômetros da vida um dia terminam. Estes, também terminaram.
E terminaram em São José dos Pinhais, na casa da Aline e do Edson, que junto com a Ana, a Deni, o Lucas e o Vitor, nos agasalharam com muito carinho, um banho quente, o melhor jantar do mundo e cobertores, muitos cobertores.
Quinta-feira – continuamos em São José dos Pinhais.
Sexta-feira – seguimos para Matinhos, no litoral do Paraná, pela BR-277.
Em Matinhos, fomos recebidos pela Dirciney, João, Alice, João Gustavo e Joana, que também se desdobraram para nos oferecer a melhor acolhida possível, com moqueca de robalo e cavala grelhada inesquecíveis. E um bobó de camarão de baiano babar!!!!
Domingo – seguimos para Floripa. Pela BR-101, também duplicada e bem conservada no trecho norte de Santa Catarina.
Domingo. 1970 Km: finalmente Floripa.
Alguns dias à toa, na companhia da família e de amigos especiais.
Floripa é um privilegiado pedaço de terra que é Brasil, mas fica ali do ladinho do Brasil. O Brasilzão fica do outro lado da ponte.
Floripa é a terra dos manezinhos, com seu ritmo próprio e seu jeito especial de ser, falar, ver e viver a vida. Um tipo especial de gente que sabe que se não der pra fazer hoje, o sol vai continuar a nascer amanhã e depois e depois, daí a gente vê como é que fica…
Dia dos Pais. Bruno, 7 anos, registrou o Dia dos Pais com uma “Caixa de Idéias” – que ele mesmo construiu na maior felicidade. Um doce registro de infância.
Volta – 1750 Km.
A realidade nos espera com hora marcada.
A volta foi tranqüila e sem grandes incidentes – por estradas e paisagens que, apesar de serem as mesmas, sempre oferecem novas tonalidades e permitem novos olhares.
Em conversa com um amigo que mora em Floripa, fomos provocados a fazer uma viagem, de moto, até a Patagônia ou até os Andes, no Chile.
… quem sabe…
… vai depender de aviamentos muito precisos…e preciosos…

(inverno/2004)

“Um outro mundo é possivel”

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