Posts Tagged ‘lágrimas’

a beleza de uma lágrima

Author: Delman Ferreira

Severino é um desses milhões de brasileiros e brasileiras esculpidos em terra esturricada … pelo sol inclemente … na chuva… no vento… no dia-a dia desesperançoso.


Jamais extravasara a menor expressão ou deixara perceber um mínimo vestígio que permitisse identificar qualquer um de seus sentimentos. Homem de extrema economia de palavras, desses que se dirige espontaneamente apenas aos seus animais. Que nunca possibilitara qualquer expansão mais animada aos filhos ou à mulher.


O que viveu naquele dia, porém, foi incontrolável e inesquecível.


Quando entrou em casa com a televisão usada que conseguira em troca de uns trabalhinhos na casa de um primo da cidade. Quando ligou a TV e apareceram as primeiras imagens. Quando viu nos olhos dos filhos e da mulher uma felicidade nunca estampada. Quando recebeu o apertado abraço de bracinhos tornados incontroláveis pela alegria…. Severino não resistiu – por seu rosto curtido rolaram indisfarçáveis lágrimas. Peito estufado – orgulho incontido – alegria sem limites.


Ele não tinha acreditado nada, nada, quando viu a propaganda do Governo que dizia que iam botar luz de graça na casa dos pobres. Mas, pra surpresa de Severino e de todos os outros que, como ele, também não acreditaram e não esperavam mais nada além das durezas da vida, de repente apareceram uns operários e começaram a colocar postes e a instalar ‘luz’ na casa das pessoas.


Agora, tava ali a TV ligada mostrando uns desenhos que o filho adorava ver na casa dos primos da cidade. Os meninos iluminados de felizes. O pequeno pendurado no pescoço, num abraço apertado como ele nunca mais lembrava de ter recebido. A mulher, toda faladeira, andando de um lado pra outro sem saber o que fazer ou onde guardar tanta alegria – naquele dia ela certamente ia “se fazer bonita como há muito tempo não ousava ousar”.


Agora, ele que quase não falava com ninguém porque não queria ouvir mais reclamação e que morria de vergonha de não poder dar uma vida melhor pra mulher e pros meninos, ele estava ali, explodindo de orgulho porque tinha podido trazer muita alegria pra dentro de casa.


E aquela lágrima que insistia em correr pelo cantinho do olho… O que é que faz um homem numa hora dessas?…

(ago/2005)

“Um outro mundo é possivel”

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Carta ao Tedo

Author: Delman Ferreira
Tedo - Avalon

Fui pegar o quadro que mandei fazer com esta foto e me dei conta que estou com muitas saudades de ti. Hoje em dia, quando lembramos de ti, também lembramos da May, portanto, esta saudade se estende também para ela.

A foto vai se incorporar à Galeria OsFerreira, na Lagoa.

Bateu certa nostalgia. Muita vontade de estar contigo, de fazermos juntos aquela sonhada viagem de moto pela América do Sul ou de barco pelas costas brasileiras e arredores.

Dai, fiz uma outra viagem. No tempo. Quando lembro de ti, existe uma passagem recorrente na minha memória. Uma vez, naquela casa das Rendeiras, tu ainda tinhas pouco mais de três anos, eu estava arrumando alguma coisa e tu apareceste com um martelo na mão. Eu perguntei o que ias fazer com aquele martelo e tu respondeste: “Judá Papai. Judá Papai”.  Nunca esqueci esta cena, até agora ela me emociona.

Fomos morar na Lagoa porque quando tu nasceste os médicos disseram que tinhas “bronquite asmática”. Além disso, quando começaste a andar, te atrapalhavas com as pernas. Teus pés eram muito grandes. Os médicos diziam que não tinhas boa coordenação. Queriam fazer uns tratamentos completamente loucos.

Seriam medicações e mais medicações para a bronquite, porque senão, diziam os médicos, poderias ter problemas respiratórios pela vida afora. Para as pernas, eles queriam colocar uma armadura de ferro para girar os ossos. Uma armadura parecida com aquela que o personagem daquele filme “Forrest Gump” usava quando era guri. Não aceitamos.

Orientados por um amigo que era médico-acupunturista,  preferimos mudar para a Lagoa. Remédios para a respiração são todos na base de iodo. O melhor lugar para respirar iodo é à beira mar, assim, ao invés de medicações, preferimos mudar para perto do mar, onde o iodo é permanente. Além disso, tu poderias correr o tempo todo na areia da Lagoa, que era o melhor remédio para tua coordenação e para o fortalecimento das pernas.

Acho que foi uma de nossas decisões mais acertadas. Gosto muito daquele tempo que passamos juntos na beira da Lagoa. Tínhamos muito pouco dinheiro. Muitas dificuldades. Mas, tínhamos a Lagoa toda para nós. Para vocês, todos pequenos, aquela casa era meio mágica.

Depois, a vida nos afastou um pouco. Tenho muito orgulho de minha militância. Sem dúvidas, o que sou hoje devo a todo o trabalho e toda a luta política de que participei. Mas, isso teve um preço. Algumas vezes um preço alto. Muitas viagens, muitas reuniões, muitas lutas. Fizeram ficar longe de vocês muito tempo. Hoje, eu sinto isso.

Talvez eu devesse ter ficado muito mais tempo com vocês. Não sei. Não sei se poderia ser de outro jeito. Se eu não tivesse participado das lutas políticas, do Sarapiquá, do Sindicato, do PT etc., certamente eu seria outra pessoa. Não sei se eu teria a mesma compreensão de mundo e a mesma relação com vocês.

Depois, quando me fixei, tu foste surfar o mundo – construir o teu mundo – do outro lado do mundo. Creio que, assim como a militância foi importante nas minhas descobertas pessoais e na minha formação, a Austrália está sendo fundamental nas tuas próprias descobertas, teu crescimento e formação pessoal.

Bueno, assim como a vida afastou, agora é hora de aproximar. O que sei, agora, neste instante quando escrevo, nestes tempos que correm, é que estou com muita vontade de estar perto de ti. Estou com muita vontade de fazer viagens contigo. Descobrir coisas e lugares. Partilhar histórias e experiências. Construir uma nova etapa juntos.

Américas nos aguardem. OsFerreira vão te desvendar – de moto e barco.


Um grande beijo.


Um grande beijo na May, que tem grande papel nas tuas descobertas.

Um papai saudoso.
26/06/2008.

P.S.:  – estou terminando esta carta com lágrimas nos olhos.

“Um outro mundo e possivel”

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