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Haja…

Author: Delman Ferreira

Transeuntes!

Transeuntes!

A ameaça comunista ronda vossos lares! Querem destruir vossas famílias!

Eles andam sumidos das ruas. Mas, até pouco tempo, invadiam nossas cidades com suas flâmulas gigantescas, bradando refrãos apocalípticos com vozes graves e aterradoras. Tradição, Família e Propriedade – a expressão mais apurada do conservadorismo ao sul do equador.

Hoje, eles invadem nossos computadores com enfadonhas e patéticas teorias conspiratórias.

Conservadores. Um tipo de gente que é contra avanços. Movimentos? Só para os lados, vagarosamente. Passo à frente? Jamais. Qualquer indício de evolução provoca urticárias nessa turma. Entendem que tudo o que se move para frente vai contra leis superiores. Forjam leis e se opõem a qualquer alteração no mundo em que estão confortavelmente situados.

Abaixo a ciência! Deve ser uma de suas bandeiras mais acalentadas.

Alguns dos primados conservadores ao longo do tempo: o mundo, e tudo que nele habita, foi criado há seis mil anos. O sol e o universo giram em torno da Terra – quem ousou afirmar o contrário foi queimado nas exemplares fogueiras purificadoras. As mulheres existem para servir aos homens. Homossexualismo é deformação. Pobres devem resignar-se à pobreza – para sempre condenados a trabalhar para tornar os ricos ainda mais ricos. Contra o voto das mulheres. Contra o voto universal. Contra tudo que cheire a povo. Contra o direito de férias. Contra o descanso semanal. Contra a ciência. Contra o prazer… Contra. Sempre contra qualquer avanço social.

…E seguem os credos. A cada novo passo a humanidade teve, e tem, que superar a ira e os obstáculos conservadores. Sempre em nome da moral cristã.

Caso a humanidade seguisse o pensamento conservador, jamais andaríamos eretos e de cabeça erguida.

Há dois milhões de anos, quando alguns primatas ensaiaram os primeiros passos eretos, apenas sobre dois pés, os conservadores imediatamente se colocaram contra. Elaboraram estudos para demonstrar que a coluna humana não foi feita para estar ereta. Que o pescoço não resiste à cabeça erguida. Que os joelhos  não suportariam o peso do corpo. Enfim, que os humanos deveriam estar sempre, e para sempre, genuflexos.

Na época, a imprensa conservadora entrou firme na campanha contra a ousadia.  Eis algumas manchetes do jornal Folha Quatrocentona: “Bípedes desafiam as leis naturais”, “Foras da Lei são vistos caminhando sobre dois pés”, “Bípedes ameaçam a paz mundial”. O Jornal Marinhal, principal telejornal da Rede Gondwana, denunciou: “Desequilibrado, Hugo chaves ameaça estatizar meios de comunicação”. E o papagaio Vil Banner, circunspecto, repetiu a matéria: “O bolivariano Hugo Chaves, visivelmente desequilibrado, ereto, apenas  sobre dois pés, ameaça estatizar os cipós, o ar e os ventos, para controlar todos os meios de comunicação entre primatas que se oponham à ideologia bípede”.

E assim seria, se a humanidade seguisse o pensamento conservador: ainda estaríamos de quatro.

Jamais vou defender que seja feito contra os conservadores o mesmo que eles costumam fazer contra quem se opõe às suas “verdades”. Jamais defenderei que alguém seja submetido à tortura ou jogado na fogueira. Entendo que os conservadores têm o democrático direito de defender suas idéias retrógradas… Mas, cá entre nós, haja saco…

(mai/2010)

“Um outro mundo é possivel”

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Fatos e Dados

Author: Delman Ferreira

Diz o ditado que “quem conta um conto, aumenta um ponto”. Assim como, também se diz que “cada cabeça, uma sentença”.

Acontecimentos do dia a dia sempre podem ter diversas versões, dependendo do ponto de vista do observador. A imprensa, assim como os chamados analistas ou especialistas, não escapam desta verdade. Ou seja, suas visões e análise dos fatos dependem muito dos pontos de vista, das referências adotadas, das visões de mundo, dos vínculos ideológicos etc. Em função disso, sempre haverá questionamentos  sobre a lisura da imprensa e de analistas no trato das notícias, na leitura e análise de fatos e dados. Com frequencia, estas “interpretações”, ficam muito distantes da verdade, comprometendo a informação que o público recebe e na qual se baseia para tirar suas próprias conclusões. Para melhor informação, o ideal é conhecer o mesmo fato por todos os pontos de vista possíveis.

Neste cenário, a PETROBRAS acaba de tomar uma iniciativa muito interessante, utilizando-se das modernas ferramentas de comunicação direta. Desde o dia 02 de junho passado, criou um BLOG no qual dá, ainda mais, transparência à sua relação com a imprensa e com o público.

Ficam dispóníveis as perguntas encaminhadas pela imprensa e/ou seus analistas e as respostas da empresa. Também se encontram os contrapontos, a versão dos fatos e os dados relativos a tudo o que se publica.

Neste tempos de CPI, será muito esclarecedor ver o embate entre as análises e interpretações da imprensa e seus analistas e a versão dos mesmos fatos ou a leitura dos mesmos dados por parte da PETROBRAS .

Vale acompanhar o BLOG: http://petrobrasfatosedados.wordpress.com/

(um outro mundo é possível)

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“a dor da gente não sai no jornal”

Author: Delman Ferreira

(Belisário = arremessador de dados, segundo Dicionário de Nomes)

Belisário, lá no alto do Morro do Baco Baco, matutando sua filosofia, de vez em quando fica meio injuriado com algumas coisas. Nessas horas, sai por aí arremessando suas perguntinhas pontiagudas.
Outro dia lembrou um samba antigo que dizia “a dor da gente não sai no jornal”. Ficou se perguntando: qual o critério para definir o que é notícia e o que não é notícia?
Por exemplo, o caos nos aeroportos, que deixa algumas centenas, talvez uns milhares, de usuários esperando horas em salas desconfortáveis, é muito grave e merece destaque – sai no jornal.
Belisário ouviu dizer que são mais ou menos 7% dos brasileiros que, num ano inteiro, viajam de avião e eventualmente, uma ou outra vez, sofrem alguns problemas em aeroportos.
Por outro lado, existem diariamente, todos os dias do ano, ano após ano, milhões de brasileiros, em milhares de rodoviárias inabitáveis, esperando para viajar em ônibus que, frequentemente, se encontram nas piores condições imagináveis.
Milhões, sem alternativas, todos os dias do ano, ano após ano, viajando em ônibus que nunca passam por manutenção, nunca são limpos, nunca são fiscalizados.
São horas e horas, dias e dias, viajando em ambientes fétidos, por falta de limpeza, de fiscalização e respeito humano.
Horas intermináveis suportando calor ou frio, por falta de manutenção nos equipamentos de aquecimento ou de ar condicionado.
Horas ou dias, viajando em espaços exíguos, para que a empresa possa “otimizar” os espaços e “acomodar” mais passageiros.
Com freqüência assustadora, infelizmente, ocorrem acidentes com mortes ou mutilações. Somados, esses acidentes corresponderiam a dezenas ou centenas de vezes o número de vítimas de um acidente de avião.
Daí, Belisário, lá do alto do Baco Baco, lá do fundo de sua cabeça cheia de perguntas, vai arremessando seus dardos: porque será que a imprensa e alguns políticos dão tanto destaque aos problemas da aviação, que afligem 7% dos brasileiros, e nunca se manifestam sobre os problemas das rodoviárias e dos ônibus que afligem, certamente,  mais de 70% da população?
Por que o problema da aviação é notícia e o problema da viação não é notícia?
Será que o brasileiro que viaja de avião é mais brasileiro que o brasileiro que viaja de ônibus?
Por que será que a dor da nossa gente não sai no jornal? …
… Belisário fica muito encafifado.

(mar/2007)

“Um outro mundo é possivel”

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B.C.Q.F.C. Hardy Har Har

Author: Delman Ferreira

Bloco do Contra  “Quarta Feira de Cinzas Hardy Har Har”.


Enredo 2007 – “Ó dor, ó vida, ó céus, ó azar. Isso não vai dar certo”.


Tempos atrás, havia um desenho animado em que figuravam um leão, Lippy, e uma hiena pessimista, Hardy Har Har.  Hardy nunca ria. Enquanto Lippy tentava encontrar uma maneira de sair das confusões e correrias em que sempre se metiam, Hardy só se lamentava: “Ó dor, ó vida, ó céus, ó azar. Isso não vai dar certo, Lippy”.


O B.C.Q.F.C. Hardy Har Har segue fielmente a predisposição e o ânimo de seu patrono. Os passistas ficam pelos camarotes eletrônicos – CBN, Folha de São Paulo, Estadão, Jornais da Globo, Veja, … – fazendo previsões pessimistas a respeito de qualquer iniciativa que não tenha partido de seus patrões.
São pessimistas por profissão. Pessimismo terceirizado. Quando o patrão não quer que dê certo, o bloco organiza rapidamente um desfile e, numa harmonia sofrível, vai entoando seu mantra-enredo de previsões e análises catastróficas.


Destaca-se o casal Mestre-sala e Porta-bandeira. Ele já foi visto em cinemas e livrarias, faz o gênero mal-humorado, adora desferir ataques de mal gosto que pensa serem irônicos. Ela, fez fama como economista, agora é polítemática, tem opinião sobre tudo, desde a política macro-econômica, passando por energia, cratera do metro, crise parlamentar, receita de farofa, mudanças climáticas, humor das celebridades etc, etc. Lembram esses desocupados que ficam em cafés ou salões de beleza falando da vida dos outros, dando opinião e discutindo soluções para tudo.


Hoje, um desses camarotes eletrônicos, a CBN, superou-se em seu desfile de pessimismo e torcida contra. Antes mesmo que o Governo apresentasse o PAC, Programa de Aceleração do Crescimento, colocaram na avenida alas e alas de “analistas” prevendo que o Plano não vai dar certo.
Os oráculos do B.C.Q.F.C. Hardy Har Har, do alto de sua “çapiência”, sentaram-se nos camarotes eletrônicos e desfilaram mau humor, baixo-estima, e o mantra-enredo: “Não vai dar certo, Lula”.
Enquanto o Brasil trabalha, os “çábios” ficam em seus camarotes torcendo contra.


@@@


Nós, o avesso do avesso, lá na avenida real. Suando e fazendo o espetáculo. Cabeça erguida, sorriso iluminado, gozando e cantando – a evolução da liberdade e a autêntica alegria da vitória.
Nosso enredo: Brasil, o presente.

(22/jan/2007)

“Um outro mundo é possivel”

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Lateralidades

Author: Delman Ferreira

46 minutos do segundo tempo. O x O. Joguinho modorrento. Cerveja choca. Não sai nem briga.
O artilheiro chega perto do árbitro, abaixa-se e faz de conta que está ajeitando a chuteira. Sem que ninguém perceba, cochicha: ”o ‘omi’ não vai gostá si a gente não ganhá”. E corre pra área.
Recebe a bola em descarado impedimento. Com uma cotovelada, derruba o goleiro e chuta pro gol. Ataque com cobertura nacional. Na frente de todas as TVs.
O Bandeira agita a bandeira desesperado.  Feito biruta em dia de vento sul.
Gooooooooolllllll. Legallll. Garante o árbitro.
Depois do jogo, diante de uma multidão de jornalistas, diante do Brasil inteiro, o árbitro justifica sua decisão: “Olhei para o Bandeira e vi que ele estava com a camisa pra fora do calção. Eu não admito que Bandeira trabalhe desleixado em jogo meu.”.
Daí pra frente estabeleceu-se uma celeuma nacional sobre a etiqueta de comportamento dos bandeiras.
As televisões conseguiram filmes de cinegrafistas amadores, feitos por celulares, que mostravam a camisa do Bandeira no exato momento do lance. A luz do sol impedia uma imagem nítida.
Consultoras de moda,  psicólogos, sexólogos, economistas, analistas internacionais, a moça do tempo, todos foram chamados para opinar.
Uma emissora conseguiu entrevistar a diarista que trabalha na casa do Bandeira e descobriu que o salário estava atrasado. Fizeram campanha de doações para ajudar a moça – arrecadaram geladeiras, fogões, enxoval completo, férias no nordeste… Entrevistas ali, aqui, lá e acolá – matinê, vesperal, madrugadão – tarde de autógrafos – celebridade instantânea – “nu artístico”.
Debaixo de todo aquele foguetório, atrás de toda a fumaça, singelamente ouvia-se uma ou outra vozinha perguntando: “Ixcuta, e o jogo? E a falta? E o impedimento? E o gol? E o árbitro?”. Cada vez que a vozinha tentava falar, mais balbúrdia se fazia em torno do cabelo desalinhado do Bandeira.
Descobriram que o Bandeirinha fazia xixi na cama até a idade de 7 anos. Foi banido do futebol. Raras vezes é visto em locais públicos.
Quando foram pedir a opinião de Belisário, ele mal levantou os olhos da caneca de café que preparava.
- Eu só quero saber o seguinte: é permitido prender ladrões?

(abr/2009)

“Um outro mundo é possivel”

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Não tem preço

Author: Delman Ferreira

Café preto coado na hora. Pão quentinho com manteiga e mortadela. Mercearia da D. Sofia, no Morro do Baco Baco. Não tem preço.
Este deleite é um privilégio. Encontrei Belisário encostado no balcão. Na mão, uma caneca de barro. O café de Belisário tem ritual. Primeiro ele lava a caneca com água fervendo. Só depois coloca o café, aparadinho direto no coador. Assim, fica quente e saboroso por muito mais tempo.
Pra provocar Belisário, falei com D. Sofia, – Que é que a Senhora tá achando dessa confusão toda no Senado? Diretoria de garagem, diretoria de autógrafo, diretoria de aeroporto, diretoria de fantasmas,…?
- Pra mim, isso tudo vai dar em nada, filosofa D. Sofia. Eles brigam, brigam e, no fim, acabam arrumando mais uns carguinhos ou mais mordomias pra todo mundo ficar satisfeito, quieto e calado. E nós, mais uma vez, vamos ficar aqui só assistindo, fazendo de conta que não entendemos nada.
Belisário, calado estava – calado ficou. E eu continuei atiçando, – Mas, a Senhora não acha que dessa vez a imprensa está no pé deles? Que a imprensa não vai deixar barato?
Aí, Belisário não se agüentou. Empurrou a caneca pro meu lado e já foi entrando na conversa.
- Eu acho é pouco… Essa imprensa já demorou foi muito. Tem gente de todos os jornais, das TVs, da internet, que fica o dia todo, o ano todo, lá no Senado. Ficam pra lá e pra cá com os senadores e com os funcionários. Conhecem tudo, sabem de tudo. Leem até pensamentos. Sabem das manhas, das artimanhas, das escapadas, dos segredos mais secretos, das promessas, das traições. Do público e do privadíssimo. Nada escapa. Sabem tudo de tudo.
- Aí, eu vejo a imprensa se fazer de tão surpresa, tanta “ira santa”, com toda essa história. Fico aqui encafifado.
- Não dá pra entender, se eles que sabem tudo de tudo, como é que não sabiam nada de nada? Como é que um lugar tem 180 diretores e ninguém sabe de nada? Ou essa imprensa é muito incompetente e desinformada, ou tem caroço nesse angu. Na certa, tiveram bon$ motivo$ pra calar e esperam melhore$ momento$ pra falar.
- Mas, Belisário, antes tarde do que nunca. Tudo tem um preço. Ainda bem que agora eles resolveram falar. Tu não achas que esse é o papel da imprensa? Que assim a gente fica sabendo o que fazem lá por cima?
- Claro que é bom. É muito bom. Eu acho tão bom que eu queria ver abrirem outras caixas pretas, como o Judiciário, as assembléias estaduais, a CBF, o COB, as contas do PAN, as contas de time cujo presidente diz que acabou o dinheiro,…..
Este é o Belisário. Sempre olhando mais adiante. Sempre atirando dardos.
Tomar café preto coado com D. Sofia e Belisário. Não tem preço.

(mar/2009)

“Um outro mundo é possivel”

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