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Torturas, drogas e Democracia

Author: Delman Ferreira

Lalá,

É muito provável que tenhas razão quanto ao quesito “Punição aos Torturadores”, já perdemos o timing e o trem da história. Entretanto, considero que o debate sobre Tortura e Torturadores é da maior relevância para que o Brasil cresça e jamais esqueça que, sim, somos o resultado de uma história de muita crueldade e desumanidade. – É importante registrar que, no quesito desumanidades e barbárie, a história dos outros povos, principalmente dos mais ricos, é uma história de horrores.

Tratar a tortura é como tratar a dependência. O dependente só consegue se livrar da dependência e do risco de recaída quando assume que é dependente e aceita falar disso. Jamais vai recuperar a vida perdida. Jamais vai apagar o passado. Não adianta querer punir o drogado pelas barbaridades que fez. Mas, tem que assumir e falar do assunto pra tomar qualquer decisão e ficar livres da dependência.

Olhemos a história dos negros. Foram torturados e explorados durante quase 400 anos. Foram usados para fazer fortunas. Depois, quando se tornaram um estorvo, foram atirados, pela princesa, na sarjeta das cidades e da sociedade. Agora, quando alguns negros cobram o resgate dessa história e dessa dívida, são acusados de racistas e de querer criar uma chaga na nossa maravilhosa “democracia racial”. Acusados de querer fazer “negrices”.

Nossa “democracia” funciona muito bem no silêncio dos torturados e marginalizados. Essa “jovem democracia”, sensível e frágil, não suporta um olhar de inquietude. Qualquer desaprovação, já a coloca nervosa. Qualquer contestação, já desencadeia uma crise. Qualquer cobrança, já põe o cristal em risco. Qualquer exigência de igualdade, já coloca perfilados os “guardiães da ordem”.

A “democracia racial” brasileira não consegue conviver com diferenças. São aceitos na “democracia” apenas os torturados que mimetizam o torturador – desde que saibam se comportar. Desde de que aprendam a usar talheres e guardanapos. Desde que sejam lucrativos. Desde que sejam uma boa mercadoria.

Os que não aprenderem a se comportar, serão imediatamente acusados de desordem e condenados à tortura da marginalização.  Negros que insistam ser negros, índios que insistam ser índios, gays que se assumam gays – sem ser mercadoria – serão imediatamente tachados de desordeiros, racistas anti-democráticos. Excluídos para não sujar nossas praias.

Enquanto o Brasil não assumir que é “drogado”, que a tortura faz parte de nossa história e de nosso processo de “desenvolvimento” e “civilização”, jamais vamos nos livrar dessa dependência. Se não falarmos do assunto, sempre correremos o risco de uma recaída.

Democracia Plena, sem aspas e  sem adjetivação, exige que falemos de nossas mazelas. De nossas misérias. De nossas crueldades. De nossas desumanidades.

Crescer dói.

Democracia exige crescimento.

(fevereiro/2010)

“um outro mundo é possível”

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Nave no Tempo

Author: Delman Ferreira

Maria Fumaça. De Tiradentes a São João Del Rei. Minas Gerais.

Minas. Eh! Minas.

50 minutos de viagem. Séculos de história vão cruzando na paisagem. Campos. Vales. Montanhas. E atrás de montanhas, mais montanhas: História e Tempo. Dois séculos sentados naqueles bancos. Aquela nave de bancos de madeira, estreitos, duros, desconfortáveis, viaja através de um portão no tempo.

Tempo em que transportava os sonhos, as obrigações e recomendações, de sinhozinhos e sinhazinhas, recém saídos da meninice, levados pra cidade grande. Estudar – deixar pra trás as brincadeiras e vadiagens da infância. Quando voltarem, serão os novos barões e baronesas do pedaço.

Aquela mesma Maria Fumaça, em vagões ainda menos confortáveis, também transportava esperanças e desesperanças daqueles aos quais só restava abandonarem a família e os amigos, suas próprias histórias, suas vidas, seus trens. Rumo ao desconhecido. Gente sofrida que ia atrás de cura para algum mal implacável. Meninos e meninas que fugiam da condenação de serem para sempre semi-escravos dos barões e baronesas do pedaço.

O ventre daquela Maria carregava futuros artistas, doutores, ministros, governadores, presidentes. Futuras frustrações e futuros campeões. Carregava a História de Minas. Carregava boa parte da História do Brasil.

Orgulhosa e imponente, a velha senhora anuncia sua resfolegante passagem, silvando - estrepitosa, rouca e garbosa – por vales, montanhas, cidades e vilarejos.

Crianças param suas brincadeiras. Senhoras param de tricotar. Aquele homem se debruça na enxada. Aquele outro fica com a chave de rodas parada no ar. Aquela moça sonha na janela. Todos param. Todos hipnotizados. Todos acenam. Todos cumprimentam. Todos sonham.

Naquela janela, dois tempos se cruzam. Eles, lá num tempo indefinido entre dois séculos. Nós, aqui de 2010, nostalgicamente observando a passagem do tempo na ligeireza da paisagem.

Aquela Maria Fumaça traz de volta o Menino Delman. Aos cinco anos: queria ser ‘motorista’ de trem. Aos 10 anos, encanta-se com Manoel Bandeira. Sonha viajar de trem: “Café com pão/Café com pão/Café com pão/Virge Maria que foi isto maquinista?/…/ Oô…/Foge, bicho/Foge, povo/Passa ponte/Passa poste/Passa pasto/Passa boi/Passa boiada/Passa galho/De ingázeira/Debruçada/No riacho/Que vontade/De cantar!/Oô…”.

“Bota fogo na fornalha/que eu preciso/muita força/muitaforça/muita força/Oô…”.

Nave mágica. Por um instante, entramos num lapso de tempo. Nostalgia. História. Realidade(?).

Salve Minas. Suas Montanhas e mais montanhas. Sua História. Seus trens.

Finda a viagem. Fecha-se o portão. De volta a 2010.

(janeiro/2010)

“um outro mundo é possível”

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(para) Fernanda e Augusto

Author: Delman Ferreira

(dos padrinhos Laura e Delman)

Pensando em vocês
a gente lembra Minas Gerais.

Pensando Minas,
A gente lembra tradição, família, trabalho
Cultura, arte, religião. Doçura!
Milton Nascimento, Clube da Esquina, Cachaça, Viola Caipira
Modernidade, dinamismo
Jota Quest, Skank, vestidinho preto.
E a indefectível política.
Minas e suas veredas, rios, montanhas, cachoeiras,
Luar, enlêvo, paixão, doces beijos, longos olhares,
Sonhos e suspiros.

Minas está lá, onde sempre esteve.
Minas, que nas Emboadas rebelou-se contra os paulistas
E inventou o Brasil do interior
Primeiro e único caso de província do interior que o marítimo império português
Elevou à condição de centro econômico e cultural.
Minas que, com seu ouro, irrigou o império britânico
E financiou a Revolução Industrial.
Minas inconfidente, que rebelou-se contra a sangria e contra o Império.
Minas, que pariu o Brasil brasileiro.
Minas, que gestou a capital do Brasil.
Minas, que gerou Fernanda e Augusto.

Fernanda e Augusto,
Saidos de Minas para a Capital
De Minas para o mundo.
Para aprender e apreender as coisas do mundo.
Lá, pelo mundo e seus arredores,
Longe das Gerais, descobrem-se na sua mineirice.
Desbravam-se, conquistam e são conquistados.
Deixam-se levar e enlevar.
Apaixonam-se!

Como bons mineiros, voltam para Minas.
Pra tradição, pra Família, para o Trabalho. Para o prazer!
E daí, desse cadinho de modernidade e tradição -
de valores, descobrimentos e questionamentos,
Serão conquistadores e precursores de novos mundos.
Mineiramente, renovando-se e reinventando novos brasis.
Uma nova família.
Valores tradicionais. Novos valores.
Com Muito Amor.

Fernanda – Augusto – Minas – Brasil.
Mistura Perfeita.

(dezembro/2009)

“um outro mundo é possível”

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