abr
30
2009
Lateralidades
Author: Delman Ferreira46 minutos do segundo tempo. O x O. Joguinho modorrento. Cerveja choca. Não sai nem briga.
O artilheiro chega perto do árbitro, abaixa-se e faz de conta que está ajeitando a chuteira. Sem que ninguém perceba, cochicha: ”o ‘omi’ não vai gostá si a gente não ganhá”. E corre pra área.
Recebe a bola em descarado impedimento. Com uma cotovelada, derruba o goleiro e chuta pro gol. Ataque com cobertura nacional. Na frente de todas as TVs.
O Bandeira agita a bandeira desesperado. Feito biruta em dia de vento sul.
Gooooooooolllllll. Legallll. Garante o árbitro.
Depois do jogo, diante de uma multidão de jornalistas, diante do Brasil inteiro, o árbitro justifica sua decisão: “Olhei para o Bandeira e vi que ele estava com a camisa pra fora do calção. Eu não admito que Bandeira trabalhe desleixado em jogo meu.”.
Daí pra frente estabeleceu-se uma celeuma nacional sobre a etiqueta de comportamento dos bandeiras.
As televisões conseguiram filmes de cinegrafistas amadores, feitos por celulares, que mostravam a camisa do Bandeira no exato momento do lance. A luz do sol impedia uma imagem nítida.
Consultoras de moda, psicólogos, sexólogos, economistas, analistas internacionais, a moça do tempo, todos foram chamados para opinar.
Uma emissora conseguiu entrevistar a diarista que trabalha na casa do Bandeira e descobriu que o salário estava atrasado. Fizeram campanha de doações para ajudar a moça – arrecadaram geladeiras, fogões, enxoval completo, férias no nordeste… Entrevistas ali, aqui, lá e acolá – matinê, vesperal, madrugadão – tarde de autógrafos – celebridade instantânea – “nu artístico”.
Debaixo de todo aquele foguetório, atrás de toda a fumaça, singelamente ouvia-se uma ou outra vozinha perguntando: “Ixcuta, e o jogo? E a falta? E o impedimento? E o gol? E o árbitro?”. Cada vez que a vozinha tentava falar, mais balbúrdia se fazia em torno do cabelo desalinhado do Bandeira.
Descobriram que o Bandeirinha fazia xixi na cama até a idade de 7 anos. Foi banido do futebol. Raras vezes é visto em locais públicos.
Quando foram pedir a opinião de Belisário, ele mal levantou os olhos da caneca de café que preparava.
- Eu só quero saber o seguinte: é permitido prender ladrões?
(abr/2009)
“Um outro mundo é possivel”