Posts Tagged ‘hipocrisia’

Lateralidades

Author: Delman Ferreira

46 minutos do segundo tempo. O x O. Joguinho modorrento. Cerveja choca. Não sai nem briga.
O artilheiro chega perto do árbitro, abaixa-se e faz de conta que está ajeitando a chuteira. Sem que ninguém perceba, cochicha: ”o ‘omi’ não vai gostá si a gente não ganhá”. E corre pra área.
Recebe a bola em descarado impedimento. Com uma cotovelada, derruba o goleiro e chuta pro gol. Ataque com cobertura nacional. Na frente de todas as TVs.
O Bandeira agita a bandeira desesperado.  Feito biruta em dia de vento sul.
Gooooooooolllllll. Legallll. Garante o árbitro.
Depois do jogo, diante de uma multidão de jornalistas, diante do Brasil inteiro, o árbitro justifica sua decisão: “Olhei para o Bandeira e vi que ele estava com a camisa pra fora do calção. Eu não admito que Bandeira trabalhe desleixado em jogo meu.”.
Daí pra frente estabeleceu-se uma celeuma nacional sobre a etiqueta de comportamento dos bandeiras.
As televisões conseguiram filmes de cinegrafistas amadores, feitos por celulares, que mostravam a camisa do Bandeira no exato momento do lance. A luz do sol impedia uma imagem nítida.
Consultoras de moda,  psicólogos, sexólogos, economistas, analistas internacionais, a moça do tempo, todos foram chamados para opinar.
Uma emissora conseguiu entrevistar a diarista que trabalha na casa do Bandeira e descobriu que o salário estava atrasado. Fizeram campanha de doações para ajudar a moça – arrecadaram geladeiras, fogões, enxoval completo, férias no nordeste… Entrevistas ali, aqui, lá e acolá – matinê, vesperal, madrugadão – tarde de autógrafos – celebridade instantânea – “nu artístico”.
Debaixo de todo aquele foguetório, atrás de toda a fumaça, singelamente ouvia-se uma ou outra vozinha perguntando: “Ixcuta, e o jogo? E a falta? E o impedimento? E o gol? E o árbitro?”. Cada vez que a vozinha tentava falar, mais balbúrdia se fazia em torno do cabelo desalinhado do Bandeira.
Descobriram que o Bandeirinha fazia xixi na cama até a idade de 7 anos. Foi banido do futebol. Raras vezes é visto em locais públicos.
Quando foram pedir a opinião de Belisário, ele mal levantou os olhos da caneca de café que preparava.
- Eu só quero saber o seguinte: é permitido prender ladrões?

(abr/2009)

“Um outro mundo é possivel”

« (retornar)

Gente decente. Gente indecente.

Author: Delman Ferreira

D. Maria precisou fazer uma cirurgia com certa urgência. Recomendada por sua médica, procurou uma especialista, muito respeitada e competente.
Enquanto fazia os exames preliminares, a médica puxou conversa. Criticou a situação da Saúde. Criticou a corrupção no Governo.
D. Maria perguntou se ela gostava de política. “De maneira nenhuma”, respondeu a médica, demonstrando certa indignação. Fez questão de registrar que detestava políticos. “Eu sou uma pessoa séria. Políticos são todos corruptos. Só quem não é decente é que se mete com política”.
D. Maria, bastante constrangida, preferiu calar. Como os exames estavam acabando, preferiu não render a conversa.
A cirurgia foi tranqüila, correu tudo muito bem. No trabalho, a médica era realmente muito séria.
Era, também, a dona da clínica. Competente no trabalho. Competente para cobrar. Consulta. Exames. Internação. Cirurgia. Anestesia. Remédios. Utensílios descartáveis. Curativos…
Feito o pagamento. Quando D. Maria perguntou pelos recibos, a atendente ficou meio atônita. Tentou explicar que “Infelizmente, no momento não ‘estamos podendo fornecer’ os recibos porque o bloco acabou. Já fizemos a encomenda, mas a gráfica ainda não entregou. A Senhora pode ficar tranqüila que logo vamos ‘estar mandando’ o recibo para seu endereço”.
D. Maria não aceitou a desculpa. Exigiu um recibo imediatamente. Não precisava formulário impresso, bastava um recibo com a discriminação dos valores, CPF do beneficiário, identificação e assinatura da médica.
Formou-se um impasse. Ainda tentaram convencê-la a esperar uns dias. Diante da recusa, ninguém sabia o que fazer. Chamaram a Encarregada-Chefe da Clínica.
A Encarregada ainda tentou argumentar com a história da gráfica. Percebendo que seria inútil, foi direto ao ponto. “Veja bem, nós não trabalhamos com recibos. A Senhora sabe, o Governo cobra muitos impostos”.
Dona Maria, revoltada, exigiu falar diretamente com os donos da Clínica.
Quando chegou, a “doutora decente” foi imediatamente informada pela funcionária indignada que “esta senhora está exigindo recibos”.
Olhando firme nos olhos da “doutora”, D. Maria apresentou-se:
“Sou Maria das Quantas, Prefeita de Cidade Tal no Interior. Sou dessa gente indecente que mexe com política. Uma corrupta”.
… Depois de desviar os olhos do olhar da prefeita, a “doutora” mandou fazer o recibo no valor correto.
(out/2007)

“Um outro mundo é possivel”

« (retornar)