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2012 e a Lenda do Campeche

Author: Delman Ferreira

Noé, o dragão

Noé, o dragão...

um sono de dez mil anos

... e seu sono de dez mil anos

Quem chega à Praia do Campeche, pela Avenida Pequeno Príncipe, pode observar que a Ilha do Campeche é, na realidade, um dragão dormindo um sono de dez mil anos. Lá estão, muito bem delineados, a cabeça, o corpo e a parte não submersa do rabo.

De tanta gente chegar à praia e perguntar: É o Dragão, não é?  É o Dragão, não é? É o Dragão, não é?, ficou conhecido como o Dragão Noé.

Diz a Lenda do Campeche que, no dia 20 de dezembro de 2012 (20 12 2012), Noé, o Dragão, vai despertar de seu sono decamilenar. Vai erguer-se de seu berço esplêndido. Alçar vôo e bradar um brado de dez mil megatons.

Quando chegar a hora, alguns receberão o chamado. Em todos os cantos do mundo e arredores. Ao som de um rock – Nostradamus, de Eduardo Dusek – os ungidos serão tocados. Sairão caminhando e, sem nem mesmo saber por que, vão se dirigir ao Campeche.

O dia ficou noite/O sol foi pro além/Eu preciso de alguém/Vou até a cozinha/Encontro Carlota, a cozinheira, morta/Diante do meu pé, Zé/Eu falei, eu gritei, eu implorei:/”Levanta e serve um café/Que o mundo acabou!”

Nostradamus vai tocar para todos. Mas, somente os ungidos saberão que é o momento. Apenas eles saberão fazer o caminho.

Noé irá recebê-los em seu dorso. Vai elevar-se aos céus carregando os exemplares que darão origem à nova humanidade.

Ao por-do-sol de 20 de dezembro de 2012, Noé soltará seu brado de dez mil megatons. Céus e terras tremerão. Naquele lusco-fusco, toda a humanidade à sua volta será destruída.

Quase toda. Os ungidos serão salvos.

Depois que montanhas, pedras, mares e rios se acalmarem, Noé retornará ao Campeche. O Dragão voltará a ser ilha em seu sono de dez mil anos.

Na alvorada do dia 25 de dezembro de 2012, os ungidos subirão o Morro do Baco Baco. E daí,… …bom, daí vai começar tudo outra vez.

(jul/2010)

“Um outro mundo é possivel”

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(um outro mundo é possível)


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Uma cachaça. Uma nostalgia.

Author: Delman Ferreira

Noite dessas, bebericando uma cachaça, dessas coisas fabulosas lá do Brasil, lá dos interior das Minas Gerais, coloquei para rodar o Grupo Engenho e o Expresso Rural.
Meu olhar se perdeu lá naquele tempo em que Florianópolis ainda não era Floripa. Era apenas “um pedacinho de terra perdido no mar” e ficava ali do ladinho, ligada ao Brasil por um cartão postal. O resto do Brasil ficava depois da Ponte.
O povo do resto Brasil só sabia de Florianópolis quando estava lá pelo terceiro ano do primário e era obrigado a estudar as capitais dos estados nas aulas de geografia. Passadas as provas, nunca mais alguém lembrava que Maranhão, Espírito Santo e Santa Catarina tinham capitais que ficavam em ilhas.
Pra chegar a Florianópolis, tinha que passar por Capoeiras, Coqueiros e Estreito, bairros do continente. Não é qualquer um ou qualquer coisa que vence capoeiras, coqueiros e consegue atravessar estreitos. Assim, por muito tempo, a Ilha preservou um modo manézinho de ser.
Florianópolis era um segredo guardado pelos manézinhos.
Aliás, “manézinho” era um xingamento. Quando se queria ofender alguém, gritava-se: “Amarelo. Bicho da goiaba. Manézinho”. Mãe era coisa sagrada. Se alguém xingava a Mãe, o ofendido era obrigado a partir pra briga, senão seria chamado de covarde pelo resto da vida.
…beberico levemente. Fico olhando minha rua.
Era assim a minha rua? Ou será apenas um primor de criação da minha nostalgia?
A leveza em que me encontro me dá a certeza que meu passado foi exatamente assim: poético. Foi exatamente assim, porque é assim que me lembro dele.
Vejo o verdureiro. Uma verga nas costas com um cesto em cada ponta. Grita ritmado: “Batata-doce. Olha a banana. Olha a baja. Olha a roxa…”. Baja é a vagem. Roxa é a beterraba.
Como num desfile. Depois do verdureiro, vejo o peixeiro com um carrinho de mão oferecendo camarão-da-lagoa, tainhotas, corvinas, anchovas, tudo fresquinho, pescado nessa noite, embrulhados em folhas de bananeira. O peixeiro anuncia a passagem fazendo soar um chifre de boi.
Vai o homem que vende melado-de-cana num barril de latão, batendo uma matraca. É o homem do inverno. Batata-doce, assada na brasa da fogueira, com melado. Melado com banana amassada. Melado com aipim. Melado com farinha.
E segue o mais esperado, o homem da carrocinha do vidro. Ele compra cacos de vidro, móveis usados, ferro velho, compra de tudo. É a festa da gurizada. Todos correm pra vender coisas velhas catadas pelas ruas. Ganhar uns trocados pra comprar figurinhas.
Vento Sul sopra de rebojo – faz remoinho. Levanta as saias dos uniformes das meninas. Pescador, olhando pro mar, afirma: “amanhã vira pra lestada”.
Olho pro campinho onde a pelada corre solta. Fica num desnível do morro. Um gol lá em cima, outro lá em baixo. No meio tem uma valeta por onde corre a água da chuva. A bola rola, disputada pra lá e pra cá, pra cima e pra baixo. A valeta é apenas mais um adversário a ser driblado. O “campo” é careca, só areia e barro. A grama é uma espécie de moldura, cobre apenas as laterais. Cada trave tem um esforçado goleiro gritando desesperado. Cada partida, cada bola dividida, é disputada como se fosse uma final de brasileirão.
…na “vitrolinha”, o Expresso Rural expressa minha nostalgia.

Vou fugir dessa metrópole à libertação
E seguir algum caminho que me leve ao Sul…

…Pode ser um sonho louco, mas eu vou achar
Em algum lugar desta federação
Alguma substância estranha, que substitua a dor no coração.
E mate essa vontade de voltar… de voltar…

…recarrego a mineira. De volta para o futuro. Vejo Florianópolis transformar-se em Floripa.
O Estreito virou apenas um Canto onde fica uma Figueira. O velho cartão postal está abandonado, cada dia mais velho, cada dia mais enferrujado, cada dia mais esquecido.
Abriram uma Via Expressa e mais duas pontes, por onde entram todos e passa de tudo. Globalização. Especulação. Exclusão. E, como diria um velho manézinho, muita esculhambação e muita aporrinhação.
Supermercado. Hipermercado. Shopping Center. Paredões de apartamentos. Asfalto, muito asfalto e grama sintética.
Não tem mais verdureiro fazendo pregão da “baja” e da “roxa”. Não tem mais carroceiro. Já não tem mais campinho. Não tem mais corredor pro Vento Sul. As meninas não usam mais saias rodadas. Não tem mais a alegria da gurizada.
A Ilha deixou de ser um segredo dos manézinhos. Virou Floripa, objeto de desejo do resto do Brasil. Florianópolis virou nostalgia.
…sigo na toada. Tomo mais uma junto com o Grupo Engenho. Vou me despedindo.

Meu sinhô já vou me embora
Nosso papo terminou
Mesmo indo sem resposta
Vou levando a alegria
De quem já desabafou…

Volto pro futuro com a certeza que, mesmo nessa Floripa globalizada, ainda nos resta um tantinho de Florianópolis.
Lá pelos cantos da Lagoa, no Itacorubi, na Vargem, no Campeche, no Santo Antônio, no Iega, lá pelo Morro do Baco Baco, nos arredores de todos os cantos, na risada dos amigos, no coração de quem pegou vento sul de rajada e torceu pro vento mudar pra nordeste pra pegar camarão e siri na caladinha da Lagoa.
Lá, ainda vou escutar a matraca anunciando que hoje vai ter melado com farinha.

(nov/2007)

“Um outro mundo é possivel”

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