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O Filho de Tainá

Author: Delman Ferreira

O Pai do Pai do Bentinho criou-se ali pela Fazenda. Pelo que lembrava, era filho de ex-escravos. Tangia gado, plantava, colhia, moía, limpava, ajeitava, era festeiro,… Fazia de um tudo.

O Pai do Bentinho também foi ficando por ali. Fazendo de um tudo. Vivia das sobras da Fazenda. Sobras de comida. Sobras de roupa. Sobras de uma coisinha ou outra que não serviam mais para a Casa Grande. Sobras de tempo pra cuidar da família.

Bentinho não teve oportunidade de conhecer outro destino. Seguiu fazendo de um tudo. Era Bentinho pra lá e Bentinho pra cá. Nada acontecia sem Bentinho benzer.

Os sinhozinhos gostavam muito do Bentinho. Do Pai do Bentinho. Do Pai do Pai do Bentinho… “Eram como se fossem gente da família”.

Bentinho casou. Tainá era calada, mas não resignada. Fez de tudo, até que conseguiu ver o filho estudando. “Queria que alguém da família conhecesse as letras”.

O Filho do Bentinho aprendeu que os trabalhadores têm direitos. Que tem hora pra trabalhar e tem hora pra descansar. Direito de descansar no sábado e no domingo. Direito de férias. Direito de se cuidar quando ficar doente. E tem direito a salário no fim de cada mês.

Ensinou tudo isso para os pais. Tainá ficou matutando e passou a questionar Bentinho. “O menino estuda, ele sabe das coisas. Se ele diz que nós temos direito é porque temos direito.”.

Tainá sempre sonhou comprar umas coisinhas que fossem só dela. Não queria viver pra sempre das sobras da Casa Grande. Queria um vestido novo. Queria sair nos domingos. Sonhou dormir “até depois do galo cantar”. Sonhou com férias. Sonhou passear só ela e Bentinho. Sonhou que um dia ela poderia ir ao médico. “O Menino estuda. Ele disse que a gente tem direito”.

Tanta pressão de Tainá, que Bentinho quebrou um silêncio de gerações. Foi falar com Sinhozinho. Contou o que o menino tinha explicado. Que não era certo ele não receber salário. Que ele tinha direito a férias. Que ele tinha direito a ter documentos. Carteira assinada e outras coisas.

Foi imediatamente posto pra fora da Casa Grande. E ameaçado: “Caso voltasse ali com essas idéias comunistas seria posto pra fora da Fazenda”.

Onze anos de idade. O Filho de Tainá. Um perigoso comunista. Pronto para desestabilizar a paz secular e destruir as famílias.

Estudou. Compreendeu que tinha direitos. Virou impertinente.

(abr/2010)

“Um outro mundo é possivel”

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Torturas, drogas e Democracia

Author: Delman Ferreira

Lalá,

É muito provável que tenhas razão quanto ao quesito “Punição aos Torturadores”, já perdemos o timing e o trem da história. Entretanto, considero que o debate sobre Tortura e Torturadores é da maior relevância para que o Brasil cresça e jamais esqueça que, sim, somos o resultado de uma história de muita crueldade e desumanidade. – É importante registrar que, no quesito desumanidades e barbárie, a história dos outros povos, principalmente dos mais ricos, é uma história de horrores.

Tratar a tortura é como tratar a dependência. O dependente só consegue se livrar da dependência e do risco de recaída quando assume que é dependente e aceita falar disso. Jamais vai recuperar a vida perdida. Jamais vai apagar o passado. Não adianta querer punir o drogado pelas barbaridades que fez. Mas, tem que assumir e falar do assunto pra tomar qualquer decisão e ficar livres da dependência.

Olhemos a história dos negros. Foram torturados e explorados durante quase 400 anos. Foram usados para fazer fortunas. Depois, quando se tornaram um estorvo, foram atirados, pela princesa, na sarjeta das cidades e da sociedade. Agora, quando alguns negros cobram o resgate dessa história e dessa dívida, são acusados de racistas e de querer criar uma chaga na nossa maravilhosa “democracia racial”. Acusados de querer fazer “negrices”.

Nossa “democracia” funciona muito bem no silêncio dos torturados e marginalizados. Essa “jovem democracia”, sensível e frágil, não suporta um olhar de inquietude. Qualquer desaprovação, já a coloca nervosa. Qualquer contestação, já desencadeia uma crise. Qualquer cobrança, já põe o cristal em risco. Qualquer exigência de igualdade, já coloca perfilados os “guardiães da ordem”.

A “democracia racial” brasileira não consegue conviver com diferenças. São aceitos na “democracia” apenas os torturados que mimetizam o torturador – desde que saibam se comportar. Desde de que aprendam a usar talheres e guardanapos. Desde que sejam lucrativos. Desde que sejam uma boa mercadoria.

Os que não aprenderem a se comportar, serão imediatamente acusados de desordem e condenados à tortura da marginalização.  Negros que insistam ser negros, índios que insistam ser índios, gays que se assumam gays – sem ser mercadoria – serão imediatamente tachados de desordeiros, racistas anti-democráticos. Excluídos para não sujar nossas praias.

Enquanto o Brasil não assumir que é “drogado”, que a tortura faz parte de nossa história e de nosso processo de “desenvolvimento” e “civilização”, jamais vamos nos livrar dessa dependência. Se não falarmos do assunto, sempre correremos o risco de uma recaída.

Democracia Plena, sem aspas e  sem adjetivação, exige que falemos de nossas mazelas. De nossas misérias. De nossas crueldades. De nossas desumanidades.

Crescer dói.

Democracia exige crescimento.

(fevereiro/2010)

“um outro mundo é possível”

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