Posts Tagged ‘educação’

…criar… (1)

Author: Delman Ferreira


…às crianças, basta estarem calçadas,
o que querem mesmo é brincar com as caixas dos sapatos.
São os pais que precisam da grife.

@@@

Lua cheia. Céu sem nuvem. Morros emoldurando, recortando contra o negrume da noite. Lua Feiticeira. Pessoas deslumbradas.

De repente, a cientistazinha chega com uma daquelas perguntinhas desequilibrantes:

- Como é que a Lua fica presa no Céu e não cai?

… (faço de conta que nem ouvi – tempo pra respirar e pensar uma saída)…

- Hein, Paiê? Hein???

- (arrisco) …bom, eles pegam uma fita crepe, colam na Lua e colam a Lua no céu, assim igual a gente cola foto na parede…… (ufa!!!)

Pronto, satisfeita a curiosidade. A astronautazinha já nem lembra mais da pergunta. Sai voando atrás de alguma outra descoberta, outro sonho ou outro feitiço, e… novas dúvidas.


(abr/2010)

“Um outro mundo é possivel”

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O Filho de Tainá

Author: Delman Ferreira

O Pai do Pai do Bentinho criou-se ali pela Fazenda. Pelo que lembrava, era filho de ex-escravos. Tangia gado, plantava, colhia, moía, limpava, ajeitava, era festeiro,… Fazia de um tudo.

O Pai do Bentinho também foi ficando por ali. Fazendo de um tudo. Vivia das sobras da Fazenda. Sobras de comida. Sobras de roupa. Sobras de uma coisinha ou outra que não serviam mais para a Casa Grande. Sobras de tempo pra cuidar da família.

Bentinho não teve oportunidade de conhecer outro destino. Seguiu fazendo de um tudo. Era Bentinho pra lá e Bentinho pra cá. Nada acontecia sem Bentinho benzer.

Os sinhozinhos gostavam muito do Bentinho. Do Pai do Bentinho. Do Pai do Pai do Bentinho… “Eram como se fossem gente da família”.

Bentinho casou. Tainá era calada, mas não resignada. Fez de tudo, até que conseguiu ver o filho estudando. “Queria que alguém da família conhecesse as letras”.

O Filho do Bentinho aprendeu que os trabalhadores têm direitos. Que tem hora pra trabalhar e tem hora pra descansar. Direito de descansar no sábado e no domingo. Direito de férias. Direito de se cuidar quando ficar doente. E tem direito a salário no fim de cada mês.

Ensinou tudo isso para os pais. Tainá ficou matutando e passou a questionar Bentinho. “O menino estuda, ele sabe das coisas. Se ele diz que nós temos direito é porque temos direito.”.

Tainá sempre sonhou comprar umas coisinhas que fossem só dela. Não queria viver pra sempre das sobras da Casa Grande. Queria um vestido novo. Queria sair nos domingos. Sonhou dormir “até depois do galo cantar”. Sonhou com férias. Sonhou passear só ela e Bentinho. Sonhou que um dia ela poderia ir ao médico. “O Menino estuda. Ele disse que a gente tem direito”.

Tanta pressão de Tainá, que Bentinho quebrou um silêncio de gerações. Foi falar com Sinhozinho. Contou o que o menino tinha explicado. Que não era certo ele não receber salário. Que ele tinha direito a férias. Que ele tinha direito a ter documentos. Carteira assinada e outras coisas.

Foi imediatamente posto pra fora da Casa Grande. E ameaçado: “Caso voltasse ali com essas idéias comunistas seria posto pra fora da Fazenda”.

Onze anos de idade. O Filho de Tainá. Um perigoso comunista. Pronto para desestabilizar a paz secular e destruir as famílias.

Estudou. Compreendeu que tinha direitos. Virou impertinente.

(abr/2010)

“Um outro mundo é possivel”

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um eterno aprendiz (o avô fresco)

Author: Delman Ferreira
“Qual é a sensação?”,
“O que é que mudou?”,
“E aí Véio ?”,
“E agora?”.

Ficam me perguntando. E eu não sei o que dizer.

Com um sorriso tímido, só sei dizer: Não sei!

Fico pensando sozinho: e agora? Qual é a sensação? O que é que mudou?

 Só sei que o papel de avô é deseducar.

Aos pais cabe ser chatos. Impor regras. Definir Limites. Dar castigos. Proibir tudo o que é gostoso. Fazer ameaças. Obrigar a comer verduras. Fazer se comportar. Fazer estudar. Não deixar brincar com os amigos. Ao pais cabe fazer a vida quadradinha.

Aos avós cabe o sabor da vida. Levar pra tomar banho de chuva. Fazer boneco de lama. Roubar frutas do vizinho. Se lambuzar de bala e sorvete. Ensinar palavrão. Pular a janela para brincar com os amigos. Matar aula pra jogar… Aos avós cabe a deliciosa alegria de viver. Ensinar a transgredir. Romper os limites. Não se dobrar. Não se submeter. Não se render. Nossa parte é o colorido e a rebeldia (o sal e a pimenta da vida).

Os pais dão os limites e os Avós alçam o imponderável.
Fazendo assim, Lucas, esta figurinha prematura de 2,5kg e 47cm, vai ser uma pessoinha equilibrada.

Só sei que quando alguém me encontrar rolando pelo chão, vai pensar que é apenas mais um avô brincando com o neto. Mal saberá que quem estará verdadeiramente se divertindo serei eu. O que sei é que esse guri vai me ensinar muita coisa, e eu vou cantar como Gonzaguinha:


 
Viver!
E não ter a vergonha
De ser feliz
Cantar e cantar e cantar
A beleza de ser
Um eterno aprendiz…

 
 
(escrito por Delman, em maio/1995, recém entrado nos enta, pleno vigor dos 40 anos, quando prematuramente nasceu o prematuro Lucas, o primeiro neto. – transcrito por:  Lucas, o neto – em jan/2010 - aos 14 anos).
 
(maio/1995)

“um outro mundo é possível”

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