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Reserva de Vagas

Author: Delman Ferreira

Negros, pardos e índios são mais de 50% da população brasileira. Negros, pardos e índios são menos de 5% dos alunos das universidades brasileiras. Algo está muito errado.

Temos, aí, uma distorção que constitui um sério obstáculo para o desenvolvimento de qualquer povo.

Seja por razões humanitárias, seja por razões sócio-econômico-desenvolvimentistas, o fato é que este problema precisa ser superado.

Nos últimos anos, o sistema de reserva de vagas, popularmente conhecido como ‘política de cotas’, tem obtido evidente sucesso no sentido de garantir maior presença de ‘não-brancos’ nas universidades. Entretanto, cada vez mais vozes se levantam contra este sistema bem sucedido.

Por quê? Seriam contra ‘enegrecer’ as universidades brasileiras? – Todas aquelas vozes responderão firmemente que Não. Não somos contra aumentar a presença de negros, pardos e índios nas universidades. – Então, porque se opõem ao sistema de reserva de vagas? Por que colocam-se tão determinadamente contra um sistema que vem apresentando resultados positivos?

Dizem que esse não é o caminho. Que a reserva de vagas vai estabelecer uma lógica racista numa sociedade que se caracteriza pela miscigenação. Que a diversidade racial e cultural é nossa grande riqueza e é exemplo para o mundo. Que precisamos afirmar essa característica. Que temos que consolidar nossa ‘democracia racial’. Que o caminho é fortalecer e garantir qualidade para a escola pública e, assim, garantir isonomia de condições para que todos possam disputar igualmente todas as oportunidades, seja nas escolas, seja nos postos de trabalho, seja em qualquer área da vida.

Muito bem. Vamos, então, raciocinar de acordo com esta estratégia bem intencionada: Fortalecer o Ensino Básico Público. (Sem esquecer o dito popular que nos ensina que ‘o ótimo é inimigo do bom’).

Primeira questão que se apresenta: o que entendemos por ‘Fortalecer o Ensino Básico Público’?

Fortalecimento do ensino básico’ é tema de grande complexidade. Para simplificar e ajudar no raciocínio, vamos combinar e convencionar que ‘fortalecimento do ensino básico’ seria apenas: construir escolas de padrão elevado em todo o território nacional e garantir elevado grau de conhecimento e condições de trabalho dignas para as centenas de milhares de professores de primeiro e segundo graus.

O que significa escolas de padrão elevado’? Salas de aula confortáveis? Pelo menos um computador para cada aluno? Biblioteca? Centros de esportes? Laboratórios e centros de pesquisa? Espaços de convivência para a comunidade?

O que significa professores com elevado grau de conhecimento’? Todos os professores com nível superior? Carreira de professor com salários elevados? Condições de trabalho atraentes? Plano de Saúde? Previdência?

Seguindo com nosso raciocínio simplista, vamos supor que o Brasil reúna as condições ideais para este ‘fortalecimento do ensino básico’: o governo decidiu mobilizar todos os recursos necessários e, por sua vez, a sociedade conscientizou-se da importância dessa iniciativa. – Estamos no Marco Zero, a partir de hoje, vamos construir escolas de elevado padrão em todos os recantos do território nacional e capacitar todas as centenas de milhares de professores com elevado grau de conhecimento e condições de trabalho dignas.

Seguindo essa estratégia, em quanto tempo estaremos colhendo o resultado planejado e desejado pela população? Em quanto tempo vamos garantir educação de qualidade para todos os brasileiros? Uma década? Uma geração? Duas gerações? Três gerações?

Negros, pardos e índios esperam por uma solução, pelo menos, desde 1888. Segundo o IBGE, hoje, o Brasil tem 49,4 milhões de jovens entre 15 e 29 anos. Mantida a proporção populacional, aproximadamente 25 milhões destes jovens são negros, pardos ou índios.

Enquanto aguardamos o ‘fortalecimento do ensino básico’, o que fazer com estes 25 milhões de negros, pardos e índios que não conseguem alcançar a universidade? Continuar a discutir o que fazer? Fazer de conta que o problema não existe? Abandoná-los à própria sorte, como ocorreu até hoje? Segregá-los nas periferias? Torcer para  que a violência se encarregue de eliminá-los? Entregá-los ao tráfico?

Ou adotar uma Política Afirmativa?

Por definição, políticas afirmativas são sempre transitórias. Ou seja, elas deixarão de ser necessárias e, portanto, deixarão de existir, quando as soluções definitivas apresentarem os resultados desejados. O processo deve ser dialético. Na medida em que um sistema se fortalece o outro vai gradativamente sendo substituído.

Repetindo a questão: o que fazer com os 25 milhões de jovens negros, pardos e índios durante a etapa de transição até que se alcance o desejado ‘fortalecimento do ensino básico’? Obviamente, ninguém vai responder que eles deverão ser ignorados. Portanto, precisamos de medidas que incluam estes jovens. Aceitam-se sugestões… As medidas que a Humanidade conseguiu desenvolver até hoje para superar este tipo de problema foram as Políticas Afirmativas.

Enquanto não surge idéia superior: Que se estabeleçam metas para Fortalecer o Ensino Básico Público, e critérios de avaliação destas metas. Que se estabeleçam as Reservas de Vagas. Que seja um processo dialético. Na medida em que as metas forem sendo alcançadas, e o ‘fortalecimento do ensino básico’ for se consolidando, vão-se reduzindo os percentuais de reservas de vagas.

Melhorou a qualidade? Alcançamos 10% das metas num determinado período? Reduzem-se 10% das vagas reservadas no período seguinte. Caiu a qualidade? Sobe o número de vagas reservadas. E assim, sucessivamente. Até que alcancemos uma educação de qualidade elevada para todos os brasileiros.

Com este método, aqueles que se dizem preocupados com a consolidação de nossa ‘democracia racial’ terão uma grande oportunidade para acabar definitivamente com as reservas de vagas. Basta empenharem no ‘fortalecimento do ensino básico’ toda a energia que consomem combatendo as políticas afirmativas.

Democracia se constrói pensando e agindo democraticamente.

Democracia é tratar desigualmente os desiguais.

(mar/2010)

“Um outro mundo é possivel”

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Torturas, drogas e Democracia

Author: Delman Ferreira

Lalá,

É muito provável que tenhas razão quanto ao quesito “Punição aos Torturadores”, já perdemos o timing e o trem da história. Entretanto, considero que o debate sobre Tortura e Torturadores é da maior relevância para que o Brasil cresça e jamais esqueça que, sim, somos o resultado de uma história de muita crueldade e desumanidade. – É importante registrar que, no quesito desumanidades e barbárie, a história dos outros povos, principalmente dos mais ricos, é uma história de horrores.

Tratar a tortura é como tratar a dependência. O dependente só consegue se livrar da dependência e do risco de recaída quando assume que é dependente e aceita falar disso. Jamais vai recuperar a vida perdida. Jamais vai apagar o passado. Não adianta querer punir o drogado pelas barbaridades que fez. Mas, tem que assumir e falar do assunto pra tomar qualquer decisão e ficar livres da dependência.

Olhemos a história dos negros. Foram torturados e explorados durante quase 400 anos. Foram usados para fazer fortunas. Depois, quando se tornaram um estorvo, foram atirados, pela princesa, na sarjeta das cidades e da sociedade. Agora, quando alguns negros cobram o resgate dessa história e dessa dívida, são acusados de racistas e de querer criar uma chaga na nossa maravilhosa “democracia racial”. Acusados de querer fazer “negrices”.

Nossa “democracia” funciona muito bem no silêncio dos torturados e marginalizados. Essa “jovem democracia”, sensível e frágil, não suporta um olhar de inquietude. Qualquer desaprovação, já a coloca nervosa. Qualquer contestação, já desencadeia uma crise. Qualquer cobrança, já põe o cristal em risco. Qualquer exigência de igualdade, já coloca perfilados os “guardiães da ordem”.

A “democracia racial” brasileira não consegue conviver com diferenças. São aceitos na “democracia” apenas os torturados que mimetizam o torturador – desde que saibam se comportar. Desde de que aprendam a usar talheres e guardanapos. Desde que sejam lucrativos. Desde que sejam uma boa mercadoria.

Os que não aprenderem a se comportar, serão imediatamente acusados de desordem e condenados à tortura da marginalização.  Negros que insistam ser negros, índios que insistam ser índios, gays que se assumam gays – sem ser mercadoria – serão imediatamente tachados de desordeiros, racistas anti-democráticos. Excluídos para não sujar nossas praias.

Enquanto o Brasil não assumir que é “drogado”, que a tortura faz parte de nossa história e de nosso processo de “desenvolvimento” e “civilização”, jamais vamos nos livrar dessa dependência. Se não falarmos do assunto, sempre correremos o risco de uma recaída.

Democracia Plena, sem aspas e  sem adjetivação, exige que falemos de nossas mazelas. De nossas misérias. De nossas crueldades. De nossas desumanidades.

Crescer dói.

Democracia exige crescimento.

(fevereiro/2010)

“um outro mundo é possível”

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A ordem das coisas

Author: Delman Ferreira

“Democracia é dar a todos o mesmo ponto de partida.
Quanto ao ponto de chegada, depende de cada um.”

Mário Quintana

Era uma prova organizada pela Confederação. Para selecionar meninos e meninas com bom potencial. Quem ganhasse teria Bolsa de Estudos, técnico e treinamento especial. Em 2016, os melhores seriam os representantes nas Olimpíadas.

Desde pequeno, Zé gostava de correr e apostar corrida. Fosse o que fosse: contra outros meninos, contra bicicletas, principalmente contra o Tyson. Tyson era um cão quase todo preto, uma cruza clandestina de pastor com vira-lata. Zé vivia jogando corrida contra Tyson na subida do Morro. Por isso, logo recebeu o apelido de Zé Cachorro. Seu nome é José Ferreira da Silva.

Tinha só doze anos e foi chamado pra participar da seletiva da Confederação. Virou o orgulho do Morro do Baco Baco. Naquele domingo, todos estavam lá torcendo pelo Zé Cachorro. Ele já tinha passado por várias eliminatórias e vencera todas. Só faltava a Final.

Quando o Juiz de Prova mandou “Aos seus lugares”, Belizário achou muito estranho porque os meninos não ficaram todos na mesma linha. Ferreirinha ficou lá na linha de partida, mas, outros meninos se colocaram muito à frente. Uns na altura dos 20 metros, outros lá pelos 30m, outros ainda mais à frente.

Democracia Liberal

Belizário protestou. “Isto não está certo”, gritou o mais alto que conseguiu. Mas, ninguém ouvia, ou faziam que não entendiam. Somente o pessoal do Morro, que também estava muito indignado. Quando os protestos ficaram mais fortes, foram ameaçados. Caso não se comportassem, seriam expulsos pela polícia.

Belizário foi questionar a organização(?). Queria saber por que não saiam todos na mesma linha de largada?

- “Temos que respeitar as Regras”, responderam.

- Como assim, que ‘regras’ são essas? Belizário quis saber.

- “São as Regras. É a ordem natural das coisas. Quem vem de família de campeões, ou se é um filho de recordista, ganha mais chances na largada. Aquele menino, por exemplo, o Avô foi recordista e o Pai foi recordista, por isso ele sai 40 metros na frente.”.

- E os outros, também são filhos de recordistas?

- “Não, aqueles são filhos, ou afilhados, de senhores que, apesar de não serem de famílias tradicionais, são importantes. Por isso, também ganham destaque.”.

- Ainda não entendi uma coisa. Se a corrida é para todos. Se é para destacar o melhor, quem pode contribuir mais e ser mais importante para o Brasil no futuro, porque não dão as mesmas chances e largam todos na mesma linha?

- “Nós estamos dando oportunidades para todos. Estão todos na mesma prova. Vai vencer quem for melhor. Os que saem adiantados não precisam provar nada. Todos sabem que eles são bons. Estão ali apenas para contribuir e estimular os outros.  Assim, os que saem atrás vão se espelhar neles e tentar fazer mais e melhor. É um verdadeiro altruísmo.”.

- Mas, se uns saem na frente dos outros, não vai vencer o melhor, vai vencer quem saiu na frente.

- “Nem sempre. Algumas vezes, estes que saem na frente não sabem aproveitar a oportunidade e ficam para trás. Já houve caso de alguém vindo de trás que conseguiu vencer.”.

­- Deixa ver se entendi. As ‘regras’ garantem privilégios de uns contra os outros. Um menino do Morro só vai conseguir alguma coisa quando um daqueles que sai na frente deixar. Se ninguém deixar, a ‘seleção’ brasileira vai ser sempre a mesma?

- “O senhor está sendo radical. Se um menino do Morro for bom, alguém pode se interessar por ele e oferecer outra oportunidade. Daí ele vai poder provar que é bom mesmo”.

- Sei. Pelas ‘regras’, os lugares já estão todos marcados, assegurados pra quem tem ‘tradição’ ou tem ‘poder de pressão’. Para um menino do Morro, só resta pegar as sobras ou vender-se para quem se interessar.

- “São as ‘Regras’. É a ordem natural das coisas. Se o senhor não está satisfeito, tente mudar as regras. E, por favor, não importune, temos mais o que fazer. Ou vou ter que chamar a polícia para fazer o senhor entender as ‘Regras’”.

- Sei. Isso lá no Morro tem outro nome. Chamamos Democracia Liberal.

(fevereiro/2010)

“um outro mundo é possível”

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