Sensato e Insensato
(o desafio de uma Meia maratona)
Tentar descrever a emoção de correr uma Meia Maratona é algo tão desafiador quanto tentar descrever a emoção de quem vê o mar pela primeira vez.
Participei da Meia Maratona do Rio de janeiro, neste domingo, 02/09/2007. Minha primeira Meia Maratona. Classificação: 7877. Tempo: 2h 56m 26s.
É um desafio mental. Sensatez e Insensatez. Disputa permanente. De um lado as tentações e, de outro, a decisão de ir até o fim.
Na noite anterior, um sono entrecortado. Um misto de leveza e apreensão. Confiança e incerteza. Medo de acontecer qualquer coisa. Medo de não conseguir terminar. Medo da frustração. Medo de desapontar as pessoas queridas.
Tempo nublado. 19º. Perfeito para uma corrida longa. Largamos. Mais de quatorze mil pessoas. Sobrando adrenalina. Todos felizes. Com exceção dos atletas de ponta, que têm a obrigação de correr para valorizar os produtos de seus patrocinadores, a grande maioria corre pelo prazer do desafio pessoal. Cada um com seus momentos de superação.
7 KM. Corro firme e tranqüilo. Meu frequencímetro me diz que estou um pouco acima da freqüência planejada. Mas, estou me sentindo muito bem, respirando com tranqüilidade.
Entram em campo as tentações. Começo a sentir uma dormência no pé esquerdo. Sinto como se fosse personagem de um desenho animado. Anjinho mal e anjinho bom me disputando. Sensato e Insensato. Um me diz: “O cadarço tá muito apertado. Dá uma parada e afrouxa”. O outro me diz: “Nada disso, vai em frente”. Vou seguindo.
Passo pelos 10 KM. Ainda sinto o pé dormente. A disputa interna continua. “Será que não vou ter problemas mais pra frente? Não seria melhor parar um pouco e tirar o tênis pra ver se tem alguma coisa apertando?”. As tentações vão ficando mais convincentes. O tempo muda. Mormaço. Calor. Ar pesado. Suor ardendo nos olhos.
11 KM. O pé continua dormente. Sensato e Insensato na disputa. Começo a sentir uma dor forte na panturrilha da perna direita. Nova rodada. “Devo ou não devo seguir?” “E se for alguma coisa grave?” “Pode ser uma lesão que vai me deixar sem correr por muito tempo”. Escapo de mais esta tentação. Sigo correndo.
13 KM. Tinham dito que no KM13 teria Gatorade. Mas, quando cheguei já tinha acabado. Olho para trás, vejo uma multidão. Acho que era propaganda enganosa. O caminhão supercolorido estava lá. Mas, nada de Gatorade. Colocaram umas garrafinhas para os atletas de ponta, só pra sair na TV. O povão ficou na ilusão. Tomo água e sigo.
Pé esquerdo dormente. Panturrilha direita doendo. O tendão do pé esquerdo também se manifesta. Começa a doer forte. Pontadas como se alguém estivesse enfiando alguma coisa pontiaguda.
14 KM. “Quê que eu to fazendo aqui?”. “Podia muito bem ficar na frente da TV vendo a corrida como todo mundo.” “Por que eu vivo me metendo nessas roubadas?”.
15 KM. Freqüência cardíaca acima do planejado. Uma dobrinha do calção começa a me assar a virilha. Tento soltar, mas a dobrinha volta. Sensato e Insensato. “15 Km já tá muito bom.” “Isso é só um treinamento pra manter a forma”. “Pra que correr mais?” ”Vê quantos já pararam”. “Quantas pessoas conseguem chegar aos 15KM?”.
16 KM. Encharcado de suor. O vai e vem do braço, roçando na camisa, vai esfolando a pele ao lado da cintura. O pessoal que está na frente vai passando pelo outro lado da rua, já estão perto da chegada. Ainda me faltam mais 5KM. Dá vontade de atravessar o canteiro e me juntar a eles. Acabar logo com a agonia.
17 KM. A visão do pessoal chegando me passa uma euforia. Sinto uma nova força, apesar das dores aqui e acolá. Tento aumentar a velocidade.
18 KM. Faço a volta e entro no trecho final. Ânimo novo. Nada vai me impedir de chegar. Nenhuma tentação vai me vencer.
19 KM. O Muro. Como se diz no jargão dos corredores: QUEBREI.
Assim, de uma hora para outra, cada perna parece pesar uns trinta quilos. Cada braço pesa outros vinte. Pés. Ossinhos. Virilha. Tendões. Suor. Olhos. Rebeldia geral. Conflito absoluto. A cabeça diz “Vai”. As pernas, em coro com o resto do corpo, dizem “Não”. O pescoço entra na conspiração, já não segura mais a cabeça. O frequencímetro dispara o sinal de alerta: coração acima de qualquer limite razoável.
Não sei quem ou o quê dentro de mim vai arrastando este conflito. Fecho os olhos. Coloco na cabeça a imagem da chegada e vou me levando. Quem olhava a cena, certamente assistia ao espetáculo patético de alguém tentando mover braços e pernas lentamente, num simulacro de corrida.
Entro numa espécie de negociação com os rebeldes. Vou me arrastando nesse faz de conta até o KM 20.
20 KM. Agora só faltam 1100 metros. Ergo a cabeça. Fixo umas pessoas na minha frente e me determino a alcançá-las. Vamos indo. Ninguém está preocupado em ultrapassar ou ser ultrapassado. Uns servindo de apoio e estímulo para os outros. Uma espécie de muleta psicológica. Cúmplices na mesma superação. À volta, nos gramados, muita gente incentiva. Dores e tentações são anestesiadas. O portal de chegada, que há poucos minutos parecia inalcançável, vai se aproximando.
21.097 metros. Vai chegando. Vai chegando. CHEGUEI.
Estou mareado. Meio zonzo. Não consigo respirar direito. Parece que vou cair. Consigo me equilibrar. Um para-médico me pergunta se preciso de algo. Digo que não.
Só depois de um tempo é que vou me dando conta de que eu consegui. Fico olhando as pessoas à volta. Grito dentro de mim: EU CONSEGUI.
Meses e meses de treinamento. Dores. Dúvidas. Desânimo. Descrédito…. Longos meses do apoio da Laura, delicadamente cobrando com firmeza quando percebia um certo relaxamento. Competência do Edson e do Everton, que souberam buscar os métodos para superar minhas deficiências. Força de Mãe, filhos e filhas, irmãs, ex-mulheres, amigos, e todos os seus filhos, filhas e gerações, que sempre acreditaram num sujeito que não sabe ficar quieto. A certeza dessa legião me empurrou para ultrapassar o muro do Km 19.
Desafio superado. Leveza. Pura Leveza. Uma inebriante sensação de Poder.
Enfim, Sensato e Insensato, anjinho mal e anjinho bom, esta dupla inquieta, que nunca definem quem é quem, conseguem fazer dessa aventura pelo Planeta uma vida.
(set/2007)
“Um outro mundo é possivel”
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Tags: Delman, desafio, dores, maratona, vitória
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