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Sonhos Olímpicos

Author: Delman Ferreira

Fugir das goteiras. Fugir dos fantasmas que os ventos zunem por entre as frestas. Fugir da casinha no fundo do quintal.

Sonhos de Liberdade.

Primeiro fogão a gás. Livres da tarefa de juntar lenha, secar lenha, fazer fogo, chorar com a fumaça. Livres das panelas queimadas. Livres da sujeira.

Contas para pagar e sonhos para sonhar – sonhar com a primeira geladeira.

Primeira geladeira. Nosso próprio gelo. Nossa própria gelatina. Nosso próprio pavê. Nosso próprio orgulho.

Mais contas para pagar. Mais sonhos para sonhar – primeira TV.

Primeira TV. Brigar nossas próprias brigas para ver quem escolhe o canal. Ver TV sem pedir licença. Ver TV sem ser mandado pra casa.

Contas para pagar – sonhos para sonhar – primeiro carro.

Petrônio. Primeiro carro. Um sonho que quase não se ousava sonhar. Só depois de muito tempo. Depois de muito trabalho. Depois dos primeiros filhos.

Novas contas – novos sonhos – ficar livres do aluguel.

Primeira casa própria. Sacrificar o Petrônio. Livre do aluguel.

Mais contas, mais sonhos intangíveis. Carro zero.

Zézé. Primeiro carro zero. Só em 2006.

Cada conquista era um sonho olímpico. Um pódio olímpico. Levitávamos de orgulho. Cada sonho realizado era um degrau na escalada rumo à cidadania. A cada conquista a gente se sentia um pouquinho mais gente. Um pouquinho mais incluído. Um pouquinho mais brasileiro.

Enfim. Emprego de qualidade. Plano de saúde. Casa própria. Filhos formados. Filhos encaminhados. Privilégio de ter uma companheira esplendorosa.  Campeão olímpico. Fiz tudo o que nem ousava sonhar, lá, quando era nada mais que um “guri de bosta”.

‘Cheguei ao ponto final’, pensei. Ledo engano.

Sonhar. Vida que segue.

Quando pensei que tinha chegado ao topo, ao meu topo, eis que me descubro num novo desafio. Como numa espiral, volto ao momento inicial. Uma volta acima.

Um passo acima na escala humana. Voltar a ser um bípede. Não ter carros. Morar numa vila provinciana, como Ipanema, que me permita fazer tudo a pé. Ter casa com fogão a lenha, na qual as goteiras sejam planejadas. Movida a energia solar. Onde o ruído dos ventos encante e embale mais sonhos.

Sonhar. Como diz o magnífico escritor uruguaio, Eduardo Galeano, “Sonhar, o mais importante dos direitos humanos. A mãe de todos os direitos”.

(mai/2010)

“Um outro mundo é possivel”

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… criar… (4)

Author: Delman Ferreira


…às crianças, basta estarem calçadas,
o que querem mesmo é brincar com as caixas dos sapatos.
São os pais que precisam da grife.

@@@

Festa Junina. Fogueira. Buscapé. Algodão doce. Pipoca. Pinhão. Batata doce. Melado. Foguetes. Fogos coloridos e… perguntas.

- … como é que fazem os foguetes?

- Hummm…. Olha só que foguete mais lindo, cheio de estrelinhas…

- … como é que o foguete chega nas estrelas?

- …

- Hein? Como é que eles fazem o foguete?

- …bom, eles pegam um pouco de fogo da fogueira e colocam dentro de um canudo. Daí, depois o canudo explode e o fogo sai bem forte lá pra cima, até o céu.

- Ele fura o céu?

- Não, não fura o céu porque o céu encolhe a barriga. Olha lá que chuva de estrelas legal.

A chuva de estrelas distrai a cidadãzinha… e, certamente, enche a cabecinha de novas perguntinhas desconcertantes.


(abr/2010)

“Um outro mundo é possivel”

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… criar… (2)

Author: Delman Ferreira


…às crianças, basta estarem calçadas,
o que querem mesmo é brincar com as caixas dos sapatos.
São os pais que precisam da grife.

@@@

Primeira bicicleta. O presente sonhado – chorado – chantageado – ansiosamente esperado. 

Novas descobertas, novos limites, novos tombos e… novos sustos – físicos e intelectuais.

- Como é que eles fazem as bicicletas?

- … (disfarço que ajeito o pneu – tempo pra criar uma resposta)

- hein, Paiêê? Como é que eles fazem a bicicleta?

- … bom, eles pegam um cano, vão dobrando e juntam com outro cano que também foi dobrado. Depois pegam duas rodas e botam os canos em cima. Daí colocam um banco e outro pedaço de cano pra pessoa se segurar. Pronto.

Nem bem acabou a resposta e o surfistazinho já estava longe, satisfeito, vacilante, orgulhoso por andar na bicicleta sem rodinhas.


(abr/2010)

“Um outro mundo é possivel”

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…criar… (1)

Author: Delman Ferreira


…às crianças, basta estarem calçadas,
o que querem mesmo é brincar com as caixas dos sapatos.
São os pais que precisam da grife.

@@@

Lua cheia. Céu sem nuvem. Morros emoldurando, recortando contra o negrume da noite. Lua Feiticeira. Pessoas deslumbradas.

De repente, a cientistazinha chega com uma daquelas perguntinhas desequilibrantes:

- Como é que a Lua fica presa no Céu e não cai?

… (faço de conta que nem ouvi – tempo pra respirar e pensar uma saída)…

- Hein, Paiê? Hein???

- (arrisco) …bom, eles pegam uma fita crepe, colam na Lua e colam a Lua no céu, assim igual a gente cola foto na parede…… (ufa!!!)

Pronto, satisfeita a curiosidade. A astronautazinha já nem lembra mais da pergunta. Sai voando atrás de alguma outra descoberta, outro sonho ou outro feitiço, e… novas dúvidas.


(abr/2010)

“Um outro mundo é possivel”

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Nave no Tempo

Author: Delman Ferreira

Maria Fumaça. De Tiradentes a São João Del Rei. Minas Gerais.

Minas. Eh! Minas.

50 minutos de viagem. Séculos de história vão cruzando na paisagem. Campos. Vales. Montanhas. E atrás de montanhas, mais montanhas: História e Tempo. Dois séculos sentados naqueles bancos. Aquela nave de bancos de madeira, estreitos, duros, desconfortáveis, viaja através de um portão no tempo.

Tempo em que transportava os sonhos, as obrigações e recomendações, de sinhozinhos e sinhazinhas, recém saídos da meninice, levados pra cidade grande. Estudar – deixar pra trás as brincadeiras e vadiagens da infância. Quando voltarem, serão os novos barões e baronesas do pedaço.

Aquela mesma Maria Fumaça, em vagões ainda menos confortáveis, também transportava esperanças e desesperanças daqueles aos quais só restava abandonarem a família e os amigos, suas próprias histórias, suas vidas, seus trens. Rumo ao desconhecido. Gente sofrida que ia atrás de cura para algum mal implacável. Meninos e meninas que fugiam da condenação de serem para sempre semi-escravos dos barões e baronesas do pedaço.

O ventre daquela Maria carregava futuros artistas, doutores, ministros, governadores, presidentes. Futuras frustrações e futuros campeões. Carregava a História de Minas. Carregava boa parte da História do Brasil.

Orgulhosa e imponente, a velha senhora anuncia sua resfolegante passagem, silvando - estrepitosa, rouca e garbosa – por vales, montanhas, cidades e vilarejos.

Crianças param suas brincadeiras. Senhoras param de tricotar. Aquele homem se debruça na enxada. Aquele outro fica com a chave de rodas parada no ar. Aquela moça sonha na janela. Todos param. Todos hipnotizados. Todos acenam. Todos cumprimentam. Todos sonham.

Naquela janela, dois tempos se cruzam. Eles, lá num tempo indefinido entre dois séculos. Nós, aqui de 2010, nostalgicamente observando a passagem do tempo na ligeireza da paisagem.

Aquela Maria Fumaça traz de volta o Menino Delman. Aos cinco anos: queria ser ‘motorista’ de trem. Aos 10 anos, encanta-se com Manoel Bandeira. Sonha viajar de trem: “Café com pão/Café com pão/Café com pão/Virge Maria que foi isto maquinista?/…/ Oô…/Foge, bicho/Foge, povo/Passa ponte/Passa poste/Passa pasto/Passa boi/Passa boiada/Passa galho/De ingázeira/Debruçada/No riacho/Que vontade/De cantar!/Oô…”.

“Bota fogo na fornalha/que eu preciso/muita força/muitaforça/muita força/Oô…”.

Nave mágica. Por um instante, entramos num lapso de tempo. Nostalgia. História. Realidade(?).

Salve Minas. Suas Montanhas e mais montanhas. Sua História. Seus trens.

Finda a viagem. Fecha-se o portão. De volta a 2010.

(janeiro/2010)

“um outro mundo é possível”

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Tendão de Aquiles

Author: Delman Ferreira

Tendão 2 Tendão 3 Tendão 1


Depois de muito relutar,  “meti a tesoura no Tendão de Aquiles”.

Desde 2007, vinha sentindo dores fortes no tendão do pé direito, chamado Tendão de Aquiles.

Naquela época eu estava me preparando para correr a Meia Maratona do Rio de Janeiro. Num dos treinos, fiz 14Km num trecho com subidas acentuadas e senti umas fisgadas no tendão do pé direito. A partir daquele dia, passei a sentir dores frequentes.


Edson, nosso preparador, insistiu que eu deveria primeiro tratar as dores, e, talvez, deixar a Meia para o outro ano. Mas, eu não quis parar. Não queria deixar de fazer a Meia Maratona naquele ano. Minha ansiedade não me deixa adiar as coisas para depois.


Durante a corrida, em setembro/2007, senti um pouco o tendão, mas segui em frente.


Depois da Meia, fiquei um tempo sem correr, apenas fazendo caminhadas de recuperação. As dores não voltaram, então comecei a me preparar para a Corrida da Pampulha, em BH.


A Pampulha foi no início de dezembro/2007. São 18 KM. Quando passei pelo KM 9, senti uma pontada forte no tendão. Mas, resolvi seguir em frente. Gradativamente a dor foi se acentuando e corri os últimos quilômetros, até a chegada, mancando da perna direita. Depois disso, o tendão nunca mais prestou. Não conseguia mais fazer nem treinos leves.


Em março do ano passado (2008), consultei um ortopedista que queria operar logo. Dizia que era o melhor a fazer. Segundo ele, quando um tendão está com lesão séria, o melhor é fazer uma cirurgia para limpeza de toda a área, ligamento e reforço dos tendões. Depois, com a regeneração, tudo fica como novo.


Todavia, preferi ouvir outras opiniões. Tentei de tudo. Fiz pilates, alongamentos, acupuntura, massagens orientais – tratamentos que podem ter ajudado, mas não resolveram. (Quase recorri às benzeduras, “trabalhos”, pastores universais, oráculos transcendentais, água benta, reza braba,  pomadinhas milagrosas, garrafadas, nitroglicerina, beijinhos doces, …).


Só perdi tempo. Fiquei sedentário e virei criador – passei a fazer “criação de barriga”.
Finalmente decidi. Voltei ao mesmo ortopedista e “meti a tesoura no tendão”.

No meu caso, o pior foi o stress pré-operatório: exames,… mais exames e…. mais exames. A conversa do anestesista, já na sala de cirurgia, também é sinistra.

Tirante isso, tudo correu muito bem. O médico se disse surpreso. Imaginava que meu tendão estaria muito mais estragado, mas encontrou um quadro bem menos trágico. Certamente foram efeitos positivos dos alongamentos, da acupuntura e do shiatsu. Pelo que me explicou, os tendões se parecem com cabos de telefone: um cabo com diversos fiozinhos por dentro. Assim são os tendões, um conjunto composto por inúmeros nervos.


Quando os tendões ficam doloridos, é porque alguns destes fiozinhos (nervos) vão rompendo e ficam machucados. Como os tendões são pouco irrigados e recebem pouca oxigenação, a regeneração espontânea é muito lenta. A cirurgia é feita para limpar, religar e acelerar a regeneração destes nervos rompidos. Se o número de nervos rompidos é muito grande, cirurgia e posterior recuperação são muito mais difíceis. No meu tendão, havia poucos nervos rompidos, então a recuperação será mais fácil. Vou ficar umas tres ou quatro semanas sem poder colocar o pé no chão.


Depois…
Lá estarei novamente, no Rio de Janeiro, em BH e tantas outras provas por este Brasil, pelo mundo… e pelos arredores.

(abr/2009)

“Um outro mundo é possivel”

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Ouvindo à esquerda e à direita.

Author: Delman Ferreira

Passei uns dois meses, desde janeiro, só ouvindo à esquerda. À direita, só zumbidos. Meu ouvido direito doía e fazia pressão, assim como se estivesse sempre cheio de água.
Como sei que para ter equilíbrio é sempre bom ouvir à esquerda e à direita, fui num otorrino. Era um desses médicos descomplicados e muito bem humorados. Espiou meu ouvido com um binoclinho e disse:
- “… o senhor tem um bocado de cera aí.”. E perguntou se eu havia tentado limpar com alguma coisa.
- “Nada, nada”, eu disse, “só cocei com cotonete, um grampo, uma tampinha de caneta ou a pontinha dos óculos”.
Ele simplesmente me olhou. Estupefato. Indignado. Revoltado. Como se estivesse diante de um estuprador.
- “O senhor, por acaso, estava tentando esculhambar com seu ouvido?”, perguntou.
- “???” … fiquei apenas olhando…
- “Meu amigo, não se deve jamais tentar limpar os ouvidos com coisa alguma.”
- Como assim???
- “A única coisa que se pode tentar usar para limpar um ouvido é o cotovelo do outro lado”. E ficou me olhando com aquela cara de sacana.
Explicou que o ouvido é formado por dutos curvos e quando tentamos enfiar alguma coisa por ali, só criamos mais problemas. A única coisa que se deve fazer é uma lavagem de tempos em tempos, jamais enfiar o que quer que seja.
Depois, preparou uma seringa e deu umas três ou quatro “xiringadas” de água com alguma coisa, no ouvido. Parecia que eu estava debaixo de uma cachoeira. Foi um “banho” milagroso, agora posso ouvir à esquerda e à direita.
Como se diz por aí, “é muito melhor ouvir certas besteiras do que não poder ouvir”.
Assim como é melhor ler certas bobagens do que não saber ler.
Portanto, doravante, para limpar seus ouvidinhos, usem apenas os próprios cotovelos do outro lado. Ou, consultem um otorrino de tempos em tempos pra levar umas  “xiringadas”.
(hehehe).

(verão/2009)

“Um outro mundo é possivel”

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Carta ao Tedo

Author: Delman Ferreira
Tedo - Avalon

Fui pegar o quadro que mandei fazer com esta foto e me dei conta que estou com muitas saudades de ti. Hoje em dia, quando lembramos de ti, também lembramos da May, portanto, esta saudade se estende também para ela.

A foto vai se incorporar à Galeria OsFerreira, na Lagoa.

Bateu certa nostalgia. Muita vontade de estar contigo, de fazermos juntos aquela sonhada viagem de moto pela América do Sul ou de barco pelas costas brasileiras e arredores.

Dai, fiz uma outra viagem. No tempo. Quando lembro de ti, existe uma passagem recorrente na minha memória. Uma vez, naquela casa das Rendeiras, tu ainda tinhas pouco mais de três anos, eu estava arrumando alguma coisa e tu apareceste com um martelo na mão. Eu perguntei o que ias fazer com aquele martelo e tu respondeste: “Judá Papai. Judá Papai”.  Nunca esqueci esta cena, até agora ela me emociona.

Fomos morar na Lagoa porque quando tu nasceste os médicos disseram que tinhas “bronquite asmática”. Além disso, quando começaste a andar, te atrapalhavas com as pernas. Teus pés eram muito grandes. Os médicos diziam que não tinhas boa coordenação. Queriam fazer uns tratamentos completamente loucos.

Seriam medicações e mais medicações para a bronquite, porque senão, diziam os médicos, poderias ter problemas respiratórios pela vida afora. Para as pernas, eles queriam colocar uma armadura de ferro para girar os ossos. Uma armadura parecida com aquela que o personagem daquele filme “Forrest Gump” usava quando era guri. Não aceitamos.

Orientados por um amigo que era médico-acupunturista,  preferimos mudar para a Lagoa. Remédios para a respiração são todos na base de iodo. O melhor lugar para respirar iodo é à beira mar, assim, ao invés de medicações, preferimos mudar para perto do mar, onde o iodo é permanente. Além disso, tu poderias correr o tempo todo na areia da Lagoa, que era o melhor remédio para tua coordenação e para o fortalecimento das pernas.

Acho que foi uma de nossas decisões mais acertadas. Gosto muito daquele tempo que passamos juntos na beira da Lagoa. Tínhamos muito pouco dinheiro. Muitas dificuldades. Mas, tínhamos a Lagoa toda para nós. Para vocês, todos pequenos, aquela casa era meio mágica.

Depois, a vida nos afastou um pouco. Tenho muito orgulho de minha militância. Sem dúvidas, o que sou hoje devo a todo o trabalho e toda a luta política de que participei. Mas, isso teve um preço. Algumas vezes um preço alto. Muitas viagens, muitas reuniões, muitas lutas. Fizeram ficar longe de vocês muito tempo. Hoje, eu sinto isso.

Talvez eu devesse ter ficado muito mais tempo com vocês. Não sei. Não sei se poderia ser de outro jeito. Se eu não tivesse participado das lutas políticas, do Sarapiquá, do Sindicato, do PT etc., certamente eu seria outra pessoa. Não sei se eu teria a mesma compreensão de mundo e a mesma relação com vocês.

Depois, quando me fixei, tu foste surfar o mundo – construir o teu mundo – do outro lado do mundo. Creio que, assim como a militância foi importante nas minhas descobertas pessoais e na minha formação, a Austrália está sendo fundamental nas tuas próprias descobertas, teu crescimento e formação pessoal.

Bueno, assim como a vida afastou, agora é hora de aproximar. O que sei, agora, neste instante quando escrevo, nestes tempos que correm, é que estou com muita vontade de estar perto de ti. Estou com muita vontade de fazer viagens contigo. Descobrir coisas e lugares. Partilhar histórias e experiências. Construir uma nova etapa juntos.

Américas nos aguardem. OsFerreira vão te desvendar – de moto e barco.


Um grande beijo.


Um grande beijo na May, que tem grande papel nas tuas descobertas.

Um papai saudoso.
26/06/2008.

P.S.:  – estou terminando esta carta com lágrimas nos olhos.

“Um outro mundo e possivel”

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Meia Maratona – Rio 2007

Author: Delman Ferreira

Sensato e Insensato
(o desafio de uma Meia maratona)


Tentar descrever a emoção de correr uma Meia Maratona é algo tão desafiador quanto tentar descrever a emoção de quem vê o mar pela primeira vez.


Participei da Meia Maratona do Rio de janeiro, neste domingo, 02/09/2007. Minha primeira Meia Maratona. Classificação: 7877. Tempo: 2h 56m 26s.


É um desafio mental. Sensatez e Insensatez. Disputa permanente. De um lado as tentações e, de outro, a decisão de ir até o fim.


Na noite anterior, um sono entrecortado. Um misto de leveza e apreensão. Confiança e incerteza. Medo de acontecer qualquer coisa. Medo de não conseguir terminar. Medo da frustração. Medo de desapontar as pessoas queridas.


Tempo nublado. 19º. Perfeito para uma corrida longa. Largamos. Mais de quatorze mil pessoas. Sobrando adrenalina. Todos felizes. Com exceção dos atletas de ponta, que têm a obrigação de correr para valorizar os produtos de seus patrocinadores, a grande maioria corre pelo prazer do desafio pessoal. Cada um com seus momentos de superação.


7 KM. Corro firme e tranqüilo. Meu frequencímetro me diz que estou um pouco acima da freqüência planejada. Mas, estou me sentindo muito bem, respirando com tranqüilidade.

Entram em campo as tentações. Começo a sentir uma dormência no pé esquerdo. Sinto como se fosse personagem de um desenho animado. Anjinho mal e anjinho bom me disputando. Sensato e Insensato. Um me diz: “O cadarço tá muito apertado. Dá uma parada e afrouxa”. O outro me diz: “Nada disso, vai em frente”.  Vou seguindo.


Passo pelos 10 KM. Ainda sinto o pé dormente. A disputa interna continua. “Será que não vou ter problemas mais pra frente? Não seria melhor parar um pouco e tirar o tênis pra ver se tem alguma coisa apertando?”. As tentações vão ficando mais convincentes. O tempo muda. Mormaço. Calor. Ar pesado. Suor ardendo nos olhos.


11 KM. O pé continua dormente. Sensato e Insensato na disputa. Começo a sentir uma dor forte na panturrilha da perna direita. Nova rodada. “Devo ou não devo seguir?” “E se for alguma coisa grave?” “Pode ser uma lesão que vai me deixar sem correr por muito tempo”. Escapo de mais esta tentação. Sigo correndo.


13 KM. Tinham dito que no KM13 teria Gatorade. Mas, quando cheguei já tinha acabado. Olho para trás, vejo uma multidão. Acho que era propaganda enganosa. O caminhão supercolorido estava lá. Mas, nada de Gatorade. Colocaram umas garrafinhas para os atletas de ponta, só pra sair na TV. O povão ficou na ilusão. Tomo água e sigo.
Pé esquerdo dormente. Panturrilha direita doendo. O tendão do pé esquerdo também se manifesta. Começa a doer forte. Pontadas como se alguém estivesse enfiando alguma coisa pontiaguda.


14 KM. “Quê que eu to fazendo aqui?”. “Podia muito bem ficar na frente da TV vendo a corrida como todo mundo.” “Por que eu vivo me metendo nessas roubadas?”.


15 KM. Freqüência cardíaca acima do planejado. Uma dobrinha do calção começa a me assar a virilha. Tento soltar, mas a dobrinha volta. Sensato e Insensato. “15 Km já tá muito bom.” “Isso é só um treinamento pra manter a forma”. “Pra que correr mais?” ”Vê quantos já pararam”.  “Quantas pessoas conseguem chegar aos 15KM?”.


16 KM. Encharcado de suor. O vai e vem do braço, roçando na camisa, vai esfolando a pele ao lado da cintura. O pessoal que está na frente vai passando pelo outro lado da rua, já estão perto da chegada. Ainda me faltam mais 5KM. Dá vontade de atravessar o canteiro e me juntar a eles. Acabar logo com a agonia.


17 KM. A visão do pessoal chegando me passa uma euforia. Sinto uma nova força, apesar das dores aqui e acolá. Tento aumentar a velocidade.


18 KM. Faço a volta e entro no trecho final. Ânimo novo. Nada vai me impedir de chegar. Nenhuma tentação vai me vencer.


19 KM. O Muro. Como se diz no jargão dos corredores: QUEBREI.


Assim, de uma hora para outra, cada perna parece pesar uns trinta quilos. Cada braço pesa outros vinte. Pés. Ossinhos. Virilha. Tendões. Suor. Olhos. Rebeldia geral. Conflito absoluto. A cabeça diz “Vai”. As pernas, em coro com o resto do corpo, dizem “Não”. O pescoço entra na conspiração, já não segura mais a cabeça. O frequencímetro dispara o sinal de alerta: coração acima de qualquer limite razoável.


Não sei quem ou o quê dentro de mim vai arrastando este conflito. Fecho os olhos. Coloco na cabeça a imagem da chegada e vou me levando. Quem olhava a cena, certamente assistia ao espetáculo patético de alguém tentando mover braços e pernas lentamente, num simulacro de corrida.
Entro numa espécie de negociação com os rebeldes. Vou me arrastando nesse faz de conta até o KM 20.


20 KM. Agora só faltam 1100 metros. Ergo a cabeça. Fixo umas pessoas na minha frente e me determino a alcançá-las. Vamos indo. Ninguém está preocupado em ultrapassar ou ser ultrapassado. Uns servindo de apoio e estímulo para os outros. Uma espécie de muleta psicológica. Cúmplices na mesma superação. À volta, nos gramados, muita gente incentiva. Dores e tentações são anestesiadas. O portal de chegada, que há poucos minutos parecia inalcançável, vai se aproximando.


21.097 metros. Vai chegando. Vai chegando. CHEGUEI.


Estou mareado. Meio zonzo. Não consigo respirar direito. Parece que vou cair. Consigo me  equilibrar. Um para-médico me pergunta se preciso de algo. Digo que não.


Só depois de um tempo é que vou me dando conta de que eu consegui. Fico olhando as pessoas à volta. Grito dentro de mim: EU CONSEGUI.
Meses e meses de treinamento. Dores. Dúvidas. Desânimo. Descrédito…. Longos meses do apoio da Laura, delicadamente cobrando com firmeza quando percebia um certo relaxamento. Competência do Edson e do Everton, que souberam buscar os métodos para superar minhas deficiências. Força de Mãe, filhos e filhas, irmãs, ex-mulheres, amigos, e todos os seus filhos, filhas e gerações, que sempre acreditaram num sujeito que não sabe ficar quieto. A certeza dessa legião me empurrou para ultrapassar o muro do Km 19.


Desafio superado. Leveza. Pura Leveza. Uma inebriante sensação de Poder.
Enfim, Sensato e Insensato, anjinho mal e anjinho bom, esta dupla inquieta, que nunca definem quem é quem, conseguem fazer dessa aventura pelo Planeta uma vida.

(set/2007)

“Um outro mundo é possivel”

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