Posts Tagged ‘D. Sofia’

“a dor da gente não sai no jornal”

Author: Delman Ferreira

(Belisário = arremessador de dados, segundo Dicionário de Nomes)

Belisário, lá no alto do Morro do Baco Baco, matutando sua filosofia, de vez em quando fica meio injuriado com algumas coisas. Nessas horas, sai por aí arremessando suas perguntinhas pontiagudas.
Outro dia lembrou um samba antigo que dizia “a dor da gente não sai no jornal”. Ficou se perguntando: qual o critério para definir o que é notícia e o que não é notícia?
Por exemplo, o caos nos aeroportos, que deixa algumas centenas, talvez uns milhares, de usuários esperando horas em salas desconfortáveis, é muito grave e merece destaque – sai no jornal.
Belisário ouviu dizer que são mais ou menos 7% dos brasileiros que, num ano inteiro, viajam de avião e eventualmente, uma ou outra vez, sofrem alguns problemas em aeroportos.
Por outro lado, existem diariamente, todos os dias do ano, ano após ano, milhões de brasileiros, em milhares de rodoviárias inabitáveis, esperando para viajar em ônibus que, frequentemente, se encontram nas piores condições imagináveis.
Milhões, sem alternativas, todos os dias do ano, ano após ano, viajando em ônibus que nunca passam por manutenção, nunca são limpos, nunca são fiscalizados.
São horas e horas, dias e dias, viajando em ambientes fétidos, por falta de limpeza, de fiscalização e respeito humano.
Horas intermináveis suportando calor ou frio, por falta de manutenção nos equipamentos de aquecimento ou de ar condicionado.
Horas ou dias, viajando em espaços exíguos, para que a empresa possa “otimizar” os espaços e “acomodar” mais passageiros.
Com freqüência assustadora, infelizmente, ocorrem acidentes com mortes ou mutilações. Somados, esses acidentes corresponderiam a dezenas ou centenas de vezes o número de vítimas de um acidente de avião.
Daí, Belisário, lá do alto do Baco Baco, lá do fundo de sua cabeça cheia de perguntas, vai arremessando seus dardos: porque será que a imprensa e alguns políticos dão tanto destaque aos problemas da aviação, que afligem 7% dos brasileiros, e nunca se manifestam sobre os problemas das rodoviárias e dos ônibus que afligem, certamente,  mais de 70% da população?
Por que o problema da aviação é notícia e o problema da viação não é notícia?
Será que o brasileiro que viaja de avião é mais brasileiro que o brasileiro que viaja de ônibus?
Por que será que a dor da nossa gente não sai no jornal? …
… Belisário fica muito encafifado.

(mar/2007)

“Um outro mundo é possivel”

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O dia em que Sofia posou de modelo

Author: Delman Ferreira

D. Sofia não quer nem ouvir falar que aquele quadro que tem na parede pode ser de muito valor e que poderia lhe render um bom dinheiro.
Ganhou aquele quadro de Emiliano. Um moço que um dia apareceu lá pelo Morro do Baco Baco, foi se chegando e ficou olhando Sofia trabalhar.
Cheio de elogios. Disse que ficou impressionado com a maneira ao mesmo tempo firme e suave que ela trabalhava. Ficou admirando quando ela ia e vinha na lida. Parecia que nada a intimidava. Falou da cor da pele. Pediu licença, falou que ela era muito bonita. Tantas e tantas outras coisas.
. Sofia, disse Emiliano, você é um primor. Esta cor, este andar, este porte altivo, este olhar ao mesmo tempo doce e profundo, são magníficos. Você é magnífica. É um verdadeiro símbolo da beleza brasileira.
Ficou por ali um tempo e depois perguntou se ela aceitava posar pra ele. Na hora, ela achou aquilo meio estranho, disse que não tinha jeito, que não ia saber como fazer. Afinal, esse negócio de posar é pra essas moças bonitas, loiras, de olhão azul, que moram lá embaixo na cidade. Não era pra ela, uma trabalhadora, negra,  moradora de morro.
Emiliano insistiu. Pediu que ela continuasse trabalhando, sem se importar com ele.
Foi isso mesmo que ela fez. Continuou fazendo as coisas dela, limpando chão, passando roupa, batendo pão. Ele ficou por lá, rabiscando uns desenhos numas folhas de papel.
Depois, agradeceu muito e foi saindo, assim meio sem jeito. Só disse que se chamava Emiliano e que voltava quando tivesse terminado o trabalho.
Depois de um tempo, Sofia já tinha até esquecido do episódio quando Emiliano apareceu outra vez.  Trazia um embrulho debaixo do braço.
Quando abriu o pacote, Sofia não acreditou.
Uma negra linda. Fazendo pão. A mão forte amassando a massa. Uma manga da blusa escorrendo pelo ombro. Um seio farto à mostra.
Era ela. Aquela mulata vistosa, alegre, quase monumental. Era ela, mas não podia ser ela. Não acreditava que era ela.
O moço confirmou que era ela sim.
. Sofia, você é a síntese de todas as mulatas, disse ele.
Disse que ela não imaginava como esse encontro tinha sido importante. Agradeceu muito e foi embora.
Ela nunca mais soube nada dele. Só sabe que se chamava Emiliano.
Belisário, que vive olhando revistas, outro dia encontrou umas pinturas em que aparecem umas mulatas iguaiszinhas àquela do quadro de D. Sofia. Diz na revista que o pintor daqueles quadros é famoso no mundo inteiro por causa de suas mulatas.
Se alguém pergunta pelo quadro ou pelo artista, D. Sofia desconversa, continua fazendo as coisas dela. Batendo pão e puxando a alça do vestido que insiste em cair do ombro. Sorriso no canto dos lábios carnudos, olhar meio perdido no tempo…
Num dos cantos do quadro de D. Sofia tem uma assinatura que é igual àquela dos quadros da revista: “E. di Cavalcanti ”.

(jul/2007)

“Um outro mundo é possivel”

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D. Sofia e os Escorpiões

Author: Delman Ferreira



Certa vez, um escorpião aproximou-se de um sapo que estava na beira de um rio.
O escorpião vinha fazer um pedido: “Sapinho, você poderia me carregar até a outra margem deste rio tão largo?” O sapo respondeu: “Só se eu fosse tolo! Você vai me picar, eu vou ficar paralisado e vou afundar.” Disse o escorpião: “Isso é ridículo! Se eu o picasse, ambos afundaríamos.” Confiando na lógica do escorpião, o sapo concordou e levou o escorpião nas costas, enquanto nadava para atravessar o rio. No meio do rio, o escorpião cravou seu ferrão no sapo. Atingido pelo veneno, e já começando a afundar, o sapo voltou-se para o escorpião e perguntou: “Por quê? Por quê?” E o escorpião respondeu: “Por que sou um escorpião e essa é a minha natureza.” (Parábola Africana).

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Enquanto isso, no Morro do Baco Baco,…
Belisário, nosso atirador de perguntinhas pontiagudas, estava lá, como quem não quer nada, vendo no noticiário da TV que mais uma criatura norte-americana invadiu outra escola e provocou nova tragédia, matando alunos e professores.
Ficou ali matutando.
De repente, virou-se pra D. Sofia e perguntou:
D. Sofia, a senhora que já botou mais de mil crianças no mundo, que benze e cura de todos os males, que sabe as ervas certas e tem remédio pra tudo, me diga uma coisa, a Senhora acha que tem jeito que dê jeito nos “esteites”?
D. Sofia, sem afastar os olhos do que estava fazendo, raciocinou:
Meu filho, o que me espanta é eles não terem se eliminado, todos, uns aos outros, até hoje. Quando vejo esse povo na TV, fico aqui meditando: como é que eles fazem pra viver entre si?

(jun/2007)

“Um outro mundo é possivel”

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Cada um no seu quadrado

Author: Delman Ferreira

Todo o Morro do Baco Baco, assim como todo o Brasil, estava ligado na “CPI das Alcovas“.
D. Sofia colocou uma dessas TV de LCD – tela grandona. Todos foram ver a CPI na TV da Mercearia. Audiência maior que final de copa do mundo. Era a primeira vez que o misterioso Thomas Greenfield ia aparecer. Até agora ninguém tinha visto a cara dele.
A CPI investigava chantagens contra autoridades e celebridades. O que se afirmava era que Thomas Greenfield comandava um esquema de escutas de informações sigilosas e depois chantageava autoridades para conseguir e manter favores.
Quando Thomas entrou na sala, até as placas tectônicas do Morro do Baco Baco balançaram.
ERA O POTOCA!!!!! Ninguém conseguia acreditar. Mas, quem entrava na sala da CPI, cercado por seguranças, de terno e gravata, fazendo de conta que era muito importante,  ladeado por uma loura escultural, todo afetado e cheio de poses,  era o POTOCA. Thomas Greenfield nada mais era que o POTOCA, o melequento do Porfírio Tomás Campos.
POTOCA ganhou esse apelido porque eram as primeiras sílabas de seus nomes e também porque vivia mexendo no nariz. Ele odiava o nome Porfírio. Odiava o apelido. Aliás, sempre odiou ter nome brasileiro. Insistia em ser chamado de Thomas, assim, com acento meio inglesado.
Sempre foi muito ligeiro. Não se sabia como, mas ele sempre conseguia, antes, as questões que iam cair nas provas. Só dava cola pra quem o chamasse de Thomas. Quem chamasse de Potoca estaria condenado, jamais receberia as dicas das provas.
Era cheio de manhas. Só dava as questões para meninas. Mas, elas tinham que desfilar com ele no shopping ou alguma balada. Dava um jeito de descobrir algum mal feito, um sem jeito, uma coisa escondida qualquer, e passava a chantagear a menina. Ela desfilava com ele e depois tinha que confirmar o que ele contasse, caso contrário, terror dos terrores, ele espalharia o segredo pra toda a escola. Quando Potoca estava incomodado e queria ameaçar alguém, começava a mexer no nariz. Era o sinal para que a vítima logo se comportasse como ele queria.
Vivia contando histórias, aventuras, casos e performances. Mas, ninguém acreditava muito. Ninguém sabia afirmar de que fruta o Potoca gostava. O que se dizia era que Potoca só queria fazer de conta. Fazia de conta que tinha, fazia de conta que curtia, fazia de conta que vivia, fazia de conta que namorava, fazia de conta que fazia. Vivia fazendo de conta que era mais do que um reles Potoca.
Agora estava ali o Potoca. Todo espaçoso. Certo de que não corria nenhum risco. Um habeas corpus, conseguido em troca de algum segredo,  dava garantias de que só falaria o que bem entendesse, de quem bem entendesse, na hora que bem entendesse. Potoca tinha a República nas mãos, ou melhor, na ponta do nariz. Um sinal seu e a mais ilibada reputação tremeria nas bases e poderia ser jogada por terra – acompanhada por um suspiro aliviado de todos os outros sobre quem Potoca calasse.
Pelo visto, Potoca aprimorou a metodologia e a tecnologia. Além dos jeitos e sem jeitos das meninas do Baco Baco, parece que Potoca especializou-se em descobrir os feitos, os mal feitos e os segredos de alcova das senhoras e dos senhores da Corte, aquém e além mar.
A “CPI das Alcovas“ fazia de conta que investigava o esquema de chantagens montado por Potoca, ou melhor, por Thomas Greenfield.
Por todos os lados – TVs, rádios, jornais, internet – saiam declarações bombásticas: “não vai sobrar pedra sobre pedra“, “quem não deve não teme“, “cabeças vão rolar“, “a República vai ficar sabendo o que se engendra nas alcovas do poder“, uns e outros aproveitavam para desfilar  erudição de almanaque, “esta CPI é a Caixa da Pandora da República“, e blá, blá, blá…
Analistas e especialistas, com toda a pompa e circunstância auferidas por suas gravatas, desenvolviam teses sobre “os reflexos deste desnudamento do modus operandi da política brasileira sobre as forças vivas de nossa sociedade“.
As revistas de fofoca fervilhavam, como um bando de maritacas alvoroçadas. A loura do Potoca virou musa, e já se especula quando, e para “quens“, posará nua. A plebe vibra com a promessa de desnudar a corte. Desvendar o inatingível. Conhecer as entranhas e as roupas sujas do Poder.
No meio deste frenesi geral, Belisário mantém-se frio. No mais profundo ceticismo, segue tomando café aparadinho direto do coador. Vira-se pro balcão e sentencia:
D. Sofia, isso vai dar em nada. Eles já combinaram tudo. Tá todo mundo muito tranquilo porque o Potoca tem habeas corpus e não é obrigado a falar nada. Assim, eles podem perguntar o que quiserem, fazer de conta que estão muito indignados, fazer discursos cheio de moral e ética, defender a Democracia e a Transparência, e fica tudo por isso mesmo.
Vão esbravejar, vão bater na mesa, vão provocar, vão atiçar, vão bater boca uns com os outros. Tudo faz de conta. O máximo que vai acontecer é, quando alguém fizer alguma pergunta meio escabrosa, o Potoca mexer no nariz e rapidamente o perguntador vai mudar de assunto e se dar por satisfeito.

Como que concordando com Belisário, neste mesmo momento, no meio do Morro, alguém liga um som de carro bem alto:
…ADO, A-ADO, CADA UM NO SEU QUADRADO!!!
…ADO, A-ADO, CADA UM NO SEU QUADRADO!!!

(abr/2009)

“Um outro mundo é possivel”

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Não tem preço

Author: Delman Ferreira

Café preto coado na hora. Pão quentinho com manteiga e mortadela. Mercearia da D. Sofia, no Morro do Baco Baco. Não tem preço.
Este deleite é um privilégio. Encontrei Belisário encostado no balcão. Na mão, uma caneca de barro. O café de Belisário tem ritual. Primeiro ele lava a caneca com água fervendo. Só depois coloca o café, aparadinho direto no coador. Assim, fica quente e saboroso por muito mais tempo.
Pra provocar Belisário, falei com D. Sofia, – Que é que a Senhora tá achando dessa confusão toda no Senado? Diretoria de garagem, diretoria de autógrafo, diretoria de aeroporto, diretoria de fantasmas,…?
- Pra mim, isso tudo vai dar em nada, filosofa D. Sofia. Eles brigam, brigam e, no fim, acabam arrumando mais uns carguinhos ou mais mordomias pra todo mundo ficar satisfeito, quieto e calado. E nós, mais uma vez, vamos ficar aqui só assistindo, fazendo de conta que não entendemos nada.
Belisário, calado estava – calado ficou. E eu continuei atiçando, – Mas, a Senhora não acha que dessa vez a imprensa está no pé deles? Que a imprensa não vai deixar barato?
Aí, Belisário não se agüentou. Empurrou a caneca pro meu lado e já foi entrando na conversa.
- Eu acho é pouco… Essa imprensa já demorou foi muito. Tem gente de todos os jornais, das TVs, da internet, que fica o dia todo, o ano todo, lá no Senado. Ficam pra lá e pra cá com os senadores e com os funcionários. Conhecem tudo, sabem de tudo. Leem até pensamentos. Sabem das manhas, das artimanhas, das escapadas, dos segredos mais secretos, das promessas, das traições. Do público e do privadíssimo. Nada escapa. Sabem tudo de tudo.
- Aí, eu vejo a imprensa se fazer de tão surpresa, tanta “ira santa”, com toda essa história. Fico aqui encafifado.
- Não dá pra entender, se eles que sabem tudo de tudo, como é que não sabiam nada de nada? Como é que um lugar tem 180 diretores e ninguém sabe de nada? Ou essa imprensa é muito incompetente e desinformada, ou tem caroço nesse angu. Na certa, tiveram bon$ motivo$ pra calar e esperam melhore$ momento$ pra falar.
- Mas, Belisário, antes tarde do que nunca. Tudo tem um preço. Ainda bem que agora eles resolveram falar. Tu não achas que esse é o papel da imprensa? Que assim a gente fica sabendo o que fazem lá por cima?
- Claro que é bom. É muito bom. Eu acho tão bom que eu queria ver abrirem outras caixas pretas, como o Judiciário, as assembléias estaduais, a CBF, o COB, as contas do PAN, as contas de time cujo presidente diz que acabou o dinheiro,…..
Este é o Belisário. Sempre olhando mais adiante. Sempre atirando dardos.
Tomar café preto coado com D. Sofia e Belisário. Não tem preço.

(mar/2009)

“Um outro mundo é possivel”

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