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Diálogos elevados

Author: Delman Ferreira

O elevador chegou vazio. Entraram Belisário e um anão já de meia idade. No próximo andar, entram uma Mãe e uma menina de uns quatro/cinco anos. Cumprimentam-se e seguem todos em silêncio. A menina não tirava os olhos do anão.

 De repente a menina chama:

_ Mãe.

A Mãe faz que não ouve.

_ Mãããeee…

_ …

 A Mãe apertou suavemente a mão da menina. Falou do lanche que iam fazer. Tentava distraí-la. Conhecendo a filha, preferia mantê-la calada.

 Mas, para terror da Mãe, a menina não se conteve. Apontando para o anão, fulminou:

_ Mãe, porque ele é criança e tem cara de velho?

 A Mãe não sabia onde se enfiar. Nem olhava pro lado do anão. O tempo tinha estacionado. O elevador jamais chegaria no térreo para que ela pudesse sair correndo daquela situação.

 Ainda pensava como sair dessa, quando o anão retrucou na mesma tranqüilidade da menina:

_ Porque você é menina e faz pergunta de adulto?

 Belisário apenas decorou a cena.

(jul/2009)

(um outro mundo é possível)

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Contextualização:
Há algum tempo, quando meus filhos – hoje quase todos adultos – estavam começando a se alfabetizar, brincando com as primeiras palavras, resolvi inventar uma historinha ingênua para frisar a importância de escrever corretamente. Até hoje não sei se eles entenderam assim, só sei que davam risadas com a tatarruga que não podia ir à praia, com o cangurru “meio viado” e com o caxorro que fazia “chichi” nas pernas.


Tatarruga nasceu com um problema.
Ela era diferente, não andava devagarinho como as outras tartarugas.
Tatarruga vivia correndo… corria, corria e corria…
Ela também não tinha casco como as outras tartarugas.
Ela tinha pele de neném.
Tatarruga não conseguia brincar no sol, não podia brincar no escorrega, não ia à praia. Ela tinha que ficar sempre na sombra…

Um dia, correndo, correndo, correndo,
entre uma sombra e outra, Tatarruga conheceu o Cangurru.

Cangurru também tinha um problema parecido, ele também era diferente dos outros cangurus.
Ele não saltava como os outros. Ele vivia correndo de quatro.
Os outros cangurus já ficavam falando mal dele.
Diziam que quem vivia correndo saltitante era veado. Achavam que ele parecia meio veado.

Os dois começaram a correr juntos e conheceram também o Caxorro.

Caxorro também era diferente.
Ele não conseguia fazer xixi como todo cachorro.
Ele só fazia chichi.
Ele fazia chichi nas pernas.

Os três ficaram amigos…
E brincavam e corriam sempre juntos.
Mas, não gostavam de ser diferentes dos outros…

Queriam brincar junto com todo mundo.

Daí, eles procuraram Dona Coruja, que sabia de tudo.
Ela então disse:
Procurem um Professor e uma Professora. Mas, CUIDADO!!!, tem que ser Professor e Professora com dois esses (“ss”). Eles vão saber o que fazer.

O Professor e a Professora ouviram o problema, pensaram, e então disseram:
Temos que estudar.
Depois de estudar, eles chegaram a uma conclusão:
O problema é que vocês ficam correndo, correndo e não param para Ler e Estudar!

Daí, Tatarruga, Cangurru e Caxorro resolveram Ler.
Todo dia, antes de correr e brincar, eles se reuniam para Ler.

Lendo,

Tatarruga aprendeu como são as tartarugas e
aprendeu que se escrevesse certo ela também seria uma tartaruga normal.

Cangurru também aprendeu que se estudasse e escrevesse certo poderia ser um canguru como os outros.

E Caxorro aprendeu como é que os cachorros fazem xixi
pra não fazer chichi nas pernas…

E assim, lendo, conseguiram descobrir que mesmo sendo um pouco diferentes eles podiam brincar e fazer como todo mundo.
E  também viraram Professores,
pra ensinar pra todo mundo que se cada um descobrir sua letrinha, dá pra todo mundo brincar e fazer todas as coisas juntos.

(nos idos de 198(alguma coisa))

“Um outro mundo é possivel”

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Instigante. Assustador. Delicioso.

Author: Delman Ferreira


às crianças, basta estarem calçadas,
o que querem mesmo é brincar com as caixas dos sapatos,
são os pais que fazem questão de ostentar filhos com tênis de grife

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Lua cheia. Céu sem nuvem. Morros emoldurando, recortando contra o negrume da noite. Lua Feiticeira. Pessoas deslumbradas.

De repente aquela figurinha solta uma perguntinha desequilibrante:
Como é que a Lua fica presa no Céu e não cai?
… (faço de conta que nem ouvi – tempo pra respirar e pensar uma saída)…
Hein, Paiê? Hein???
…bom, eles pegam uma fita crepe, colam na Lua e colam a Lua no céu, assim igual a gente cola fotografia na parede…… (ufa!!!)
Pronto, satisfeita a curiosidade. A astronautazinha já nem lembra mais da pergunta. Sai voando atrás de alguma outra descoberta, outro sonho ou outro feitiço, e… novas dúvidas.
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Primeira bicicleta. O presente sonhado – chorado – chantageado – ansiosamente esperado.
Bicicleta: novas descobertas, novos limites, novos tombos e novos sustos – físicos e intelectuais.
Como é que eles fazem as bicicletas?

hein, Paiêê? Como é que eles fazem uma bicicleta?
… bom, eles pegam um cano, vão dobrando e juntam com outro cano que também vão dobrando. Depois pegam duas rodas e botam os canos em cima. Daí colocam um banco e um lugar pra pessoa se segurar. Pronto.
Nem bem acabou a resposta e o surfistazinho já estava longe, satisfeito, vacilante, orgulhoso por andar na bicicleta sem rodinhas.
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Festa Junina. Fogueira. Buscapé. Algodão doce. Pipoca. Pinhão. Batata doce. Melado. Foguetes. Fogos coloridos e… perguntas.
… como é que fazem os foguetes?
Hummm…. Olha só que foguete mais lindo, cheio de estrelinhas…
… como é que o foguete chega nas estrelas?

Hein? Como é que eles fazem o foguete?
…bom, eles pegam um pouco de fogo da fogueira e colocam dentro de um canudo. Daí, depois o canudo explode e o fogo sai bem forte lá pra cima, até o céu.
Ele fura o céu?
Não, não fura o céu porque o céu encolhe a barriga. Olha lá que chuva de estrelas legal.
A chuva de estrelas distrai a cidadãzinha… e, certamente, enche a cabecinha de novas perguntinhas desconcertantes.
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Compenetrado, ele presta atenção na Meri que o ajuda a montar um quebra-cabeças que é um Mapa do Brasil. O quebra-cabeças é composto por peças com o formato de cada Estado e os nomes das capitais.
Aqui fica Florianópolis. É aqui que fica a nossa casa. Florianópolis é a capital de Santa Catarina.
Aqui fica Curitiba. Curitiba é a capital do Paraná.
Aqui é São Paulo. São Paulo é capital de um lugar que também se chama São Paulo. São Paulo é capital de São Paulo.
E ele calado, colocando cada peça, na maior atenção.
Belo Horizonte, capital de Minas Gerais.
Goiânia é capital de Goiás.
Aqui é Brasília. Brasília é a capital de todo o Brasil.
Aqui é Palmas …
… antes que a Mãe completasse, com a carinha mais sacana do mundo, ele mais que depressa pergunta: É a capital do Parabéns?
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É complexo, mas é simples.
Desequilibra porque é inesperado.
Não é ensinado nos livros – não há modelitos e gabaritos.
Perturba porque não pode ficar sem resposta.
Há que correr o risco de errar – criar respostas próprias, e satisfatórias, para cada nova situação.
Exige agilidade, descomplicação e criatividade.
Estar com os pés no mundo real e a mente num mundo sem limites.
Compreender as infinitas realidades. Respeitar tempos e prioridades.

Há que valorizar o novo mundo que se cria.

criar é instigante
é assustador… mas, …é delicioso…

“Um outro mundo é possivel”

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