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Cada um no seu quadrado

Author: Delman Ferreira

Todo o Morro do Baco Baco, assim como todo o Brasil, estava ligado na “CPI das Alcovas“.
D. Sofia colocou uma dessas TV de LCD – tela grandona. Todos foram ver a CPI na TV da Mercearia. Audiência maior que final de copa do mundo. Era a primeira vez que o misterioso Thomas Greenfield ia aparecer. Até agora ninguém tinha visto a cara dele.
A CPI investigava chantagens contra autoridades e celebridades. O que se afirmava era que Thomas Greenfield comandava um esquema de escutas de informações sigilosas e depois chantageava autoridades para conseguir e manter favores.
Quando Thomas entrou na sala, até as placas tectônicas do Morro do Baco Baco balançaram.
ERA O POTOCA!!!!! Ninguém conseguia acreditar. Mas, quem entrava na sala da CPI, cercado por seguranças, de terno e gravata, fazendo de conta que era muito importante,  ladeado por uma loura escultural, todo afetado e cheio de poses,  era o POTOCA. Thomas Greenfield nada mais era que o POTOCA, o melequento do Porfírio Tomás Campos.
POTOCA ganhou esse apelido porque eram as primeiras sílabas de seus nomes e também porque vivia mexendo no nariz. Ele odiava o nome Porfírio. Odiava o apelido. Aliás, sempre odiou ter nome brasileiro. Insistia em ser chamado de Thomas, assim, com acento meio inglesado.
Sempre foi muito ligeiro. Não se sabia como, mas ele sempre conseguia, antes, as questões que iam cair nas provas. Só dava cola pra quem o chamasse de Thomas. Quem chamasse de Potoca estaria condenado, jamais receberia as dicas das provas.
Era cheio de manhas. Só dava as questões para meninas. Mas, elas tinham que desfilar com ele no shopping ou alguma balada. Dava um jeito de descobrir algum mal feito, um sem jeito, uma coisa escondida qualquer, e passava a chantagear a menina. Ela desfilava com ele e depois tinha que confirmar o que ele contasse, caso contrário, terror dos terrores, ele espalharia o segredo pra toda a escola. Quando Potoca estava incomodado e queria ameaçar alguém, começava a mexer no nariz. Era o sinal para que a vítima logo se comportasse como ele queria.
Vivia contando histórias, aventuras, casos e performances. Mas, ninguém acreditava muito. Ninguém sabia afirmar de que fruta o Potoca gostava. O que se dizia era que Potoca só queria fazer de conta. Fazia de conta que tinha, fazia de conta que curtia, fazia de conta que vivia, fazia de conta que namorava, fazia de conta que fazia. Vivia fazendo de conta que era mais do que um reles Potoca.
Agora estava ali o Potoca. Todo espaçoso. Certo de que não corria nenhum risco. Um habeas corpus, conseguido em troca de algum segredo,  dava garantias de que só falaria o que bem entendesse, de quem bem entendesse, na hora que bem entendesse. Potoca tinha a República nas mãos, ou melhor, na ponta do nariz. Um sinal seu e a mais ilibada reputação tremeria nas bases e poderia ser jogada por terra – acompanhada por um suspiro aliviado de todos os outros sobre quem Potoca calasse.
Pelo visto, Potoca aprimorou a metodologia e a tecnologia. Além dos jeitos e sem jeitos das meninas do Baco Baco, parece que Potoca especializou-se em descobrir os feitos, os mal feitos e os segredos de alcova das senhoras e dos senhores da Corte, aquém e além mar.
A “CPI das Alcovas“ fazia de conta que investigava o esquema de chantagens montado por Potoca, ou melhor, por Thomas Greenfield.
Por todos os lados – TVs, rádios, jornais, internet – saiam declarações bombásticas: “não vai sobrar pedra sobre pedra“, “quem não deve não teme“, “cabeças vão rolar“, “a República vai ficar sabendo o que se engendra nas alcovas do poder“, uns e outros aproveitavam para desfilar  erudição de almanaque, “esta CPI é a Caixa da Pandora da República“, e blá, blá, blá…
Analistas e especialistas, com toda a pompa e circunstância auferidas por suas gravatas, desenvolviam teses sobre “os reflexos deste desnudamento do modus operandi da política brasileira sobre as forças vivas de nossa sociedade“.
As revistas de fofoca fervilhavam, como um bando de maritacas alvoroçadas. A loura do Potoca virou musa, e já se especula quando, e para “quens“, posará nua. A plebe vibra com a promessa de desnudar a corte. Desvendar o inatingível. Conhecer as entranhas e as roupas sujas do Poder.
No meio deste frenesi geral, Belisário mantém-se frio. No mais profundo ceticismo, segue tomando café aparadinho direto do coador. Vira-se pro balcão e sentencia:
D. Sofia, isso vai dar em nada. Eles já combinaram tudo. Tá todo mundo muito tranquilo porque o Potoca tem habeas corpus e não é obrigado a falar nada. Assim, eles podem perguntar o que quiserem, fazer de conta que estão muito indignados, fazer discursos cheio de moral e ética, defender a Democracia e a Transparência, e fica tudo por isso mesmo.
Vão esbravejar, vão bater na mesa, vão provocar, vão atiçar, vão bater boca uns com os outros. Tudo faz de conta. O máximo que vai acontecer é, quando alguém fizer alguma pergunta meio escabrosa, o Potoca mexer no nariz e rapidamente o perguntador vai mudar de assunto e se dar por satisfeito.

Como que concordando com Belisário, neste mesmo momento, no meio do Morro, alguém liga um som de carro bem alto:
…ADO, A-ADO, CADA UM NO SEU QUADRADO!!!
…ADO, A-ADO, CADA UM NO SEU QUADRADO!!!

(abr/2009)

“Um outro mundo é possivel”

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