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esse Dunga faz coisa…

Author: Delman Ferreira

Desço do metro e esbarro com uma cena impensável: um sujeito vestido com o uniforme do Flamengo e enrolado numa bandeira do Vasco. Camisa do Flamengo, calção do Flamengo, meião do Flamengo e… enrolado na bandeira do Vasco.

Todo mundo que saia do metro ficava sem acreditar. Ninguém se segurava. Uns ficavam espiando meio de rabo de olho, outros foram logo se chegando. De imediato, formou-se um bolinho em volta do sujeito. Todos queriam saber o que era aquilo.

- Isso é culpa daquele FI-LHO-DA-PU-TA do Dunga, tentava explicar o enrolado.

- ???!!!

- Eu acreditava naquele filhodaputa. Tinha certeza que o Brasil ia atrair os coreanos e enfiar um saco de gols. Eu apostava que o Brasil ia fazer uns cinco. Daí, essa minha boca grande jurou que se o Brasil não metesse três eu saia no metro vestido com essa porra desse uniforme.

Deu no que deu… 2 X 1. Os amigos não perdoaram. Precisavam descarregar em alguém.

- Eu sou homem de uma palavra só. Mas, nunca vou trair o Vascão. To aqui, com essa porra desse uniforme, mas, com o manto sagrado do Vascão por cima pra isolar qualquer desgraça.

Olhava pra uns, olhava pra outros. Fazia beicinho. No limite do choro…

Maior sucesso. Em tempos de Copa, tudo é farra. Vaias. Aplausos. Gritos de Mengão de um lado. Vascão de outro. Alguém grita:  “É isso aí, jura de jogo é sagrada, mas o Vascão é mais”…  “Chama o Galvão”… “Filma eu, Galvão”… “Cala a boca Galvão”…

Não faltou nem vuvuzela.

Já engrandalhado com seus quinze minutos de celebridade, o enrolado ainda fez questão de jurar:

- E tem mais, quando chegar em casa vou ficar umas duas horas debaixo do chuveiro pra tirar essa nhaca de urubu de cima de mim…

(jun/2010)

“Um outro mundo é possivel”

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Orgulho Negro

Author: Delman Ferreira

O feito mais extraordinário que o futebol poderia proporcionar nesta Copa do Mundo já ocorreu. Feito que jamais será superado em nenhuma outra copa ou evento esportivo.

Nenhum lance, nenhuma defesa, nenhuma tática, nenhum drible, nenhum gol, nada, poderá superar a incontrolável força do grito de orgulho do Povo Negro sul africano.

Graças à Copa, o mundo tomou conhecimento da força de superação dos sul-africanos. Descobrimos a alegria, a musicalidade, a geografia, a fauna, a história, a diversidade.

A Copa transformou a África que existia no nosso imaginário. Ao invés de um país de elefantes e leões, fome crônica, AIDS, genocídio entre tribos, passamos a imaginar um país vibrante, rico em cores e sons, rico em oportunidades, rico em belezas naturais. Um país rico que ainda não superou, mas, luta para superar problemas gravíssimos acumulados ao longo de séculos.

Graças à Copa, o mundo tomou conhecimento amplo de um dos maiores personagens de todo o século XX. Não apenas do mito, mas do Homem – a vida, a história, o pensamento, a tenacidade e o extraordinário sentimento de nação de Nelson Mandela.

O maior feito da Copa é dar ao Povo Negro a oportunidade de gritar para o mundo sua força.

Digo do Povo negro porque é exatamente assim.

A África do Sul foi dominada durante séculos por bárbaros europeus cristãos. Bárbaros que se auto-proclamavam os povos mais civilizados da Terra.

Essa barbárie durou até maio de 1994 – apenas dezesseis anos atrás.

Durante o domínio branco-cristão, a África do Sul jamais passou de um território a ser saqueado. Jamais teve qualquer expressão mundial. Jamais passou de um país exótico e medíocre. Era apenas o fim do mundo, lá onde a Terra faz a curva.

Somente depois da libertação negra é que o mundo tomou conhecimento da força e da capacidade de criar e organizar dos sul-africanos. Hoje, apenas dezesseis anos após a libertação, a África do Sul é um dos principais expoentes da economia mundial.

Dezesseis anos. Recuperação de séculos de vergonha, opressão e mediocridade.

Muito mais do que um povo. O mundo descobriu suas próprias origens. Descobriu que foi na África que se desenvolveu a espécie humana tal como somos hoje.

O grito de orgulho do povo negro pode, também, ser o brado de fundação de uma verdadeira civilização.

Atualmente, bilhões de pessoas, na África e em todos os cantos do Planeta, vivem em condições subumanas. Enquanto perdurar essa situação, jamais poderemos nos considerar minimamente civilizados. Não passamos de bárbaros tentando fazer de conta que sabemos nos comportar.

As insuportáveis vuvuzelas são como um alarme, uma sirene que chama a atenção da humanidade para o estágio de barbárie em que ainda vivemos.

O grande feito da Copa do Mundo de Futebol vai muito além dos gramados. É o grito de orgulho de um povo. É a  importância da diversidade. É o grito de alerta para os povos.

Na África nasceu a humanidade. Na África nasce o exemplo de como superar a Era da Barbárie. A África do Sul ainda não chegou lá, mas, dali vem o exemplo de como construir um mundo baseado na diversidade. Na África nasce a Civilização.

(jun/2010)

“Um outro mundo é possivel”

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