Posts Tagged ‘consciência’

Hipócrates tinha razão (II)

Author: Delman Ferreira

Uma amiga chamou minha atenção que, no último texto deixei a impressão, generalizante, de que os médicos ou seriam uns exagerados ou iriam contra os pacientes.

Quero registrar que não foi esta a minha intenção. Pelo contrário, considero perfeitamente compreensível que os médicos fiquem muito preocupados quando alguém diz que vai se cuidar por meio de mudanças nos hábitos alimentares. Afinal, é da responsabilidade deles garantir a saúde dos pacientes. E o mais comum é que as pessoas se proponham a cuidar da alimentação, mas desistam rapidamente diante das primeiras dificuldades. E, quando isso acontece, os males se agravam e os médicos são responsabilizados. É natural que ouçam propósitos de mudança de hábitos com desconfianças e reservas.

A generalização de críticas, infalivelmente, nos leva a cometer o erro de injustiçar àqueles que procuram orientar seu trabalho por princípios e valores que respeitam e dignificam a humanidade.

Por outro lado, tenho implicância contra certos profissionais, ou indústria, mais preocupados com os negócios do que com a saúde. Considero um crime (inclusive por parte de quem permite) fazer propaganda e marketing de remédios ou cirurgias ‘milagrosas’ nos meios de comunicação de massa. Jogam irresponsavelmente com a desinformação, a insegurança e a ansiedade de pessoas debilitadas e/ou carentes.

Fala-se muito em ética na propaganda, autoregulação etc. Mas, o grande desafio é fazer o trabalho de conscientização. Como já disse, na minha opinião, a educação alimentar deveria iniciar na infância e ser parte do curriculo básico obrigatório, em todas as escolas, públicas e privadas, em todo o território nacional, desde o Ensino Fundamental até a Graduação. A saúde pública brasileira, certamente, seria muito menos congestionada e caótica.

Portanto, se deixei a impressão de estar desmerecendo médicos, pesquisadores, ou outros profissionais da saúde, que se pautam pela ética e fazem medicina com seriedade, quero me desculpar e deixar muito claro que tenho o maior respeito por quem respeita as pessoas e faz da profissão (em qualquer área) uma militância e um caminho para melhorar a qualidade de vida e os padrões de nossa civilização.

(um outro mundo é possível)

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Maria Maria

Author: Delman Ferreira

Maria Maria
(igualdades desiguais)
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Maria nasceu numa clínica, com todas as garantias do plano de saúde de seus pais, no dia 1º de dezembro de 2008, às 10 horas e 23 minutos. Vai morar numa casa confortável e segura de um condomínio privado do Lago Sul, em Brasília.

Maria nasceu num hospital público, no dia 1º de dezembro de 2008, às 10 horas e 23 minutos. Seus pais moram numa “casinha”, num terreninho de invasão, num “condomínio não regularizado” do Paranoá, em Brasília.


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Paranoá fica a dez quilômetros do Lago Sul.

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Maria, do Lago Sul, nasceu numa família muito bem estruturada. O pai tem emprego estável, o que lhe garante segurança por quase toda a vida. A mãe, já próximo do nascimento, decidiu parar de trabalhar para poder acompanhar plenamente o desenvolvimento da filha.

Maria, do Paranoá, nasceu numa família que luta para se estruturar. O pai esteve desempregado durante quase três anos, há pouco conseguiu emprego num supermercado.  Ganha pouco mais que o Salário Mínimo. A mãe trabalha como diarista, fazendo faxinas.

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Maria, do Lago Sul, tem “sete avós” e muitos tios, tias, primos, primas. Tanto avós maternos quanto paternos constituíram novas famílias e todos convivem muito bem. Os sete avós estarão sempre presentes em todos os momentos corriqueiros ou especiais da vida de Maria.

Maria, do Paranoá, conhecerá apenas os avós maternos. O avô é alcoólatra e a avó amarga todas as dificuldades decorrentes, mal consegue dar conta de tantos problemas. Mal consegue ver os netos e as netas.


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A não ser por fatalidades ou fatos fortuitos, a trajetória de vida de cada uma destas Marias é bastante previsível, determinada pelo território de seu nascimento.

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Maria será amamentada pela mãe até os seis meses quando, então, seu cardápio será gradativamente acrescido de papinhas, frutinhas e outros nutrientezinhos. Um cardápio estudado, individualizado e balanceado para um perfeito desenvolvimento físico e intelectual. Mensalmente visitará seu pediatra particular e, com pontualidade, receberá todas as vacinas na época devida.


Maria será amamentada pela mãe nos primeiros dias, até que esta seja obrigada a voltar para o trabalho de diarista porque disso depende grande parte da manutenção da casa. Com menos de um mês de vida, passará a ser alimentada com farinhas industrializadas “próprias para recém nascidos”.  De tempos em tempos, sempre que conseguir marcar consulta, visitará um posto de saúde para manter sua caderneta de vacinas atualizada.

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Depois dos primeiros passinhos, Maria passará a freqüentar uma escolinha cuja grade oferece aulinhas de música, natação, jardinagem, pintura, primeiras letras etc. Duas ou três “tias” devidamente graduadas, orientadas por uma Pedagoga com Mestrado em Educação Maternal. Aos dois anos passará a freqüentar aulas regulares de natação. Aos quatro estará iniciando curso de inglês.

Maria, ao longo de seus primeiros meses e anos de vida, será “cuidada” por uma “tia” um pouco mais velha, que ficará com a menina enquanto a mãe sair para as faxinas diárias.

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Aos cinco anos, Maria fará sua primeira viagem internacional. Vai à Disney. Aos sete, fará sua primeira viagem à Europa. Dez dias em Londres e Paris. Torre Eiffel, London Eye, museus, praças, parques, lojas… Aos dez anos, fará sua segunda viagem à Europa. Um mês em Portugal, Espanha, Itália e Grécia. Entre uma viagem internacional e outra, conhecerá São Paulo e Rio de Janeiro. As serras do Sul e as praias de Florianópolis. Salvador e as praias do nordeste. Também fará excursões com a escola para conhecer a floresta amazônica e o Pantanal. Aos 13 anos, já conhecerá largamente sobre as vidas e as obras dos principais artistas e personagens da história ocidental por ter estudado e visitado os locais em que viveram e atuaram.


Até os cinco anos, Maria conhecerá a fome, algumas cozinhas e áreas de serviço de casas em que a mãe fizer faxina, as ruelas e as invasões das vizinhanças de sua “casa”. Num dia das crianças, talvez seja levada ao zoológico.  Um ou outro natal será levada a ver Papai Noel em algum shopping. Até os dez anos, conhecerá os principais personagens de sua realidade. Será testemunha do esforço quase infrutífero de seus vizinhos para também levar a vida com dignidade. Viverá a realidade de um mundo de periferia, marginalizado, dominado por traficantes, prostituição, abandono, descaso e, principalmente, muita carência. Aos 13 anos, já conhecerá prazeres e agruras do convício íntimo com algumas das principais “celebridades” de sua área.

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Ao completar seis anos, Maria iniciará sua vida acadêmica. Este momento foi planejado pelos pais desde seus quatro anos. A escola foi escolhida depois de um longo processo de avaliações criteriosas. Será uma escola bilíngüe que, além do currículo oficial, oferecerá a Maria condições e estruturas para experimentar e optar entre diversas atividades culturais, artísticas e esportivas. Caso venha a ter dificuldades numa ou noutra matéria, poderá se socorrer da equipe de reforço escolar e dos avós, sempre presentes e ávidos por participar de sua educação.


Ao completar seis anos, a mãe de Maria precisará enfrentar horas numa fila interminável para conseguir vaga na escola mais perto de casa. Maria iniciará sua vida escolar. Inicialmente, será um pouco assustador e, ao mesmo tempo, uma grande novidade. Além da merenda escolar de todos os dias, poderá brincar com amiguinhas novas e aprender coisas. Maria será muito curiosa e gostará muito de aprender coisas que ela só verá pela TV – praticamente a única janela de contato de Maria com o mundo exterior além Paranoá. Maria contará com seu próprio esforço e curiosidade para progredir. Os pais, a avó ou a “tia”, não terão muito tempo, energia ou paciência para acompanhar diariamente a evolução escolar da filha.

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Maria crescerá entre revistinhas, livros, filmes e debates acalorados entre as diversas e, algumas vezes, divergentes visões de mundo de seus, pais, avós, tios, tias etc.


A principal escola de Maria será a rua.

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Maria continuará vivendo a apenas dez quilômetros de Maria – sem que Maria jamais tenha conhecimento da existência de Maria. Em raros momentos, poderão ocorrer breves tangências entre suas vidas. Em eventos públicos e gratuitos, destes que reúnem grandes multidões.

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Maria, com sua sede de aprender, vai avançar naturalmente na vida acadêmica, até alcançar o funil do vestibular, para o qual, mesmo com a natural insegurança diante de um novo desafio, estará muito bem orientada e capacitada.


Maria, graças à sua vivacidade e grande esforço, vai avançar na vida escolar e alcançar o funil do vestibular. Ficará muito insegura por não se sentir devidamente preparada.

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Maria observará o mundo ao seu redor. Fruto de questionamentos e das conversas com pais e avós, terá plena consciência de viver numa sociedade desigual e absurdamente injusta.


Maria sentirá que vive numa sociedade desigual e absurdamente injusta. Saberá que seu mundo é marginalizado.

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Maria vai querer muito ajudar a construir um mundo mais justo. Perceberá que o território pode ser determinante nas vidas das pessoas. Por viver numa cidade que respira arquitetura, sonhará ser arquiteta. Acreditará que assim poderá projetar casas mais aconchegantes, com maior dignidade, nas quais seja agradável viver e conviver. Casas e comunidades capazes de ajudar a integrar as pessoas entre si e as pessoas com a natureza. Que, ao invés de fronteiras divisórias, sejam espaços de comunicação e aproximação.

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Sem que uma tenha conhecimento da existência da outra, Maria e Maria sonharão o mesmo sonho: estudar arquitetura na UNB.

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Para Maria existirá uma tranqüila certeza: caso não consiga passar no vestibular da UNB, poderá fazer arquitetura em outra universidade privada de boa qualidade.


Para Maria existirá uma trágica certeza: caso não consiga entrar na UNB na primeira tentativa, dificilmente terá outra oportunidade.

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Irão disputar o mesmo sonho. Regras únicas. Sem discriminação. Sem privilégios. Regras iguais para todos. Todos igualados perante as regras.

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Belisário, o perguntador das perguntinhas pontiagudas, ficou quieto todo o tempo. Por fim, atirou seus dardos.
- Quando eu vejo alguém falando que “todos são iguais perante a lei”, vou logo perguntando: todos quem, cara-pálida?
- Escuta, me diz uma coisa: Como é que essas regras são iguais para todos? Maria e Maria estarão realmente em igualdade de condições? Que chances terá Maria contra Maria?
- Colocar Maria a disputar com Maria nas mesmas regras, é o mesmo que colocar qualquer um de nós a disputar uma prova de cem metros de natação com Michael Phelps. Alguém é capaz de afirmar que algum dia algum de nós terá a mínima possibilidade de vitória disputando uma prova de igual para igual com Michael Phelps?
- “Regras iguais para todos” favorece a quem, afinal?
- Que atitudes a sociedade deve adotar com Maria do Paranoá? Excluir definitivamente? Condenar? Jogar na marginalidade? Piedosamente torcer para que “a sorte sorria para Maria”? Decretar sua eterna condição de diarista?
- Que mecanismos o Estado oferece à Maria para que possa construir seu sonho tal e qual Maria?
- É democrático tratar desiguais de forma igual? Ou seria mais honesto e eficaz tratar desigualmente os desiguais?

(dez/2008)

(um outro mundo é possível)

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BOICOTE

Author: Delman Ferreira

“O valor que cada um possui aos olhos do outro,
é o valor de seus respectivos bens. Portanto, em si o homem não tem valor.”

(Karl Marx, nos “Manuscritos econômicos e filosóficos” (1844),
constatando que o capitalismo desumaniza o ser humano).


A Humanidade se depara com o maior desafio de todos os seus milênios de história: reverter o impacto das mudanças climáticas, provocadas pelo padrão de vida atual.
Em apenas dois séculos de Revolução Industrial, o ser humano provocou transformações que poderão colocar em risco sua própria existência sobre o Planeta.
Chega quase a ser comovente observar as manifestações da imprensa, ou de artistas, atletas, celebridades genuínas e celebridades meteóricas, cientistas, políticos etc., preocupados com as conseqüências das mudanças climáticas.
Cabe perguntar até que ponto tais preocupações são sinceras ou não passam de discurso, apenas uma surfada na onda do politicamente correto?
Diz-se que o grande vilão do aquecimento global é o consumo desmedido de energia. Mas, ao fim e ao cabo, por que e para que o mundo consome tanta energia?
Fundamentalmente, para manter um padrão de vida em que o supérfluo se fez muito mais importante que as necessidades básicas da vida. Um mundo no qual a simbologia do produto é mais importante que sua utilidade. O valor-símbolo é maior que o valor-de-uso. O consumidor é consumido. As grifes valem mais que o produto. Ostentar vale mais que usar.
Um padrão de vida que é estimulado de forma quase impositiva pela insensatez da tal “lógica de mercado” – na versão voraz e agressiva da indústria de supérfluos e produtos descartáveis. Sumidouro de energia. Esterilização do Planeta.
A única atitude eficaz para enfrentar o desafio das mudanças climáticas, cujas conseqüências já se fazem presentes e são irreversíveis, é mudar esse padrão de consumo. Mudar os objetos de desejo, mudar o olhar sobre o Ser Humano e sobre o Planeta, e, obviamente, mudar o atual estilo de vida – revolucionar a vida em escala mundial.
Assim, para perceber a coerência entre intenção e gesto, ou entre discurso e prática, é oportuno fazermos algumas daquelas perguntinhas inoportunas.
Lemos, ouvimos e assistimos diariamente matérias jornalísticas, alarmantes e alarmistas, dando conta das gravíssimas conseqüências das mudanças climáticas. Vamos, então, avaliar o nível de comprometimento desta imprensa com a solução de problema tão grave. Para ser coerente, estaria a indústria da comunicação disposta a não aceitar mais o patrocínio e as ricas verbas de divulgação da indústria de supérfluos e descartáveis?
No plano individual, até que ponto estaremos dispostos a mudar alguns hábitos adquiridos principalmente nas últimas quatro ou cinco décadas?
Poderíamos iniciar por mudanças simples. Que tal verificar quais os produtos exigem maior consumo de energia em sua fabricação e substituir por outros menos impactantes?
Por exemplo: deixar de consumir cerveja e refrigerantes em lata e voltar a consumi-los em garrafas de vidro, que são reutilizáveis, portanto, consomem menos recursos naturais e muito menos energia. Ou deixar de usar sacos plásticos nos mercados e voltar a usar a velha e boa sacola de palha, mais duradoura e sustentável. Ou adquirir hábitos de não deixar torneiras abertas, não deixar luzes acesas, não deixar TVs ligadas, não jogar lixo pelas janelas,…
Essas e tantas outras – simplórias mudanças de hábitos no dia a dia – é que efetivamente poderão revolucionar a vida e salvar a Humanidade.
Sem esperar opinião das celebridades autênticas ou das “celebridades meteóricas”  (genericamente, “celebridades meteóricas” são personagens que têm “célebro”).
Sem depender de iniciativas governamentais ou das ONGs.
Apenas atitude.
“Pensar globalmente, agir localmente”.
Apenas consciência e respeito ao Planeta e à Humanidade.
Apenas parar de contribuir com o fim da vida sobre a Terra.
Apenas Boicote à vida descartável.

(mar/2007)

“Um outro mundo é possivel”

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