abr
30
2009
Mentiras sinceras
Author: Delman Ferreira
“Pequenas porções de ilusão”.
“Mentiras sinceras me interessam”.
Cazuza
Cansei.
Confesso que cansei.
Cansei de tanta verdade. Cansei de tanta realidade.
Quero fantasias. Quero promessas. Quero ilusões. Quero mentiras sinceras.
Quero a Ilha da Magia. Quero ir para Pasárgada.
Chega de concreto. Armado sem a leveza de Niemeyer.
A verdade é muito mal humorada. Muito malcriada. Não pede licenças. Vai se metendo. Nua e crua. Batendo na cara da gente. Destruindo sonhos. Transformando príncipes em sapos. Desmoronando castelos. Queimando pontes. Arrasando mundos.
Cansei de heróis de verdade.
Heróis de verdade. Esses de carne e osso iguaisinhos à gente. Que são campeões de quase tudo e de vale tudo, que sabem tudo de tudo, que estão sempre sarados e sorridentes. … São insuportáveis. Nos agridem com a verdade implacável de nossas limitações, de nossas celulites e barriguinhas indisfarçáveis, de nossos cheques sem fundo.
Cansei de padrões. Cansei de armaduras. Cansei de heróis.
Prefiro super-heróis.
Desses com superpoderes sem limites. Esses não me fazem sentir incompetente. Sei que eles fazem o que fazem por causa dos superpoderes e não porque são melhores do que eu.
Prefiro gente comum.
O padeiro, o açougueiro, o peixeiro, o verdureiro, o carteiro, a costureira, a dona da farmácia, a dona da loja, o barbeiro, o jardineiro, o bêbado, o chato, a generosa,… – quero que os personagens de minha vila me conheçam pelo nome. Que aquela senhora carola me recrimine. Que aquele milico reformado me considere um renegado perigoso. Quero andar descalço pelas ruas da minha aldeia.
Que seja possível ser ingênuo, ignorar as etiquetas, ser espontâneo e estabanado. E ter amigos que riam de mim comigo. E continuem amigos.
Mentiras sinceras me interessam.
Que me façam acreditar que sou vibrante. Arrebatador. Feiticeiro.
(Sem que eu precise pagar por isso).
Que os amigos sinceros me contem mentirinhas piedosas. Pílulas douradas. Arco-íris no fim do túnel. A realidade em gotas homeopáticas. Placebos de jujubas coloridas. Pequenas porções de ilusão.
Quero sonhos. Mistérios. Fantasias. Suspiros. Suspense no ar.
Quero a sofreguidão de contar os dias na espera de papai-noel. Quero me lambuzar sem pecados nos ovinhos do coelhinho da páscoa. Prazer sem culpa. Cheiro de café coado na hora e pão quentinho com manteiga.
Janelas e portas se abrindo.
Utopia. Fé cega.
Que me façam acreditar, novamente, que “um outro mundo é possível”.
(Primavera/2005)
“Um outro mundo é possivel”