Posts Tagged ‘Belisário’

Maria Maria

Author: Delman Ferreira

Maria Maria
(igualdades desiguais)
@@@

Maria nasceu numa clínica, com todas as garantias do plano de saúde de seus pais, no dia 1º de dezembro de 2008, às 10 horas e 23 minutos. Vai morar numa casa confortável e segura de um condomínio privado do Lago Sul, em Brasília.

Maria nasceu num hospital público, no dia 1º de dezembro de 2008, às 10 horas e 23 minutos. Seus pais moram numa “casinha”, num terreninho de invasão, num “condomínio não regularizado” do Paranoá, em Brasília.


@@@


Paranoá fica a dez quilômetros do Lago Sul.

@@@


Maria, do Lago Sul, nasceu numa família muito bem estruturada. O pai tem emprego estável, o que lhe garante segurança por quase toda a vida. A mãe, já próximo do nascimento, decidiu parar de trabalhar para poder acompanhar plenamente o desenvolvimento da filha.

Maria, do Paranoá, nasceu numa família que luta para se estruturar. O pai esteve desempregado durante quase três anos, há pouco conseguiu emprego num supermercado.  Ganha pouco mais que o Salário Mínimo. A mãe trabalha como diarista, fazendo faxinas.

@@@


Maria, do Lago Sul, tem “sete avós” e muitos tios, tias, primos, primas. Tanto avós maternos quanto paternos constituíram novas famílias e todos convivem muito bem. Os sete avós estarão sempre presentes em todos os momentos corriqueiros ou especiais da vida de Maria.

Maria, do Paranoá, conhecerá apenas os avós maternos. O avô é alcoólatra e a avó amarga todas as dificuldades decorrentes, mal consegue dar conta de tantos problemas. Mal consegue ver os netos e as netas.


@@@


A não ser por fatalidades ou fatos fortuitos, a trajetória de vida de cada uma destas Marias é bastante previsível, determinada pelo território de seu nascimento.

@@@


Maria será amamentada pela mãe até os seis meses quando, então, seu cardápio será gradativamente acrescido de papinhas, frutinhas e outros nutrientezinhos. Um cardápio estudado, individualizado e balanceado para um perfeito desenvolvimento físico e intelectual. Mensalmente visitará seu pediatra particular e, com pontualidade, receberá todas as vacinas na época devida.


Maria será amamentada pela mãe nos primeiros dias, até que esta seja obrigada a voltar para o trabalho de diarista porque disso depende grande parte da manutenção da casa. Com menos de um mês de vida, passará a ser alimentada com farinhas industrializadas “próprias para recém nascidos”.  De tempos em tempos, sempre que conseguir marcar consulta, visitará um posto de saúde para manter sua caderneta de vacinas atualizada.

@@@


Depois dos primeiros passinhos, Maria passará a freqüentar uma escolinha cuja grade oferece aulinhas de música, natação, jardinagem, pintura, primeiras letras etc. Duas ou três “tias” devidamente graduadas, orientadas por uma Pedagoga com Mestrado em Educação Maternal. Aos dois anos passará a freqüentar aulas regulares de natação. Aos quatro estará iniciando curso de inglês.

Maria, ao longo de seus primeiros meses e anos de vida, será “cuidada” por uma “tia” um pouco mais velha, que ficará com a menina enquanto a mãe sair para as faxinas diárias.

@@@


Aos cinco anos, Maria fará sua primeira viagem internacional. Vai à Disney. Aos sete, fará sua primeira viagem à Europa. Dez dias em Londres e Paris. Torre Eiffel, London Eye, museus, praças, parques, lojas… Aos dez anos, fará sua segunda viagem à Europa. Um mês em Portugal, Espanha, Itália e Grécia. Entre uma viagem internacional e outra, conhecerá São Paulo e Rio de Janeiro. As serras do Sul e as praias de Florianópolis. Salvador e as praias do nordeste. Também fará excursões com a escola para conhecer a floresta amazônica e o Pantanal. Aos 13 anos, já conhecerá largamente sobre as vidas e as obras dos principais artistas e personagens da história ocidental por ter estudado e visitado os locais em que viveram e atuaram.


Até os cinco anos, Maria conhecerá a fome, algumas cozinhas e áreas de serviço de casas em que a mãe fizer faxina, as ruelas e as invasões das vizinhanças de sua “casa”. Num dia das crianças, talvez seja levada ao zoológico.  Um ou outro natal será levada a ver Papai Noel em algum shopping. Até os dez anos, conhecerá os principais personagens de sua realidade. Será testemunha do esforço quase infrutífero de seus vizinhos para também levar a vida com dignidade. Viverá a realidade de um mundo de periferia, marginalizado, dominado por traficantes, prostituição, abandono, descaso e, principalmente, muita carência. Aos 13 anos, já conhecerá prazeres e agruras do convício íntimo com algumas das principais “celebridades” de sua área.

@@@


Ao completar seis anos, Maria iniciará sua vida acadêmica. Este momento foi planejado pelos pais desde seus quatro anos. A escola foi escolhida depois de um longo processo de avaliações criteriosas. Será uma escola bilíngüe que, além do currículo oficial, oferecerá a Maria condições e estruturas para experimentar e optar entre diversas atividades culturais, artísticas e esportivas. Caso venha a ter dificuldades numa ou noutra matéria, poderá se socorrer da equipe de reforço escolar e dos avós, sempre presentes e ávidos por participar de sua educação.


Ao completar seis anos, a mãe de Maria precisará enfrentar horas numa fila interminável para conseguir vaga na escola mais perto de casa. Maria iniciará sua vida escolar. Inicialmente, será um pouco assustador e, ao mesmo tempo, uma grande novidade. Além da merenda escolar de todos os dias, poderá brincar com amiguinhas novas e aprender coisas. Maria será muito curiosa e gostará muito de aprender coisas que ela só verá pela TV – praticamente a única janela de contato de Maria com o mundo exterior além Paranoá. Maria contará com seu próprio esforço e curiosidade para progredir. Os pais, a avó ou a “tia”, não terão muito tempo, energia ou paciência para acompanhar diariamente a evolução escolar da filha.

@@@


Maria crescerá entre revistinhas, livros, filmes e debates acalorados entre as diversas e, algumas vezes, divergentes visões de mundo de seus, pais, avós, tios, tias etc.


A principal escola de Maria será a rua.

@@@


Maria continuará vivendo a apenas dez quilômetros de Maria – sem que Maria jamais tenha conhecimento da existência de Maria. Em raros momentos, poderão ocorrer breves tangências entre suas vidas. Em eventos públicos e gratuitos, destes que reúnem grandes multidões.

@@@


Maria, com sua sede de aprender, vai avançar naturalmente na vida acadêmica, até alcançar o funil do vestibular, para o qual, mesmo com a natural insegurança diante de um novo desafio, estará muito bem orientada e capacitada.


Maria, graças à sua vivacidade e grande esforço, vai avançar na vida escolar e alcançar o funil do vestibular. Ficará muito insegura por não se sentir devidamente preparada.

@@@


Maria observará o mundo ao seu redor. Fruto de questionamentos e das conversas com pais e avós, terá plena consciência de viver numa sociedade desigual e absurdamente injusta.


Maria sentirá que vive numa sociedade desigual e absurdamente injusta. Saberá que seu mundo é marginalizado.

@@@


Maria vai querer muito ajudar a construir um mundo mais justo. Perceberá que o território pode ser determinante nas vidas das pessoas. Por viver numa cidade que respira arquitetura, sonhará ser arquiteta. Acreditará que assim poderá projetar casas mais aconchegantes, com maior dignidade, nas quais seja agradável viver e conviver. Casas e comunidades capazes de ajudar a integrar as pessoas entre si e as pessoas com a natureza. Que, ao invés de fronteiras divisórias, sejam espaços de comunicação e aproximação.

@@@


Sem que uma tenha conhecimento da existência da outra, Maria e Maria sonharão o mesmo sonho: estudar arquitetura na UNB.

@@@


Para Maria existirá uma tranqüila certeza: caso não consiga passar no vestibular da UNB, poderá fazer arquitetura em outra universidade privada de boa qualidade.


Para Maria existirá uma trágica certeza: caso não consiga entrar na UNB na primeira tentativa, dificilmente terá outra oportunidade.

@@@


Irão disputar o mesmo sonho. Regras únicas. Sem discriminação. Sem privilégios. Regras iguais para todos. Todos igualados perante as regras.

###


Belisário, o perguntador das perguntinhas pontiagudas, ficou quieto todo o tempo. Por fim, atirou seus dardos.
- Quando eu vejo alguém falando que “todos são iguais perante a lei”, vou logo perguntando: todos quem, cara-pálida?
- Escuta, me diz uma coisa: Como é que essas regras são iguais para todos? Maria e Maria estarão realmente em igualdade de condições? Que chances terá Maria contra Maria?
- Colocar Maria a disputar com Maria nas mesmas regras, é o mesmo que colocar qualquer um de nós a disputar uma prova de cem metros de natação com Michael Phelps. Alguém é capaz de afirmar que algum dia algum de nós terá a mínima possibilidade de vitória disputando uma prova de igual para igual com Michael Phelps?
- “Regras iguais para todos” favorece a quem, afinal?
- Que atitudes a sociedade deve adotar com Maria do Paranoá? Excluir definitivamente? Condenar? Jogar na marginalidade? Piedosamente torcer para que “a sorte sorria para Maria”? Decretar sua eterna condição de diarista?
- Que mecanismos o Estado oferece à Maria para que possa construir seu sonho tal e qual Maria?
- É democrático tratar desiguais de forma igual? Ou seria mais honesto e eficaz tratar desigualmente os desiguais?

(dez/2008)

(um outro mundo é possível)

« (retornar)

USAMERICANOS

Author: Delman Ferreira

Belisário, o perguntador das perguntinhas pontiagudas, andava meio encafifado com o bombardeio de notícias sobre as eleições nos Estados Unidos. Foi lá pra mercearia de D. Sofia puxando assunto só pra ver o que o povo tava pensando.


Ficou ainda mais injuriado com o que viu e ouviu. Todo o Morro do Baco Baco estava empolgado. Era gente falando que “os americanos são isso, os americanos são aquilo”. No acento popular, soava como se falassem “usamericanos”. “Usamericanos pra cá, usamericanos pra lá”. Cada vez que aparecia qualquer coisa na TV sobre usamericanos, todo mundo parava o que tava fazendo pra prestar atenção. Até parecia notícia de futebol.


Obama já era íntimo. Se passasse pelo Baco Baco, iam chamar pra tomar uma e contar piadas de negão.
D. Sofia, percebeu que Belisário não tava gostando nada daquele oba oba, chegou-se e perguntou:
- Belisário, o que é que tu achas que vai acontecer se o Obama ganhar? Usamericanos vão parar de fazer guerras pelo mundo?


Belisário matutou, vacilou, ficou calado um tempo. Pensou que o melhor era continuar calado e deixar o povo curtir o espetáculo. Afinal, a opinião dele não mudaria absolutamente nada mesmo.
Ele tinha certeza que D. Sofia saberia ouvir. Confessou, somente pra ela, que não acreditava que muita coisa fosse mudar.


D. Sofia, disse ele, a impressão que eu tenho é que até agora ninguém sabe exatamente quem é esse Obama. A única certeza que a gente pode ter é que ele não é isso tudo o que aparece na TV. Ninguém é assim tão perfeito.


Toda aquela pose, toda aquela disposição, no sol, na neve, “na rua, na chuva, na fazenda”, toda aquela felicidade. Cada corridinha, cada passada, cada parada. Cada gesto, cada olhar, cada sentimento. Cada ação, cada reação. Cada inspiração, cada expiração, cada pulsar do coração. Tudo é marketing, tudo é estudado, tudo é medido, tudo feito pra agradar do jeitinho que eles gostam. Assim como um produto que eles fazem propaganda. Uma mercadoria dessas que a senhora, D. Sofia, vende aqui na mercearia.
Fico muito preocupado porque ninguém sabe exatamente o que está guardado dentro daquele embrulho bem arranjado e bem vendido.


Não estou querendo dizer que o outro é melhor. O que acho é que não existem grandes diferenças entre eles. Um traz em si o velho estilo, sem muitos disfarces, é o velho soldado pronto para erguer a bandeira sobre todo e qualquer Iwo Jima. O outro é muito mais moderno, sabe falar a linguagem dos jovens, dos velhos, das mulheres, dos negros, dos hispanos, dos gregos e dos troianos, sabe usar internet, sabe olhar firme pra TV, sempre de voz macia, sem alterações, com emoções estudadas. “Hay que endurecer pero sin perder la ternura jamás”.


Sempre superior. Sempre o mesmo. Sempre o pensamento usamericano. Sempre o mesmo olhar usamericano para o mundo. Usamericanos sempre se comportaram como se o resto do mundo fosse um quintal no qual eles podem se apropriar do que quiserem para manter seu poder.


Obama diz que vai mudar o mundo (“Change the World”). Não seria melhor mudar o jeito que usamericanos vêem o mundo? Como ele pretende mudar o mundo? Com que métodos? Com que armas? Só com o charme? Mudar por quê? Mudar pra quê? Mudar o quê?


O velho soldado seria mais um sem brilho a ocupar a casa Branca por 4 ou 8 anos. Mentindo as mesmas mentiras de sempre. Fazendo as mesmas guerras de sempre. Combatendo o mesmo “terrorismo” de sempre. Com o mesmo macarthismo de sempre.


O outro vem envolto pela novidade, pela curiosidade, pela modernidade, pelo destaque que ganhou durante todo este tempo de superexposição na mídia mundial. Com toda a imagem carismática com que foi embalado.


Perigoso exatamente pelo charme. Torcemos para que nunca aconteça, mas, quem resistiria se o pop star do momento, o grande vencedor, cavalgando a maior máquina bélica do mundo, manejando a maior máquina de propaganda do mundo, resolvesse “to change the world” impondo padrões usamericanos?  O mundo resistiria a mais do mesmo? Resistiria a uma nova onda de american way of life? O Planeta resistiria?


Qual seria a reação do pensamento colonizado aqui abaixo do equador se usamericanos resolvessem espichar olhares cobiçosos para nossa energia e para o que ainda nos resta de recursos naturais?


Usamericanos andam muito incomodados com a perda mundial do prestígio made in USA. Vão exigir do próximo presidente que recupere espaço e tempo perdidos. Como se dará a tentativa de retomada da hegemonia usamericana? Dada a crise do momento, como se dará a disputa pela nova ordem mundial? Com um doce olhar sorridente?


A queda de prestígio usamericana poderia levar à derrocada do pensamento único. O mundo poderia se abrir para a diversidade. A vitória de um negro nos EUA significa a vitória da diversidade? Ou pode significar o recrudescimento da tentativa de impor ao mundo padrões usamericanos?


Aproveitando o deslumbramento, a euforia, a curiosidade, a expectativa positiva, o prestígio e a receptividade para suas propostas, ele pode agir rápido – muito rápido. Antes que o mundo se recupere da ressaca da festa, poderá tentar, rápida e irreversivelmente, “change the world”.


Música, cinema, esportes, Walt Disney, Mickey Mouse, Zé Carioca, Carmen Miranda, coca-cola, fast food, obesidade, ser-mercadoria, vazio existencial – seremos novamente bombardeados pelo jeitinho usamericano de ser?


- Tá certo, tá certo, interrompeu D. Sofia, mas o que é que fazemos, então? Torcemos pelo outro?
Não, respondeu Belisário. Eles vão escolher o que acham que é o melhor para eles. Nós ficamos com nossos dois pés latino-americanos para trás. Não podemos beber da festa que é deles. Não podemos ficar deslumbrados. Não podemos ficar entorpecidos. Temos que desconfiar de tudo, principalmente das facilidades, das verdades e das certezas que quiserem nos vender. O que usamericanos pensam que é bom para os EUA, costuma não ser muito bom para a humanidade.

(out/2008)

(um outro mundo é possível)

« (retornar)

“a dor da gente não sai no jornal”

Author: Delman Ferreira

(Belisário = arremessador de dados, segundo Dicionário de Nomes)

Belisário, lá no alto do Morro do Baco Baco, matutando sua filosofia, de vez em quando fica meio injuriado com algumas coisas. Nessas horas, sai por aí arremessando suas perguntinhas pontiagudas.
Outro dia lembrou um samba antigo que dizia “a dor da gente não sai no jornal”. Ficou se perguntando: qual o critério para definir o que é notícia e o que não é notícia?
Por exemplo, o caos nos aeroportos, que deixa algumas centenas, talvez uns milhares, de usuários esperando horas em salas desconfortáveis, é muito grave e merece destaque – sai no jornal.
Belisário ouviu dizer que são mais ou menos 7% dos brasileiros que, num ano inteiro, viajam de avião e eventualmente, uma ou outra vez, sofrem alguns problemas em aeroportos.
Por outro lado, existem diariamente, todos os dias do ano, ano após ano, milhões de brasileiros, em milhares de rodoviárias inabitáveis, esperando para viajar em ônibus que, frequentemente, se encontram nas piores condições imagináveis.
Milhões, sem alternativas, todos os dias do ano, ano após ano, viajando em ônibus que nunca passam por manutenção, nunca são limpos, nunca são fiscalizados.
São horas e horas, dias e dias, viajando em ambientes fétidos, por falta de limpeza, de fiscalização e respeito humano.
Horas intermináveis suportando calor ou frio, por falta de manutenção nos equipamentos de aquecimento ou de ar condicionado.
Horas ou dias, viajando em espaços exíguos, para que a empresa possa “otimizar” os espaços e “acomodar” mais passageiros.
Com freqüência assustadora, infelizmente, ocorrem acidentes com mortes ou mutilações. Somados, esses acidentes corresponderiam a dezenas ou centenas de vezes o número de vítimas de um acidente de avião.
Daí, Belisário, lá do alto do Baco Baco, lá do fundo de sua cabeça cheia de perguntas, vai arremessando seus dardos: porque será que a imprensa e alguns políticos dão tanto destaque aos problemas da aviação, que afligem 7% dos brasileiros, e nunca se manifestam sobre os problemas das rodoviárias e dos ônibus que afligem, certamente,  mais de 70% da população?
Por que o problema da aviação é notícia e o problema da viação não é notícia?
Será que o brasileiro que viaja de avião é mais brasileiro que o brasileiro que viaja de ônibus?
Por que será que a dor da nossa gente não sai no jornal? …
… Belisário fica muito encafifado.

(mar/2007)

“Um outro mundo é possivel”

« (retornar)

O dia em que Sofia posou de modelo

Author: Delman Ferreira

D. Sofia não quer nem ouvir falar que aquele quadro que tem na parede pode ser de muito valor e que poderia lhe render um bom dinheiro.
Ganhou aquele quadro de Emiliano. Um moço que um dia apareceu lá pelo Morro do Baco Baco, foi se chegando e ficou olhando Sofia trabalhar.
Cheio de elogios. Disse que ficou impressionado com a maneira ao mesmo tempo firme e suave que ela trabalhava. Ficou admirando quando ela ia e vinha na lida. Parecia que nada a intimidava. Falou da cor da pele. Pediu licença, falou que ela era muito bonita. Tantas e tantas outras coisas.
. Sofia, disse Emiliano, você é um primor. Esta cor, este andar, este porte altivo, este olhar ao mesmo tempo doce e profundo, são magníficos. Você é magnífica. É um verdadeiro símbolo da beleza brasileira.
Ficou por ali um tempo e depois perguntou se ela aceitava posar pra ele. Na hora, ela achou aquilo meio estranho, disse que não tinha jeito, que não ia saber como fazer. Afinal, esse negócio de posar é pra essas moças bonitas, loiras, de olhão azul, que moram lá embaixo na cidade. Não era pra ela, uma trabalhadora, negra,  moradora de morro.
Emiliano insistiu. Pediu que ela continuasse trabalhando, sem se importar com ele.
Foi isso mesmo que ela fez. Continuou fazendo as coisas dela, limpando chão, passando roupa, batendo pão. Ele ficou por lá, rabiscando uns desenhos numas folhas de papel.
Depois, agradeceu muito e foi saindo, assim meio sem jeito. Só disse que se chamava Emiliano e que voltava quando tivesse terminado o trabalho.
Depois de um tempo, Sofia já tinha até esquecido do episódio quando Emiliano apareceu outra vez.  Trazia um embrulho debaixo do braço.
Quando abriu o pacote, Sofia não acreditou.
Uma negra linda. Fazendo pão. A mão forte amassando a massa. Uma manga da blusa escorrendo pelo ombro. Um seio farto à mostra.
Era ela. Aquela mulata vistosa, alegre, quase monumental. Era ela, mas não podia ser ela. Não acreditava que era ela.
O moço confirmou que era ela sim.
. Sofia, você é a síntese de todas as mulatas, disse ele.
Disse que ela não imaginava como esse encontro tinha sido importante. Agradeceu muito e foi embora.
Ela nunca mais soube nada dele. Só sabe que se chamava Emiliano.
Belisário, que vive olhando revistas, outro dia encontrou umas pinturas em que aparecem umas mulatas iguaiszinhas àquela do quadro de D. Sofia. Diz na revista que o pintor daqueles quadros é famoso no mundo inteiro por causa de suas mulatas.
Se alguém pergunta pelo quadro ou pelo artista, D. Sofia desconversa, continua fazendo as coisas dela. Batendo pão e puxando a alça do vestido que insiste em cair do ombro. Sorriso no canto dos lábios carnudos, olhar meio perdido no tempo…
Num dos cantos do quadro de D. Sofia tem uma assinatura que é igual àquela dos quadros da revista: “E. di Cavalcanti ”.

(jul/2007)

“Um outro mundo é possivel”

« (retornar)

D. Sofia e os Escorpiões

Author: Delman Ferreira



Certa vez, um escorpião aproximou-se de um sapo que estava na beira de um rio.
O escorpião vinha fazer um pedido: “Sapinho, você poderia me carregar até a outra margem deste rio tão largo?” O sapo respondeu: “Só se eu fosse tolo! Você vai me picar, eu vou ficar paralisado e vou afundar.” Disse o escorpião: “Isso é ridículo! Se eu o picasse, ambos afundaríamos.” Confiando na lógica do escorpião, o sapo concordou e levou o escorpião nas costas, enquanto nadava para atravessar o rio. No meio do rio, o escorpião cravou seu ferrão no sapo. Atingido pelo veneno, e já começando a afundar, o sapo voltou-se para o escorpião e perguntou: “Por quê? Por quê?” E o escorpião respondeu: “Por que sou um escorpião e essa é a minha natureza.” (Parábola Africana).

@@@

Enquanto isso, no Morro do Baco Baco,…
Belisário, nosso atirador de perguntinhas pontiagudas, estava lá, como quem não quer nada, vendo no noticiário da TV que mais uma criatura norte-americana invadiu outra escola e provocou nova tragédia, matando alunos e professores.
Ficou ali matutando.
De repente, virou-se pra D. Sofia e perguntou:
D. Sofia, a senhora que já botou mais de mil crianças no mundo, que benze e cura de todos os males, que sabe as ervas certas e tem remédio pra tudo, me diga uma coisa, a Senhora acha que tem jeito que dê jeito nos “esteites”?
D. Sofia, sem afastar os olhos do que estava fazendo, raciocinou:
Meu filho, o que me espanta é eles não terem se eliminado, todos, uns aos outros, até hoje. Quando vejo esse povo na TV, fico aqui meditando: como é que eles fazem pra viver entre si?

(jun/2007)

“Um outro mundo é possivel”

« (retornar)

Lateralidades

Author: Delman Ferreira

46 minutos do segundo tempo. O x O. Joguinho modorrento. Cerveja choca. Não sai nem briga.
O artilheiro chega perto do árbitro, abaixa-se e faz de conta que está ajeitando a chuteira. Sem que ninguém perceba, cochicha: ”o ‘omi’ não vai gostá si a gente não ganhá”. E corre pra área.
Recebe a bola em descarado impedimento. Com uma cotovelada, derruba o goleiro e chuta pro gol. Ataque com cobertura nacional. Na frente de todas as TVs.
O Bandeira agita a bandeira desesperado.  Feito biruta em dia de vento sul.
Gooooooooolllllll. Legallll. Garante o árbitro.
Depois do jogo, diante de uma multidão de jornalistas, diante do Brasil inteiro, o árbitro justifica sua decisão: “Olhei para o Bandeira e vi que ele estava com a camisa pra fora do calção. Eu não admito que Bandeira trabalhe desleixado em jogo meu.”.
Daí pra frente estabeleceu-se uma celeuma nacional sobre a etiqueta de comportamento dos bandeiras.
As televisões conseguiram filmes de cinegrafistas amadores, feitos por celulares, que mostravam a camisa do Bandeira no exato momento do lance. A luz do sol impedia uma imagem nítida.
Consultoras de moda,  psicólogos, sexólogos, economistas, analistas internacionais, a moça do tempo, todos foram chamados para opinar.
Uma emissora conseguiu entrevistar a diarista que trabalha na casa do Bandeira e descobriu que o salário estava atrasado. Fizeram campanha de doações para ajudar a moça – arrecadaram geladeiras, fogões, enxoval completo, férias no nordeste… Entrevistas ali, aqui, lá e acolá – matinê, vesperal, madrugadão – tarde de autógrafos – celebridade instantânea – “nu artístico”.
Debaixo de todo aquele foguetório, atrás de toda a fumaça, singelamente ouvia-se uma ou outra vozinha perguntando: “Ixcuta, e o jogo? E a falta? E o impedimento? E o gol? E o árbitro?”. Cada vez que a vozinha tentava falar, mais balbúrdia se fazia em torno do cabelo desalinhado do Bandeira.
Descobriram que o Bandeirinha fazia xixi na cama até a idade de 7 anos. Foi banido do futebol. Raras vezes é visto em locais públicos.
Quando foram pedir a opinião de Belisário, ele mal levantou os olhos da caneca de café que preparava.
- Eu só quero saber o seguinte: é permitido prender ladrões?

(abr/2009)

“Um outro mundo é possivel”

« (retornar)

Cada um no seu quadrado

Author: Delman Ferreira

Todo o Morro do Baco Baco, assim como todo o Brasil, estava ligado na “CPI das Alcovas“.
D. Sofia colocou uma dessas TV de LCD – tela grandona. Todos foram ver a CPI na TV da Mercearia. Audiência maior que final de copa do mundo. Era a primeira vez que o misterioso Thomas Greenfield ia aparecer. Até agora ninguém tinha visto a cara dele.
A CPI investigava chantagens contra autoridades e celebridades. O que se afirmava era que Thomas Greenfield comandava um esquema de escutas de informações sigilosas e depois chantageava autoridades para conseguir e manter favores.
Quando Thomas entrou na sala, até as placas tectônicas do Morro do Baco Baco balançaram.
ERA O POTOCA!!!!! Ninguém conseguia acreditar. Mas, quem entrava na sala da CPI, cercado por seguranças, de terno e gravata, fazendo de conta que era muito importante,  ladeado por uma loura escultural, todo afetado e cheio de poses,  era o POTOCA. Thomas Greenfield nada mais era que o POTOCA, o melequento do Porfírio Tomás Campos.
POTOCA ganhou esse apelido porque eram as primeiras sílabas de seus nomes e também porque vivia mexendo no nariz. Ele odiava o nome Porfírio. Odiava o apelido. Aliás, sempre odiou ter nome brasileiro. Insistia em ser chamado de Thomas, assim, com acento meio inglesado.
Sempre foi muito ligeiro. Não se sabia como, mas ele sempre conseguia, antes, as questões que iam cair nas provas. Só dava cola pra quem o chamasse de Thomas. Quem chamasse de Potoca estaria condenado, jamais receberia as dicas das provas.
Era cheio de manhas. Só dava as questões para meninas. Mas, elas tinham que desfilar com ele no shopping ou alguma balada. Dava um jeito de descobrir algum mal feito, um sem jeito, uma coisa escondida qualquer, e passava a chantagear a menina. Ela desfilava com ele e depois tinha que confirmar o que ele contasse, caso contrário, terror dos terrores, ele espalharia o segredo pra toda a escola. Quando Potoca estava incomodado e queria ameaçar alguém, começava a mexer no nariz. Era o sinal para que a vítima logo se comportasse como ele queria.
Vivia contando histórias, aventuras, casos e performances. Mas, ninguém acreditava muito. Ninguém sabia afirmar de que fruta o Potoca gostava. O que se dizia era que Potoca só queria fazer de conta. Fazia de conta que tinha, fazia de conta que curtia, fazia de conta que vivia, fazia de conta que namorava, fazia de conta que fazia. Vivia fazendo de conta que era mais do que um reles Potoca.
Agora estava ali o Potoca. Todo espaçoso. Certo de que não corria nenhum risco. Um habeas corpus, conseguido em troca de algum segredo,  dava garantias de que só falaria o que bem entendesse, de quem bem entendesse, na hora que bem entendesse. Potoca tinha a República nas mãos, ou melhor, na ponta do nariz. Um sinal seu e a mais ilibada reputação tremeria nas bases e poderia ser jogada por terra – acompanhada por um suspiro aliviado de todos os outros sobre quem Potoca calasse.
Pelo visto, Potoca aprimorou a metodologia e a tecnologia. Além dos jeitos e sem jeitos das meninas do Baco Baco, parece que Potoca especializou-se em descobrir os feitos, os mal feitos e os segredos de alcova das senhoras e dos senhores da Corte, aquém e além mar.
A “CPI das Alcovas“ fazia de conta que investigava o esquema de chantagens montado por Potoca, ou melhor, por Thomas Greenfield.
Por todos os lados – TVs, rádios, jornais, internet – saiam declarações bombásticas: “não vai sobrar pedra sobre pedra“, “quem não deve não teme“, “cabeças vão rolar“, “a República vai ficar sabendo o que se engendra nas alcovas do poder“, uns e outros aproveitavam para desfilar  erudição de almanaque, “esta CPI é a Caixa da Pandora da República“, e blá, blá, blá…
Analistas e especialistas, com toda a pompa e circunstância auferidas por suas gravatas, desenvolviam teses sobre “os reflexos deste desnudamento do modus operandi da política brasileira sobre as forças vivas de nossa sociedade“.
As revistas de fofoca fervilhavam, como um bando de maritacas alvoroçadas. A loura do Potoca virou musa, e já se especula quando, e para “quens“, posará nua. A plebe vibra com a promessa de desnudar a corte. Desvendar o inatingível. Conhecer as entranhas e as roupas sujas do Poder.
No meio deste frenesi geral, Belisário mantém-se frio. No mais profundo ceticismo, segue tomando café aparadinho direto do coador. Vira-se pro balcão e sentencia:
D. Sofia, isso vai dar em nada. Eles já combinaram tudo. Tá todo mundo muito tranquilo porque o Potoca tem habeas corpus e não é obrigado a falar nada. Assim, eles podem perguntar o que quiserem, fazer de conta que estão muito indignados, fazer discursos cheio de moral e ética, defender a Democracia e a Transparência, e fica tudo por isso mesmo.
Vão esbravejar, vão bater na mesa, vão provocar, vão atiçar, vão bater boca uns com os outros. Tudo faz de conta. O máximo que vai acontecer é, quando alguém fizer alguma pergunta meio escabrosa, o Potoca mexer no nariz e rapidamente o perguntador vai mudar de assunto e se dar por satisfeito.

Como que concordando com Belisário, neste mesmo momento, no meio do Morro, alguém liga um som de carro bem alto:
…ADO, A-ADO, CADA UM NO SEU QUADRADO!!!
…ADO, A-ADO, CADA UM NO SEU QUADRADO!!!

(abr/2009)

“Um outro mundo é possivel”

« (retornar)

Não tem preço

Author: Delman Ferreira

Café preto coado na hora. Pão quentinho com manteiga e mortadela. Mercearia da D. Sofia, no Morro do Baco Baco. Não tem preço.
Este deleite é um privilégio. Encontrei Belisário encostado no balcão. Na mão, uma caneca de barro. O café de Belisário tem ritual. Primeiro ele lava a caneca com água fervendo. Só depois coloca o café, aparadinho direto no coador. Assim, fica quente e saboroso por muito mais tempo.
Pra provocar Belisário, falei com D. Sofia, – Que é que a Senhora tá achando dessa confusão toda no Senado? Diretoria de garagem, diretoria de autógrafo, diretoria de aeroporto, diretoria de fantasmas,…?
- Pra mim, isso tudo vai dar em nada, filosofa D. Sofia. Eles brigam, brigam e, no fim, acabam arrumando mais uns carguinhos ou mais mordomias pra todo mundo ficar satisfeito, quieto e calado. E nós, mais uma vez, vamos ficar aqui só assistindo, fazendo de conta que não entendemos nada.
Belisário, calado estava – calado ficou. E eu continuei atiçando, – Mas, a Senhora não acha que dessa vez a imprensa está no pé deles? Que a imprensa não vai deixar barato?
Aí, Belisário não se agüentou. Empurrou a caneca pro meu lado e já foi entrando na conversa.
- Eu acho é pouco… Essa imprensa já demorou foi muito. Tem gente de todos os jornais, das TVs, da internet, que fica o dia todo, o ano todo, lá no Senado. Ficam pra lá e pra cá com os senadores e com os funcionários. Conhecem tudo, sabem de tudo. Leem até pensamentos. Sabem das manhas, das artimanhas, das escapadas, dos segredos mais secretos, das promessas, das traições. Do público e do privadíssimo. Nada escapa. Sabem tudo de tudo.
- Aí, eu vejo a imprensa se fazer de tão surpresa, tanta “ira santa”, com toda essa história. Fico aqui encafifado.
- Não dá pra entender, se eles que sabem tudo de tudo, como é que não sabiam nada de nada? Como é que um lugar tem 180 diretores e ninguém sabe de nada? Ou essa imprensa é muito incompetente e desinformada, ou tem caroço nesse angu. Na certa, tiveram bon$ motivo$ pra calar e esperam melhore$ momento$ pra falar.
- Mas, Belisário, antes tarde do que nunca. Tudo tem um preço. Ainda bem que agora eles resolveram falar. Tu não achas que esse é o papel da imprensa? Que assim a gente fica sabendo o que fazem lá por cima?
- Claro que é bom. É muito bom. Eu acho tão bom que eu queria ver abrirem outras caixas pretas, como o Judiciário, as assembléias estaduais, a CBF, o COB, as contas do PAN, as contas de time cujo presidente diz que acabou o dinheiro,…..
Este é o Belisário. Sempre olhando mais adiante. Sempre atirando dardos.
Tomar café preto coado com D. Sofia e Belisário. Não tem preço.

(mar/2009)

“Um outro mundo é possivel”

« (retornar)