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Orgulho Negro

Author: Delman Ferreira

O feito mais extraordinário que o futebol poderia proporcionar nesta Copa do Mundo já ocorreu. Feito que jamais será superado em nenhuma outra copa ou evento esportivo.

Nenhum lance, nenhuma defesa, nenhuma tática, nenhum drible, nenhum gol, nada, poderá superar a incontrolável força do grito de orgulho do Povo Negro sul africano.

Graças à Copa, o mundo tomou conhecimento da força de superação dos sul-africanos. Descobrimos a alegria, a musicalidade, a geografia, a fauna, a história, a diversidade.

A Copa transformou a África que existia no nosso imaginário. Ao invés de um país de elefantes e leões, fome crônica, AIDS, genocídio entre tribos, passamos a imaginar um país vibrante, rico em cores e sons, rico em oportunidades, rico em belezas naturais. Um país rico que ainda não superou, mas, luta para superar problemas gravíssimos acumulados ao longo de séculos.

Graças à Copa, o mundo tomou conhecimento amplo de um dos maiores personagens de todo o século XX. Não apenas do mito, mas do Homem – a vida, a história, o pensamento, a tenacidade e o extraordinário sentimento de nação de Nelson Mandela.

O maior feito da Copa é dar ao Povo Negro a oportunidade de gritar para o mundo sua força.

Digo do Povo negro porque é exatamente assim.

A África do Sul foi dominada durante séculos por bárbaros europeus cristãos. Bárbaros que se auto-proclamavam os povos mais civilizados da Terra.

Essa barbárie durou até maio de 1994 – apenas dezesseis anos atrás.

Durante o domínio branco-cristão, a África do Sul jamais passou de um território a ser saqueado. Jamais teve qualquer expressão mundial. Jamais passou de um país exótico e medíocre. Era apenas o fim do mundo, lá onde a Terra faz a curva.

Somente depois da libertação negra é que o mundo tomou conhecimento da força e da capacidade de criar e organizar dos sul-africanos. Hoje, apenas dezesseis anos após a libertação, a África do Sul é um dos principais expoentes da economia mundial.

Dezesseis anos. Recuperação de séculos de vergonha, opressão e mediocridade.

Muito mais do que um povo. O mundo descobriu suas próprias origens. Descobriu que foi na África que se desenvolveu a espécie humana tal como somos hoje.

O grito de orgulho do povo negro pode, também, ser o brado de fundação de uma verdadeira civilização.

Atualmente, bilhões de pessoas, na África e em todos os cantos do Planeta, vivem em condições subumanas. Enquanto perdurar essa situação, jamais poderemos nos considerar minimamente civilizados. Não passamos de bárbaros tentando fazer de conta que sabemos nos comportar.

As insuportáveis vuvuzelas são como um alarme, uma sirene que chama a atenção da humanidade para o estágio de barbárie em que ainda vivemos.

O grande feito da Copa do Mundo de Futebol vai muito além dos gramados. É o grito de orgulho de um povo. É a  importância da diversidade. É o grito de alerta para os povos.

Na África nasceu a humanidade. Na África nasce o exemplo de como superar a Era da Barbárie. A África do Sul ainda não chegou lá, mas, dali vem o exemplo de como construir um mundo baseado na diversidade. Na África nasce a Civilização.

(jun/2010)

“Um outro mundo é possivel”

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Torturas, drogas e Democracia

Author: Delman Ferreira

Lalá,

É muito provável que tenhas razão quanto ao quesito “Punição aos Torturadores”, já perdemos o timing e o trem da história. Entretanto, considero que o debate sobre Tortura e Torturadores é da maior relevância para que o Brasil cresça e jamais esqueça que, sim, somos o resultado de uma história de muita crueldade e desumanidade. – É importante registrar que, no quesito desumanidades e barbárie, a história dos outros povos, principalmente dos mais ricos, é uma história de horrores.

Tratar a tortura é como tratar a dependência. O dependente só consegue se livrar da dependência e do risco de recaída quando assume que é dependente e aceita falar disso. Jamais vai recuperar a vida perdida. Jamais vai apagar o passado. Não adianta querer punir o drogado pelas barbaridades que fez. Mas, tem que assumir e falar do assunto pra tomar qualquer decisão e ficar livres da dependência.

Olhemos a história dos negros. Foram torturados e explorados durante quase 400 anos. Foram usados para fazer fortunas. Depois, quando se tornaram um estorvo, foram atirados, pela princesa, na sarjeta das cidades e da sociedade. Agora, quando alguns negros cobram o resgate dessa história e dessa dívida, são acusados de racistas e de querer criar uma chaga na nossa maravilhosa “democracia racial”. Acusados de querer fazer “negrices”.

Nossa “democracia” funciona muito bem no silêncio dos torturados e marginalizados. Essa “jovem democracia”, sensível e frágil, não suporta um olhar de inquietude. Qualquer desaprovação, já a coloca nervosa. Qualquer contestação, já desencadeia uma crise. Qualquer cobrança, já põe o cristal em risco. Qualquer exigência de igualdade, já coloca perfilados os “guardiães da ordem”.

A “democracia racial” brasileira não consegue conviver com diferenças. São aceitos na “democracia” apenas os torturados que mimetizam o torturador – desde que saibam se comportar. Desde de que aprendam a usar talheres e guardanapos. Desde que sejam lucrativos. Desde que sejam uma boa mercadoria.

Os que não aprenderem a se comportar, serão imediatamente acusados de desordem e condenados à tortura da marginalização.  Negros que insistam ser negros, índios que insistam ser índios, gays que se assumam gays – sem ser mercadoria – serão imediatamente tachados de desordeiros, racistas anti-democráticos. Excluídos para não sujar nossas praias.

Enquanto o Brasil não assumir que é “drogado”, que a tortura faz parte de nossa história e de nosso processo de “desenvolvimento” e “civilização”, jamais vamos nos livrar dessa dependência. Se não falarmos do assunto, sempre correremos o risco de uma recaída.

Democracia Plena, sem aspas e  sem adjetivação, exige que falemos de nossas mazelas. De nossas misérias. De nossas crueldades. De nossas desumanidades.

Crescer dói.

Democracia exige crescimento.

(fevereiro/2010)

“um outro mundo é possível”

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Barbárie – sempre à espreita

Author: Delman Ferreira

Nunca consegui entender o preconceito.

Não consigo entender como alguém pode ser maltratado, perseguido, apedrejado, assassinado, por que possui características físicas ou mentais sobre as quais não teve nenhuma opção e,  mesmo que quisesse, não teria poderes para alterar. Como a cor da pele, a estatura, o sexo e a sexualidade. Ter habilidades  naturais para artes, esportes ou ciências. Nascer neste ou naquele continente, nesta ou naquela cultura.

Preconceito é o cúmulo da presunção de alguém que se coloca num altar e adota as próprias características como gabarito único de perfeição. E persegue os outros porque não se enquadram naquele gabarito.

Considerando que os seres humanos são muito diferentes entre si, o auge do preconceito, sucesso absoluto dos preconceituosos, seria todos eliminarem a todos, dado que ninguém se encaixa em nenhum gabarito único.

Também não consigo entender a expressão “opção sexual”.

Num mundo no qual os homossexuais são discriminados, apedrejados, expulsos pelas famílias e, até, assassinados, dizer que alguém fez opção pelo homossexualismo é o mesmo que dizer que este alguém optou por ser apedrejado.

Os seres humanos nascem, e guardam, características naturais que são fruto da equação de seu DNA. Negros, brancos, altos, baixos, homens, mulheres. Independentemente do sexo ou de outras características físicas, nascem com dons individuais para matemática, ou música, ou esportes, ou ciências, ou tantas outras especialidades. Dentre estas características individuais, fruto do DNA, está a sexualidade – que também independe do sexo.

Ou seja, assim como uns nascem brancos e outros negros. Uns nascem na Ásia e outros nascem nas Américas. Alguns nascem gostando de ciências e outros gostando de esportes.  Nascem mulheres e homens. Uns (umas) nascem gostando de mulheres e outros(as) gostam de homens. Tudo independente da característica física do sexo.

Não existe opção. Ninguém passa numa prateleira, no momento da concepção, para escolher entre levar esta ou aquela característica natural. Depois de nascidos, depois de compreender melhor o mundo, pode-se optar entre ser desta, daquela ou de nenhuma religião. Pode-se optar entre este ou aquele time de futebol. Pode-se optar  entre ser  civilizado ou ser preconceituoso. Mas, não é possível optar por características naturais.

É possível optar entre Democracia ou barbárie.
Preconceito é o fermento da barbárie.
Respeitar a Diversidade é a essência da Democracia.

(mai/2009)

“um outro mundo é possível”

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