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A Leveza do Ser

Author: Delman Ferreira
Uma noite, lá pelas três da manhã. Chuvinha fria. Tô lá no Bar do Tião já me preparando pra ir embora.

Chega o Margarido. Negro meio alto, magro, da canela fina. O cabelo começando a pintar. Sambista desses que dançam com toda a leveza do ser. Sem os pés tocarem o chão. Pediu uma carona.

– “Vamo nessa, mas já tô saindo”, respondi.

Pediu só um tempinho. Depois de uma meia hora, voltou e me perguntou se podia levar junto um ‘esquema’. ‘Esquema’ era uma moça que ele tinha conhecido naquela noite. Depois de muito samba no pé, muito rebolado, Margarido “convenceu a Donzela a lhe acompanhar”.

Fomos embora, eu, a Meri, o sambista e o ‘esquema’. Fui tocando e nada dele me dizer para onde ia. Só me apontava a direção. Vira daqui, vai pra lá, agora segue por ali,… e vamos indo,…

Até que chegamos na frente da Penitenciária. Pediu pra parar e, nem me deu tempo de perguntar qualquer coisa, agradeceu, saiu com o ‘esquema’ e foi-se pela Penitenciária a dentro.

Passados uns dias, entro num ônibus e … ora…ora… quem era o motorista, com uniforme da empresa e tudo? O próprio, Margarido, o sambista, a leveza do ser. Dessa vez ele não me escapou. Encostei e fui fazendo minhas perguntinhas.

- “O que tu fostes fazer na penitenciária aquela noite? Trabalhas ali?”.

- “Não, é que eu dei um vacilo e tô puxando um tempo lá. Posso sair pra trabalhar e tenho que voltar pra dormir”.

- “Mas, e o ‘esquema’? Como foi que ela entrou?”

- “É que eu tenho uns lances lá com uns amigos da carceragem. Eu facilito umas pra eles e, quando eles tão de plantão, eles facilitam a minha, me deixam chegar um pouco mais tarde. Aí eu levo uns ‘esquemas’.

Dei-me por satisfeito. Feliz pelo privilégio de conhecer a Leveza do Ser.

(este texto é um excerto de Salve, Tião)

(mar/2010)

“Um outro mundo é possivel”

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Michael Jackson – a trilha sonora de nosso desbunde.

Nunca gostei do tipo de cobertura sensacionalista e cansativa que a imprensa faz de tragédias ou morte de alguma celebridade.  Mas, semana passada, me peguei grudado na TV acompanhando a repercussão da morte de Michael Jackson, principalmente as retrospectivas da carreira.

Fiquei me perguntando porque isso me interessava tanto. E percebi que Michael Jackson me remetia para tempos de reviravolta em minha vida. Tempos de questionamentos, de experimentação, de erros, acertos, descobertas e libertação.

Frenéticas, Rita Lee, Paralamas, Legião Urbana, Elba Ramalho, Zé Ramalho, Gil, Caetano, Geraldo Azevedo, Barão Vermelho, Cazuza, Blitz… e tantos outros, também fizeram a trilha sonora daquele tempo. Mas, confesso que Michael Jackson me fez caminhar nas nuvens.

O mundo teve seu desbunde nas décadas de 60 e 70. Hippies, festivais de paz e amor, 1968, sutiãs queimados, pílula, LSD, mini-saia, Janis Joplin, Jimi Hendrix,… Até quando John Lennon percebeu que “o sonho acabou“. O sonho e o desbunde foram capturados pelo mercado e viraram apenas mercadoria. Nesse período, o Brasil vivia debaixo das botas de uma ditadura obscurantista, truculenta e torturadora. Como todas, era mais uma ditadura que não admitia o sonho. Prendia e torturava quem questionasse as verdades militares e ousasse pensar, se expressar e viver com liberdade. Todas as ditaduras temem o riso e o sonho.

O Brasil só viveu seu desbunde na década de 80. Abrimos nossas asas, soltamos nossas feras e caimos na gandaia – como dizia uma música das Frenéticas. Arriscamos, sonhamos, sofremos, rimos, choramos, conquistamos, inventamos, ficamos engrandalhados… e dançamos – muito – mesmo sem saber dançar. Num thriller com Michael Jackson.

Já era impossível acreditar que ele faria 50 anos. Seria o mesmo que acreditar que Peter Pan algum dia faria 50 anos. Agora me dizem que ele morreu.

Chego a questionar se Michael Jackson existiu mesmo ou seria produto de nossos delírios, fruto de uma viagem, de algum cogumelo. A única certeza que podemos ter é que logo o encontraremos ali no Morro do Baco Baco, na volta de alguma caminhada pela lua, arrepiando no Bar do Tião. Finalmente Livre. Finalmente Eterno.

Foi-se muito cedo. Mas, existirá para sempre. Nas nossas viagens para a Terra do Nunca de cada um. Em nossos passos desajeitados. Em nossas reviravoltas.

Gone too soon – Tributo a Michael Jackson (clique para assistir)

(jul/2009)

(um outro mundo é possível)

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