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AVENTUREIROS DA JOAGOA

Author: Delman Ferreira

(João Gustavo (11 anos), Melissa (10), Joana (9), Lucas (9) e Bruno (7)
transcrição: Pativo)

JoaGoa – é o caminho das dunas que vai desde a Praia da Joaquina até a Lagoa da Conceição.
Naquele dia, resolvemos ir para a Joaquina atravessando as dunas, saindo desde a Lagoa da Conceição. É um longo caminho até o lugar onde dá pra descer as dunas de prancha.
Nosso mascote protetor era o Paco – muito esperto e muito amigo. O Paco foi fazendo xixi durante todo o tempo. Em cada moita ele fazia um xixizinho pra marcar o caminho.
Tava soprando o NORDESTÃO. O sopro do NORDESTÃO pega a areia das dunas e faz um chicote. Daí, ele chicoteia as pernas de todo mundo. Se ele consegue chicotear areia nos olhos a pessoa fica cega por uns tempos e fica sem saber por onde está caminhando e pode cair numas lagoinhas de lagartas carnívoras. De longe em longe tem uma dessas lagoinhas escondida no meio de moitas de matos. O Paco ia na frente pra checar o caminho e avisar das lagoinhas.
Também tinha o perigo do MARESCAL – o MONSTRO DAS AREIAS ESCALDANTES. O MARESCAL tira sua energia do Sol. Ele transforma a luz e os raios do sol em calor e vai esquentando as areias até ficarem escaldantes – chega a cozinhar as pessoas pelos pés. Se a pessoa cair no chão fica logo toda queimada.
A gente tinha que correr nas dunas pra não ser pego pelo MARESCAL e tinha que se abrigar nas moitas pra não ser pego pelo chicote do NORDESTÃO. E tinha que tomar muito cuidado pra não pisar numa lagarta carnívora das lagoinhas que ficavam atrás das moitas.
Enquanto a gente caminhava e corria, o MARESCAL e o NORDESTÃO ficavam só seguindo e espiando e preparando armadilhas. O MARESCAL tentando esquentar as areias das dunas e o NORDESTÃO tentando chicotear e empurrar para as lagoinhas cheias de lagartas e areias movediças.
E a gente também não podia ficar parada porque as dunas se mexem e vão encobrindo tudo o que fica parado no mesmo lugar. São as Dunas Movediças.
O João Gustavo e o Lucas iam correndo na frente, abrindo caminho. As meninas, Melissa e Joana, as vezes iam na frente, as vezes ficavam com o Pativo. O Bruno ia com o Pativo pra não deixar ele ficar muito atrasado e sozinho. E o Pativo só ficava rindo e dizendo pra gente ir com calma. Dizia que a gente não podia demonstrar medo e não podia fraquejar e ficar parado. Quando alguém dizia que estava cansado e queria parar, o Pativo beliscava na bunda e fazia correr de novo.
Depois de um tempão de caminhada, corridas, fugas de moita em moita e escaladas de dunas, todo mundo chegou morto de cansado. A maioria dos adultos chegou bem depois.
Mesmo assim, nós fomos alugar prancha pra surfar na areia. O Lucas só queria pegar prancha de andar em pé. A Joana chegou e disse que o Pativo tinha dado dinheiro pra alugar duas pranchas.  Pegamos uma de andar em pé e outra de andar sentado.
Brincamos bastante de descer os morros de areia de prancha. Tinha vez que a gente conseguia descer até o fim, tinha outras vezes que caíamos no meio do morro e ficávamos cheios de areia, até na boca e nos olhos. O João Gustavo e a tia Delma desceram juntos do morro das dunas da JoaGoa. Quando os 2 chegaram lá embaixo eles se embolaram um em cima do outro e caíram da prancha. O Vitor também desceu com a Aline e depois com todo mundo, ele não queria parar. A Joana e a Melissa desceram juntas muitas vezes. O Pativo desceu com o Bruno e depois com o Bruno e o Lucas juntos.
Estávamos com sede, daí compramos água de garrafinha. A Dirciney e a Deni fizeram uma cuia na bola e deram água para o Paco.
Na volta, alguns resolveram voltar de ônibus e os aventureiros decidiram voltar a pé e enfrentar os monstros NORDESTÃO, MARESCAL e as lagartas e as dunas movediças.
Lucas e João Gustavo desceram as dunas rolando. O Bruno não quis rolar porque ficava tonto. O Lucas tentou descer em pé, mas caiu de cara no chão e engoliu areia. Depois queria parar pra descansar porque estava com as articulações dos pés doendo.
Também encontramos outros aventureiros cruzando as dunas. E o Paco na volta só ficava fazendo coco e xixi.
Quando chegamos do outro lado e vimos a Lagoa da Conceição, o Bruno e o Lucas ficaram gritando “Terra a vista”. E todos correram pra chegar logo na Lagoa e refrescar os pés e aliviar as pernas.
Depois, quando chegamos em casa, todos foram fazer deliciosos bolinhos de banana pra comer com café e descansar jogando Mexe-Mexe.

(set/2004)

“Um outro mundo é possivel”

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Brasília/Floripa – DE MOTO

Author: Delman Ferreira

“quem vai ao mar,
se avia em terra”
(antigo dito português)

Aventura? Loucura? Muita coragem?
Nem uma coisa, nem outra, apenas o prazer de estar em deslocamento.
O prazer de uma longa meditação dinâmica.
Pensamento à toa – a pensar em nada.
A dor e a delícia de estar em crescimento.
Ao retornar, o viajante que chega nunca é o mesmo que partiu.

Viajar o Brasil por terra é conhecer um impressionante caleidoscópio de tipos humanos, paisagens, cores e climas – além de transitar por realidades muito variadas de organização urbana, desde regiões cuja infra-estrutura é de primeira linha até regiões onde as possibilidades de vida são sempre sub-humanas.
As condições das estradas dizem muito do padrão de vida que se oferece às comunidades que lhes são vizinhas.
Planejar.
Este é o principal ensinamento dos navegadores portugueses.
Quem sai para uma longa viagem, não pode chegar no meio do caminho e descobrir que esqueceu ou deixou de lado algo que, de uma hora para outra, pode se mostrar de extrema importância.
Planejar é fundamental para que um esquecimento qualquer não transforme tudo numa tragédia. É muito importante pensar alguns detalhes antecipadamente.
Seguindo este ensinamento, compramos um CD-ROM do Guia Quatro Rodas. Com ele é possível preparar um preciso plano de viagem, com mapa de todo o roteiro, locais de abastecimento, restaurantes, hotéis/pousadas, passeios turísticos etc. Também conversamos com amigos experientes, compramos revistas e acessamos sites com relatos de viagens semelhantes na internet – desta forma foi possível saber o que é mais importante levar na bagagem, como roupas para o frio, medicamentos de primeiros socorros, canivete multifunções e coisas para a moto como ferramentas, cabo para chupeta, spray para encher pneus, chave reserva.
Nossa nave: uma moto APRILIA – PEGASO 650.
Saímos de Brasília numa terça-feira, 8:30h, temperatura 18°, através de uma rodovia que atravessa o setor de mansões – pista dupla, bem sinalizada, asfalto bem conservado, emoldurada por uma bela fileira de árvores.
Seguindo a experiência de quem já havia feito outras viagens, decidimos fazer uma parada a cada hora de estrada ou, aproximadamente, a cada 100 Km. Tomar café, fazer alongamentos, relaxar e abastecer a moto – um ritual sagrado. Também decidimos que não almoçaríamos para evitar a sonolência pós-almoço. Levamos algumas barrinhas de energéticos e uns Gatorade.
Com este “plano de vôo”, saindo antes das 9h da manhã, seria possível cobrir uns 700 km antes do por do sol, assim evitaríamos viajar à noite.
Uns trinta quilômetros depois, alcançamos Valparaíso e chegamos até Luziânia. Continua a pista dupla – o que pressupõe uma via de tráfego intenso – mas as condições mudam radicalmente.
Nos vinte quilômetros que separam Valparaíso de Luziânia, fica-se com a assustadora impressão de que cada indivíduo faz as próprias leis, de acordo com a conveniência do momento. Pessoas e animais cruzam a via a qualquer tempo. Carros saem das laterais e entram na via rápida cortando veículos que venham em maior velocidade. Um sujeito estica o braço pela janela de um carro e faz um sinal de positivo com o dedo – de acordo com a lei que acabou de criar, entende que isto lhe dá o direito de mudar de faixa bruscamente cruzando na frente dos outros sem se preocupar com o estrago que pode fazer. Outros saem “costurando” e ultrapassando nas lombadas.
Trata-se de verdadeira “terra sem leis”.
De Luziânia à Cristalina, seguimos por um trecho horroroso da BR-040. Estreita, esburacada e com trânsito intenso e neurótico de caminhões e carros pequenos.
Em Cristalina, fizemos a primeira parada – depois de 120 km de um percurso bastante tenso – numa “Pamonharia” que oferece todo o tipo de produtos extraídos do milho: pamonha, curau, suco de milho, galinha com polenta etc. Foi lá o nosso café da manhã.
Planejamos viajar numa velocidade máxima por volta dos 120 Km/h, respeitando o que o estado da estrada permitisse, sem correr nenhum risco, sem ultrapassagens duvidosas e sem “curvas com o pedal arrastando no asfalto”.
Ainda em Cristalina, tomamos a BR-050 em direção a São Paulo. Seguindo a programação, fomos fazendo paradas, relaxando, alongando e comendo nosso “lanchinho”. Clima maravilhoso, céu azul, temperaturas variando entre 18° – 27° – 18°.
A BR-050, no trecho que atravessa Goiás, é o pedaço mais bonito dessa primeira etapa da viagem. Cruza uma deslumbrante paisagem. O Cerrado nos oferece a visão de montanhas e chapadões belíssimos. Vai-se cruzando fazendas que bordam a paisagem com variadas cores e desenhos pontilhados de gado pastando ou de casinhas singelas e solitárias.  Nos chapadões, há a predominância das plantações de soja e de algodão, esta um verdadeiro mar branco.
Apesar de não ser duplicada, e também ter um tráfego intenso, a estrada está em bom estado e tem curvas bem desenhadas mesmo nos longos trechos de subida ou descida – isto possibilita uma pilotagem tranqüila e permite “desligar”, apreciar a paisagem e meditar.
Parece que os transeuntes que trafegam por este trajeto são bastante divertidos, pois existe um número impressionante de “boates” pela beira de quase toda a rodovia, do tipo que antigamente era conhecido como as “casas da luz vermelha”.
Quando a BR-050 entra em Minas Gerais o quadro muda completamente. Na medida em que nos aproximamos de Araguari/Uberlândia/Uberaba, o trânsito vai ficando cada vez mais intenso e nervoso. A estrada está muito mal conservada e vai se tornando cada vez pior. Exige muita atenção de pilotagem – a viagem torna-se tensa e cansativa.
Uma imagem sempre chocante são os acidentes que se encontra. Ao longo da viagem, em momentos diversos, passamos por três caminhões virados.
Depois de uns 550 Km de viagem, cruzamos a ponte sobre o Rio Grande, fronteira entre Minas Gerais e São Paulo.
Mudamos de País ???!!! Adentramos por outro mundo???!!!
Muda a paisagem, muda a tonalidade do verde, muda todo o entorno.
Entramos na Rodovia Anhangüera.
FARRA !!! A VIAGEM VIROU PURA FARRA !!!
Pra quem vem de um trecho sob tensão, entrar na Anhangüera é entrar em um paraíso rodoviário.
Mesmo um intransigente combatente das privatizações sente-se obrigado a admitir que, neste caso, a concessão trouxe benefícios inquestionáveis. Podemos levantar suspeitas sobre a lisura dos processos ou questionar os contratos e o valor dos pedágios, mas é inegável que ali se alcançou um padrão elevado de construção e conservação de rodovias, além de socorro e assistência imediatos – um padrão que se deseja para todo o Brasil.
Depois de encontrar e ser obrigados a utilizar alguns banheiros que não passavam de latrinas, na Anhangüera , “visitar” os banheiros quase chega a ser um prazer à parte, tamanha a qualidade do ambiente. Sem falar dos cafés expresso e das empadinhas de palmito com palmito.
Aqueles que viajam de moto, além das tensões normais, carregam um estressante fantasma adicional que é o medo de “levar uma vaca”, ou seja, o medo de que de uma hora para outra surja um buraco na pista do qual não se consiga desviar. Esta surpresinha, a mais de 100 Km/h, pode significar um tombaço nada agradável. Na Anhangüera – pura farra – o asfalto é um carpete, sem ondulações, sem buracos – certeza de que não encontraremos sobressaltos desagradáveis. Rodovia dupla. Duas e, eventualmente, três pistas de cada lado. Área de escape segura. Visão ampla para todos os lados. Permite antecipar e tomar decisões com toda a tranqüilidade. É PAZ NA ESTRADA.
Nesta etapa, a preocupação passa a ser a de não ultrapassar o limite de velocidade planejado. O cérebro da gente tem um comportamento interessante: vai se adaptando gradativamente à velocidade. No início da viagem, quando chegávamos aos 100 Km/h, logo vinha a sensação de estar em excesso. Depois, com o passar do tempo, este limite foi se ampliando de tal forma que 110 ou 120 Km/h passam a ser velocidades confortáveis, nas quais se viaja sem tensão. Ao entrar na Anhangüera, o cérebro torna-se muito mais tolerante e, sem perceber, vamos elevando o limite da velocidade confortável. Se não cuidamos, logo estamos viajando acima dos 140 Km/h sem sentir. Há que tomar cuidado para manter os 120 Km/h e continuar a viajar “viajando”.
Setecentos e trinta quilômetros depois, chegamos à Ribeirão Preto por volta de 17:30h, dentro do planejado. Foram 9 horas que se passaram quase sem percebermos. Em viagem de moto o tempo não se conta em minutos, conta-se em quilômetros percorridos, em paisagens curtidas, em etapas vencidas.
Estando em Ribeirão Preto, é de lei tomar alguns chopes no Pingüim, uma das choperias mais tradicionais do Brasil. Além de cumprir um ritual, os chopes têm a função de fazer baixar o nível de adrenalina e permitir um bom relaxamento e uma boa noite de sono.
Quarta-feira – saímos cedo. Céu azul, temperatura por volta dos 17°. Depois dos primeiros 100 Km, entramos numa cidade chamada Porto Ferreira.
Na praça central, em frente à matriz, encontramos um figuraço que viaja o Brasil num veículo que se assemelha a uma bicicleta. Originalmente deve ter sido uma bicicleta, atualmente é uma espécie de penteadeira sobre duas rodas que carrega todo tipo de bugigangas e lembranças. Desde simples broches, passando por uma enorme coleção de relógios de todos os tipos – pulso, despertadores, até um pequeno cuco – bandeiras e flâmulas, porta bagagem com algumas roupas e tralhas como panelas, talheres e um pequeno fogareiro, lixeiro e até uma gaiola com um passarinho vivo – coisas que a necessidade, o acaso e a curiosidade foram amontoando. O condutor é um personagem saído de outros tempos, alguma coisa meio hippie, idade indefinível, que anda pelo mundo pregando a paz e vivendo do que as pessoas dão ou da venda de algum trabalho manual – artesanato preparado com material doado. Não nos disse o nome, apenas se apresenta como um viajante a favor da paz.
Seguimos viagem pela Anhangüera até a Bandeirantes. A farra continua. Pela Bandeirantes até o Rodoanel.
O Rodoanel é outra obra fundamental. Graças a ele, não precisamos entrar na cidade de São Paulo. São 28 quilômetros que contornam a cidade e nos jogam diretamente na saída pela Régis Bittencourt.
Até o momento, viajamos por uma região de São Paulo que impressiona pela elevada qualidade de vida, que se reflete na qualidade das pistas (Anhangüera, Bandeirantes e Rodoanel).
Ao sair do Rodoanel e entrar na Regis Bittencourt, tem-se um choque de realidade. Muda novamente o entorno. A paisagem torna-se agressivamente feia. A qualidade da rodovia cai sensivelmente. Atravessamos uma região pobre de Osasco. O contraste é gritante e assustador.
Mal entramos na Régis, começou a chover. Como o trecho está em obras, havia barro espalhado na pista. Os caminhões passavam e nos cobriam com um spray de lama. As viseiras dos capacetes foram ficando enlameadas e sem nenhuma visão. Seguimos atrás de um caminhão até o primeiro posto de gasolina. Paramos e esperamos a chuva passar. Logo o tempo abriu e apareceu um sol meio tímido.
Seguimos viagem, com tempo bom, até Miracatu. Paramos e cumprimos nosso rito – alongamentos, relaxamento, lanche, abastecimento. Faltavam 280 quilômetros. Era, mais ou menos, duas horas da tarde. Temperatura amena, coisa de uns 20°.
Neste momento cometemos o maior erro da viagem – um erro de cálculo que tornou dramático o último trecho desta segunda etapa.
Faltavam 280 quilômetros e eram duas horas da tarde. Como estávamos conseguindo fazer uma média de uns 100 quilômetros a cada hora, calculamos que, com uma única parada, mesmo que a média caísse para uns 80 quilômetros para cada hora, seria possível terminar a segunda etapa até 17:30h, ou seja, antes do por do sol.
Ledo e grave engano.
Seguimos viagem. Céu meio nublado, dia claro, sol no céu brincando de esconder por trás das nuvens. Passamos por Registro e iniciamos a descida da Serra. Deste ponto até São José dos Pinhais, nosso objetivo desta etapa, seriam uns 200 quilômetros.
Na Serra não existem postos de gasolina e, muito menos, pousadas ou pontos de repouso – é apenas asfalto, montanha de um lado e montanha ou precipício de outro. Não existe onde parar, depois que se inicia a descida, o jeito é ir até o final. Os caminhões descendo a Serra, devido à inércia, não têm condições de frear repentinamente, assim, não se pode ficar parado à beira do caminho contando com a sorte, há que seguir em frente.
Iniciamos nossa descida e o tempo foi fechando. Quando estávamos a meio caminho a natureza virou-se contra nós.
Como o sol se põe atrás dos morros, escureceu cedo e a noite caiu rapidamente. Começou a chover e, para compor definitivamente um quadro trágico, a temperatura caiu drasticamente.
Naquela noite os termômetros marcaram 7 graus em Curitiba. Como na Serra é mais frio, na Moto a sensação térmica ficava bem abaixo de zero.
Mesmo com todo o planejamento, sempre ocorrem os imprevistos: não tínhamos roupas para enfrentar um frio daquela magnitude. Fomos ficando encharcados e congelados.
Não havia como parar e não fazia sentido pensar em voltar. Havíamos ultrapassado o que os navegadores chamam “point of no return”. O jeito era seguir em frente, contra o vento, contra a chuva, contra o frio e contra o negrume da noite.
Não se conseguia enxergar nada. As viseiras dos capacetes estavam cobertas de gotículas que confundiam a visão completamente. Os caminhões que passavam nos enchiam de lama e deixavam um rastro de spray que tornava o quadro ainda mais caótico. A velocidade média caiu abaixo dos 50 ou 40 Km/h, com trechos ainda mais vagarosos.
Mas, mesmo no caos é possível viabilizar algumas alternativas.
Com o farol da moto era possível iluminar a faixa branca pintada à direita da pista. Nos agarramos nessa faixa como guia e esperança de salvação.
Os caminhões e carros pequenos passavam muito rápidos – não dava coragem para segui-los. Até que um caminhão salvador passou por nós a uns 60 Km/h. Fomos buscar um resto de coragem e seguimos aquele caminhão. Mantendo uma distância que nos livrava do spray, mas que permitia nos guiarmos pela iluminação traseira. Passamos a ter dois guias: a faixa lateral e a iluminação do caminhão. Não enxergávamos mais nada. Qualquer alteração na pista (buracos ou saliências) poderia ser fatal.
Quando faltavam uns 80 Km, paramos no único posto de gasolina que apareceu. Um posto de aspecto muito pouco hospitaleiro. Abastecemos a moto, tomamos um conhaque (São João da Barra !!!) e decidimos seguir. Eram 7 horas da noite. Faltavam apenas 80 quilômetros.
Novamente contra o vento, contra a chuva, contra o frio e contra o negrume da noite. A partir deste momento, achegou-se a nós um novo companheiro de viagem: o Pânico. Não era um medinho qualquer, não se sentia apenas frio ou dores ou desconforto – ESTÁVAMOS EM PÂNICO !!!
Levamos duas horas para cobrir aqueles últimos 80 quilômetros. Durante estas duas intermináveis horas, a cada segundo, a sensação era de que no próximo segundo iria acontecer uma tragédia. Andamos cada milímetro destes 80 imensuráveis e intermináveis quilômetros tendo a certeza de que o próximo milímetro nos esperava com uma armadilha fatal. Nem Alfred Hitchcock, nas suas obras primas, foi capaz de imaginar suspense tão angustiante. O maior desejo, naquela situação, era sermos abduzidos e levados para qualquer outro planeta.
Mas, mesmo as mais angustiantes duas horas ou os oitenta mais longos quilômetros da vida um dia terminam. Estes, também terminaram.
E terminaram em São José dos Pinhais, na casa da Aline e do Edson, que junto com a Ana, a Deni, o Lucas e o Vitor, nos agasalharam com muito carinho, um banho quente, o melhor jantar do mundo e cobertores, muitos cobertores.
Quinta-feira – continuamos em São José dos Pinhais.
Sexta-feira – seguimos para Matinhos, no litoral do Paraná, pela BR-277.
Em Matinhos, fomos recebidos pela Dirciney, João, Alice, João Gustavo e Joana, que também se desdobraram para nos oferecer a melhor acolhida possível, com moqueca de robalo e cavala grelhada inesquecíveis. E um bobó de camarão de baiano babar!!!!
Domingo – seguimos para Floripa. Pela BR-101, também duplicada e bem conservada no trecho norte de Santa Catarina.
Domingo. 1970 Km: finalmente Floripa.
Alguns dias à toa, na companhia da família e de amigos especiais.
Floripa é um privilegiado pedaço de terra que é Brasil, mas fica ali do ladinho do Brasil. O Brasilzão fica do outro lado da ponte.
Floripa é a terra dos manezinhos, com seu ritmo próprio e seu jeito especial de ser, falar, ver e viver a vida. Um tipo especial de gente que sabe que se não der pra fazer hoje, o sol vai continuar a nascer amanhã e depois e depois, daí a gente vê como é que fica…
Dia dos Pais. Bruno, 7 anos, registrou o Dia dos Pais com uma “Caixa de Idéias” – que ele mesmo construiu na maior felicidade. Um doce registro de infância.
Volta – 1750 Km.
A realidade nos espera com hora marcada.
A volta foi tranqüila e sem grandes incidentes – por estradas e paisagens que, apesar de serem as mesmas, sempre oferecem novas tonalidades e permitem novos olhares.
Em conversa com um amigo que mora em Floripa, fomos provocados a fazer uma viagem, de moto, até a Patagônia ou até os Andes, no Chile.
… quem sabe…
… vai depender de aviamentos muito precisos…e preciosos…

(inverno/2004)

“Um outro mundo é possivel”

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