ago
17
2010
Becos e sonhos
Author: Delman Ferreira Trude caminha como quem levita. Saltita pela praça. Orgulho incontido. Olha para os que passam. Olha para todos. Olha para cada um. Diretamente nos olhos. Sente-se imponente. Sente-se leve como quem dança apaixonada. A música é só dela, os pés mal tocam o chão. No céu, fogos de artifício brilham bilhões de estrelas, só para ela.
Finalmente, ela tem um documento. Finalmente, poderá mostrar pra quem quiser ver: ela é Gertrude Maria Landlos. Vive o dia mais importante da vida, ela mesma assinou o documento com a própria letra, sem precisar da ajuda de ninguém.
Aos 38 anos de idade, depois de uma vida inteira de trabalho duro, Trude tinha descoberto que não existia. Não tinha nenhum documento - nem registro de nascimento. Até o nome, de que ela tanto se orgulhava, nunca existiu.
O pai não tinha registrado porque o cartório era longe e o registro era caro. “Mulher não precisa dessas frescuras de documento. Quando casar, o marido resolve.”, era assim que ele se explicava. Por isso, Trude não tinha registro e nunca foi à escola.
Não tinha registros. Mas, tinha história. Uma história sem direito a sonhos. Quatro filhos pequenos, de um pai que tinha sumido sem deixar rastros. Sem documentos, sem saber ler, sem profissão – Trude sustentava os filhos com pequenas faxinas e trabalhinhos aqui ou ali. Moravam num casebre. Um beco sem saída.
Um dia, que ela nunca mais vai esquecer, umas moças da prefeitura apareceram no beco. Queriam saber quantas crianças moravam ali e quantas estavam na escola.
O sonho dela sempre foi colocar as crianças na escola. Salvar daquele destino de não saber ler, não ter documentos, não poder entrar em lugar nenhum, não poder comprar numa loja. Salvar daquele destino de viver sem existir. Mas, como? Se o dinheiro das faxinas mal dava para não morrerem de fome? Como mandar as crianças para a escola? Cadernos, canetas, roupas, sapatos, ônibus? Como?
As moças, então, disseram que ela teria direito a uma Bolsa se as crianças estivessem na escola. Para se cadastrar era simples, bastava ter uma conta na Caixa. Simples? Conta em banco? Sem documentos? Sem saber ler? Num beco sem saída? Como é que alguém que não existe pode ter conta em banco?
Aos 38 anos de idade, Trude descobriu que era ninguém. Sem registros, sem documentos, sem endereço, ela não existia. Se não existia, nunca ia conseguir nada. Para ter direito à Bolsa e colocar as crianças na escola, precisava abrir conta na Caixa. Pra ter conta na Caixa, precisava documentos e endereço. Pra poder assinar os documentos, tinha que saber ler.
Abriu-se uma janela. Trude pulou para dentro. Despertou para um sonho.
Foi atrás de se alfabetizar num programa do governo. Em pouco tempo, já conseguia ler e entender o que estava lendo e escrevendo. Em pouco tempo, já conseguia assinar o próprio nome.
Durante a alfabetização, ficou sabendo que podia fazer um curso de doceira. Ela sempre gostou de fazer doces, tinha aprendido com a avó quando era pequena.
Depois de aprender a ler, faltava ter endereço, senão, ela continuaria não existindo. Juntou os vizinhos e conseguiu que o Beco fosse registrado na Prefeitura. Batizaram com o nome de Travessa do Futuro.
Agora, Trude está na praça da Prefeitura. Com a Carteira de Identidade que acabou de receber. Sentindo-se a pessoa mais importante de todo o mundo e arredores. Finalmente, Gertrude Maria Landlos existe.
Agora, as crianças poderão ir à escola. E com o tempo que sobrar, Trude vai poder fazer o curso de doceira que sempre sonhou. No curso, disseram que ela pode fazer parte da cooperativa e vender seus doces nas feiras e nas festas. Estão até se organizando para vender os doces em outras cidades e outros estados.
Gertrude Maria Landlos, do beco para o sonho, uma brasileira que ousa fazer planos de vida nova na Travessa do Futuro.
(ago/2010)
“Um outro mundo é possivel”