Uma noite, lá pelas três da manhã. Chuvinha fria. Tô lá no Bar do Tião já me preparando pra ir embora.
Chega o Margarido. Negro meio alto, magro, da canela fina. O cabelo começando a pintar. Sambista desses que dançam com toda a leveza do ser. Sem os pés tocarem o chão. Pediu uma carona.
– “Vamo nessa, mas já tô saindo”, respondi.
Pediu só um tempinho. Depois de uma meia hora, voltou e me perguntou se podia levar junto um ‘esquema’. ‘Esquema’ era uma moça que ele tinha conhecido naquela noite. Depois de muito samba no pé, muito rebolado, Margarido “convenceu a Donzela a lhe acompanhar”.
Fomos embora, eu, a Meri, o sambista e o ‘esquema’. Fui tocando e nada dele me dizer para onde ia. Só me apontava a direção. Vira daqui, vai pra lá, agora segue por ali,… e vamos indo,…
Até que chegamos na frente da Penitenciária. Pediu pra parar e, nem me deu tempo de perguntar qualquer coisa, agradeceu, saiu com o ‘esquema’ e foi-se pela Penitenciária a dentro.
Passados uns dias, entro num ônibus e … ora…ora… quem era o motorista, com uniforme da empresa e tudo? O próprio, Margarido, o sambista, a leveza do ser. Dessa vez ele não me escapou. Encostei e fui fazendo minhas perguntinhas.
- “O que tu fostes fazer na penitenciária aquela noite? Trabalhas ali?”.
- “Não, é que eu dei um vacilo e tô puxando um tempo lá. Posso sair pra trabalhar e tenho que voltar pra dormir”.
- “Mas, e o ‘esquema’? Como foi que ela entrou?”
- “É que eu tenho uns lances lá com uns amigos da carceragem. Eu facilito umas pra eles e, quando eles tão de plantão, eles facilitam a minha, me deixam chegar um pouco mais tarde. Aí eu levo uns ‘esquemas’.
Dei-me por satisfeito. Feliz pelo privilégio de conhecer a Leveza do Ser.
(este texto é um excerto de Salve, Tião)
(mar/2010)
“Um outro mundo é possivel”
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Tags: Bar do Tião, carceragem, esquema, leveza, madrugada, Meri, motorista, ônibus, Penitenciária, sambista, vacilo
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on terça-feira, março 30th, 2010 at 13:36 and is filed under Morro do Baco Baco, Sociedade.
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março 31st, 2010 at 12:25
Muito bom!
Saudades!!
março 31st, 2010 at 12:25
Muito bom…
Saudades
abril 18th, 2010 at 15:29
Olha amigo,
Lendo seu texto, sinto que vc acredita na humanidade.
Seu “preso” parece recuperado, capaz de desfrutar os prazeres da vida, ingenuamente, como qualquer cidadão.Quem dança e ama só pode ter um coração puro, aberto às emoções. Não será ele, certamente, um criminoso frio, capaz de cometer atrocidades.E ainda se defende trabalhando como motorista, não como um traficante qualquer.
Essas características do Margarido levam´nos a reflexões sobre o sistema penal brasileiro, que todos sabemos estar muito comprometido. Não só nós, mas várias outras potências estrangeiras.
Já é hora de uma reformulação radical do sistema, ainda mais que a educação está chegando bem aos presídios, com as escolas presiocionais.( esqueci-me do termo correto, não repare).
Os governantes e principalmente os Poderes Legislativo e Judiciário deveriam “correr”no sentido de aprovarem as reformas em curso,para poderem já pensar em outras mais humanas e atuais.