fev
7
2010
Entreouvido no Leblon
Author: Delman FerreiraO diálogo a seguir foi ouvido no calçadão da praia do Leblon neste domingo, 07/02/2010.
Antes, para que os não moradores do Rio possam se situar, vamos fazer um preâmbulo.
O metrô do Rio foi inaugurado há mais de 30 anos. Chegou à Copacabana e parou por ali. Ipanema aguardava uma estação há mais de 20 anos. Finalmente, no dia 21/dez/2009, foi inaugurada a Estação Ipanema/General Osório. Facilitou a vida de milhares de pessoas que vão e vem de Ipanema/Leblon para trabalhar ou para curtir as praias e o que mais estes bairros tem para oferecer.
Mas, nem todos ficaram satisfeitos. Tem gente que ainda sonha com um “apartheid disfarçado”, uma espécie de “liberdade faz-de-conta”. Para estes segregacionistas, aquela parcela da população que eles chamam de “povo”, ou “povinho”, só pode chegar aos seus redutos privilegiados quando for para servir, jamais para usufruir.
Vamos ao diálogo entre dois casais que faziam sua caminhada dominical no calçadão do Leblon:
- “Esta praia está cada vez mais insuportável”, diz uma das senhoras.
- “Ficou assim depois que inauguraram este metro, agora qualquer um pode vir a praia no Leblon. Toda a Zona Norte desce para o Leblon.”, concorda um dos acompanhantes.
- “Deviam fechar o metro aos domingos.”. Responde o outro – com a concordância de todos os segregacionistas.
(fevereiro/2010)
“um outro mundo é possível”
Tags: apartheid, diálogo, faz-de-conta, Ipanema, Leblon, metrô, povinho, segrecionismo
fevereiro 8th, 2010 at 1:35
Niterói vive o mesmo problema. Não é segregacionismo, não. Essas “hordas” não têm os mesmos costumes que nós, moradores.Não têm bons modos, há pouca noção de convivência pacífica e respeitosa. São jogos de toda natureza; piqueniques à luz do sol, rodeando-se de papéis, garrafas,jornais cujas folhas voam para todos os lados, cães correndo, latindo, afugentando as crianças, como as bolas de futebol, sacolés mil, respingos , melhor, banhos de água do mar constantes nos passantes ou nos que estejam sentados,rádios ou sistemas de som ouvidos em altíssimos decibeis,grupos de 8, 10, correndo como loucos para mergulhar no mar, atropelando crianças e meio idosos. Eles incomodam, de verdade.
Eu não reclamo de metrô, porque apesar das promessas do Cabral e do PAC ,o nosso não saíu do papel. Mas reclamo dos ônibus e vãs.Fico curiosa de não frequentarem as praias próximas às suas residências, onde está sua comunidade e preferirem “viajar” para lugar tão distante só para contarem que foram à praia da Zona Sul da cidade. que nada têm a ver com eles.O resultado é que se tem que fugir para as praias oceânicas que por enquanto não foram totalmente invadidas por causa das passagens caras.
Se essa turma tivesse um pingo de noção de civilidade em nada nos atordoaria.Mas isso não acontece.Nada a ver com raça e gènero. Às vezes tem-se até muitos louros mal-educados entre nós. Mas recebem melhor nossas reclamações e nos atendem mais facilmente.
Não temos um bom policiamento. Mas imagine se houvesse: gritariam. logo, que era perseguição contra pobres, sim, porque os moradores desas zonas, parecidas com as do Rio, não têm mesmo boas condições econòmicas e em geral nenhuma educação, nem familiar nem escolar.São domésticas, faxineiras. comerciantes de meia porta e seus filhos, netos, sobrinhos.
No mometo, São Gonçalo, município vizinho, já tem sua praia, o que diminuiu muito a evasão para Icaraí.Mas nós temos as favelas a rodear de perto nossa Niterói e aí é que a coisa pega.
Não se pode frequentar mais a lindíssima praia de Icaraí , e adjacentes, que têm como pano de fundo o belíssimo Rio de Janeiro, sobretudo á tarde, quando aqueles que t~em que trabalhar deixam seus postos.
Eu me contento com uma piscininha ( 5×3,5)que tenho na minha simples, mas confortável. cobertura; E muitas vezes arrasto colegas para cá.Não necessito, graças ao bom Deus, ficar lutando por um lugar mais tranquilo e digno na areia das praias.
Tenho muitas amigas humildes, cuja amizade cultuo com orgulhor. Mas por sua boa formação ,nada me impede de convidá-las para minha casa , nem eu evito nosso convívio. Tenho orgulho delas fazerem parte de meu círculo de amizades.E algumas são bem bronzeadas;
Reflita sobre esses pontos diferenciais!
Grande abraço!
fevereiro 8th, 2010 at 8:10
Pois é D. Nicoleta,
É “graças ao bom Deus” que finalmente este País começa a implementar políticas públicas (ainda temos um longuíssimo caminho a percorrer) que garantam o direito constitucional de ir e vir a qualquer cidadão. Até pouco tempo as restrições econômicas estabelicadas por Governos anteriores não davam condições a muitos brasileiros se quer de pagar a passagem do metrô para ir à praria. Qualquer praia, até mesmo à “lindíssima praia de Icaraí “. E ninguém vai ao Leblon pra dizer que foi à Zona Sul. Esquece isso. Aliás, é essa forma de pensar que revela o segregacionismo social introjetado em cabeças com reflexões retrógradas e ultrapassadas para o início do Século XXI (pensamento muito característico dos guetos da elite Global ainda reinantes na sociedade brasileira), que impôs – e diariamente luta para que assim permaneça – espaços restritos aos segmentos menos aquinhoados de nossa população.
Sinto dizer-lhe, Nicoleta, mas – mesmo sem desejares (sic) – acabas por dar voz ao desejo de muitos ‘nazistas’ que desejam, sim, realizar uma “perseguição contra pobres”, que deveriam (???) em suas casas.
fevereiro 8th, 2010 at 9:06
Quando eu comecei a ler, imaginei que seria uma crítica ao metrô. Afinal, inauguraram o novo trajeto sem se preocupar com aumentar a quantidade de veículos. Está um caos! Durante a semana é difícil ir e vir no metrô. As estações ficam cheíssimas. Mas não, é questão de segregação legítima. A praia é pública, gente. Infelizmente existem os educados e os não tão bem educados. As praias andam cheias porque é uma diversão barata e ficou mais perto de quem mora mais longe. Está incomodando os moradores do bairro? Paciência. Os direitos são iguais, embora o IPTU seja bem diferente…
fevereiro 8th, 2010 at 16:23
Calma, dona Eliane. Abaixe sua arma, companheiro comissário Arthur. O texto de dona Nicoleta é um primor de bom humor, uma das coisas mais inteligentes que já li nas últimas horas. E olhe que já andei até pelo Blog do Noblat! A ironia é uma das formas mais eficientes de falar das coisas cotidianas e dos valores subentendidos nas práticas de convivência. Talvez seja bom, Nicoleta, para desarmar certos espíritos não preparados, esclarecer no final que estavas apenas jogando luzes mais engraçadas naquilo que Delman descreveu de forma algo burocrática. De toda forma, a maior parte dos moradores da zona sul do Rio (não sei quanto a Icaraí) sempre foi isso mesmo. Uma gentinha que se acha!