Archive for março, 2010

A Leveza do Ser

Author: Delman Ferreira
Uma noite, lá pelas três da manhã. Chuvinha fria. Tô lá no Bar do Tião já me preparando pra ir embora.

Chega o Margarido. Negro meio alto, magro, da canela fina. O cabelo começando a pintar. Sambista desses que dançam com toda a leveza do ser. Sem os pés tocarem o chão. Pediu uma carona.

– “Vamo nessa, mas já tô saindo”, respondi.

Pediu só um tempinho. Depois de uma meia hora, voltou e me perguntou se podia levar junto um ‘esquema’. ‘Esquema’ era uma moça que ele tinha conhecido naquela noite. Depois de muito samba no pé, muito rebolado, Margarido “convenceu a Donzela a lhe acompanhar”.

Fomos embora, eu, a Meri, o sambista e o ‘esquema’. Fui tocando e nada dele me dizer para onde ia. Só me apontava a direção. Vira daqui, vai pra lá, agora segue por ali,… e vamos indo,…

Até que chegamos na frente da Penitenciária. Pediu pra parar e, nem me deu tempo de perguntar qualquer coisa, agradeceu, saiu com o ‘esquema’ e foi-se pela Penitenciária a dentro.

Passados uns dias, entro num ônibus e … ora…ora… quem era o motorista, com uniforme da empresa e tudo? O próprio, Margarido, o sambista, a leveza do ser. Dessa vez ele não me escapou. Encostei e fui fazendo minhas perguntinhas.

- “O que tu fostes fazer na penitenciária aquela noite? Trabalhas ali?”.

- “Não, é que eu dei um vacilo e tô puxando um tempo lá. Posso sair pra trabalhar e tenho que voltar pra dormir”.

- “Mas, e o ‘esquema’? Como foi que ela entrou?”

- “É que eu tenho uns lances lá com uns amigos da carceragem. Eu facilito umas pra eles e, quando eles tão de plantão, eles facilitam a minha, me deixam chegar um pouco mais tarde. Aí eu levo uns ‘esquemas’.

Dei-me por satisfeito. Feliz pelo privilégio de conhecer a Leveza do Ser.

(este texto é um excerto de Salve, Tião)

(mar/2010)

“Um outro mundo é possivel”

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Bolsas e suas grifes

Author: Delman Ferreira

Recebo, com freqüência, emails críticos aos programas sociais do governo Lula. Em geral, ignoro e apago. Hoje, só pra provocar, mandei um desses emails pro Belizário, lá no Observatório do Morro do Baco Baco, na Esplanada do Século XXI.

Ele não perdeu tempo, bateu de primeira, de sem-pulo, sem deixar quicar. Imediatamente me mandou outro email com suas perguntinhas pontiagudas:

Gostaria  de saber dos críticos em geral se já pararam para fazer a seguinte comparação: para o Estado Brasileiro, quanto custam as  bolsas pobres e quanto custam as bolsas ricas? Ou, em outros termos, quanto custam os programas sociais que visam garantir vida digna para todos os brasileiros e quanto custam as isenções de impostos e os incentivos que visam garantir pujança à nossa economia?

Os emails sempre fazem referências pejorativas aos programas sociais, classificados como bolsa-esmola, bolsa-vagabundo, bolsa-favela etc.,… São sempre considerações negativas. Deixam explícita sua ideologia: transferir renda e garantir oportunidades para as camadas mais pobres da população é crime de lesa-pátria.

Usando esse mesmo raciocínio simplório-ideológico, gostaria de saber: transferir renda para as camadas mais ricas da população não seria lesa-pátria? Dar incentivos para quem se enquadra entre os maiores e mais competitivos do mundo não seria lesa-pátria? Como devemos classificar certas isenções de impostos e alguns incentivos existentes na economia?

A Vale é a maior empresa privada brasileira e a segunda maior mineradora do mundo. Explora nossos minérios e exporta tudo o que tira de nosso chão. Entretanto, praticamente não nos paga impostos graças aos ‘incentivos’ dispostos em lei. Pergunta: a Vale precisa de incentivos? Quanto isso custa ao Estado Brasileiro?

O Brasil é o maior produtor agrícola do mundo. O maior exportador de carnes, soja, açúcar. Um dos maiores exportadores de café e outros produtos. O agronegócio quase não paga impostos e, ano após ano, consegue perdão das dívidas, graças a programas e leis de ‘incentivo’. Pergunta: Quanto isso custa ao Estado Brasileiro?

Igrejas, não pagam impostos. Empresas de Comunicação (também conhecidas como mídia), quase não pagam impostos. Bancos, quase não pagam impostos. Pergunta: Quanto isso custa ao Estado Brasileiro?

Qual a primeira providência das empresas, nacionais ou multinacionais como as montadoras de carros, quando fazem planos para novas instalações? Resposta: pressionar e chantagear municípios e estados para conseguir isenção de impostos, construção de infraestrutura e outros ‘incentivos’. Pergunta: Quanto isso custa ao Estado Brasileiro?

Programas sociais são mecanismos de transferência de renda que tem se mostrado eficazes para diminuir a vergonhosa distância entre ricos e pobres no Brasil. Já beneficiaram mais de 30 milhões de pessoas que elevaram seu padrão de vida.

Há desvios nos programas sociais? Encontramos casos de aproveitadores na aplicação destes programas? É óbvio que há desvios.

Por causa destes desvios, devemos acabar com os programas sociais? Devemos continuar como os campeões mundiais de concentração de riquezas?

Programas de incentivos à economia são fundamentais para o desenvolvimento do Brasil e para a elevação de nosso padrão de vida.

Entretanto, quanto dos incentivos são efetivamente utilizados para elevar a produtividade e competitividade da economia brasileira? Quanto destes recursos são desviados para fins nem sempre nobres? Há desvios? É óbvio que há desvios.

Adotando o mesmo raciocínio simplório-ideológico dos que usam exemplos isolados para criticar e pregar o fim dos programas sociais, deveríamos usar os exemplos de mau uso das ‘bolsas ricas’ para pregar que o governo acabe com todos os incentivos à economia? Ou devemos considerar, cordatamente, que os programas de incentivo à economia servem apenas como formas disfarçadas de transferência de mais riqueza para os mais ricos?

Pra agradar esse pessoal dos emails, vamos combinar o seguinte: só os proprietários de bolsas de grife poderão ter benefícios do Estado Brasileiro.

Por fim, Belizário manda dizer que toda essa história de bolsa pra cá e bolsa pra lá, fez lembrar de um camelô que vendia:

Malas, malinhas e maletas

- Bolsas, bolsinhas e… sandálias havaianas…

(mar/2010)

“Um outro mundo é possivel”

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Reserva de Vagas

Author: Delman Ferreira

Negros, pardos e índios são mais de 50% da população brasileira. Negros, pardos e índios são menos de 5% dos alunos das universidades brasileiras. Algo está muito errado.

Temos, aí, uma distorção que constitui um sério obstáculo para o desenvolvimento de qualquer povo.

Seja por razões humanitárias, seja por razões sócio-econômico-desenvolvimentistas, o fato é que este problema precisa ser superado.

Nos últimos anos, o sistema de reserva de vagas, popularmente conhecido como ‘política de cotas’, tem obtido evidente sucesso no sentido de garantir maior presença de ‘não-brancos’ nas universidades. Entretanto, cada vez mais vozes se levantam contra este sistema bem sucedido.

Por quê? Seriam contra ‘enegrecer’ as universidades brasileiras? – Todas aquelas vozes responderão firmemente que Não. Não somos contra aumentar a presença de negros, pardos e índios nas universidades. – Então, porque se opõem ao sistema de reserva de vagas? Por que colocam-se tão determinadamente contra um sistema que vem apresentando resultados positivos?

Dizem que esse não é o caminho. Que a reserva de vagas vai estabelecer uma lógica racista numa sociedade que se caracteriza pela miscigenação. Que a diversidade racial e cultural é nossa grande riqueza e é exemplo para o mundo. Que precisamos afirmar essa característica. Que temos que consolidar nossa ‘democracia racial’. Que o caminho é fortalecer e garantir qualidade para a escola pública e, assim, garantir isonomia de condições para que todos possam disputar igualmente todas as oportunidades, seja nas escolas, seja nos postos de trabalho, seja em qualquer área da vida.

Muito bem. Vamos, então, raciocinar de acordo com esta estratégia bem intencionada: Fortalecer o Ensino Básico Público. (Sem esquecer o dito popular que nos ensina que ‘o ótimo é inimigo do bom’).

Primeira questão que se apresenta: o que entendemos por ‘Fortalecer o Ensino Básico Público’?

Fortalecimento do ensino básico’ é tema de grande complexidade. Para simplificar e ajudar no raciocínio, vamos combinar e convencionar que ‘fortalecimento do ensino básico’ seria apenas: construir escolas de padrão elevado em todo o território nacional e garantir elevado grau de conhecimento e condições de trabalho dignas para as centenas de milhares de professores de primeiro e segundo graus.

O que significa escolas de padrão elevado’? Salas de aula confortáveis? Pelo menos um computador para cada aluno? Biblioteca? Centros de esportes? Laboratórios e centros de pesquisa? Espaços de convivência para a comunidade?

O que significa professores com elevado grau de conhecimento’? Todos os professores com nível superior? Carreira de professor com salários elevados? Condições de trabalho atraentes? Plano de Saúde? Previdência?

Seguindo com nosso raciocínio simplista, vamos supor que o Brasil reúna as condições ideais para este ‘fortalecimento do ensino básico’: o governo decidiu mobilizar todos os recursos necessários e, por sua vez, a sociedade conscientizou-se da importância dessa iniciativa. – Estamos no Marco Zero, a partir de hoje, vamos construir escolas de elevado padrão em todos os recantos do território nacional e capacitar todas as centenas de milhares de professores com elevado grau de conhecimento e condições de trabalho dignas.

Seguindo essa estratégia, em quanto tempo estaremos colhendo o resultado planejado e desejado pela população? Em quanto tempo vamos garantir educação de qualidade para todos os brasileiros? Uma década? Uma geração? Duas gerações? Três gerações?

Negros, pardos e índios esperam por uma solução, pelo menos, desde 1888. Segundo o IBGE, hoje, o Brasil tem 49,4 milhões de jovens entre 15 e 29 anos. Mantida a proporção populacional, aproximadamente 25 milhões destes jovens são negros, pardos ou índios.

Enquanto aguardamos o ‘fortalecimento do ensino básico’, o que fazer com estes 25 milhões de negros, pardos e índios que não conseguem alcançar a universidade? Continuar a discutir o que fazer? Fazer de conta que o problema não existe? Abandoná-los à própria sorte, como ocorreu até hoje? Segregá-los nas periferias? Torcer para  que a violência se encarregue de eliminá-los? Entregá-los ao tráfico?

Ou adotar uma Política Afirmativa?

Por definição, políticas afirmativas são sempre transitórias. Ou seja, elas deixarão de ser necessárias e, portanto, deixarão de existir, quando as soluções definitivas apresentarem os resultados desejados. O processo deve ser dialético. Na medida em que um sistema se fortalece o outro vai gradativamente sendo substituído.

Repetindo a questão: o que fazer com os 25 milhões de jovens negros, pardos e índios durante a etapa de transição até que se alcance o desejado ‘fortalecimento do ensino básico’? Obviamente, ninguém vai responder que eles deverão ser ignorados. Portanto, precisamos de medidas que incluam estes jovens. Aceitam-se sugestões… As medidas que a Humanidade conseguiu desenvolver até hoje para superar este tipo de problema foram as Políticas Afirmativas.

Enquanto não surge idéia superior: Que se estabeleçam metas para Fortalecer o Ensino Básico Público, e critérios de avaliação destas metas. Que se estabeleçam as Reservas de Vagas. Que seja um processo dialético. Na medida em que as metas forem sendo alcançadas, e o ‘fortalecimento do ensino básico’ for se consolidando, vão-se reduzindo os percentuais de reservas de vagas.

Melhorou a qualidade? Alcançamos 10% das metas num determinado período? Reduzem-se 10% das vagas reservadas no período seguinte. Caiu a qualidade? Sobe o número de vagas reservadas. E assim, sucessivamente. Até que alcancemos uma educação de qualidade elevada para todos os brasileiros.

Com este método, aqueles que se dizem preocupados com a consolidação de nossa ‘democracia racial’ terão uma grande oportunidade para acabar definitivamente com as reservas de vagas. Basta empenharem no ‘fortalecimento do ensino básico’ toda a energia que consomem combatendo as políticas afirmativas.

Democracia se constrói pensando e agindo democraticamente.

Democracia é tratar desigualmente os desiguais.

(mar/2010)

“Um outro mundo é possivel”

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a beleza de uma lágrima

Author: Delman Ferreira

Severino é um desses milhões de brasileiros e brasileiras esculpidos em terra esturricada … pelo sol inclemente … na chuva… no vento… no dia-a dia desesperançoso.


Jamais extravasara a menor expressão ou deixara perceber um mínimo vestígio que permitisse identificar qualquer um de seus sentimentos. Homem de extrema economia de palavras, desses que se dirige espontaneamente apenas aos seus animais. Que nunca possibilitara qualquer expansão mais animada aos filhos ou à mulher.


O que viveu naquele dia, porém, foi incontrolável e inesquecível.


Quando entrou em casa com a televisão usada que conseguira em troca de uns trabalhinhos na casa de um primo da cidade. Quando ligou a TV e apareceram as primeiras imagens. Quando viu nos olhos dos filhos e da mulher uma felicidade nunca estampada. Quando recebeu o apertado abraço de bracinhos tornados incontroláveis pela alegria…. Severino não resistiu – por seu rosto curtido rolaram indisfarçáveis lágrimas. Peito estufado – orgulho incontido – alegria sem limites.


Ele não tinha acreditado nada, nada, quando viu a propaganda do Governo que dizia que iam botar luz de graça na casa dos pobres. Mas, pra surpresa de Severino e de todos os outros que, como ele, também não acreditaram e não esperavam mais nada além das durezas da vida, de repente apareceram uns operários e começaram a colocar postes e a instalar ‘luz’ na casa das pessoas.


Agora, tava ali a TV ligada mostrando uns desenhos que o filho adorava ver na casa dos primos da cidade. Os meninos iluminados de felizes. O pequeno pendurado no pescoço, num abraço apertado como ele nunca mais lembrava de ter recebido. A mulher, toda faladeira, andando de um lado pra outro sem saber o que fazer ou onde guardar tanta alegria – naquele dia ela certamente ia “se fazer bonita como há muito tempo não ousava ousar”.


Agora, ele que quase não falava com ninguém porque não queria ouvir mais reclamação e que morria de vergonha de não poder dar uma vida melhor pra mulher e pros meninos, ele estava ali, explodindo de orgulho porque tinha podido trazer muita alegria pra dentro de casa.


E aquela lágrima que insistia em correr pelo cantinho do olho… O que é que faz um homem numa hora dessas?…

(ago/2005)

“Um outro mundo é possivel”

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