Archive for fevereiro, 2010

Torturas, drogas e Democracia

Author: Delman Ferreira

Lalá,

É muito provável que tenhas razão quanto ao quesito “Punição aos Torturadores”, já perdemos o timing e o trem da história. Entretanto, considero que o debate sobre Tortura e Torturadores é da maior relevância para que o Brasil cresça e jamais esqueça que, sim, somos o resultado de uma história de muita crueldade e desumanidade. – É importante registrar que, no quesito desumanidades e barbárie, a história dos outros povos, principalmente dos mais ricos, é uma história de horrores.

Tratar a tortura é como tratar a dependência. O dependente só consegue se livrar da dependência e do risco de recaída quando assume que é dependente e aceita falar disso. Jamais vai recuperar a vida perdida. Jamais vai apagar o passado. Não adianta querer punir o drogado pelas barbaridades que fez. Mas, tem que assumir e falar do assunto pra tomar qualquer decisão e ficar livres da dependência.

Olhemos a história dos negros. Foram torturados e explorados durante quase 400 anos. Foram usados para fazer fortunas. Depois, quando se tornaram um estorvo, foram atirados, pela princesa, na sarjeta das cidades e da sociedade. Agora, quando alguns negros cobram o resgate dessa história e dessa dívida, são acusados de racistas e de querer criar uma chaga na nossa maravilhosa “democracia racial”. Acusados de querer fazer “negrices”.

Nossa “democracia” funciona muito bem no silêncio dos torturados e marginalizados. Essa “jovem democracia”, sensível e frágil, não suporta um olhar de inquietude. Qualquer desaprovação, já a coloca nervosa. Qualquer contestação, já desencadeia uma crise. Qualquer cobrança, já põe o cristal em risco. Qualquer exigência de igualdade, já coloca perfilados os “guardiães da ordem”.

A “democracia racial” brasileira não consegue conviver com diferenças. São aceitos na “democracia” apenas os torturados que mimetizam o torturador – desde que saibam se comportar. Desde de que aprendam a usar talheres e guardanapos. Desde que sejam lucrativos. Desde que sejam uma boa mercadoria.

Os que não aprenderem a se comportar, serão imediatamente acusados de desordem e condenados à tortura da marginalização.  Negros que insistam ser negros, índios que insistam ser índios, gays que se assumam gays – sem ser mercadoria – serão imediatamente tachados de desordeiros, racistas anti-democráticos. Excluídos para não sujar nossas praias.

Enquanto o Brasil não assumir que é “drogado”, que a tortura faz parte de nossa história e de nosso processo de “desenvolvimento” e “civilização”, jamais vamos nos livrar dessa dependência. Se não falarmos do assunto, sempre correremos o risco de uma recaída.

Democracia Plena, sem aspas e  sem adjetivação, exige que falemos de nossas mazelas. De nossas misérias. De nossas crueldades. De nossas desumanidades.

Crescer dói.

Democracia exige crescimento.

(fevereiro/2010)

“um outro mundo é possível”

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A ordem das coisas

Author: Delman Ferreira

“Democracia é dar a todos o mesmo ponto de partida.
Quanto ao ponto de chegada, depende de cada um.”

Mário Quintana

Era uma prova organizada pela Confederação. Para selecionar meninos e meninas com bom potencial. Quem ganhasse teria Bolsa de Estudos, técnico e treinamento especial. Em 2016, os melhores seriam os representantes nas Olimpíadas.

Desde pequeno, Zé gostava de correr e apostar corrida. Fosse o que fosse: contra outros meninos, contra bicicletas, principalmente contra o Tyson. Tyson era um cão quase todo preto, uma cruza clandestina de pastor com vira-lata. Zé vivia jogando corrida contra Tyson na subida do Morro. Por isso, logo recebeu o apelido de Zé Cachorro. Seu nome é José Ferreira da Silva.

Tinha só doze anos e foi chamado pra participar da seletiva da Confederação. Virou o orgulho do Morro do Baco Baco. Naquele domingo, todos estavam lá torcendo pelo Zé Cachorro. Ele já tinha passado por várias eliminatórias e vencera todas. Só faltava a Final.

Quando o Juiz de Prova mandou “Aos seus lugares”, Belizário achou muito estranho porque os meninos não ficaram todos na mesma linha. Ferreirinha ficou lá na linha de partida, mas, outros meninos se colocaram muito à frente. Uns na altura dos 20 metros, outros lá pelos 30m, outros ainda mais à frente.

Democracia Liberal

Belizário protestou. “Isto não está certo”, gritou o mais alto que conseguiu. Mas, ninguém ouvia, ou faziam que não entendiam. Somente o pessoal do Morro, que também estava muito indignado. Quando os protestos ficaram mais fortes, foram ameaçados. Caso não se comportassem, seriam expulsos pela polícia.

Belizário foi questionar a organização(?). Queria saber por que não saiam todos na mesma linha de largada?

- “Temos que respeitar as Regras”, responderam.

- Como assim, que ‘regras’ são essas? Belizário quis saber.

- “São as Regras. É a ordem natural das coisas. Quem vem de família de campeões, ou se é um filho de recordista, ganha mais chances na largada. Aquele menino, por exemplo, o Avô foi recordista e o Pai foi recordista, por isso ele sai 40 metros na frente.”.

- E os outros, também são filhos de recordistas?

- “Não, aqueles são filhos, ou afilhados, de senhores que, apesar de não serem de famílias tradicionais, são importantes. Por isso, também ganham destaque.”.

- Ainda não entendi uma coisa. Se a corrida é para todos. Se é para destacar o melhor, quem pode contribuir mais e ser mais importante para o Brasil no futuro, porque não dão as mesmas chances e largam todos na mesma linha?

- “Nós estamos dando oportunidades para todos. Estão todos na mesma prova. Vai vencer quem for melhor. Os que saem adiantados não precisam provar nada. Todos sabem que eles são bons. Estão ali apenas para contribuir e estimular os outros.  Assim, os que saem atrás vão se espelhar neles e tentar fazer mais e melhor. É um verdadeiro altruísmo.”.

- Mas, se uns saem na frente dos outros, não vai vencer o melhor, vai vencer quem saiu na frente.

- “Nem sempre. Algumas vezes, estes que saem na frente não sabem aproveitar a oportunidade e ficam para trás. Já houve caso de alguém vindo de trás que conseguiu vencer.”.

­- Deixa ver se entendi. As ‘regras’ garantem privilégios de uns contra os outros. Um menino do Morro só vai conseguir alguma coisa quando um daqueles que sai na frente deixar. Se ninguém deixar, a ‘seleção’ brasileira vai ser sempre a mesma?

- “O senhor está sendo radical. Se um menino do Morro for bom, alguém pode se interessar por ele e oferecer outra oportunidade. Daí ele vai poder provar que é bom mesmo”.

- Sei. Pelas ‘regras’, os lugares já estão todos marcados, assegurados pra quem tem ‘tradição’ ou tem ‘poder de pressão’. Para um menino do Morro, só resta pegar as sobras ou vender-se para quem se interessar.

- “São as ‘Regras’. É a ordem natural das coisas. Se o senhor não está satisfeito, tente mudar as regras. E, por favor, não importune, temos mais o que fazer. Ou vou ter que chamar a polícia para fazer o senhor entender as ‘Regras’”.

- Sei. Isso lá no Morro tem outro nome. Chamamos Democracia Liberal.

(fevereiro/2010)

“um outro mundo é possível”

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Entreouvido no Leblon

Author: Delman Ferreira

O diálogo a seguir foi ouvido no calçadão da praia do Leblon neste domingo, 07/02/2010.

Antes, para que os não moradores do Rio possam se situar, vamos fazer um preâmbulo.

O metrô do Rio foi inaugurado há mais de 30 anos. Chegou à Copacabana e parou por ali. Ipanema aguardava uma estação há mais de 20 anos. Finalmente, no dia 21/dez/2009, foi inaugurada a Estação Ipanema/General Osório. Facilitou a vida de milhares de pessoas que vão e vem de Ipanema/Leblon para trabalhar ou para curtir as praias e o que mais estes bairros tem para oferecer.

Mas, nem todos ficaram satisfeitos. Tem gente que ainda sonha com um “apartheid disfarçado”, uma espécie de “liberdade faz-de-conta”. Para estes segregacionistas, aquela parcela da população que eles chamam de “povo”, ou “povinho”, só pode chegar aos seus redutos privilegiados quando for para servir, jamais para usufruir.

Vamos ao diálogo entre dois casais que faziam sua caminhada dominical no calçadão do Leblon:

- “Esta praia está cada vez mais insuportável”, diz uma das senhoras.

- “Ficou assim depois que inauguraram este metro, agora qualquer um pode vir a praia no Leblon. Toda a Zona Norte desce para o Leblon.”, concorda um dos acompanhantes.

- “Deviam fechar o metro aos domingos.”. Responde o outro – com a concordância de todos os segregacionistas.

(fevereiro/2010)

“um outro mundo é possível”

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Podofilia

Author: Delman Ferreira

O pacato Palhares, incapaz de um ato inusitado, naquele dia deixou o mundo boquiaberto.

Palhares era daqueles que ainda chamava o trabalho de “a Minha Repartição”. O momento mais importante da vida foi o dia em que foi promovido a chefe da Repartição de Contabilidade. Deu-se o Nirvana. Chegou às lágrimas.

Palhares considera-se um homem feliz e realizado porque, “ainda menino, caiu-me nas mãos o saber mais importante que um homem pode seguir. De minha Amada Dodinha e desta sabedoria, nessa ordem, é que tiro toda a energia de meu sucesso”. Ainda guri, lendo Jorge Amado pra trabalho de escola, aprendeu o lema que levaria por toda a vida, e agora faz questão de repassar aos mais jovens para que alcancem uma vida ditosa como a dele. “Um lugar para cada coisa, cada coisa em seu lugar”.

Esse é o Palhares. Sistemático. Austero. Rigoroso. Sempre alinhado. Ternos sob medida. Sempre atencioso. Um perfeito escoteiro. Sempre alerta e sempre pronto para servir. Sempre pontual. Jamais faltou na Repartição.

Acima de tudo, a característica que mais se destaca no Palhares, é a gentileza com as mulheres e o amor por sua “Amada Dodinha”. Dodinha era Normalista quando conheceu Palhares e casou ainda muito nova. Encantou-se porque ele lhe fazia companhia em todas as quermesses, novenas e missas, além de ficar na frente da igreja, pacientemente esperando enquanto ela se confessava, sozinha, lá atrás, com Padre Ricardo. Antes das missas, Dodinha gostava muito de se confessar.

As gentilezas não tinham limites. Nestes momentos, Palhares se transformava. Extrovertia-se. Virava um tímido espalhafatoso. Fazia mesuras e gestos teatrais para abrir portas, puxar cadeiras, espantar uma mosquinha inoportuna. Aquecer o ambiente. Refrescar o ambiente. Chegava a usar lenços de seda “só para socorrer uma Dama quando de uma lágrima fugidia.”.

Naquele dia, todos ficaram preocupados. Pontualmente às 08h30, início do expediente, Palhares ligou e disse que não iria trabalhar, “tinha algumas providências domésticas que o prendiam e impediam de cumprir o sagrado dever com a Repartição”. Sem maiores explicações.

Só podia ser coisa grave. Palhares jamais faltava. Movidos pela curiosidade e por um ‘documento urgente que precisava da imprescindível assinatura do chefe’, nada menos que cinco funcionários da contabilidade foram até a casa de Palhares.

Ao chegar, ficaram estupefatos. Estáticos. Sem saber o que dizer e incapazes de realizar o que viam.

Palhares vestia um elegante “homewear” e… calçava chiquérrimos sapatos femininos de salto alto.

Todo mundo boquiaberto.

Singelamente, Palhares explicou:

- “os sapatos são novos e minha Amada Dodinha vai usá-los hoje à noite, na missa. Tô amaciando pra Dodinha”.

(fevereiro/2010)

“um outro mundo é possível”

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