Archive for julho, 2009

“Engrandalhado”

Author: Delman Ferreira

Saio do Senado. Saio de Brasília.

Saio “engrandalhado”. Sob todos os aspectos, muito maior do que cheguei.

Ao olhar este período que vivi em Brasília, sinto muito orgulho e alegria. Foram dez anos. Três na Câmara e sete no Senado. Saio por opção de vida. Para novos desafios, novas descobertas, novas venturas, novos tropeços, novos aprendizados.

Considero um privilégio ter tido a oportunidade de conhecer muito melhor a diversidade e a complexidade deste maravilhoso país que é o Brasil. Saber como funciona. Como são tomadas as decisões. Conhecer uma boa parte das dificuldades e limitações. Saber dos desafios que se colocam e dos horizontes que se expandem. Principalmente, conhecer o potencial de superação, o potencial natural e o extraordinário potencial humano de nosso País. Um privilégio que, se pudesse, eu estenderia a cada brasileiro. Uma lição elevada de Cidadania.

Guardo a alegria de ter convivido, e a certeza de que vou continuar convivendo, com tantas pessoas tão diversas e especialmente extraordinárias.

Algumas são pessoas simples e anônimas, mas sempre grandes companheiras. Imprescindíveis em minha vida. Que estiveram comigo no dia a dia ou com quem cruzei eventualmente. Que me deram lições que jamais encontraria em qualquer escola.

Amigos do “Explora Brasília”, um grupo que procurava descobrir e curtir todos os cantos e recantos de Brasília e seus arredores. Bares, restaurantes, chácaras, fazendas, trilhas, cachoeiras, exposições, cinemas, locais para dançar, etc., etc., etc.  Quando cheguei, não imaginava que o Explora me reservava paixões e transformações tão profundas e definitivas.

Amigos do VAMMo – o Movimento Vida Além Misteres – cuja proposta é levar a sério o conceito de que a vida não é só misteres – afazeres, obrigações e stress. Existe vida além dos misteres – o lazer é fundamental para o equilíbrio. O prazer do fazer coletivo. Treinar, correr, conversar, caminhar e comemorar a vida, esportivamente.

Amigos que fiz pela internet. Que nunca conheci pessoalmente, que talvez não venha a conhecer. Mas que me proporcionam momentos de provocação e reflexão. Alguns destes contatos iniciaram por meio de um duro embate, por vezes até agressivo e, gradativamente, foram se transformando num debate respeitoso e produtivo.

D. Sofia, Belisário, a Mercearia e todos os amigos do Morro do Baco Baco. Suas saborosas histórias, reflexões e provocações.

Outro privilégio inestimável foi ter compartilhado momentos de trabalho ou de lazer com homens e mulheres de grande sabedoria, conhecedoras das histórias, dos segredos e das complexidades de setores fundamentais à vida nacional. Amigos e amigas dos ministérios, das empresas e de órgãos do Executivo. Amigos e amigas dos sindicatos e dos Movimentos sociais. Amigas e amigos do Congresso Nacional. Pessoas da maior qualidade ética, moral e intelectual, com quem sempre pude contar e sem as quais não teria conseguido levar adiante muitas das tarefas que enfrentei.

No dia a dia, a análise dos temas nacionais, obriga os técnicos a dominarem profundamente cada uma das questões de sua área de conhecimento e de responsabilidade. O convívio diário com estes temas e com as pessoas que dominam este conhecimento constitui um ambiente de saber que raramente encontramos em qualquer outro local. Tenho muito orgulho e considero um privilégio ter sido membro daquelas equipes, na Câmara e no Senado.

Para me sentir seguro, me manter à altura e me considerar digno de estar ali, eu me via compelido a estudar e dominar cada vez mais os temas sob minha responsabilidade (em especial o de infra-estrutura) e de compreender a conjuntura em que nos encontramos. Sou muito grato pela oportunidade e pela ventura deste exercício diário e permanente. Um exercício que nos estimula a aprender e renovar conceitos. Um exercício que ampliou minha visão de mundo e minha compreensão sobre o Brasil. Oportunidade de descobrimento e conhecimento inestimáveis, sem paralelos em qualquer curso, em qualquer escola, em qualquer canto.

Evidentemente este período não foi só de alegrias. Cometi erros. Passei da conta. Vivi, e chorei junto com tantos companheiros de utopias,  momentos difíceis, de grandes incertezas e grandes decepções. Momentos em que tivemos um choque de realidade e sentimos o sonho quase ruir.

Mas, levo a certeza, o orgulho e a alegria de ter procurado superar e aprender com os desacertos e com as dificuldades. De construir e reconstruir meus conceitos e valores. De procurar me construir e me reconstruir, permanentemente… De ter procurado, em todos os momentos, compreender e dar minha contribuição para o sonho de um Brasil inclusivo, no qual Solidariedade e Democracia sejam valores universais.

Por fim, quero registrar o prazer de ter descoberto Brasília e seus arredores. Brasília é verdadeiramente a capital de nosso País. Em todos os sentidos. Na política, na geografia, na diversidade, na amplitude……… Brasília descortina o Brasil. Brasília merece uma reflexão especial.

Saio “engrandalhado*”. E sou muito grato a todos os amigos e amigas que me ensinaram tanto neste período.

* Engrandalhado é um termo criado pelos amigos da Eletrosul. Expressa um momento em que nos sentimos muito bem – depois da uma conquista, depois de alguma realização, depois de um reconhecimento,…

 

(jul/2009)

(um outro mundo é possível)

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Diálogos elevados

Author: Delman Ferreira

O elevador chegou vazio. Entraram Belisário e um anão já de meia idade. No próximo andar, entram uma Mãe e uma menina de uns quatro/cinco anos. Cumprimentam-se e seguem todos em silêncio. A menina não tirava os olhos do anão.

 De repente a menina chama:

_ Mãe.

A Mãe faz que não ouve.

_ Mãããeee…

_ …

 A Mãe apertou suavemente a mão da menina. Falou do lanche que iam fazer. Tentava distraí-la. Conhecendo a filha, preferia mantê-la calada.

 Mas, para terror da Mãe, a menina não se conteve. Apontando para o anão, fulminou:

_ Mãe, porque ele é criança e tem cara de velho?

 A Mãe não sabia onde se enfiar. Nem olhava pro lado do anão. O tempo tinha estacionado. O elevador jamais chegaria no térreo para que ela pudesse sair correndo daquela situação.

 Ainda pensava como sair dessa, quando o anão retrucou na mesma tranqüilidade da menina:

_ Porque você é menina e faz pergunta de adulto?

 Belisário apenas decorou a cena.

(jul/2009)

(um outro mundo é possível)

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Michael Jackson – a trilha sonora de nosso desbunde.

Nunca gostei do tipo de cobertura sensacionalista e cansativa que a imprensa faz de tragédias ou morte de alguma celebridade.  Mas, semana passada, me peguei grudado na TV acompanhando a repercussão da morte de Michael Jackson, principalmente as retrospectivas da carreira.

Fiquei me perguntando porque isso me interessava tanto. E percebi que Michael Jackson me remetia para tempos de reviravolta em minha vida. Tempos de questionamentos, de experimentação, de erros, acertos, descobertas e libertação.

Frenéticas, Rita Lee, Paralamas, Legião Urbana, Elba Ramalho, Zé Ramalho, Gil, Caetano, Geraldo Azevedo, Barão Vermelho, Cazuza, Blitz… e tantos outros, também fizeram a trilha sonora daquele tempo. Mas, confesso que Michael Jackson me fez caminhar nas nuvens.

O mundo teve seu desbunde nas décadas de 60 e 70. Hippies, festivais de paz e amor, 1968, sutiãs queimados, pílula, LSD, mini-saia, Janis Joplin, Jimi Hendrix,… Até quando John Lennon percebeu que “o sonho acabou“. O sonho e o desbunde foram capturados pelo mercado e viraram apenas mercadoria. Nesse período, o Brasil vivia debaixo das botas de uma ditadura obscurantista, truculenta e torturadora. Como todas, era mais uma ditadura que não admitia o sonho. Prendia e torturava quem questionasse as verdades militares e ousasse pensar, se expressar e viver com liberdade. Todas as ditaduras temem o riso e o sonho.

O Brasil só viveu seu desbunde na década de 80. Abrimos nossas asas, soltamos nossas feras e caimos na gandaia – como dizia uma música das Frenéticas. Arriscamos, sonhamos, sofremos, rimos, choramos, conquistamos, inventamos, ficamos engrandalhados… e dançamos – muito – mesmo sem saber dançar. Num thriller com Michael Jackson.

Já era impossível acreditar que ele faria 50 anos. Seria o mesmo que acreditar que Peter Pan algum dia faria 50 anos. Agora me dizem que ele morreu.

Chego a questionar se Michael Jackson existiu mesmo ou seria produto de nossos delírios, fruto de uma viagem, de algum cogumelo. A única certeza que podemos ter é que logo o encontraremos ali no Morro do Baco Baco, na volta de alguma caminhada pela lua, arrepiando no Bar do Tião. Finalmente Livre. Finalmente Eterno.

Foi-se muito cedo. Mas, existirá para sempre. Nas nossas viagens para a Terra do Nunca de cada um. Em nossos passos desajeitados. Em nossas reviravoltas.

Gone too soon – Tributo a Michael Jackson (clique para assistir)

(jul/2009)

(um outro mundo é possível)

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