Archive for junho, 2009

“Se bico contasse, tucano seria rei”

(para-choque de caminhão)

Interessantes, os tucanos.

Podem ocorrer em quase todo o território nacional. Tem olhos azuis. Tem o peito sempre estufado e olhar distante. Não são muito bons de voo. Avançam aos pulitos, de galho em galho. O voo é curto e desajeitado. Fazem muito alarido e ouvem muito mal. Não dispensam insetos e podem ser predadores dos ninhos de outras aves devorando os filhotes. São animais inquietos, que vivem em bandos e se movem o tempo inteiro, gritam, chiam e pulam de galho em galho. Por enquanto, não estão no rol das espécies ameaçadas de extinção.

O bico, grande e oco, equivale à um terço de todo o corpo. A parte superior é constituída por trabéculas de sustentação e a parte inferior é de natureza óssea. Não é um bico forte, já que é muito comprido e a alavanca não é suficiente para conferir tal qualidade.

Boquirrotos, os tucanos.

Vivem em permanente equilíbrio instável  entre bico e cérebro. Frequentemente falam muito mais do que recomendaria um cérebro razoável.

Adoram apropriar-se dos feitos dos outros. Tem muito pouco a apresentar de seu. Fazem grande alarido e, no meio da confusão, tentam fazer crer que são seus os sucessos alheios.

O Plano Real foi lançado no Governo Itamar Franco. O Brasil vinha de longa sequencia de planos fracassados. Não existia clima para mais uma tentativa. O Real foi possível graças à credibilidade do ex-Presidente. Tucanos mal se equilibravam pelos muros. Em abril de 1994, Fernando Henrique dava traço nas pesquisas para as eleiçoes de outubro daquele ano. Surfaram no Plano Real e FH conseguiu eleger-se no primeiro turno. Os tucanos sairam para os holofotes graças ao Plano Real, criado por Itamar Franco. Hoje, tentam apropriar-se e  insistem em fazer crer que foram os únicos criadores do Real. Criatura querendo passar por criador.

A grande obra dos tucanos, com perdas irreparáveis para o Brasil, foi a privatização de patrimônio público. Venderam o que não lhes pertencia.

Segundo sua própria avaliação, o setor de telefonia é o grande exemplo de sucesso das privatizações.  Assim como quem não quer nada, querem fazer crer que o desenvolvimento das telecomunicações só ocorreu porque houve as privatizações.

É fato que o número de celulares cresceu exponencialmente. É fato que, hoje, um percentual significativo da população (próximo dos 75%) tem desses aparelhinhos. Muito bom, quando visto pela ótica dos fabricantes de celulares. Muito bom para as empresas de telecomunicação.  Entretanto, o serviço de telefonia é o campeão de reclamações em todos os PROCON, desde que este instituto foi criado. Pela ótica dos usuários, é um dos piores serviços públicos brasileiros.

Dado que a privatização foi muito boa para as empresas, mas o serviço é de péssima  péssima qualidade. Dado que os tucanos apresentam a telefonia como o grande sucesso das privatizações. Podemos concluir que, na ótica tucana, o importante são os negócios feitos em nome do serviço público. A qualidade dos serviços prestados à população pouco importa.

Outro grande marco da administração tucana foi o apagão elétrico de 2001. Sobre este momento, eles falam muito pouco.

É longo o bico tucano. Longo, frágil e de pernas curtas.

Cansativos, esses tucanos.

(jun/2009)

(um outro mundo é possível)

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Hipócrates tinha razão (II)

Author: Delman Ferreira

Uma amiga chamou minha atenção que, no último texto deixei a impressão, generalizante, de que os médicos ou seriam uns exagerados ou iriam contra os pacientes.

Quero registrar que não foi esta a minha intenção. Pelo contrário, considero perfeitamente compreensível que os médicos fiquem muito preocupados quando alguém diz que vai se cuidar por meio de mudanças nos hábitos alimentares. Afinal, é da responsabilidade deles garantir a saúde dos pacientes. E o mais comum é que as pessoas se proponham a cuidar da alimentação, mas desistam rapidamente diante das primeiras dificuldades. E, quando isso acontece, os males se agravam e os médicos são responsabilizados. É natural que ouçam propósitos de mudança de hábitos com desconfianças e reservas.

A generalização de críticas, infalivelmente, nos leva a cometer o erro de injustiçar àqueles que procuram orientar seu trabalho por princípios e valores que respeitam e dignificam a humanidade.

Por outro lado, tenho implicância contra certos profissionais, ou indústria, mais preocupados com os negócios do que com a saúde. Considero um crime (inclusive por parte de quem permite) fazer propaganda e marketing de remédios ou cirurgias ‘milagrosas’ nos meios de comunicação de massa. Jogam irresponsavelmente com a desinformação, a insegurança e a ansiedade de pessoas debilitadas e/ou carentes.

Fala-se muito em ética na propaganda, autoregulação etc. Mas, o grande desafio é fazer o trabalho de conscientização. Como já disse, na minha opinião, a educação alimentar deveria iniciar na infância e ser parte do curriculo básico obrigatório, em todas as escolas, públicas e privadas, em todo o território nacional, desde o Ensino Fundamental até a Graduação. A saúde pública brasileira, certamente, seria muito menos congestionada e caótica.

Portanto, se deixei a impressão de estar desmerecendo médicos, pesquisadores, ou outros profissionais da saúde, que se pautam pela ética e fazem medicina com seriedade, quero me desculpar e deixar muito claro que tenho o maior respeito por quem respeita as pessoas e faz da profissão (em qualquer área) uma militância e um caminho para melhorar a qualidade de vida e os padrões de nossa civilização.

(um outro mundo é possível)

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(Para Laura, Meg e Maria)

(“…que tua comida seja teu remédio…”, Hipócrates (~460-370 aC), o Pai da Medicina.)

Emagreci 5 quilos em 30 dias. Sem cirurgia, sem remédios, sem milagres, sem trabalhos forçados. E deixei pelo caminho um barrigão que não me pertencia e mais alguns outros futuros probleminhas.

Tudo graças à sabedoria e orientações da Meg, nossa querida amiga nutricionista. Ao esmero da Maria, que se preocupou em descobrir e fazer novas receitinhas deliciosas e saudáveis. Ao fundamental apoio e à carinhosa cobrança e monitoramento da Laura.

Em meados de abril, como preparação para a cirurgia no Tendão de Aquiles, tive que fazer uma série de exames pré-operatórios. Os resultados foram demolidores para minha autoestima. Meus indicadores de saúde estavam em níveis alarmantes. Açucar, triglicerídeos, colesterol, creatina (eu nem sabia que tinha isso!!!), ácido úrico, pressão arterial – tudo estava muito acima do ideal, já apontando para sérios problemas futuros.

Pelo cardiologista, eu passaria a tomar uma infinidade de baguinhas coloridinhas (pra mim, que detesto remédios, seria o fim – decadência – depressão total). Baguinha contra açucar. Baguinha contra colesterol. Baguinha contra ácido. Baguinha contra isso e aquilo. Contra, sempre contra.

Parecia tudo contra mim – me rebelei. Decidi ser contra os do contra. Ao invés de tomar infinitas medidinhas do contra, resolvi tomar uma decisão a favor: ouvir Hipócrates – fazer da minha comida o meu remédio. Contei com a desconfiada concordância do cardiologista. Creio que ele não acreditava que eu seria capaz de fazer uma mudança profunda em meus hábitos alimentares.

D. Sofia diz que Hipócrates deve ser um meio contra-parente distante do Belisário.

No final de abril, consultei a Meg, que analisou os exames e me passou muitas orientações. Sábias orientações.

A primeira impressão que se tem, na conversa com um(a) nutricionista, é que vamos ter que escolher entre tres alternativas: morrer de colesterol, ficar eternamente dependentes de baguinhas coloridinhas, ou morrer de desgosto. Trágico.

Deve ser uma tática nutricionista: primeiro fazem terrorismo, pra depois nos mostrar que existe vida pós vida. Ou melhor, que também é possível existir muito prazer no comer direito. Re-educação alimentar – essa é a grande sacada de Hipócrates.

Não se trata de seguir dietas da moda ou regimes da lua, do sol, do arco-iris, disso e daquilo. Trata-se de saber o que estamos comendo. Comer consciente. Comer com a cabeça, ao invés de comer com os olhos teleguiados pelo marketing da indústria de comida que depois vai nos fazer escravos do marketing da indústria de remédios (aquelas malditas baguinhas coloridinhas do contra).

Não tem fórmula mágica e não tem genérico. Cada um é cada um. Cada um deve conversar com um(a) nutricionista e descobrir o seu cada qual. Mas, penso que dois ou tres mandamentos servem para todos:

- Regra Básica: JAMAIS FICAR COM FOME. Deve-se comer sempre na hora certa (mais ou menos de tres em tres horas) – por outro lado, deve-se terminantemente evitar comidinhas entre um momento e outro.

- Regra dois: saber os efeitos do que se come (grãos, frutas, verduras, legumes, fibras, leite, sucos etc) e aprender a ler os rótulos e a composição dos alimentos. Saber o que está comendo, porque está comendo, quando está comendo, como está comendo.

- Regra tres: comer devagar. Que o momento da comida seja sempre um momento de prazer – de preferência na companhia de outras pessoas.

No início é chato, muito chato – depois vai se tornando cada vez mais prazeroso. Penso que estas lições deveriam fazer parte do currículo obrigatório das escolas desde o Ensino Fundamental até a Universidade. Com certeza evitaríamos a obesidade e tantas doenças que matam tantas pessoas, sobrecarregam os hospitais e custam tanto à saúde pública. Mudar, desde crianças, valores e hábitos alimentares que só se prestam para  enriquecer a indústria da comida de má qualidade e das baguinhas do contra.

Ontem tive a confirmação de que Hipócrates tinha razão: depois de novos exames, o cardiologista elogiou muito meus novos indicadores, que ainda não chegaram no nível ideal, mas estão muito melhores e mais animadores do que há coisa de um mês. Sem baguinhas coloridinhas do contra, sem milagres, sem mágica. Por enquanto, estou tomando a baguinha da pressão, uma baguinha branca – parece que ainda não se sabe como controlar a pressão apenas mudando a alimentação – espero que descubram logo.

Salve a rebeldia contra os do contra e, principalmente, Salve minha(s) nutricionista(s), as grandes responsáveis por todo o sucesso – Laura, Maria e Meg.

(jun/2009)

(um outro mundo é possível)

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Fatos e Dados

Author: Delman Ferreira

Diz o ditado que “quem conta um conto, aumenta um ponto”. Assim como, também se diz que “cada cabeça, uma sentença”.

Acontecimentos do dia a dia sempre podem ter diversas versões, dependendo do ponto de vista do observador. A imprensa, assim como os chamados analistas ou especialistas, não escapam desta verdade. Ou seja, suas visões e análise dos fatos dependem muito dos pontos de vista, das referências adotadas, das visões de mundo, dos vínculos ideológicos etc. Em função disso, sempre haverá questionamentos  sobre a lisura da imprensa e de analistas no trato das notícias, na leitura e análise de fatos e dados. Com frequencia, estas “interpretações”, ficam muito distantes da verdade, comprometendo a informação que o público recebe e na qual se baseia para tirar suas próprias conclusões. Para melhor informação, o ideal é conhecer o mesmo fato por todos os pontos de vista possíveis.

Neste cenário, a PETROBRAS acaba de tomar uma iniciativa muito interessante, utilizando-se das modernas ferramentas de comunicação direta. Desde o dia 02 de junho passado, criou um BLOG no qual dá, ainda mais, transparência à sua relação com a imprensa e com o público.

Ficam dispóníveis as perguntas encaminhadas pela imprensa e/ou seus analistas e as respostas da empresa. Também se encontram os contrapontos, a versão dos fatos e os dados relativos a tudo o que se publica.

Neste tempos de CPI, será muito esclarecedor ver o embate entre as análises e interpretações da imprensa e seus analistas e a versão dos mesmos fatos ou a leitura dos mesmos dados por parte da PETROBRAS .

Vale acompanhar o BLOG: http://petrobrasfatosedados.wordpress.com/

(um outro mundo é possível)

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O trágico desastre do avião da AirFrance, que nos deixa, a todos, naturalmente muito consternados, chama novamente minha atenção para um fato que já tratei no artigo “A dor da gente não sai no jornal“, de 2007, e nunca deixa de me incomodar.

É impressionante como as notícias de tragédias que afetam as vidas de milhares de pessoas, com perdas irreparáveis, recebem atenção e tratamento absolutamente desigual, dependendo de quem sejam as vítimas.
Nos últimos seis meses o Brasil viveu grandes tragédias. Creio que nunca sofremos tantas fatalidades e tantas catástrofes, com tal intensidade, em tão curto espaço de tempo, como neste último período.
Entretanto, nacionalmente, estas tragédias são acompanhadas e sensibilizam as pessoas de forma muito diferenciada.
No caso da queda do avião, estamos acompanhando uma intensa mobilização, da imprensa, das forças armadas, das igrejas, dos governos do Brasil, França e outros países, e de tantas outras forças da sociedade. E deve ser assim mesmo. São vidas que se foram e vidas que ficam despedaçadas e que precisarão de todo o conforto humano possível.
No caso da tragédia que se abateu sobre Santa Catarina, em novembro passado, também acompanhamos e fomos chamados insistentemente para participar de uma grande mobilização nacional para ajudar os atingidos. A imprensa montou plantões que cobriram permanentemente os locais, o Brasil e o mundo perceberam a chocante dimensão da tragédia.  Na medida da capacidade de cada um, o Brasil inteiro se mobilizou e todos procuraram contribuir.
Entre um triste episódio e outro, tivemos tragédias da mesma dimensão, que se abateram sobre Norte e Nordeste brasileiros, com perdas de centenas de vidas e desestruturação de milhares de famílias e, no entanto, não se observa a mesma intensidade de cobertura, as mesmas consternação e mobilização nacionais.
Norte e Nordeste brasileiros passaram meses debaixo de chuvas torrenciais que destruíram quase tudo o que encontraram pela frente: casas, rodovias, pontes, centenas de vidas. Culminando com a ruptura de uma barragem no Piauí que destruiu a vida de, pelo menos, 500 famílias.
Houve certa cobertura da imprensa, houve alguma mobilização, ainda estão ocorrendo algumas campanhas de arrecadação. Mas, salta aos olhos a diferença de intensidade e de abrangência  do socorro e da solidariedade.
Na queda de um avião que vitimou 228 pessoas, vemos aviões, navios, dias e dias de cobertura 24 horas por parte da imprensa, luto oficial decretado pelo governo, homenagens aos mortos em vários locais, mobilização de vários países, cultos in mermoriam, minutos de silêncio. Repito: deve ser assim mesmo. São vidas que se perderam ou estão em jogo e devem-se fazer de tudo, agilmente, para prestar socorro e tentar salvar e preservar o que for possível. Deveria ser sempre assim.
O que incomoda é observar que esta mesma consternação nacional, e consequente mobilização, não ocorreu com igual intensidade nas tragédias que se abateram sobre o Norte e o Nordeste. Não houve luto oficial, nem minutos de silêncio ou cultos ou grandes consternações. Por que? A dor daquelas pessoas é menor? Suas necessidades são menores? Não merecem todo o nosso apoio? Os brasileiros do Norte e Nordeste não seriam tão brasileiros quanto os brasileiros do sul ou do sudeste? Tragédias sobre o Sul ou Sudeste são mais glamourosas que tragédias sobre o Norte ou Nordeste?
Faço esta reflexão na condição de um catarinense que sentiu uma dor muito forte ao ver sua terra ser invadida pelas águas, morros desabando, vidas se perdendo. E, também, muito se emocionou ao ver a solidariedade do povo brasileiro com Santa Catarina.
Fico me perguntando: porque o Brasil trata tragédias iguais de forma tão desigual?

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