Archive for maio, 2009

O dia em que Sofia posou de modelo

Author: Delman Ferreira

D. Sofia não quer nem ouvir falar que aquele quadro que tem na parede pode ser de muito valor e que poderia lhe render um bom dinheiro.
Ganhou aquele quadro de Emiliano. Um moço que um dia apareceu lá pelo Morro do Baco Baco, foi se chegando e ficou olhando Sofia trabalhar.
Cheio de elogios. Disse que ficou impressionado com a maneira ao mesmo tempo firme e suave que ela trabalhava. Ficou admirando quando ela ia e vinha na lida. Parecia que nada a intimidava. Falou da cor da pele. Pediu licença, falou que ela era muito bonita. Tantas e tantas outras coisas.
. Sofia, disse Emiliano, você é um primor. Esta cor, este andar, este porte altivo, este olhar ao mesmo tempo doce e profundo, são magníficos. Você é magnífica. É um verdadeiro símbolo da beleza brasileira.
Ficou por ali um tempo e depois perguntou se ela aceitava posar pra ele. Na hora, ela achou aquilo meio estranho, disse que não tinha jeito, que não ia saber como fazer. Afinal, esse negócio de posar é pra essas moças bonitas, loiras, de olhão azul, que moram lá embaixo na cidade. Não era pra ela, uma trabalhadora, negra,  moradora de morro.
Emiliano insistiu. Pediu que ela continuasse trabalhando, sem se importar com ele.
Foi isso mesmo que ela fez. Continuou fazendo as coisas dela, limpando chão, passando roupa, batendo pão. Ele ficou por lá, rabiscando uns desenhos numas folhas de papel.
Depois, agradeceu muito e foi saindo, assim meio sem jeito. Só disse que se chamava Emiliano e que voltava quando tivesse terminado o trabalho.
Depois de um tempo, Sofia já tinha até esquecido do episódio quando Emiliano apareceu outra vez.  Trazia um embrulho debaixo do braço.
Quando abriu o pacote, Sofia não acreditou.
Uma negra linda. Fazendo pão. A mão forte amassando a massa. Uma manga da blusa escorrendo pelo ombro. Um seio farto à mostra.
Era ela. Aquela mulata vistosa, alegre, quase monumental. Era ela, mas não podia ser ela. Não acreditava que era ela.
O moço confirmou que era ela sim.
. Sofia, você é a síntese de todas as mulatas, disse ele.
Disse que ela não imaginava como esse encontro tinha sido importante. Agradeceu muito e foi embora.
Ela nunca mais soube nada dele. Só sabe que se chamava Emiliano.
Belisário, que vive olhando revistas, outro dia encontrou umas pinturas em que aparecem umas mulatas iguaiszinhas àquela do quadro de D. Sofia. Diz na revista que o pintor daqueles quadros é famoso no mundo inteiro por causa de suas mulatas.
Se alguém pergunta pelo quadro ou pelo artista, D. Sofia desconversa, continua fazendo as coisas dela. Batendo pão e puxando a alça do vestido que insiste em cair do ombro. Sorriso no canto dos lábios carnudos, olhar meio perdido no tempo…
Num dos cantos do quadro de D. Sofia tem uma assinatura que é igual àquela dos quadros da revista: “E. di Cavalcanti ”.

(jul/2007)

“Um outro mundo é possivel”

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D. Sofia e os Escorpiões

Author: Delman Ferreira



Certa vez, um escorpião aproximou-se de um sapo que estava na beira de um rio.
O escorpião vinha fazer um pedido: “Sapinho, você poderia me carregar até a outra margem deste rio tão largo?” O sapo respondeu: “Só se eu fosse tolo! Você vai me picar, eu vou ficar paralisado e vou afundar.” Disse o escorpião: “Isso é ridículo! Se eu o picasse, ambos afundaríamos.” Confiando na lógica do escorpião, o sapo concordou e levou o escorpião nas costas, enquanto nadava para atravessar o rio. No meio do rio, o escorpião cravou seu ferrão no sapo. Atingido pelo veneno, e já começando a afundar, o sapo voltou-se para o escorpião e perguntou: “Por quê? Por quê?” E o escorpião respondeu: “Por que sou um escorpião e essa é a minha natureza.” (Parábola Africana).

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Enquanto isso, no Morro do Baco Baco,…
Belisário, nosso atirador de perguntinhas pontiagudas, estava lá, como quem não quer nada, vendo no noticiário da TV que mais uma criatura norte-americana invadiu outra escola e provocou nova tragédia, matando alunos e professores.
Ficou ali matutando.
De repente, virou-se pra D. Sofia e perguntou:
D. Sofia, a senhora que já botou mais de mil crianças no mundo, que benze e cura de todos os males, que sabe as ervas certas e tem remédio pra tudo, me diga uma coisa, a Senhora acha que tem jeito que dê jeito nos “esteites”?
D. Sofia, sem afastar os olhos do que estava fazendo, raciocinou:
Meu filho, o que me espanta é eles não terem se eliminado, todos, uns aos outros, até hoje. Quando vejo esse povo na TV, fico aqui meditando: como é que eles fazem pra viver entre si?

(jun/2007)

“Um outro mundo é possivel”

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Salve, TIÃO

Author: Delman Ferreira

Hoje, Tião me fez reviver momentos extraordinários de minha vida.


O Bar do Tião era o Portal da Eternidade. Ali se eternizavam aqueles sambas e aquela moda de viola que a gente tem lá no fundo da memória. Aquelas que cantamos uns pedaços sem nem saber que sabemos. Por lá, eternizavam-se sambistas e, principalmente boêmios – essa categoria em extinção.


Um bar que começou meio na cozinha do Tião e da Ivonete. Depois fizeram um puxadinho. Coisa assim do tamanho de uma garagem. Mesas de lata dessas com propaganda de cerveja, toalha xadrez e copos de requeijão.


Um espaço que desafiava e confirmava a física. No Bar do Tião tudo era relativo. Onde naturalmente caberiam no máximo umas vinte pessoas, em dia de casa cheia, podiam-se contar umas cem.


Lá pelas tantas, reuniam-se os músicos da noite. Quando acabavam suas apresentações iam para o Tião se divertir e nos dar canjas inesquecíveis. Alguns artistas nacionais, quando passavam pela Ilha, também davam uma canja no Tião. Gilberto Gil era um dos amigos do Tião.

No Tião a gente bebia de tudo. Principalmente o mais legítimo Rabo-de-Galo, feito com Bacardi e Vermuth Uru. Ou então, uma cachaça com Underberg. A primeira ia pro santo. Depois a gente virava mais umas duas ou três pra atingir o estado de torpor ideal. Daí pra frente, intercalava-se umas cervejas com rabo-de-galo só pra manutenção.


A cantoria ia rolando – sambas eternizados. A gente dançava, cantava, bebia, namorava e dava risada – era o paraíso ali no Monte Verde, uma vila dessas de cooperativa habitacional.

Balbúrdia geral até o Tião pegar o violão. Nesse momento dava-se o que parecia impossível: Silêncio Absoluto. Puro êxtase. Todos sabiam que iam viver momentos que jamais esqueceriam.  Com o violão acomodado sobre a grande barriga e aquela voz de Jamelão cantando Lupicínio, Tião mandava:


“Esses moços/ pobres moços/ ah, se soubessem o que eu sei …”. (Salve, Lupicínio).

Mais umas três ou quatro obras primas e voltava a circular conversando com todo mundo. Depois do Tião entravam os outros. Violão, cavaquinho, flauta, percussão, gaita. E algumas figurinhas marcantes. Um senhor, que pintava o bigode de preto e usava uma peruca que escorregava com o suor – tentava cantar tangos ou boleros. Tinha a Cristina, que sempre fazia um charminho, pedia desculpas porque a voz não estava boa. E depois mandava “Ave Maria no Morro”:


“Lá não existe/ felicidade de arranha-céu/ pois, quem mora lá no morro/ já vive pertinho do céu/ …” (Salve, Herivelto Martins).


Nesse momento, até Dalva de Oliveira baixava no Bar pra aplaudir.


Impossível encontrar espaço mais democrático. Todos passavam pelo Tião. Gente das oligarquias. Comunistas. Liberais. Petistas, depois da avaliação de conjuntura. Avaianos. Figueiras. Brasileiros de qualquer canto. Artistas talentosos e todos nós, esforçados, mas eternamente desafinados. Todos igualados na Democracia do Tião.


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Uma noite, lá pelas três da manhã. Chuvinha fria. Tô lá no Bar do Tião já me preparando pra ir embora.

Chega o Margarido. Negro meio alto, magro, da canela fina. O cabelo começando a pintar. Sambista desses que dançam com toda a leveza do ser. Sem os pés tocarem o chão. Pediu uma carona.

– “Vamo nessa, mas já tô saindo”, respondi.

Pediu só um tempinho. Depois de uma meia hora, voltou e me perguntou se podia levar junto um ‘esquema’. ‘Esquema’ era uma moça que ele tinha conhecido naquela noite. Depois de muito samba no pé, muito rebolado, Margarido “convenceu a Donzela a lhe acompanhar”.

Fomos embora, eu, a Meri, o sambista e o ‘esquema’. Fui tocando e nada dele me dizer para onde ia. Só me apontava a direção. Vira daqui, vai pra lá, agora segue por ali,… e vamos indo,…

Até que chegamos na frente da Penitenciária. Pediu pra parar e, nem me deu tempo de perguntar qualquer coisa, agradeceu, saiu com o ‘esquema’ e foi-se pela Penitenciária a dentro.

Passados uns dias, entro num ônibus e … ora…ora… quem era o motorista, com uniforme da empresa e tudo? O próprio, Margarido, o sambista, a leveza do ser. Dessa vez ele não me escapou. Encostei e fui fazendo minhas perguntinhas.

- “O que tu fostes fazer na penitenciária aquela noite? Trabalhas ali?”.

- “Não, é que eu dei um vacilo e tô puxando um tempo lá. Posso sair pra trabalhar e tenho que voltar pra dormir”.

- “Mas, e o ‘esquema’? Como foi que ela entrou?”

- “É que eu tenho uns lances lá com uns amigos da carceragem. Eu facilito umas pra eles e, quando eles tão de plantão, eles facilitam a minha, me deixam chegar um pouco mais tarde. Aí eu levo uns ‘esquemas’.

Dei-me por satisfeito. Feliz pelo privilégio de conhecer a Leveza do Ser.Feliz por fazer parte da Democracia do Tião.


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Hoje pela manhã recebi uma ligação de um amigo, quase irmão mais velho, também freqüentador do Tião.


- “Sabe onde eu estou? Tô no velório do Tião”.


Deu branco. Custei a entender direito. Velório, o que é velório?


Tião tinha 72 anos. Sofreu um infarto e não resistiu.


Levei um bom tempo pra me dar conta que se fechou um ciclo. Uma era que virou privilégio de quem viveu. Quando voltar a Florianópolis, não vou mais poder tomar uma meia dúzia de Rabos-de-Galo e encher o saco do Tião pedindo Vingança.


”Só vingança, vingança, vingança/ aos santos clamar,…”.


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Fiquei desejando que a tal de eternidade existisse de fato.


Na minha vez, quando eu chegasse no Portal da Eternidade, lá em cima veria uma placa pintada à mão, escrito com letra de mulher: “Bar do Tião”. Seria a minha certeza de estar no paraíso – naquele espaço de tempo eternizado em minha memória.


Lá ao fundo, em meio ao silêncio de eterna veneração, eu ouviria o Tião. Voz profundamente nostálgica. Cantando essa perfeição da inspiração brasileira:


“Queixo-me às rosas/ mas, que bobagem/ as rosas não falam/ …”. (Salve, Cartola).


E eu, já com minhas três doses de rabo-de-galo, no mais perfeito estado de torpor, respondo daqui:


“Bate outra vez/ com esperanças o meu coração/ …”.


Salve, Tião.

(dez/2006)

“Um outro mundo é possivel”

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Lá no Brasil

Author: Delman Ferreira

Vantersan agora está sentado na cozinha tomando um cafezinho preto. Levantou-se às quatro e meia. Já tirou leite das vacas. Levou o gado pro pasto. Deu jeito nos outros bichos. Agora está cuidando dele mesmo. Um cafezinho pra reforçar antes de cair na lida outra vez. Tem toda a cerca pra amarrar, tem o pontilhão pra trocar uns paus. Tem muita coisa pra fazer. Nunca acaba de ter muita coisa pra fazer.
A TV está ligada lá na sala. Dá pra escutar a moça falando as notícias. Esse povo só fala de Rio, São Paulo e Brasília. Vantersan acha que eles pensam que só ali é Brasil. Só falam lá do Brasil deles.

“… continua o caos nos aeroportos”…

O café desce devagarinho. Quentinho. Vantersan bebericando. Só espiando Maria Rita. Ela é bem jeitosinha. Mesmo de barrigão, esperando o primeiro filho. Ele quase que não acreditou quando ela disse que casava com ele. Bonita daquele jeito. E, ainda por cima, estudada, tinha chegado até o segundo grau. Mão boa pra cozinha. Pra doce, então, não tem igual.

“… no aeroporto de Congonhas…”…

Ele já decidiu o nome que vai dar pro menino. Maria Rita tem nome chique. A mãe dela deu esse nome por que gostava do Roberto Carlos. Maria Rita Bandeira.
O nome dele, Vantersan, vem de Vantuir, que era o nome do Pai, e de Santinha, que era como todo mundo chamava a Mãe. Juntaram e batizaram Vantersan. O nome verdadeiro da Mãe era “das Dores”, Maria das Dores da Silva. Todo mundo conhecia por Santinha porque desde pequena ela mexia com ervas. Sabia curar tudo que era doença com as ervas que aprendeu com uma avó que era índia. O Pai de Vantersan era Vantuir Pereira da Silva.

“… em Guarulhos, as pessoas nas filas…”…

Mas, o menino não ia ter nome nem de pai, nem de avô. Ia ter nome de jogador de futebol. Pra ele, não tem nenhum igual ao Robinho. O menino vai ser Robinho Pereira da Silva. Não, da Silva é muito comum. Tem que ser um nome pra impressionar.
“… os controladores de vôo…”…

Bandeira. O nome da mulher é chique, Bandeira. Lembra Bandeira do Brasil, lembra Hino Nacional na Copa do Mundo. É isso, vai ser Bandeira, Robinho Bandeira.

“… disse que amanhã o problema estará sendo analisado”…

Não, não pode ser só Robinho Bandeira, ainda é muito pequeno. O menino vai ser importante. Gente importante tem nome maior. Precisa ser um nome forte, assim como trovão.

“… a CPI do Apagão Aéreo…”…

O Robinho era do Santos, do Pelé. Não tem ninguém melhor que eles. Do Santos, é isso. O menino vai se chamar Robinho dos Santos Bandeira. Agora sim, impressiona. Bandeira do Santos. Parece até destino.

“… um cafezinho no aeroporto está muito mais caro que no centro da cidade”…
Falou pra Maria Rita. Vai se chamar Robinho dos Santos Bandeira. Ela gostou por que tinha o nome dela. Mas, disse que Robinho não era nome, era apelido. O nome certo é Robinson. Maria Rita estudou muito mais que ele. Sabe das coisas.
“… todo o Brasil quer saber quando vai se resolver o caos aéreo”…

Ele gostou mais ainda. Fica mais chique. Assim, quando o menino ficar famoso e for jogar nos estrangeiro, aí a TV vai falar da gente. O menino já tem nome pra moça da TV encher a boca: Robinson dos Santos Bandeira.

(ago/2007)

“Um outro mundo é possivel”

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Sargento Trovão

Author: Delman Ferreira

Santo Amaro da Purificação. Cidade de interior. Cidadezinha que aprendeu a trabalhar cantando. Sempre trabalhando. Entoando belas canções que um dia inspirariam outras tantas que conquistariam o Brasil.
Uns poucos milhares de habitantes. Passado o ciclo da cana-de-açúcar, passado o ciclo do cacau, a principal ocupação da maioria dos moradores, além do trabalho na roça, era a fabricação de fogos de artifício.
Um dia, houve uma enorme explosão na fábrica. Tragédia de proporções bíblicas. Morreram mais de cem pessoas e houve outros tantos feridos. Desde feridos leves, até gente que teve que amputar partes do corpo.
No dia da explosão, como se pode imaginar, a comoção foi generalizada. Perdeu-se completamente o controle. Ninguém sabia o que fazer. A cidade não tinha estrutura nenhuma, nem hospitalar, nem defesa civil, nem transportes para levar tanta gente para outros centros, nada.
Pressionado, o Prefeito lembrou de Sargento Trovão. Por ser sargento, talvez fosse o único na cidade que poderia ter algum treinamento para situações de emergência.
Para o perfil da região, Trovão era um gigante, 1,85 m de altura, “forte como um cavalo”, acostumado a trabalhar no pesado. Na realidade, Sargento Trovão nunca fora militar, jamais fora sargento, nem se quer serviu o Exército porque tinha pé-chato. Ganhou o apelido por causa da voz tonitroante e pela forma autoritária de se expressar. Sempre dando ordens, sempre trovejando.
Sargento foi chamado e recebeu carta branca para as providências necessárias.
Imediatamente convocou toda a cidade. Providenciou colchões e lençóis para os feridos. Chamou as mulheres e ordenou que tratassem dos primeiros socorros até que chegasse ajuda das cidades mais próximas.
Mas, o que fazer com uma centena de mortos? A cidade não tinha IML, nem tinha onde acomodar tantos corpos até serem identificados.
Sargento Trovão, firme no posto de Comandante em Chefe de toda a situação, responsável pela ordem e o progresso dos trabalhos, não poderia passar a impressão de que não sabia o que fazer. Imediatamente deu ordens para limpar um galpão próximo e colocar todos os corpos ali. Como o espaço era pequeno, determinou que os mortos fossem colocados em pilhas. Imaginou que os decujos não iam se incomodar por serem empilhados.
Tudo organizado. As pessoas, mesmo muito chocadas e traumatizadas, faziam todo o esforço para ajudar. As mulheres cuidavam dos feridos, os homens colocavam os mortos em ordem unida.
Pequenininho do Pão, fisicamente era o oposto do Sargento. Pequeno, frágil, já andava pela meia idade. Diariamente entregava pães de casa em casa com sua carrocinha. Naquele dia decidiu apresentar-se como voluntário. Sargento Trovão olhou meio de esguelha e imediatamente mandou que fosse para o Galpão cuidar dos mortos.
Chegando lá, diante daquelas pilhas de corpos, Pequenininho não resistiu. Foi ficando meio zonzo, o mundo rodou e ele estatelou-se no chão desmaiado.
No meio da confusão, ninguém prestou atenção em Pequenininho do Pão. Vendo um corpo caído, pensaram que era mais um morto e colocaram numa pilha. Logo, logo, outro corpo, morto de fato, foi colocado por cima.
Passado um tempo, Pequenininho acordou sem entender nada. Viu-se debaixo de um morto. Assustado, levantou de um salto. Derrubou toda a pilha. Assustou todo mundo.
Correria geral. Uns diziam que era assombração. Que os mortos estavam revoltados. Que era um desrespeito fazer pilha de morto.
Formou-se confusão generalizada. Gente querendo parar de trabalhar e correr dali. Gente rezando. Gente chorando. Gente gritando. Uns pedindo misericórdia. Outros esbravejando e exorcizando demônios.
Outros, ainda, aproveitando pra falar mal do Prefeito, do Sargento, do Padre, do Pastor, de tudo e de todos. Um cabo eleitoral jurava “Meu Deputado vai abrir uma CPI pra apurar a responsabilidade do Presidente da República nisso tudo”. Outro, já subindo num caixote, começou a discursar, “Companheiros, a culpa é deste capitalismo selvagem que não deixa nem os mortos morrerem com dignidade…”.
Diante da situação, com seu habitual vozeirão de comando, pra mostrar quem mandava e recuperar o controle, Trovão imediatamente ordenou:
_ Pequenininho do Pão, volte já pra pilha.
Pequenininho, com vozinha quase sumida, ainda tentou argumentar,
_ “Mas, Comandante Trovão, eu estou vivo, olha eu aqui, vivinho, inteirinho”.
Trovão não vacilou. Não podia perder a autoridade. Levantou Pequenininho do Pão nos ombros, jogou na pilha mais perto e trovejou:
­_ Não interessa se você está inteiro. Volte já pra pilha. Você morreu.

(recolhido Lá, no Brasil)
(set/2007)

“Um outro mundo é possivel”

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Uma cachaça. Uma nostalgia.

Author: Delman Ferreira

Noite dessas, bebericando uma cachaça, dessas coisas fabulosas lá do Brasil, lá dos interior das Minas Gerais, coloquei para rodar o Grupo Engenho e o Expresso Rural.
Meu olhar se perdeu lá naquele tempo em que Florianópolis ainda não era Floripa. Era apenas “um pedacinho de terra perdido no mar” e ficava ali do ladinho, ligada ao Brasil por um cartão postal. O resto do Brasil ficava depois da Ponte.
O povo do resto Brasil só sabia de Florianópolis quando estava lá pelo terceiro ano do primário e era obrigado a estudar as capitais dos estados nas aulas de geografia. Passadas as provas, nunca mais alguém lembrava que Maranhão, Espírito Santo e Santa Catarina tinham capitais que ficavam em ilhas.
Pra chegar a Florianópolis, tinha que passar por Capoeiras, Coqueiros e Estreito, bairros do continente. Não é qualquer um ou qualquer coisa que vence capoeiras, coqueiros e consegue atravessar estreitos. Assim, por muito tempo, a Ilha preservou um modo manézinho de ser.
Florianópolis era um segredo guardado pelos manézinhos.
Aliás, “manézinho” era um xingamento. Quando se queria ofender alguém, gritava-se: “Amarelo. Bicho da goiaba. Manézinho”. Mãe era coisa sagrada. Se alguém xingava a Mãe, o ofendido era obrigado a partir pra briga, senão seria chamado de covarde pelo resto da vida.
…beberico levemente. Fico olhando minha rua.
Era assim a minha rua? Ou será apenas um primor de criação da minha nostalgia?
A leveza em que me encontro me dá a certeza que meu passado foi exatamente assim: poético. Foi exatamente assim, porque é assim que me lembro dele.
Vejo o verdureiro. Uma verga nas costas com um cesto em cada ponta. Grita ritmado: “Batata-doce. Olha a banana. Olha a baja. Olha a roxa…”. Baja é a vagem. Roxa é a beterraba.
Como num desfile. Depois do verdureiro, vejo o peixeiro com um carrinho de mão oferecendo camarão-da-lagoa, tainhotas, corvinas, anchovas, tudo fresquinho, pescado nessa noite, embrulhados em folhas de bananeira. O peixeiro anuncia a passagem fazendo soar um chifre de boi.
Vai o homem que vende melado-de-cana num barril de latão, batendo uma matraca. É o homem do inverno. Batata-doce, assada na brasa da fogueira, com melado. Melado com banana amassada. Melado com aipim. Melado com farinha.
E segue o mais esperado, o homem da carrocinha do vidro. Ele compra cacos de vidro, móveis usados, ferro velho, compra de tudo. É a festa da gurizada. Todos correm pra vender coisas velhas catadas pelas ruas. Ganhar uns trocados pra comprar figurinhas.
Vento Sul sopra de rebojo – faz remoinho. Levanta as saias dos uniformes das meninas. Pescador, olhando pro mar, afirma: “amanhã vira pra lestada”.
Olho pro campinho onde a pelada corre solta. Fica num desnível do morro. Um gol lá em cima, outro lá em baixo. No meio tem uma valeta por onde corre a água da chuva. A bola rola, disputada pra lá e pra cá, pra cima e pra baixo. A valeta é apenas mais um adversário a ser driblado. O “campo” é careca, só areia e barro. A grama é uma espécie de moldura, cobre apenas as laterais. Cada trave tem um esforçado goleiro gritando desesperado. Cada partida, cada bola dividida, é disputada como se fosse uma final de brasileirão.
…na “vitrolinha”, o Expresso Rural expressa minha nostalgia.

Vou fugir dessa metrópole à libertação
E seguir algum caminho que me leve ao Sul…

…Pode ser um sonho louco, mas eu vou achar
Em algum lugar desta federação
Alguma substância estranha, que substitua a dor no coração.
E mate essa vontade de voltar… de voltar…

…recarrego a mineira. De volta para o futuro. Vejo Florianópolis transformar-se em Floripa.
O Estreito virou apenas um Canto onde fica uma Figueira. O velho cartão postal está abandonado, cada dia mais velho, cada dia mais enferrujado, cada dia mais esquecido.
Abriram uma Via Expressa e mais duas pontes, por onde entram todos e passa de tudo. Globalização. Especulação. Exclusão. E, como diria um velho manézinho, muita esculhambação e muita aporrinhação.
Supermercado. Hipermercado. Shopping Center. Paredões de apartamentos. Asfalto, muito asfalto e grama sintética.
Não tem mais verdureiro fazendo pregão da “baja” e da “roxa”. Não tem mais carroceiro. Já não tem mais campinho. Não tem mais corredor pro Vento Sul. As meninas não usam mais saias rodadas. Não tem mais a alegria da gurizada.
A Ilha deixou de ser um segredo dos manézinhos. Virou Floripa, objeto de desejo do resto do Brasil. Florianópolis virou nostalgia.
…sigo na toada. Tomo mais uma junto com o Grupo Engenho. Vou me despedindo.

Meu sinhô já vou me embora
Nosso papo terminou
Mesmo indo sem resposta
Vou levando a alegria
De quem já desabafou…

Volto pro futuro com a certeza que, mesmo nessa Floripa globalizada, ainda nos resta um tantinho de Florianópolis.
Lá pelos cantos da Lagoa, no Itacorubi, na Vargem, no Campeche, no Santo Antônio, no Iega, lá pelo Morro do Baco Baco, nos arredores de todos os cantos, na risada dos amigos, no coração de quem pegou vento sul de rajada e torceu pro vento mudar pra nordeste pra pegar camarão e siri na caladinha da Lagoa.
Lá, ainda vou escutar a matraca anunciando que hoje vai ter melado com farinha.

(nov/2007)

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B.C.Q.F.C. Hardy Har Har

Author: Delman Ferreira

Bloco do Contra  “Quarta Feira de Cinzas Hardy Har Har”.


Enredo 2007 – “Ó dor, ó vida, ó céus, ó azar. Isso não vai dar certo”.


Tempos atrás, havia um desenho animado em que figuravam um leão, Lippy, e uma hiena pessimista, Hardy Har Har.  Hardy nunca ria. Enquanto Lippy tentava encontrar uma maneira de sair das confusões e correrias em que sempre se metiam, Hardy só se lamentava: “Ó dor, ó vida, ó céus, ó azar. Isso não vai dar certo, Lippy”.


O B.C.Q.F.C. Hardy Har Har segue fielmente a predisposição e o ânimo de seu patrono. Os passistas ficam pelos camarotes eletrônicos – CBN, Folha de São Paulo, Estadão, Jornais da Globo, Veja, … – fazendo previsões pessimistas a respeito de qualquer iniciativa que não tenha partido de seus patrões.
São pessimistas por profissão. Pessimismo terceirizado. Quando o patrão não quer que dê certo, o bloco organiza rapidamente um desfile e, numa harmonia sofrível, vai entoando seu mantra-enredo de previsões e análises catastróficas.


Destaca-se o casal Mestre-sala e Porta-bandeira. Ele já foi visto em cinemas e livrarias, faz o gênero mal-humorado, adora desferir ataques de mal gosto que pensa serem irônicos. Ela, fez fama como economista, agora é polítemática, tem opinião sobre tudo, desde a política macro-econômica, passando por energia, cratera do metro, crise parlamentar, receita de farofa, mudanças climáticas, humor das celebridades etc, etc. Lembram esses desocupados que ficam em cafés ou salões de beleza falando da vida dos outros, dando opinião e discutindo soluções para tudo.


Hoje, um desses camarotes eletrônicos, a CBN, superou-se em seu desfile de pessimismo e torcida contra. Antes mesmo que o Governo apresentasse o PAC, Programa de Aceleração do Crescimento, colocaram na avenida alas e alas de “analistas” prevendo que o Plano não vai dar certo.
Os oráculos do B.C.Q.F.C. Hardy Har Har, do alto de sua “çapiência”, sentaram-se nos camarotes eletrônicos e desfilaram mau humor, baixo-estima, e o mantra-enredo: “Não vai dar certo, Lula”.
Enquanto o Brasil trabalha, os “çábios” ficam em seus camarotes torcendo contra.


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Nós, o avesso do avesso, lá na avenida real. Suando e fazendo o espetáculo. Cabeça erguida, sorriso iluminado, gozando e cantando – a evolução da liberdade e a autêntica alegria da vitória.
Nosso enredo: Brasil, o presente.

(22/jan/2007)

“Um outro mundo é possivel”

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Mulheres que incomodam

Author: Delman Ferreira

Contextualização.
Este texto é um registro comemorativo da assinatura, pela Ministra de Minas e Energia, do Decreto de Regulamentação do PROINFA – Programa de Incentivo às Fontes Alternativas de Energia Elétrica.
O PROINFA foi criado pela Lei 10.438, de 26 de abril de 2002. Entretanto, sua efetiva implantação só poderia ocorrer a partir da devida regulamentação. Foram dois longos anos de empenho determinado das equipes que sempre acreditaram que o Brasil precisa desenvolver e explorar inteligentemente seu inesgotável potencial de geração de energia a partir de fontes sustentáveis e diversas das tradicionais. A assinatura do Decreto pelo atual Governo é demonstração de visão e vontade determinada de construir os caminhos para um futuro de independência e sustentabilidade energética.

Ternura sem perder a firmeza


Neste mês em que ocorre a Semana da Mulher, a assinatura do Decreto do PROINFA constitui uma feliz oportunidade para homenagear estas “mulheres que incomodam”.
Incomodam porque não deixam morrer valores como competência, seriedade, ética, determinação e “ternura sem perder a firmeza”.
Mulheres que, sem se aproveitar de cotas e sem aceitar papéis decorativos ou demagógico-politiqueiros, tendo como principal fator de apoio o próprio curriculum e a própria competência, vêm ocupando postos e desenvolvendo trabalhos que a sociedade estava habituada a ver nas mãos de homens.
O Brasil, construindo uma nova cidadania, concentrou algumas áreas decisivas nas mãos dessas  “personalidades que incomodam”.
O desenvolvimento e o aproveitamento de energias de fontes renováveis e sustentáveis são temas nos quais geralmente se encontra unanimidade, não há quem discorde sobre a importância dessas fontes para a humanidade. Entretanto, confirmando Nelson Rodrigues, toda unanimidade é não somente burra como também enganosa. Todas as vezes que se procurou passar do discurso aparentemente unânime para o efetivo investimento e desenvolvimento de novas fontes, sempre surgiram os mais diversos empecilhos e entraram em jogo pesadíssimos interesses e contradições.
O Brasil tem manancial praticamente inesgotável em alternativas energéticas, que podem torná-lo independente em relação às fontes tradicionais, mormente aquelas de origem fóssil ou nuclear. Muito dinheiro já se gastou, muito já se estudou e muitos projetos pilotos já foram implantados. Porém, sempre se esbarrou em obstáculos aparentemente insuperáveis, que levavam à descontinuidade de projetos e programas.
Um exemplo frustrante foi o PROÁLCOOL, que foi descontinuado quando o preço do açúcar no exterior superou os preços do álcool no mercado interno e passou a ser mais vantajoso produzir açúcar do que álcool.
No caso de fontes alternativas para geração de energia elétrica os programas sempre esbarraram no problema dos custos de geração, na garantia de venda da energia e na tarifa para o consumidor final.
Felizmente, para o bem e a emancipação da humanidade, sempre existirão os empedernidos sonhadores. Por maiores que possam parecer os obstáculos, nunca terão magnitude suficiente para impedir Ícaro de tentar voar ou Don Quixote de enfrentar moinhos de vento por sua Dulcinéa. No Brasil, “excêntricos” e “exóticos” acreditaram ser possível “engarrafar ventos” ou “empastilhar a luz do sol” ou “encaixotar a força das marés” ou “tirar luxo do lixo” ou “gastar cada vez menos energia”.
Acreditando em ventos, um grupo destes sonhadores sempre lutou para que o Brasil investisse no seu imenso potencial energético de fontes não tradicionais. Acreditaram, lutaram e incomodaram. Ao longo do tempo acumularam conhecimentos, ganharam experiência, criaram fatos, conquistaram avanços e foram transformando as fontes alternativas em parte da paisagem e do arcabouço legal.
No entanto, de tempos em tempos toda a energia despendida “fugia por dentre os dedos”. Num movimento pendular, os avanços iam e vinham, animavam e frustravam. As energias alternativas pareciam condenadas a permanecer aprisionadas no futuro.
Na ciência, apesar de todo o rigor, também ocorrem imprevistos que provocam saltos no tempo. Assim, no Brasil, uma conjuminância de fatores veio garantir a consolidação de tantos esforços empreendidos ao longo de tanto tempo. À frente do Ministério do Meio Ambiente, do Ministério de Minas e Energia, da Secretaria de Petróleo, Gás Natural e Combustíveis Renováveis, da Diretoria Nacional de Energias Renováveis, da Diretoria Nacional de Eficiência Energética e da Consultoria Jurídica do MME, encontramos algumas dessas “mulheres que incomodam”. Personalidades diversas e firmes que, confirmando Raul Seixas, sonharam simultaneamente o mesmo sonho e estão transformando a realidade.
Unindo a metodologia da ternura em alguns momentos com firmeza intimidante em outros ou tenacidade e perseverança permanentes, estão tecendo um plano irreversível para combater o desperdício e fazer do Brasil o manancial mundial de energias renováveis e sustentáveis.
Determinadas, conseguiram unir órgãos normalmente conflitantes, como a área ambiental e a área energética, em torno de um mesmo projeto.
Todos sabemos que no Brasil existem algumas “leis que não pegam”. Irredutivelmente, essas “mulheres que incomodam”, juntamente com suas equipes nas quais se incluem muitos homens também sonhadores, vêm enfrentando interesses contraditórios ou desafiando todo o descrédito, e conseguindo fazer com que essas “leis” se transformem em instrumentos respeitáveis e respeitados.
Programas como os que visam o incentivo ao desenvolvimento de energias alternativas, ou o desenvolvimento de bio-combustíveis ou de eficientização do uso de energia, poderão se tornar realidade graças a essas equipes que não abrem mão de perseguir sonhos.
A grande arte dessas equipes tem sido unir a capacidade de sonhar à necessidade de desenvolvimento com sustentabilidade e demonstrar que aquele distante futuro pode ser antecipado e traduzir-se em cidadania para alguns e lucros para outros.
Estão contribuindo, decisivamente, para o desenvolvimento de nova mentalidade de transformação e aproveitamento da natureza – sem destruição. Com sabedoria e espírito aberto, não se precisará transformar o meio-ambiente em altares intocáveis, será possível conciliar desenvolvimento, qualidade de vida e preservação.
Por fim, considerando a personalidade cordial do brasileiro, poderemos entrar no bloco mundial dos sonhadores e imaginar que, sendo o Brasil, em futuro próximo, o principal manancial de fontes energéticas sustentáveis, o Mundo poderá superar um dos grandes motores das guerras presentes, a disputa pelo controle da energia, e antecipar sua caminhada para a “Era de Aquárius”.
Salve as “mulheres que, em postos de destaque ou de forma anônima, incomodam”. Minha grande esperança é ainda ter tempo para viver uma era em que os postos de decisão sejam ocupados qualitativamente por estas personalidades que incomodam, independentemente de sexo ou de opção sexual. Será, sem dúvida, uma Era de Tolerância e de Sensibilidade.


(mar/2004)

“Um outro mundo é possivel”

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