Archive for maio, 2009

Diversidade e Progresso

Author: Delman Ferreira

Ordem e Progresso são incompatíveis.

Progresso implica desequilíbrio, movimento, inquietação, questionamento da ordem vigente e perseguição de uma nova ordem. Uma nova ordem que será novamente questionada. Um movimento contínuo, de evolução permanente. Caminhar implica desequilibrar-se.

Diversidade está na constituição brasileira. Somos fruto da diversidade de raças, culturas, credos, geografias, climas, sons, opções etc. A diversidade é a força de nossa constituição como povo. A diversidade forjou nossa personalidade alegre, inquieta, livre e criativa, capaz de nos distinguir nesse mundo cada vez mais padronizado (e chato).

DIVERSIDADE e PROGRESSO são nossa dinâmica de povo e devem ser símbolos da Nação. Diversidade como riqueza e Progresso como dialética de construção de um país livre, soberano e socialmente justo.
Riqueza social e material. Uma ode à Humanidade.

Que tal substituir o “Ordem e Progresso” de nossa bandeira por “DIVERSIDADE e PROGRESSO”?

(um outro mundo é possível)

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Ato falho

Author: Delman Ferreira

Quando se referem a Cuba – fazem questão de frisar – “A Ditadura Cubana”.
Quando se referem a Fidel Castro – fazem questão de frisar – “O Ditador Fidel Castro”.
Quando se referem a Hugo Chaves – classificam de “O Proto-ditador Chaves”.

Quando se referem à ditadura brasileira dizem “Regime Militar”. Os ditadores brasileiros são brandamente chamados de “Presidente Médici”, ou “Presidente Geisel”, ou “Presidente Figueiredo”.

Por que apelidos carinhosos? Por que não chamam as coisas pelo nome verdadeiro: “Ditadura Brasileira”, ou “Ditador Garrastazu Médici”, ou “Ditador Ernesto Geisel”, ou  “Ditador João Figueiredo”?

(um outro mundo é possível)

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Maria Maria

Author: Delman Ferreira

Maria Maria
(igualdades desiguais)
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Maria nasceu numa clínica, com todas as garantias do plano de saúde de seus pais, no dia 1º de dezembro de 2008, às 10 horas e 23 minutos. Vai morar numa casa confortável e segura de um condomínio privado do Lago Sul, em Brasília.

Maria nasceu num hospital público, no dia 1º de dezembro de 2008, às 10 horas e 23 minutos. Seus pais moram numa “casinha”, num terreninho de invasão, num “condomínio não regularizado” do Paranoá, em Brasília.


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Paranoá fica a dez quilômetros do Lago Sul.

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Maria, do Lago Sul, nasceu numa família muito bem estruturada. O pai tem emprego estável, o que lhe garante segurança por quase toda a vida. A mãe, já próximo do nascimento, decidiu parar de trabalhar para poder acompanhar plenamente o desenvolvimento da filha.

Maria, do Paranoá, nasceu numa família que luta para se estruturar. O pai esteve desempregado durante quase três anos, há pouco conseguiu emprego num supermercado.  Ganha pouco mais que o Salário Mínimo. A mãe trabalha como diarista, fazendo faxinas.

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Maria, do Lago Sul, tem “sete avós” e muitos tios, tias, primos, primas. Tanto avós maternos quanto paternos constituíram novas famílias e todos convivem muito bem. Os sete avós estarão sempre presentes em todos os momentos corriqueiros ou especiais da vida de Maria.

Maria, do Paranoá, conhecerá apenas os avós maternos. O avô é alcoólatra e a avó amarga todas as dificuldades decorrentes, mal consegue dar conta de tantos problemas. Mal consegue ver os netos e as netas.


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A não ser por fatalidades ou fatos fortuitos, a trajetória de vida de cada uma destas Marias é bastante previsível, determinada pelo território de seu nascimento.

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Maria será amamentada pela mãe até os seis meses quando, então, seu cardápio será gradativamente acrescido de papinhas, frutinhas e outros nutrientezinhos. Um cardápio estudado, individualizado e balanceado para um perfeito desenvolvimento físico e intelectual. Mensalmente visitará seu pediatra particular e, com pontualidade, receberá todas as vacinas na época devida.


Maria será amamentada pela mãe nos primeiros dias, até que esta seja obrigada a voltar para o trabalho de diarista porque disso depende grande parte da manutenção da casa. Com menos de um mês de vida, passará a ser alimentada com farinhas industrializadas “próprias para recém nascidos”.  De tempos em tempos, sempre que conseguir marcar consulta, visitará um posto de saúde para manter sua caderneta de vacinas atualizada.

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Depois dos primeiros passinhos, Maria passará a freqüentar uma escolinha cuja grade oferece aulinhas de música, natação, jardinagem, pintura, primeiras letras etc. Duas ou três “tias” devidamente graduadas, orientadas por uma Pedagoga com Mestrado em Educação Maternal. Aos dois anos passará a freqüentar aulas regulares de natação. Aos quatro estará iniciando curso de inglês.

Maria, ao longo de seus primeiros meses e anos de vida, será “cuidada” por uma “tia” um pouco mais velha, que ficará com a menina enquanto a mãe sair para as faxinas diárias.

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Aos cinco anos, Maria fará sua primeira viagem internacional. Vai à Disney. Aos sete, fará sua primeira viagem à Europa. Dez dias em Londres e Paris. Torre Eiffel, London Eye, museus, praças, parques, lojas… Aos dez anos, fará sua segunda viagem à Europa. Um mês em Portugal, Espanha, Itália e Grécia. Entre uma viagem internacional e outra, conhecerá São Paulo e Rio de Janeiro. As serras do Sul e as praias de Florianópolis. Salvador e as praias do nordeste. Também fará excursões com a escola para conhecer a floresta amazônica e o Pantanal. Aos 13 anos, já conhecerá largamente sobre as vidas e as obras dos principais artistas e personagens da história ocidental por ter estudado e visitado os locais em que viveram e atuaram.


Até os cinco anos, Maria conhecerá a fome, algumas cozinhas e áreas de serviço de casas em que a mãe fizer faxina, as ruelas e as invasões das vizinhanças de sua “casa”. Num dia das crianças, talvez seja levada ao zoológico.  Um ou outro natal será levada a ver Papai Noel em algum shopping. Até os dez anos, conhecerá os principais personagens de sua realidade. Será testemunha do esforço quase infrutífero de seus vizinhos para também levar a vida com dignidade. Viverá a realidade de um mundo de periferia, marginalizado, dominado por traficantes, prostituição, abandono, descaso e, principalmente, muita carência. Aos 13 anos, já conhecerá prazeres e agruras do convício íntimo com algumas das principais “celebridades” de sua área.

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Ao completar seis anos, Maria iniciará sua vida acadêmica. Este momento foi planejado pelos pais desde seus quatro anos. A escola foi escolhida depois de um longo processo de avaliações criteriosas. Será uma escola bilíngüe que, além do currículo oficial, oferecerá a Maria condições e estruturas para experimentar e optar entre diversas atividades culturais, artísticas e esportivas. Caso venha a ter dificuldades numa ou noutra matéria, poderá se socorrer da equipe de reforço escolar e dos avós, sempre presentes e ávidos por participar de sua educação.


Ao completar seis anos, a mãe de Maria precisará enfrentar horas numa fila interminável para conseguir vaga na escola mais perto de casa. Maria iniciará sua vida escolar. Inicialmente, será um pouco assustador e, ao mesmo tempo, uma grande novidade. Além da merenda escolar de todos os dias, poderá brincar com amiguinhas novas e aprender coisas. Maria será muito curiosa e gostará muito de aprender coisas que ela só verá pela TV – praticamente a única janela de contato de Maria com o mundo exterior além Paranoá. Maria contará com seu próprio esforço e curiosidade para progredir. Os pais, a avó ou a “tia”, não terão muito tempo, energia ou paciência para acompanhar diariamente a evolução escolar da filha.

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Maria crescerá entre revistinhas, livros, filmes e debates acalorados entre as diversas e, algumas vezes, divergentes visões de mundo de seus, pais, avós, tios, tias etc.


A principal escola de Maria será a rua.

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Maria continuará vivendo a apenas dez quilômetros de Maria – sem que Maria jamais tenha conhecimento da existência de Maria. Em raros momentos, poderão ocorrer breves tangências entre suas vidas. Em eventos públicos e gratuitos, destes que reúnem grandes multidões.

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Maria, com sua sede de aprender, vai avançar naturalmente na vida acadêmica, até alcançar o funil do vestibular, para o qual, mesmo com a natural insegurança diante de um novo desafio, estará muito bem orientada e capacitada.


Maria, graças à sua vivacidade e grande esforço, vai avançar na vida escolar e alcançar o funil do vestibular. Ficará muito insegura por não se sentir devidamente preparada.

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Maria observará o mundo ao seu redor. Fruto de questionamentos e das conversas com pais e avós, terá plena consciência de viver numa sociedade desigual e absurdamente injusta.


Maria sentirá que vive numa sociedade desigual e absurdamente injusta. Saberá que seu mundo é marginalizado.

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Maria vai querer muito ajudar a construir um mundo mais justo. Perceberá que o território pode ser determinante nas vidas das pessoas. Por viver numa cidade que respira arquitetura, sonhará ser arquiteta. Acreditará que assim poderá projetar casas mais aconchegantes, com maior dignidade, nas quais seja agradável viver e conviver. Casas e comunidades capazes de ajudar a integrar as pessoas entre si e as pessoas com a natureza. Que, ao invés de fronteiras divisórias, sejam espaços de comunicação e aproximação.

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Sem que uma tenha conhecimento da existência da outra, Maria e Maria sonharão o mesmo sonho: estudar arquitetura na UNB.

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Para Maria existirá uma tranqüila certeza: caso não consiga passar no vestibular da UNB, poderá fazer arquitetura em outra universidade privada de boa qualidade.


Para Maria existirá uma trágica certeza: caso não consiga entrar na UNB na primeira tentativa, dificilmente terá outra oportunidade.

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Irão disputar o mesmo sonho. Regras únicas. Sem discriminação. Sem privilégios. Regras iguais para todos. Todos igualados perante as regras.

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Belisário, o perguntador das perguntinhas pontiagudas, ficou quieto todo o tempo. Por fim, atirou seus dardos.
- Quando eu vejo alguém falando que “todos são iguais perante a lei”, vou logo perguntando: todos quem, cara-pálida?
- Escuta, me diz uma coisa: Como é que essas regras são iguais para todos? Maria e Maria estarão realmente em igualdade de condições? Que chances terá Maria contra Maria?
- Colocar Maria a disputar com Maria nas mesmas regras, é o mesmo que colocar qualquer um de nós a disputar uma prova de cem metros de natação com Michael Phelps. Alguém é capaz de afirmar que algum dia algum de nós terá a mínima possibilidade de vitória disputando uma prova de igual para igual com Michael Phelps?
- “Regras iguais para todos” favorece a quem, afinal?
- Que atitudes a sociedade deve adotar com Maria do Paranoá? Excluir definitivamente? Condenar? Jogar na marginalidade? Piedosamente torcer para que “a sorte sorria para Maria”? Decretar sua eterna condição de diarista?
- Que mecanismos o Estado oferece à Maria para que possa construir seu sonho tal e qual Maria?
- É democrático tratar desiguais de forma igual? Ou seria mais honesto e eficaz tratar desigualmente os desiguais?

(dez/2008)

(um outro mundo é possível)

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Ordem e Progresso

(fonte: http://www.overmundo.com.br/banco/ordem-e-progresso)

(um outro mundo é possível)

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Barbárie – sempre à espreita

Author: Delman Ferreira

Nunca consegui entender o preconceito.

Não consigo entender como alguém pode ser maltratado, perseguido, apedrejado, assassinado, por que possui características físicas ou mentais sobre as quais não teve nenhuma opção e,  mesmo que quisesse, não teria poderes para alterar. Como a cor da pele, a estatura, o sexo e a sexualidade. Ter habilidades  naturais para artes, esportes ou ciências. Nascer neste ou naquele continente, nesta ou naquela cultura.

Preconceito é o cúmulo da presunção de alguém que se coloca num altar e adota as próprias características como gabarito único de perfeição. E persegue os outros porque não se enquadram naquele gabarito.

Considerando que os seres humanos são muito diferentes entre si, o auge do preconceito, sucesso absoluto dos preconceituosos, seria todos eliminarem a todos, dado que ninguém se encaixa em nenhum gabarito único.

Também não consigo entender a expressão “opção sexual”.

Num mundo no qual os homossexuais são discriminados, apedrejados, expulsos pelas famílias e, até, assassinados, dizer que alguém fez opção pelo homossexualismo é o mesmo que dizer que este alguém optou por ser apedrejado.

Os seres humanos nascem, e guardam, características naturais que são fruto da equação de seu DNA. Negros, brancos, altos, baixos, homens, mulheres. Independentemente do sexo ou de outras características físicas, nascem com dons individuais para matemática, ou música, ou esportes, ou ciências, ou tantas outras especialidades. Dentre estas características individuais, fruto do DNA, está a sexualidade – que também independe do sexo.

Ou seja, assim como uns nascem brancos e outros negros. Uns nascem na Ásia e outros nascem nas Américas. Alguns nascem gostando de ciências e outros gostando de esportes.  Nascem mulheres e homens. Uns (umas) nascem gostando de mulheres e outros(as) gostam de homens. Tudo independente da característica física do sexo.

Não existe opção. Ninguém passa numa prateleira, no momento da concepção, para escolher entre levar esta ou aquela característica natural. Depois de nascidos, depois de compreender melhor o mundo, pode-se optar entre ser desta, daquela ou de nenhuma religião. Pode-se optar entre este ou aquele time de futebol. Pode-se optar  entre ser  civilizado ou ser preconceituoso. Mas, não é possível optar por características naturais.

É possível optar entre Democracia ou barbárie.
Preconceito é o fermento da barbárie.
Respeitar a Diversidade é a essência da Democracia.

(mai/2009)

“um outro mundo é possível”

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USAMERICANOS

Author: Delman Ferreira

Belisário, o perguntador das perguntinhas pontiagudas, andava meio encafifado com o bombardeio de notícias sobre as eleições nos Estados Unidos. Foi lá pra mercearia de D. Sofia puxando assunto só pra ver o que o povo tava pensando.


Ficou ainda mais injuriado com o que viu e ouviu. Todo o Morro do Baco Baco estava empolgado. Era gente falando que “os americanos são isso, os americanos são aquilo”. No acento popular, soava como se falassem “usamericanos”. “Usamericanos pra cá, usamericanos pra lá”. Cada vez que aparecia qualquer coisa na TV sobre usamericanos, todo mundo parava o que tava fazendo pra prestar atenção. Até parecia notícia de futebol.


Obama já era íntimo. Se passasse pelo Baco Baco, iam chamar pra tomar uma e contar piadas de negão.
D. Sofia, percebeu que Belisário não tava gostando nada daquele oba oba, chegou-se e perguntou:
- Belisário, o que é que tu achas que vai acontecer se o Obama ganhar? Usamericanos vão parar de fazer guerras pelo mundo?


Belisário matutou, vacilou, ficou calado um tempo. Pensou que o melhor era continuar calado e deixar o povo curtir o espetáculo. Afinal, a opinião dele não mudaria absolutamente nada mesmo.
Ele tinha certeza que D. Sofia saberia ouvir. Confessou, somente pra ela, que não acreditava que muita coisa fosse mudar.


D. Sofia, disse ele, a impressão que eu tenho é que até agora ninguém sabe exatamente quem é esse Obama. A única certeza que a gente pode ter é que ele não é isso tudo o que aparece na TV. Ninguém é assim tão perfeito.


Toda aquela pose, toda aquela disposição, no sol, na neve, “na rua, na chuva, na fazenda”, toda aquela felicidade. Cada corridinha, cada passada, cada parada. Cada gesto, cada olhar, cada sentimento. Cada ação, cada reação. Cada inspiração, cada expiração, cada pulsar do coração. Tudo é marketing, tudo é estudado, tudo é medido, tudo feito pra agradar do jeitinho que eles gostam. Assim como um produto que eles fazem propaganda. Uma mercadoria dessas que a senhora, D. Sofia, vende aqui na mercearia.
Fico muito preocupado porque ninguém sabe exatamente o que está guardado dentro daquele embrulho bem arranjado e bem vendido.


Não estou querendo dizer que o outro é melhor. O que acho é que não existem grandes diferenças entre eles. Um traz em si o velho estilo, sem muitos disfarces, é o velho soldado pronto para erguer a bandeira sobre todo e qualquer Iwo Jima. O outro é muito mais moderno, sabe falar a linguagem dos jovens, dos velhos, das mulheres, dos negros, dos hispanos, dos gregos e dos troianos, sabe usar internet, sabe olhar firme pra TV, sempre de voz macia, sem alterações, com emoções estudadas. “Hay que endurecer pero sin perder la ternura jamás”.


Sempre superior. Sempre o mesmo. Sempre o pensamento usamericano. Sempre o mesmo olhar usamericano para o mundo. Usamericanos sempre se comportaram como se o resto do mundo fosse um quintal no qual eles podem se apropriar do que quiserem para manter seu poder.


Obama diz que vai mudar o mundo (“Change the World”). Não seria melhor mudar o jeito que usamericanos vêem o mundo? Como ele pretende mudar o mundo? Com que métodos? Com que armas? Só com o charme? Mudar por quê? Mudar pra quê? Mudar o quê?


O velho soldado seria mais um sem brilho a ocupar a casa Branca por 4 ou 8 anos. Mentindo as mesmas mentiras de sempre. Fazendo as mesmas guerras de sempre. Combatendo o mesmo “terrorismo” de sempre. Com o mesmo macarthismo de sempre.


O outro vem envolto pela novidade, pela curiosidade, pela modernidade, pelo destaque que ganhou durante todo este tempo de superexposição na mídia mundial. Com toda a imagem carismática com que foi embalado.


Perigoso exatamente pelo charme. Torcemos para que nunca aconteça, mas, quem resistiria se o pop star do momento, o grande vencedor, cavalgando a maior máquina bélica do mundo, manejando a maior máquina de propaganda do mundo, resolvesse “to change the world” impondo padrões usamericanos?  O mundo resistiria a mais do mesmo? Resistiria a uma nova onda de american way of life? O Planeta resistiria?


Qual seria a reação do pensamento colonizado aqui abaixo do equador se usamericanos resolvessem espichar olhares cobiçosos para nossa energia e para o que ainda nos resta de recursos naturais?


Usamericanos andam muito incomodados com a perda mundial do prestígio made in USA. Vão exigir do próximo presidente que recupere espaço e tempo perdidos. Como se dará a tentativa de retomada da hegemonia usamericana? Dada a crise do momento, como se dará a disputa pela nova ordem mundial? Com um doce olhar sorridente?


A queda de prestígio usamericana poderia levar à derrocada do pensamento único. O mundo poderia se abrir para a diversidade. A vitória de um negro nos EUA significa a vitória da diversidade? Ou pode significar o recrudescimento da tentativa de impor ao mundo padrões usamericanos?


Aproveitando o deslumbramento, a euforia, a curiosidade, a expectativa positiva, o prestígio e a receptividade para suas propostas, ele pode agir rápido – muito rápido. Antes que o mundo se recupere da ressaca da festa, poderá tentar, rápida e irreversivelmente, “change the world”.


Música, cinema, esportes, Walt Disney, Mickey Mouse, Zé Carioca, Carmen Miranda, coca-cola, fast food, obesidade, ser-mercadoria, vazio existencial – seremos novamente bombardeados pelo jeitinho usamericano de ser?


- Tá certo, tá certo, interrompeu D. Sofia, mas o que é que fazemos, então? Torcemos pelo outro?
Não, respondeu Belisário. Eles vão escolher o que acham que é o melhor para eles. Nós ficamos com nossos dois pés latino-americanos para trás. Não podemos beber da festa que é deles. Não podemos ficar deslumbrados. Não podemos ficar entorpecidos. Temos que desconfiar de tudo, principalmente das facilidades, das verdades e das certezas que quiserem nos vender. O que usamericanos pensam que é bom para os EUA, costuma não ser muito bom para a humanidade.

(out/2008)

(um outro mundo é possível)

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Morro do Baco Baco

Author: Delman Ferreira

Ah! a falta que faz um morro do Baco Baco…

“Morro do Baco Baco”. Diz a lenda que o nome originou-se num hábito dos meninos de certa época que por ali iam viver os principais eventos de sua formação. Era o local preferido pra soltar Pandorga, pra jogar pião ou bolinha de vidro, e pra brincar de “camói” – o aportuguesamento de “cowboy”. Tanto o morro quanto suas histórias foram soterrados pela modernidade de uma via asfaltada.

Entretanto, não foram apenas as brincadeiras que marcaram o Morro. O que fez do Baco Baco uma passagem “insoterrável” na vida e na memória dos meninos daquele tempo foram os ritos e as comparações que ajudaram a formar  personalidades ou aprofundar inseguranças.


Naquela fase em que o energúmeno dá uma “espichada”, fica meio desengonçado e passa a esbarrar e derrubar tudo, não sabe o que quer da vida, a voz fica naquele engrossa/afina, os músculos e os traços masculinos vão ficando mais bem definidos, era lá no Morro do Baco Baco que os meninos se reuniam para medir e comparar seus “instrumentos” em fase de crescimento. Literalmente, era ali que iam ver “quem tinha o pau maior”.


Os primeiros pelos  – era um momento de glorificação. Fazia-se de tudo pra garantir um primeiro fiozinho preto. Descobriam-se os remédios mais escabrosos para dar um empurrãozinho na natureza. Tinha gente que chegava a esfregar cocô de galinha tentando dar uma adubada no local.

Outro momento decisivo era a ejaculação – a grande expectativa – uma cruel linha divisória. Separava aqueles que já se consideravam HOMENS dos outros,  mortalmente feridos, que eram jogados na vala dos “ainda meninos”. A prova definitiva pra adentrar o “mundo dos homens” era a mais crua e básica possível: o “candidato” tinha que conseguir ejacular na frente de todos os outros – para ajudar, apenas alguns “catecismos” do Carlos Zéfiro ou, muito raramente, umas revistinhas suecas ou dinamarquesas, que se conseguia com uns marinheiros. Estas “revistinhas” eram a coisa mais ousada que se dispunha, filme pornô não existia nem nos nossos sonhos mais delirantes.


Mas, o importante mesmo é que o morro do Baco Baco era uma arena sagrada para a disputa mais importante da vida de todos os que viviam aquele momento crucial: “ver quem tinha o pau maior”.


A competição não era um simples “puxa/estica e mede”. Havia as mais diversas modalidades. Valia todo e qualquer truque para ludibriar os outros e ganhar uns milímetros a mais. Cada um que levava desvantagem em uma modalidade logo inventava outra na qual a natureza lhe tivesse sido mais favorável. Tamanho, espessura, formato – qualquer detalhe anatômico – o importante era ser maior em alguma coisa.


Pelo Brasil afora, com certeza, existem centenas de milhares de “morros do Baco Baco” – lugares sagrados onde se dão os fundamentais ritos de passagem da gurizada. Lugares onde o menino se torna um homem muito mais seguro – afinal,  ali ele compreende que sempre existe alguma modalidade na qual pode ser o maior.


Entretanto, assim como muitas outras culturas, os “morros do Baco Baco” também estão em extinção, substituídos pela padronização do mundo “high-tech”. Os ritos de passagem ocorrem sem romantismos, sem mistérios, banalizados e virtualizados  numa  “second life”.


É cada vez maior o número dos que não conseguem sair da vala dos “ainda meninos”, apesar de já avançados em idade. E isso é grave, muito grave – beira à tragicomédia. Vai-se gerando uma horda dos “sem morro do Baco Baco”. Uma turba desorganizada que avança pela vida tentando chamar a atenção de qualquer maneira. Compram os carros mais potentes, as motos mais berrantes, a grife mais grife, os cachorros mais indóceis – e ficam desfilando por aí, meio sem destino, acelerando suas motos na madrugada, estacionando carros e arregaçando o som nas praças e nos bares.


Como não tiveram um “morro do Baco Baco” na época certa, passam a vida inventando as próprias modalidades pra provar que “têm o pau maior”.

As conseqüências da extinção desse fundamental rito de passagem têm sido trágicas para a humanidade. Se tivessem vivido um “morro do Baco Baco”, as criaturas norte-americanas não ficariam perturbando as madrugadas do mundo tentando provar que “têm o míssil maior”.


Ah! A falta que faz um morro do Baco Baco…

(abr/2005

“Um outro mundo é possivel”

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Baco Baco é… logo ali…

Author: Delman Ferreira

Perguntam: o Morro do Baco Baco existe mesmo?
Absolutamente. É tão concreto quanto é concreto o mundo que cada um constrói.


Perguntam: então, onde fica o Morro do Baco Baco?
…aos peregrinos, diria como Antonio Machado, “caminante no hay camino, se hace camino al andar”.


Assim como o Arco-íris, que é um fenômeno cientificamente comprovado, mas nunca está onde parece estar, o Morro do Baco Baco é um fenômeno filosoficamente comprovável que fica logo ali.


É lá onde se dão os ritos de passagem. Onde a gente se olha de frente e descobre os próprios limites. Filosoficamente, lá descobrimos que sempre existe uma modalidade na qual cada um de nós pode ser simplesmente o melhor, apesar de que, também se descobre que bom mesmo é estar aqui e ali, cercado de diversidades.


O Baco Baco é logo ali, no fim de cada desafio, naquele momento de cada conquista a cada nova passagem.


É aquele canto onde vestimos uma calça jeans puída, furada na bunda, uma camiseta desbeiçada, uma chinela velha, um chapéu de palha, porque o que importa mesmo é despir-se de preconceitos.


O Baco Baco também esconde seus mistérios. Porque, sem mistérios, sem sonhos, sem desafios e sem ritos de passagem a vida se banaliza e o mundo fica sem rumos.


É lá que vive o Belisário, o atirador de dardos, nosso perguntador de perguntinhas pontiagudas. Ali
, encontramos D. Sofia, com sua filosofia e sabedoria de quem conhece a vida e dispensa diplomas. Lá nos encontramos na Mercearia, que é uma universidade de vida. Foi para lá que Tião e Ivonete mudaram o “Bar do Tião”, onde a gente pode comer uma dobradinha sem culpas, beber rabo de galo, ouvir e cantar as eternidades da música brasileira. Há coisa de uns dez mil anos atrás, Raul Seixas andou por ali, ele para quem nada desse mundo é estranho.


Enfim,  fica logo ali, no caminho de quem vai para Pas
árgada, cortando as Gerais, seguindo a trilha da Joagoa.


O Morro do Baco Baco fica bem aqui dentro… Logo ali.


(mai/2007)

“Um outro mundo é possivel”

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BOITOPEIA

Author: Delman Ferreira

BOITOPEIA

O Pai do Warnel fazia o melhor Mocotó do mundo… e arredores. Havia um entendimento com os orixás: todo dia do aniversário ele preparava paneladas de  Mocotó e chamava o Morro.
Não sei se por exigência dos santos ou por outra razão menos sacra, o fato é que a única bebida permitida era vinho tinto doce. Para driblar o vinho doce, picávamos limão, colocávamos gelo e estava feita a alquimia.
Muita alquimia, muita interação, muito samba, uma ou outra azaração, muitas certezas e muita discussão. Embalados pela alquimia, debatíamos os destinos da Humanidade – e futebol, claro. Era a SOLIMO, Sociedade Livre e Criativa do Mocotó.
Numa daquelas efemérides, quando o debate já alcançava elevados decibéis, alguém veio com a informação de que o mocotó era extraído unicamente do tutano das patas dianteiras do boi. E cada boi fornecia uma quantidade muito reduzida de mocotó.
Diante do inigualável Mocotó do Pai do Warnel, essa informação desestruturou nossa estabilidade e encheu nossas certezas de dúvidas. Afinal, se os bois fossem acometidos por uma gripe, poderíamos ter escassez. E a possibilidade da escassez de mocotó estremeceria as estruturas da sociedade. Seria o fim da História.
Alguém teria que tomar alguma providência para garantir um abastecimento sustentável. O mercado impunha medidas imediatas e drásticas. Não se poderia correr o risco de desabastecimento. Tínhamos que ser proativos e buscar métodos para elevar a produtividade do boi, nossas usinas de mocotó. Era preciso encontrar caminhos para sair da crise.
Inebriados pelo Mocotó do Pai do Warnel, temperados pela alquimia, decidimos colocar nossa potencial inteligência para funcionar.
Desencadeou-se intenso debate filosófico considerando os destinos da humanidade caso ocorresse escassez de mocotó e a crise se alastrasse pelo mundo.
Finalmente, movidos pelos mais altos princípios e valores, decidimos desenvolver e apresentar para o MAM, Ministério da Sustentabilidade e Abastecimento de Mocotó, um sofisticado projeto de engenharia genética.
Como medida anti-crise imediata faríamos um retrofit, um upgrade em nossas usinas de mocotó – um boi de segunda geração, criado com técnicas de malhação diária para fortalecimento das patas dianteiras, alongamentos e relaxamento zen para liberar todo o mocotó impactado por stress. Ao invés de peitão e coxão, desenvolveríamos bois com tutanão.
Em seguida empreenderíamos o “Projeto Boitopeia” – que, basicamente, consistia em produzir um OGM, organismo geneticamente modificado.
O objetivo do Projeto Boitopeia era chegar  ao B3GMBB – o Boi de Terceira Geração Morro do Baco Baco. Produzido pelo Laboratório de Pesquisas, Alternativas e Desenvolvimento Agropecuário Morro do Baco Baco.
O B3GMBB seria o resultado do cruzamento de um vacum com uma centopeia,  chegando ao Boitopeia, um boi com duas patas traseiras e doze dianteiras, que se alimentaria apenas de RSU, resíduos sólidos urbanos, seria resistente a todas as mutações de gripe e soltaria peidos não agressivos ao meio ambiente e sem provocar aquecimento global. Bois com direito a MDL, o mecanismo de desenvolvimento limpo criado pelo Protocolo de Kioto.
Alcançamos a Pedra Filosofal do Mocotó.
(alquimia faz coisas).


(01/05/2009)

“Um outro mundo é possivel”

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“a dor da gente não sai no jornal”

Author: Delman Ferreira

(Belisário = arremessador de dados, segundo Dicionário de Nomes)

Belisário, lá no alto do Morro do Baco Baco, matutando sua filosofia, de vez em quando fica meio injuriado com algumas coisas. Nessas horas, sai por aí arremessando suas perguntinhas pontiagudas.
Outro dia lembrou um samba antigo que dizia “a dor da gente não sai no jornal”. Ficou se perguntando: qual o critério para definir o que é notícia e o que não é notícia?
Por exemplo, o caos nos aeroportos, que deixa algumas centenas, talvez uns milhares, de usuários esperando horas em salas desconfortáveis, é muito grave e merece destaque – sai no jornal.
Belisário ouviu dizer que são mais ou menos 7% dos brasileiros que, num ano inteiro, viajam de avião e eventualmente, uma ou outra vez, sofrem alguns problemas em aeroportos.
Por outro lado, existem diariamente, todos os dias do ano, ano após ano, milhões de brasileiros, em milhares de rodoviárias inabitáveis, esperando para viajar em ônibus que, frequentemente, se encontram nas piores condições imagináveis.
Milhões, sem alternativas, todos os dias do ano, ano após ano, viajando em ônibus que nunca passam por manutenção, nunca são limpos, nunca são fiscalizados.
São horas e horas, dias e dias, viajando em ambientes fétidos, por falta de limpeza, de fiscalização e respeito humano.
Horas intermináveis suportando calor ou frio, por falta de manutenção nos equipamentos de aquecimento ou de ar condicionado.
Horas ou dias, viajando em espaços exíguos, para que a empresa possa “otimizar” os espaços e “acomodar” mais passageiros.
Com freqüência assustadora, infelizmente, ocorrem acidentes com mortes ou mutilações. Somados, esses acidentes corresponderiam a dezenas ou centenas de vezes o número de vítimas de um acidente de avião.
Daí, Belisário, lá do alto do Baco Baco, lá do fundo de sua cabeça cheia de perguntas, vai arremessando seus dardos: porque será que a imprensa e alguns políticos dão tanto destaque aos problemas da aviação, que afligem 7% dos brasileiros, e nunca se manifestam sobre os problemas das rodoviárias e dos ônibus que afligem, certamente,  mais de 70% da população?
Por que o problema da aviação é notícia e o problema da viação não é notícia?
Será que o brasileiro que viaja de avião é mais brasileiro que o brasileiro que viaja de ônibus?
Por que será que a dor da nossa gente não sai no jornal? …
… Belisário fica muito encafifado.

(mar/2007)

“Um outro mundo é possivel”

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