Archive for abril, 2009

Tendão de Aquiles

Author: Delman Ferreira

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Depois de muito relutar,  “meti a tesoura no Tendão de Aquiles”.

Desde 2007, vinha sentindo dores fortes no tendão do pé direito, chamado Tendão de Aquiles.

Naquela época eu estava me preparando para correr a Meia Maratona do Rio de Janeiro. Num dos treinos, fiz 14Km num trecho com subidas acentuadas e senti umas fisgadas no tendão do pé direito. A partir daquele dia, passei a sentir dores frequentes.


Edson, nosso preparador, insistiu que eu deveria primeiro tratar as dores, e, talvez, deixar a Meia para o outro ano. Mas, eu não quis parar. Não queria deixar de fazer a Meia Maratona naquele ano. Minha ansiedade não me deixa adiar as coisas para depois.


Durante a corrida, em setembro/2007, senti um pouco o tendão, mas segui em frente.


Depois da Meia, fiquei um tempo sem correr, apenas fazendo caminhadas de recuperação. As dores não voltaram, então comecei a me preparar para a Corrida da Pampulha, em BH.


A Pampulha foi no início de dezembro/2007. São 18 KM. Quando passei pelo KM 9, senti uma pontada forte no tendão. Mas, resolvi seguir em frente. Gradativamente a dor foi se acentuando e corri os últimos quilômetros, até a chegada, mancando da perna direita. Depois disso, o tendão nunca mais prestou. Não conseguia mais fazer nem treinos leves.


Em março do ano passado (2008), consultei um ortopedista que queria operar logo. Dizia que era o melhor a fazer. Segundo ele, quando um tendão está com lesão séria, o melhor é fazer uma cirurgia para limpeza de toda a área, ligamento e reforço dos tendões. Depois, com a regeneração, tudo fica como novo.


Todavia, preferi ouvir outras opiniões. Tentei de tudo. Fiz pilates, alongamentos, acupuntura, massagens orientais – tratamentos que podem ter ajudado, mas não resolveram. (Quase recorri às benzeduras, “trabalhos”, pastores universais, oráculos transcendentais, água benta, reza braba,  pomadinhas milagrosas, garrafadas, nitroglicerina, beijinhos doces, …).


Só perdi tempo. Fiquei sedentário e virei criador – passei a fazer “criação de barriga”.
Finalmente decidi. Voltei ao mesmo ortopedista e “meti a tesoura no tendão”.

No meu caso, o pior foi o stress pré-operatório: exames,… mais exames e…. mais exames. A conversa do anestesista, já na sala de cirurgia, também é sinistra.

Tirante isso, tudo correu muito bem. O médico se disse surpreso. Imaginava que meu tendão estaria muito mais estragado, mas encontrou um quadro bem menos trágico. Certamente foram efeitos positivos dos alongamentos, da acupuntura e do shiatsu. Pelo que me explicou, os tendões se parecem com cabos de telefone: um cabo com diversos fiozinhos por dentro. Assim são os tendões, um conjunto composto por inúmeros nervos.


Quando os tendões ficam doloridos, é porque alguns destes fiozinhos (nervos) vão rompendo e ficam machucados. Como os tendões são pouco irrigados e recebem pouca oxigenação, a regeneração espontânea é muito lenta. A cirurgia é feita para limpar, religar e acelerar a regeneração destes nervos rompidos. Se o número de nervos rompidos é muito grande, cirurgia e posterior recuperação são muito mais difíceis. No meu tendão, havia poucos nervos rompidos, então a recuperação será mais fácil. Vou ficar umas tres ou quatro semanas sem poder colocar o pé no chão.


Depois…
Lá estarei novamente, no Rio de Janeiro, em BH e tantas outras provas por este Brasil, pelo mundo… e pelos arredores.

(abr/2009)

“Um outro mundo é possivel”

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Lateralidades

Author: Delman Ferreira

46 minutos do segundo tempo. O x O. Joguinho modorrento. Cerveja choca. Não sai nem briga.
O artilheiro chega perto do árbitro, abaixa-se e faz de conta que está ajeitando a chuteira. Sem que ninguém perceba, cochicha: ”o ‘omi’ não vai gostá si a gente não ganhá”. E corre pra área.
Recebe a bola em descarado impedimento. Com uma cotovelada, derruba o goleiro e chuta pro gol. Ataque com cobertura nacional. Na frente de todas as TVs.
O Bandeira agita a bandeira desesperado.  Feito biruta em dia de vento sul.
Gooooooooolllllll. Legallll. Garante o árbitro.
Depois do jogo, diante de uma multidão de jornalistas, diante do Brasil inteiro, o árbitro justifica sua decisão: “Olhei para o Bandeira e vi que ele estava com a camisa pra fora do calção. Eu não admito que Bandeira trabalhe desleixado em jogo meu.”.
Daí pra frente estabeleceu-se uma celeuma nacional sobre a etiqueta de comportamento dos bandeiras.
As televisões conseguiram filmes de cinegrafistas amadores, feitos por celulares, que mostravam a camisa do Bandeira no exato momento do lance. A luz do sol impedia uma imagem nítida.
Consultoras de moda,  psicólogos, sexólogos, economistas, analistas internacionais, a moça do tempo, todos foram chamados para opinar.
Uma emissora conseguiu entrevistar a diarista que trabalha na casa do Bandeira e descobriu que o salário estava atrasado. Fizeram campanha de doações para ajudar a moça – arrecadaram geladeiras, fogões, enxoval completo, férias no nordeste… Entrevistas ali, aqui, lá e acolá – matinê, vesperal, madrugadão – tarde de autógrafos – celebridade instantânea – “nu artístico”.
Debaixo de todo aquele foguetório, atrás de toda a fumaça, singelamente ouvia-se uma ou outra vozinha perguntando: “Ixcuta, e o jogo? E a falta? E o impedimento? E o gol? E o árbitro?”. Cada vez que a vozinha tentava falar, mais balbúrdia se fazia em torno do cabelo desalinhado do Bandeira.
Descobriram que o Bandeirinha fazia xixi na cama até a idade de 7 anos. Foi banido do futebol. Raras vezes é visto em locais públicos.
Quando foram pedir a opinião de Belisário, ele mal levantou os olhos da caneca de café que preparava.
- Eu só quero saber o seguinte: é permitido prender ladrões?

(abr/2009)

“Um outro mundo é possivel”

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Cada um no seu quadrado

Author: Delman Ferreira

Todo o Morro do Baco Baco, assim como todo o Brasil, estava ligado na “CPI das Alcovas“.
D. Sofia colocou uma dessas TV de LCD – tela grandona. Todos foram ver a CPI na TV da Mercearia. Audiência maior que final de copa do mundo. Era a primeira vez que o misterioso Thomas Greenfield ia aparecer. Até agora ninguém tinha visto a cara dele.
A CPI investigava chantagens contra autoridades e celebridades. O que se afirmava era que Thomas Greenfield comandava um esquema de escutas de informações sigilosas e depois chantageava autoridades para conseguir e manter favores.
Quando Thomas entrou na sala, até as placas tectônicas do Morro do Baco Baco balançaram.
ERA O POTOCA!!!!! Ninguém conseguia acreditar. Mas, quem entrava na sala da CPI, cercado por seguranças, de terno e gravata, fazendo de conta que era muito importante,  ladeado por uma loura escultural, todo afetado e cheio de poses,  era o POTOCA. Thomas Greenfield nada mais era que o POTOCA, o melequento do Porfírio Tomás Campos.
POTOCA ganhou esse apelido porque eram as primeiras sílabas de seus nomes e também porque vivia mexendo no nariz. Ele odiava o nome Porfírio. Odiava o apelido. Aliás, sempre odiou ter nome brasileiro. Insistia em ser chamado de Thomas, assim, com acento meio inglesado.
Sempre foi muito ligeiro. Não se sabia como, mas ele sempre conseguia, antes, as questões que iam cair nas provas. Só dava cola pra quem o chamasse de Thomas. Quem chamasse de Potoca estaria condenado, jamais receberia as dicas das provas.
Era cheio de manhas. Só dava as questões para meninas. Mas, elas tinham que desfilar com ele no shopping ou alguma balada. Dava um jeito de descobrir algum mal feito, um sem jeito, uma coisa escondida qualquer, e passava a chantagear a menina. Ela desfilava com ele e depois tinha que confirmar o que ele contasse, caso contrário, terror dos terrores, ele espalharia o segredo pra toda a escola. Quando Potoca estava incomodado e queria ameaçar alguém, começava a mexer no nariz. Era o sinal para que a vítima logo se comportasse como ele queria.
Vivia contando histórias, aventuras, casos e performances. Mas, ninguém acreditava muito. Ninguém sabia afirmar de que fruta o Potoca gostava. O que se dizia era que Potoca só queria fazer de conta. Fazia de conta que tinha, fazia de conta que curtia, fazia de conta que vivia, fazia de conta que namorava, fazia de conta que fazia. Vivia fazendo de conta que era mais do que um reles Potoca.
Agora estava ali o Potoca. Todo espaçoso. Certo de que não corria nenhum risco. Um habeas corpus, conseguido em troca de algum segredo,  dava garantias de que só falaria o que bem entendesse, de quem bem entendesse, na hora que bem entendesse. Potoca tinha a República nas mãos, ou melhor, na ponta do nariz. Um sinal seu e a mais ilibada reputação tremeria nas bases e poderia ser jogada por terra – acompanhada por um suspiro aliviado de todos os outros sobre quem Potoca calasse.
Pelo visto, Potoca aprimorou a metodologia e a tecnologia. Além dos jeitos e sem jeitos das meninas do Baco Baco, parece que Potoca especializou-se em descobrir os feitos, os mal feitos e os segredos de alcova das senhoras e dos senhores da Corte, aquém e além mar.
A “CPI das Alcovas“ fazia de conta que investigava o esquema de chantagens montado por Potoca, ou melhor, por Thomas Greenfield.
Por todos os lados – TVs, rádios, jornais, internet – saiam declarações bombásticas: “não vai sobrar pedra sobre pedra“, “quem não deve não teme“, “cabeças vão rolar“, “a República vai ficar sabendo o que se engendra nas alcovas do poder“, uns e outros aproveitavam para desfilar  erudição de almanaque, “esta CPI é a Caixa da Pandora da República“, e blá, blá, blá…
Analistas e especialistas, com toda a pompa e circunstância auferidas por suas gravatas, desenvolviam teses sobre “os reflexos deste desnudamento do modus operandi da política brasileira sobre as forças vivas de nossa sociedade“.
As revistas de fofoca fervilhavam, como um bando de maritacas alvoroçadas. A loura do Potoca virou musa, e já se especula quando, e para “quens“, posará nua. A plebe vibra com a promessa de desnudar a corte. Desvendar o inatingível. Conhecer as entranhas e as roupas sujas do Poder.
No meio deste frenesi geral, Belisário mantém-se frio. No mais profundo ceticismo, segue tomando café aparadinho direto do coador. Vira-se pro balcão e sentencia:
D. Sofia, isso vai dar em nada. Eles já combinaram tudo. Tá todo mundo muito tranquilo porque o Potoca tem habeas corpus e não é obrigado a falar nada. Assim, eles podem perguntar o que quiserem, fazer de conta que estão muito indignados, fazer discursos cheio de moral e ética, defender a Democracia e a Transparência, e fica tudo por isso mesmo.
Vão esbravejar, vão bater na mesa, vão provocar, vão atiçar, vão bater boca uns com os outros. Tudo faz de conta. O máximo que vai acontecer é, quando alguém fizer alguma pergunta meio escabrosa, o Potoca mexer no nariz e rapidamente o perguntador vai mudar de assunto e se dar por satisfeito.

Como que concordando com Belisário, neste mesmo momento, no meio do Morro, alguém liga um som de carro bem alto:
…ADO, A-ADO, CADA UM NO SEU QUADRADO!!!
…ADO, A-ADO, CADA UM NO SEU QUADRADO!!!

(abr/2009)

“Um outro mundo é possivel”

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Não tem preço

Author: Delman Ferreira

Café preto coado na hora. Pão quentinho com manteiga e mortadela. Mercearia da D. Sofia, no Morro do Baco Baco. Não tem preço.
Este deleite é um privilégio. Encontrei Belisário encostado no balcão. Na mão, uma caneca de barro. O café de Belisário tem ritual. Primeiro ele lava a caneca com água fervendo. Só depois coloca o café, aparadinho direto no coador. Assim, fica quente e saboroso por muito mais tempo.
Pra provocar Belisário, falei com D. Sofia, – Que é que a Senhora tá achando dessa confusão toda no Senado? Diretoria de garagem, diretoria de autógrafo, diretoria de aeroporto, diretoria de fantasmas,…?
- Pra mim, isso tudo vai dar em nada, filosofa D. Sofia. Eles brigam, brigam e, no fim, acabam arrumando mais uns carguinhos ou mais mordomias pra todo mundo ficar satisfeito, quieto e calado. E nós, mais uma vez, vamos ficar aqui só assistindo, fazendo de conta que não entendemos nada.
Belisário, calado estava – calado ficou. E eu continuei atiçando, – Mas, a Senhora não acha que dessa vez a imprensa está no pé deles? Que a imprensa não vai deixar barato?
Aí, Belisário não se agüentou. Empurrou a caneca pro meu lado e já foi entrando na conversa.
- Eu acho é pouco… Essa imprensa já demorou foi muito. Tem gente de todos os jornais, das TVs, da internet, que fica o dia todo, o ano todo, lá no Senado. Ficam pra lá e pra cá com os senadores e com os funcionários. Conhecem tudo, sabem de tudo. Leem até pensamentos. Sabem das manhas, das artimanhas, das escapadas, dos segredos mais secretos, das promessas, das traições. Do público e do privadíssimo. Nada escapa. Sabem tudo de tudo.
- Aí, eu vejo a imprensa se fazer de tão surpresa, tanta “ira santa”, com toda essa história. Fico aqui encafifado.
- Não dá pra entender, se eles que sabem tudo de tudo, como é que não sabiam nada de nada? Como é que um lugar tem 180 diretores e ninguém sabe de nada? Ou essa imprensa é muito incompetente e desinformada, ou tem caroço nesse angu. Na certa, tiveram bon$ motivo$ pra calar e esperam melhore$ momento$ pra falar.
- Mas, Belisário, antes tarde do que nunca. Tudo tem um preço. Ainda bem que agora eles resolveram falar. Tu não achas que esse é o papel da imprensa? Que assim a gente fica sabendo o que fazem lá por cima?
- Claro que é bom. É muito bom. Eu acho tão bom que eu queria ver abrirem outras caixas pretas, como o Judiciário, as assembléias estaduais, a CBF, o COB, as contas do PAN, as contas de time cujo presidente diz que acabou o dinheiro,…..
Este é o Belisário. Sempre olhando mais adiante. Sempre atirando dardos.
Tomar café preto coado com D. Sofia e Belisário. Não tem preço.

(mar/2009)

“Um outro mundo é possivel”

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Ouvindo à esquerda e à direita.

Author: Delman Ferreira

Passei uns dois meses, desde janeiro, só ouvindo à esquerda. À direita, só zumbidos. Meu ouvido direito doía e fazia pressão, assim como se estivesse sempre cheio de água.
Como sei que para ter equilíbrio é sempre bom ouvir à esquerda e à direita, fui num otorrino. Era um desses médicos descomplicados e muito bem humorados. Espiou meu ouvido com um binoclinho e disse:
- “… o senhor tem um bocado de cera aí.”. E perguntou se eu havia tentado limpar com alguma coisa.
- “Nada, nada”, eu disse, “só cocei com cotonete, um grampo, uma tampinha de caneta ou a pontinha dos óculos”.
Ele simplesmente me olhou. Estupefato. Indignado. Revoltado. Como se estivesse diante de um estuprador.
- “O senhor, por acaso, estava tentando esculhambar com seu ouvido?”, perguntou.
- “???” … fiquei apenas olhando…
- “Meu amigo, não se deve jamais tentar limpar os ouvidos com coisa alguma.”
- Como assim???
- “A única coisa que se pode tentar usar para limpar um ouvido é o cotovelo do outro lado”. E ficou me olhando com aquela cara de sacana.
Explicou que o ouvido é formado por dutos curvos e quando tentamos enfiar alguma coisa por ali, só criamos mais problemas. A única coisa que se deve fazer é uma lavagem de tempos em tempos, jamais enfiar o que quer que seja.
Depois, preparou uma seringa e deu umas três ou quatro “xiringadas” de água com alguma coisa, no ouvido. Parecia que eu estava debaixo de uma cachoeira. Foi um “banho” milagroso, agora posso ouvir à esquerda e à direita.
Como se diz por aí, “é muito melhor ouvir certas besteiras do que não poder ouvir”.
Assim como é melhor ler certas bobagens do que não saber ler.
Portanto, doravante, para limpar seus ouvidinhos, usem apenas os próprios cotovelos do outro lado. Ou, consultem um otorrino de tempos em tempos pra levar umas  “xiringadas”.
(hehehe).

(verão/2009)

“Um outro mundo é possivel”

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“…uma borboleta batendo asas…”

Author: Delman Ferreira

O ônibus não estava muito cheio, praticamente todos os bancos estavam ocupados, mas ninguém viajava em pé. Viagem normal, sem incidentes. Num certo momento, um casal com duas crianças, deu sinal solicitando que parasse no próximo ponto.
A parada em que iam descer ficava em frente ao jardim Zoológico. Era possível imaginar o quanto as crianças estariam fantasiando e esperando por aquele passeio. Um dia incomum em que iam conhecer girafas, elefantes, leões e tantos outros bichos que, para eles, até então, só existiam na TV e nas férteis cabecinhas.
Um menino de mais ou menos três anos e uma menina de uns cinco anos, com toda a ansiedade e o encantamento, naturais em crianças normais e saudáveis. Não viam a hora de chegar. Quando o pai puxou o sinal, rapidamente ficaram em pé, saltitantes, querendo que o ônibus parasse logo pra descer e correr.
A menina, como é típico das crianças que por desconhecer o perigo não o temem, ficou em pé sem se segurar. Preocupada apenas com uma pequena boneca que levava nos braços, olhava orgulhosa para o pai.
Livre, leve, espontânea e… Inadvertida.
De repente… A realidade desabou sobre a cena, quebrando o breve encanto do momento.
O ônibus freou – a menina desequilibrou-se – bateu levemente a cabeça num dos bancos – deixou a boneca cair das mãos – olhou para o pai procurando apoio -  chorou mais de susto que de dor.
Os pais – os dois – não perderam a oportunidade de exercer o ‘pátrio poder’, rapidamente dirigiram-se para a menina. O pai, num safanão, fez com que ficasse em pé. A mãe, talvez para não desautorizar o pai na frente dos outros ou para não perder a oportunidade de exercer a própria ‘autoridade’ esbravejou:
- Sua burra!!! E deu uma sacudida na menina.
A menina, carinha triste, lágrimas nos olhos, preocupava-se em encontrar e acarinhar a boneca. Inconscientemente, dedicou ao brinquedo o tratamento que deveria ter recebido. Interrompeu o choro e apenas ficou em silêncio olhando os dois…
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Matemáticos e meteorologistas, ao tentar compreender a extensão de eventos aleatórios desenvolveram a Teoria do Caos, que se difundiu através de imagens aparentemente inusitadas como: “uma borboleta batendo asas na Amazônia pode causar um furacão no Texas” ou “uma pessoa espirrando na China pode provocar uma tempestade de neve em Nova Iorque”. Ou seja, eventos aparentemente inofensivos podem desencadear processos que, no extremo, atingem magnitude incontrolável.
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Leio o artigo “A ética democrática e seus inimigos – o lado privado da violência pública”, no qual o psiquiatra e psicanalista Jurandir Freire analisa o peso da indiferença e do desprezo na violência urbana. Desenvolve raciocínio segundo o qual as elites brasileiras, que classifica como sendo “os donos do poder”, nunca se interessaram pelos problemas coletivos, criaram uma estrutura que vê somente os interesses privados. Nas palavras de Jurandir Freire, “… como seria de esperar, a indiferença produziu uma reação igual e contrária. Os desfavorecidos também começaram a negar seu pertencimento a um povo, classe ou raça, e o crescimento do banditismo urbano mostra que aprenderam bem a lição dos mentores. Da mesma forma que para as elites a vida dos mais pobres não têm nenhum valor, para o lumpen da cidade a vida dos privilegiados tornou-se mero objeto de barganha”.
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Fiquei aqui pensando nas repercussões das pequenas intolerâncias e dos descasos quase imperceptíveis sobre a incontrolável violência urbana.
Aquela menina, abraçada à sua boneca, vivendo uma etapa de descobertas, formação de personalidade e estabelecimento de relações com o mundo, no íntimo, de forma inconsciente, (assim como um pecado original), certamente vai registrar uma conclusão perversamente trágica:
-… Num dia tão especial, sem ter feito nada de errado, sou tratada com essa intolerância pelas pessoas que mais amo na vida, significa que Intolerância deve ser a forma natural de tratar todo o mundo.
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Fiquei pensando no mundo que estamos criando. O que queremos ser quando crescermos?
Deu vontade de voltar ao Morro do Baco Baco pra me consultar com Belisário e D. Sofia.

(abr/2004)

“Um outro mundo é possivel”

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Carta ao Tedo

Author: Delman Ferreira
Tedo - Avalon

Fui pegar o quadro que mandei fazer com esta foto e me dei conta que estou com muitas saudades de ti. Hoje em dia, quando lembramos de ti, também lembramos da May, portanto, esta saudade se estende também para ela.

A foto vai se incorporar à Galeria OsFerreira, na Lagoa.

Bateu certa nostalgia. Muita vontade de estar contigo, de fazermos juntos aquela sonhada viagem de moto pela América do Sul ou de barco pelas costas brasileiras e arredores.

Dai, fiz uma outra viagem. No tempo. Quando lembro de ti, existe uma passagem recorrente na minha memória. Uma vez, naquela casa das Rendeiras, tu ainda tinhas pouco mais de três anos, eu estava arrumando alguma coisa e tu apareceste com um martelo na mão. Eu perguntei o que ias fazer com aquele martelo e tu respondeste: “Judá Papai. Judá Papai”.  Nunca esqueci esta cena, até agora ela me emociona.

Fomos morar na Lagoa porque quando tu nasceste os médicos disseram que tinhas “bronquite asmática”. Além disso, quando começaste a andar, te atrapalhavas com as pernas. Teus pés eram muito grandes. Os médicos diziam que não tinhas boa coordenação. Queriam fazer uns tratamentos completamente loucos.

Seriam medicações e mais medicações para a bronquite, porque senão, diziam os médicos, poderias ter problemas respiratórios pela vida afora. Para as pernas, eles queriam colocar uma armadura de ferro para girar os ossos. Uma armadura parecida com aquela que o personagem daquele filme “Forrest Gump” usava quando era guri. Não aceitamos.

Orientados por um amigo que era médico-acupunturista,  preferimos mudar para a Lagoa. Remédios para a respiração são todos na base de iodo. O melhor lugar para respirar iodo é à beira mar, assim, ao invés de medicações, preferimos mudar para perto do mar, onde o iodo é permanente. Além disso, tu poderias correr o tempo todo na areia da Lagoa, que era o melhor remédio para tua coordenação e para o fortalecimento das pernas.

Acho que foi uma de nossas decisões mais acertadas. Gosto muito daquele tempo que passamos juntos na beira da Lagoa. Tínhamos muito pouco dinheiro. Muitas dificuldades. Mas, tínhamos a Lagoa toda para nós. Para vocês, todos pequenos, aquela casa era meio mágica.

Depois, a vida nos afastou um pouco. Tenho muito orgulho de minha militância. Sem dúvidas, o que sou hoje devo a todo o trabalho e toda a luta política de que participei. Mas, isso teve um preço. Algumas vezes um preço alto. Muitas viagens, muitas reuniões, muitas lutas. Fizeram ficar longe de vocês muito tempo. Hoje, eu sinto isso.

Talvez eu devesse ter ficado muito mais tempo com vocês. Não sei. Não sei se poderia ser de outro jeito. Se eu não tivesse participado das lutas políticas, do Sarapiquá, do Sindicato, do PT etc., certamente eu seria outra pessoa. Não sei se eu teria a mesma compreensão de mundo e a mesma relação com vocês.

Depois, quando me fixei, tu foste surfar o mundo – construir o teu mundo – do outro lado do mundo. Creio que, assim como a militância foi importante nas minhas descobertas pessoais e na minha formação, a Austrália está sendo fundamental nas tuas próprias descobertas, teu crescimento e formação pessoal.

Bueno, assim como a vida afastou, agora é hora de aproximar. O que sei, agora, neste instante quando escrevo, nestes tempos que correm, é que estou com muita vontade de estar perto de ti. Estou com muita vontade de fazer viagens contigo. Descobrir coisas e lugares. Partilhar histórias e experiências. Construir uma nova etapa juntos.

Américas nos aguardem. OsFerreira vão te desvendar – de moto e barco.


Um grande beijo.


Um grande beijo na May, que tem grande papel nas tuas descobertas.

Um papai saudoso.
26/06/2008.

P.S.:  – estou terminando esta carta com lágrimas nos olhos.

“Um outro mundo e possivel”

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Contextualização:
Há algum tempo, quando meus filhos – hoje quase todos adultos – estavam começando a se alfabetizar, brincando com as primeiras palavras, resolvi inventar uma historinha ingênua para frisar a importância de escrever corretamente. Até hoje não sei se eles entenderam assim, só sei que davam risadas com a tatarruga que não podia ir à praia, com o cangurru “meio viado” e com o caxorro que fazia “chichi” nas pernas.


Tatarruga nasceu com um problema.
Ela era diferente, não andava devagarinho como as outras tartarugas.
Tatarruga vivia correndo… corria, corria e corria…
Ela também não tinha casco como as outras tartarugas.
Ela tinha pele de neném.
Tatarruga não conseguia brincar no sol, não podia brincar no escorrega, não ia à praia. Ela tinha que ficar sempre na sombra…

Um dia, correndo, correndo, correndo,
entre uma sombra e outra, Tatarruga conheceu o Cangurru.

Cangurru também tinha um problema parecido, ele também era diferente dos outros cangurus.
Ele não saltava como os outros. Ele vivia correndo de quatro.
Os outros cangurus já ficavam falando mal dele.
Diziam que quem vivia correndo saltitante era veado. Achavam que ele parecia meio veado.

Os dois começaram a correr juntos e conheceram também o Caxorro.

Caxorro também era diferente.
Ele não conseguia fazer xixi como todo cachorro.
Ele só fazia chichi.
Ele fazia chichi nas pernas.

Os três ficaram amigos…
E brincavam e corriam sempre juntos.
Mas, não gostavam de ser diferentes dos outros…

Queriam brincar junto com todo mundo.

Daí, eles procuraram Dona Coruja, que sabia de tudo.
Ela então disse:
Procurem um Professor e uma Professora. Mas, CUIDADO!!!, tem que ser Professor e Professora com dois esses (“ss”). Eles vão saber o que fazer.

O Professor e a Professora ouviram o problema, pensaram, e então disseram:
Temos que estudar.
Depois de estudar, eles chegaram a uma conclusão:
O problema é que vocês ficam correndo, correndo e não param para Ler e Estudar!

Daí, Tatarruga, Cangurru e Caxorro resolveram Ler.
Todo dia, antes de correr e brincar, eles se reuniam para Ler.

Lendo,

Tatarruga aprendeu como são as tartarugas e
aprendeu que se escrevesse certo ela também seria uma tartaruga normal.

Cangurru também aprendeu que se estudasse e escrevesse certo poderia ser um canguru como os outros.

E Caxorro aprendeu como é que os cachorros fazem xixi
pra não fazer chichi nas pernas…

E assim, lendo, conseguiram descobrir que mesmo sendo um pouco diferentes eles podiam brincar e fazer como todo mundo.
E  também viraram Professores,
pra ensinar pra todo mundo que se cada um descobrir sua letrinha, dá pra todo mundo brincar e fazer todas as coisas juntos.

(nos idos de 198(alguma coisa))

“Um outro mundo é possivel”

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O Bom do Brasil (para Dr. Lauro)

Author: Delman Ferreira

Nordestino de Nossa Senhora das Dores, no sertão sergipano, Dr. Lauro é um desses brasileiros que conseguiu deixar o mundo a sua volta bem melhor do que encontrou ao chegar. Foi um dos fundadores da Universidade Federal de Sergipe e um dos batalhadores da construção do maior hospital público daquele Estado. E, muito mais do que isso, sempre procurou garantir as condições para que as pessoas ao seu redor pudessem estudar e ter um melhor padrão de vida, fossem elas seus clientes, que muitos atendia sem nada cobrar, ou mesmo amigos ou filhos de amigos carentes.
Lutou com as armas que conhecia ou que lhe eram acessíveis. Sempre acreditando muito na ciência, numa visão humanista, e na educação, como formas de emancipação das pessoas.
Exatamente por crer na educação como redentora e como certificação de capacidade e competência, Dr. Lauro sempre avaliou que o PT não teria capacidade para governar o País.
Aos 93 anos de idade, mantém a juventude e a lucidez acompanhando os acontecimentos do mundo, do País e de seu dia-a-dia. Assusta-se com algumas mudanças, ou faz de conta que não observou outras, mas, não abre mão de refletir, de formar opinião e de atualizar-se com os filhos, amigos e netos.
Preocupado com a dúvida se Lula teria capacidade para governar o Brasil, decidiu acompanhar atentamente as ações do Governo Federal e da sua cidade adotada, Aracaju, também governada pelo PT.
Satisfeito e confiante no novo rumo do País e na gestão da Prefeitura, fez questão de sair de casa cedo, caminhando, e de certificar sua aprovação – votou PT.
Votou PT pelos méritos de Marcelo Deda e como uma diplomação, um atestado para Lula à frente do Governo do Brasil.
Indiretamente, deu a Lula o voto que não lhe dera em 2002 – assim como milhões que votaram PT pela primeira vez – porque sabe que as transformações que o País precisa não podem ser feitas de forma voluntarista ou por atropelos. Porque viu o brasileiro recuperando a auto-estima e o orgulho de ser brasileiro.
Há quem diga que auto-estima não mata fome. Grave engano, auto-estima e cabeça erguida movem montanhas e países. Orgulho faz o indivíduo deixar de ser um pedinte, incluir-se como cidadão e construir os próprios caminhos.
Um povo cabisbaixo jamais será um povo vitorioso. Auto-estima faz o povo valorizar a própria cultura e os próprios valores – símbolos fundamentais para o País se reerguer, acreditar em si mesmo e construir uma nova história em que se possa garantir educação e bom padrão de vida para todos.
Diferençazinha básica: há muito pouco tempo, presidentes ou ministros costumavam fazer referências negativas sobre o Brasil e os brasileiros. Houve quem afirmasse pejorativamente que “os brasileiros não passam de caipiras”. Hoje se afirma orgulhosamente que “o melhor do Brasil é o brasileiro”.
Dr. Lauro tem certeza que deu um passo determinante. Junto com milhões de outros anônimos, votou PT porque sempre sentiu muito orgulho de ser brasileiro e está muito feliz por ver o País voltar a acreditar em si mesmo.

(out/2004)

“Um outro mundo é possivel”

Mundo Livre (Para Marina)

Author: Delman Ferreira

Diz um poema:

Caminante, son tus huellas el camino
no hay nada más.
Caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.
Al andar se hace camino,
Y al volver la vista atrás se vê la senda que nunca
Se há de volver a pisar.

@@@
Uma criança, ainda engatinhante, tenta descer da cama pela primeira vez.
Neste momento importante na vida daquele indivíduo que tenta fazer suas primeiras descobertas e conquistas, ocorrem diferentes reações dos adultos próximos, motivadas por formas diversas de ver a questão e de entender o processo e os resultados do Educar:

Primeira Mãe (ou Pai):
Rapidamente dá a mão para a criança, ou pega no colo, e ajuda a chegar ao chão. Se esta tentativa ocorrer dezenas de vezes, dezenas de vezes a Mãe vai ajudar a criança. Sempre preocupada em evitar acidentes, sempre não confiando, sempre deixando a mensagem subliminar de que a criança não é capaz.

Segunda Mãe (ou Pai):
Percebendo que a criança está tentando descer de cabeça, delicadamente inverte a posição do corpo colocando os pés na ponta da cama, fica observando para evitar acidentes – mas, deixa a criança fazer o esforço e descobrir sozinha como descer. Permite que a criança viva o intenso e sublime prazer de uma vitória e uma conquista sobre os próprios limites e as primeiras dificuldades.

Ambas agem com todo o amor e movidas pela mais pura intenção de fazer o melhor para seu filho.
A primeira criança, na verdade, não desceu da cama, foi descida. A segunda criança, depois que a Mãe mostrou como se faz mais uma ou duas vezes, depois de cair uma outra vez, aprende a descer, torna-se independente para essa iniciativa e se sente estimulada para novas descobertas e conquistas.
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São situações corriqueiras, aparentemente simplórias e sem conseqüências.
Entretanto, ao se repetirem as “ajudas” em todas as situações que forem ocorrendo ao longo da vida e do desenvolvimento da criança, podem significar a diferença entre um futuro adulto maduro e responsável pelos próprios atos ou um adulto sempre inseguro, imaturo e que transfere para os outros a responsabilidade por seus atos ou pela tomada de decisões.
Todos os humanos (cada um de nós) nascem com todas as potencialidades humanas, ou seja, nascemos potencialmente com capacidade para fazer toda e qualquer coisa que qualquer outro ser humano já fez ou fará.
Educar é o ato de ajudar cada ser humano a desenvolver e realizar suas boas potencialidades.
Educação é um processo contínuo – mesmo depois de adultos. Enquanto existimos, nos educamos. Fundamentalmente, é um processo de auto-educação. O papel do mundo exterior (mães e pais, família, amigos, professores etc) é ajudar – ou limitar – o Educando a desenvolver suas boas potencialidades. Ou seja, de acordo com nossa relação com o mundo, conforme o mundo nos é apresentado, vamos aprendendo e desenvolvendo nossas potencialidades, tomando nossas próprias iniciativas e aprendendo a conviver, respeitar e superar os limites.
Se uma criança é estimulada desde os primeiros instantes de vida a conhecer, respeitar e aprender a criar as condições para superar os próprios limites e dificuldades pelas próprias iniciativas e pelas próprias forças, estará sendo estimulada a desenvolver ao máximo suas boas potencialidades. Aprender que o medo é um sentimento fundamental do ser humano, mas que não pode ser visto como um fator instransponível. Não perder a curiosidade, a vontade e a iniciativa de buscar novos conhecimentos e novos caminhos.
Pai e Mãe vão suar frio, mas Educar é permitir que a pessoinha conheça e queira superar os próprios limites. Crescer é correr riscos. Educar é estimular o conhecimento dos limites e dos riscos, sem inibir o desenvolvimento das potencialidades. Educar é ser companheiro e possibilitar o intenso e sublime prazer de uma vitória sobre os próprios limites, como a Mãe que, contendo os próprios medos, incentiva o filho a realizar seu primeiro ato de liberdade e de conquista.
Ajudando a criar pessoas livres, independentes, capazes de conhecer e com coragem para desafiar os próprios limites – pessoas seguras, auto-confiantes e responsáveis por seus atos – estaremos contribuindo decisivamente para construir um mundo muito melhor.
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Marina inicia sua grande aventura pelo mundo em Fevereiro de 2007.
Que a Marina seja uma Vitoriosa.
Livre. Libertadora. Transformadora.

(dez/2006)

“Um Outro Mundo é Possível”.

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